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março 14, 2007

MERCADO DA SAUDADE

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Vera Tataro

“Em Melinde os portugueses foram recebidos com festa, muita música e salamalekum, a tradicional saudação muçulmana que pede paz.” Não foi nem é assim em todos os longínquos lugares onde chega(ra)m. Do canto original, levam na mala antecipada nostalgia. Naquele que os aguarda são-lhes estranhos os odores, a forma do horizonte, os hábitos e as cores dos dias. Alimentam o «mercado da saudade» que lhes devolve parte do que deixaram, sejam enchidos, pão, queijos, vinhos, as «novas» do país ou a escrita portuguesa.

Dos visitantes regulares deste sítio, ignoro quase tudo, excepto o vago lugar no mapa-múndi. Ao revê-los, (pres)sinto elo indizível, ou não se quedariam por aqui. Mas quedam. E voltam, uma ou várias vezes ao dia. De entre eles, os vindos de países islâmicos – Teerão no Irão, Ad Dammam, Ash Sharqiyah na Arábia Saudita, Dubai nos Emiratos Árabes Unidos, Burdur, Sekerpinari, Kocaeli e Izmir na Turquia – são companhia assídua. Pergunto-me como enquadram a rigidez de comportamentos nos lugares onde acordam e a liberdade (permissividade?) ocidental. Abrem esta página em casa, recatados, fora dos horários laborais, não escandalizem os nativos? Pois se alguns bloggers, plantados em território nacional, afirmam o “Sem Pénis” com um formato arriscado para abrir em anódinos ambientes...

Nem de propósito, Bento XVI fez hoje marcha-atrás nos rituais católicos renovados pelo Vaticano II. Acabam-se as violas e órgãos e cânticos alegres. Daqui em diante, regressa o latim e o canto gregoriano. Inauguro outra contradição – sendo género musical do meu agrado, ouvi-lo por obrigação rejeito. E se uma celebração eucarística pode ser momento de pacífico olhar para dentro e ao alto, por quê os constrangimentos? Curiosamente, na diplomática visita do Papa à Turquia o acontecimento mais importante acabou por ser a sua ida à Mesquita de Sultanahmet (Mesquita Azul) e a atitude reverencial. O jornal diário turco “Hürriyet” escreveu: “Na Mesquita de Sultanahmet, voltou-se para Meca e rezou como um muçulmano.” Isto é ecumenismo. Falta-lhe ser tão ecuménico dentro da Igreja Católica como fora.


CAFÉ DA MANHÃ
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Mais dois notáveis que acumulam excelências: nos blogues e na literatura. Do Eduardo Pitta, chegará às livrarias “Intriga em Família”. Do Pedro Mexia, temos a “Prova de Vida” Não prescindirei das respetivas leituras.

Publicado por Teresa C. às março 14, 2007 06:32 AM

Comentários

Muito obrigado pela referência, Tati.

Publicado por: Eduardo Pitta às março 14, 2007 10:11 AM

Quanto ao Papa (que ao Sem Penis abro-o onde muuito bem me apetece), devo dizer que embora não sendo crente (só o vou ser quando, como Woody Allen, Deus me abrir uma conta bancária com muitos zeros num banco suisso), e considerando absurdo aquela coisa da missa ser dita em latim, já quanto às violas e às cantorias, não sei, não. Desde que vim uma missa com padre brasileiro em que aquilo parecia mais escola de samba que outra coisa...

Publicado por: Yardbird às março 14, 2007 04:27 PM

Com duas frases você pergunta e responde em circuito fechado! Vejamos
1
"E se uma celebração eucarística pode ser momento de pacífico olhar para dentro e ao alto, por quê os constrangimentos?"
PORQUE, digo eu, uma celebração eucarística não é nenhum momento de pacífico olhar para dentro e ao alto;
2
“Na Mesquita de Sultanahmet, voltou-se para Meca e rezou como um muçulmano. Isto é ecumenismo."
NÃO É, digo eu, é marketing escancarado, é fazer uma política de dar com uma mão para não perder as duas. 'Só lhe faltava ser ecuménico dentro da igreja católica' para ser de todo falso!
Escolheu a inversa, "Bento XVI fez marcha-atrás nos rituais católicos renovados pelo Vaticano II", muito de acordo com a crendice e o pensamento medievo que invade a nossa parte do mundo moderno - é o preço da abundância decadentista. Vamos ter que aguentar e regredir para o Gregoriano (...que também reconheço e também gosto! Apesar de ser um anacronismo; e! não se aguenta por muito tempo; é bastante uma curiosidade -como as 'cantigas de sta. maria'- não se compara com a Sagração da Primavera nem com qualquer sinfonia de Mahler ou concerto de Rachmaninof!)


Publicado por: -pirata-vermelho- às março 14, 2007 06:40 PM

... para não falar na 2ª Escola de Viena, pela complexidade-inteligência, pelo modernismo-pesquisa e por medo de que você me mandasse p'a forca-d'ódio-ou-pior.

A propósito da sua imagem (todas são 'muito gráficas')
sabe que o omíada, sírio, Abd Al-Rahman III era loiro e tinha os olhos azuis?

Publicado por: -pirata-vermelho- às março 14, 2007 06:48 PM

Eduar Pitta - Saiba do meu apreço e do muito que no seu espaço aprendo. Um beijinho.

Yardbird - Concordo que confundir liturgia com concertos rock, cai mal. Perturba o recolhimento e nada acresce à celebração. Mas o latim... Meu querido, que regressão! E quanto à conta bancária, pelo que me toca julgo poder esperar eternamente sentada.

Pirata Vermelho - Sou crente. Talvez por isso não dispense pretextos para meditar à luz da fé.

"Abundância decadentista" - sou por natureza optimista, e apenas creio assistirmos a uma mutação social, como tantas houve e outras haverá.

Adoro, na pintura, o que me surpreende. Como as demais artes traduzem um tempo. Neste caso o presente, com tanto de barroco como de gráfico.E não, não sabia que o omíada - meu caro, o que tenho aprendido consigo pelas bastas vezes que me manda ao dicionário! - sírio de nome esquisito era loiro. Quanto a mandá-lo para a "p'a forca-d'ódio-ou-pior", não corre risco - aprecio-o demais.

Publicado por: Tati às março 18, 2007 06:29 PM

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