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março 28, 2007

LEVANTANDO OS OLHOS DA RUA

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Lempicka

Quando Lisboa anoitece, é outra Lisboa que nasce. Saem de casa os que ganham o pão por entre as luzes da cidade, das tocas os laterais à sociedade, caminham enlaçados os amantes, voam bandos de jovens à solta, gentes enchem espectáculos. E há as putas no vai-e-vem batido, tremendo de frio e abandono, à cata do sustento da vida ou do vício. Como aquela que nos sorriu ao sairmos para jantar. Caminhávamos, entrançando os dedos, tagarelando, rindo pela felicidade de estarmos. Tão nossa... Ou não, porque na alegria do amor julgamo-nos diferentes sendo iguais.

Senti-me mal com o café, após o cocktail tira-gosto. Saímos, discretos. Amaste-me ali mesmo enquanto me amparavas e punhas a mão fria na testa, incentivando-me ao alívio da digestão parada. Sentámo-nos nas vergas da esplanada deserta. No teu abraço cerrado, pelas palavras murmuradas, foste solidário. Amante incomparável. Por que na cama revolta onde o desejo saciamos, é fácil borbulhar o champanhe. No frio da rua cuja gente aponta faróis, éramos sós. Caminhámos com vagar até ao canto dependurado no alto. Afastámos os reposteiros pesados, e, pelas vidraças amplas, descemos ao coração da cidade. Na magia das luzes, o rio era mancha escura e perfeito o recorte de duas das colinas. Subindo para a terceira, levantando os olhos da rua, não era adivinhado o nosso abraço amante.

Como todas as noites em que somos, àquela pareceram diminuídas as horas. Pela revolução imperiosa, pela liberdade da fala, não distinguimos do real a fantasia, nem paramos, menos o queremos, mais contamos, vazamos a taça dos corpos que de novo enchemos. E fomos, e somos, e nem uma linha cabe entre nós. É nosso o canto desta Lisboa soberba. Mais ainda quando anoitece.

Publicado por Teresa C. às março 28, 2007 09:20 AM

Comentários

Hoje, querida Amiga, não há OTA, nem branqueamento de regime fascista, nem discussões estéreis, nem a ignorância e analfabetismo do povo mantidos pela democracia; hoje, não há nada mais senão isto: uma vontade irreprimível de lhe agradecer o muito belo texto com que abri a manhã.
Um beijo.

Publicado por: j às março 28, 2007 09:39 AM

Um 'artista' de Hollywood pegava nisto e fazia um guião, sabendo que "na alegria do amor julgamo-nos diferentes sendo iguais."


(Belo texto! Você anda aqui a enganar meio mundo; de bonne mine...)

Publicado por: -pirata-vermelho- às março 28, 2007 10:37 AM

sejam as cidades habitadas plenamente pelos amantes felizes. belíssimo canto, tão bom haver quem traga da vida o amor para as palavras.

Publicado por: anarresti às março 28, 2007 01:05 PM

Soberbo!

Publicado por: June às março 30, 2007 01:10 AM

Quando a escrita acontece o prazer é infinito. Nem sempre o meu gosto é vosso, mas neste caso coincidimos e foi dobrada a alegria. Certa é a generosidade das palavras que aqui deixam e agradeço.

Publicado por: Tati às março 31, 2007 07:28 PM

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