« DE BONÉ ÀS AVESSAS | Entrada | “POSSO?" »
março 30, 2007
SEXO PORQUE SIM

Autor que não foi possível identificar
Como água tónica com gelo e limão. Como roupa de cor atrevida num dia em que as nuvens comeram o sol. Como música lamecha forrando o automóvel. Ou lábios entreabertos num sorriso. Apetite sem aparente razão. Que tem. Informe na consciência, não escape o momento. Por que apetece. Por que sim.
Conduzia o regresso a casa. Tremente. Ligou o aquecimento. Nada! Encapsulada na culpa fria do após, repetia: “Porquê?” O calor perfumado dele? O sabor da pele? A embriaguez sem álcool? A fantasia dum meio-de-tarde num sítio de aluguer? Baixou o espelho. Rosto descomposto. Cabelo húmido. Cheiro que o banho não despedira. “Louca, louca, louca! Nem sequer o amo... Que fiz eu?”
Perante o sexo, pacifica a mulher enquadrá-lo num amor. Carimbo que o legitima. E promove. E baralha. Querendo alhos, pede bugalhos. Fornecidos pelo homem num regateio verbal em que salda a palavra a favor do desejo. Disto, o inverso está com o gineceu - inventado o amor, despe pruridos e roupa e acontece a fluida permuta dos corpos. Desencantada, pede absolvição no confessionário interior: “foi a primeira vez, para a próxima será melhor.” Sim e não. Como roleta de feira com prémios em reserva para raros vencedores. E quando apetece o peluche branco, uma caneca do Noddy é logro que o custo da senha não cobre.
Nos idos do amor romântico como passaporte para a sexualidade plena da mulher dita de bem, era regra o «sexo porque sim» no casamento. A memória da grinalda ou do papel do notário, mais os filhos, substituíam o passamento do amor. O enamoramento como razão feminina e socialmente aceite para o prazer do corpo veio depois. Sexo porque sim, legitimado pelo prazer e alegria, liberto da autocondenação, é incómodo para a mulher. “Isso fazem as «outras», as miúdas com areia por neurónios, as levianas sem futuro que acabarão infelizes e sós.” E as mulheres de castidade a dois tempos – humilhada e presunçosa -, ou dadas à invenção do amor, como encaram o amanhã? Sublimando, ad aeternum a sexualidade? Vivendo a vida dos filhos, dos pais, amigos, vizinhos e colegas? Negar quem somos, não faz de nós pessoas melhores.
Publicado por Teresa C. às março 30, 2007 09:59 AM
Comentários
Sexo por que sim. E só. Mas... amor q.b. é absolutamente imprescindível. Assim sinto. Assim pratico. Estou consigo.
Publicado por: j às março 30, 2007 02:59 PM
E diz-se você adepta amadora eventual das letras.
Nem do saber! Nem sequer...
Nem da vivacidade e da clareza com que extrai o déjà-vu e o põe de novo!
Escreva, amadora incipiente, (foi você que disse...) escreva qu'a gente lê e quem quiser que não agradeça, nem que seja por sobranceria.
Publicado por: -pirata-vermelho- às março 30, 2007 04:27 PM
Ha um tempo venho lendo este blog. umas vezes agradam mais outras nem tanto o k é normal.
hoje,gostei. pela realidade, pela objectividade.
e é tudo isso...
como se o casamento fosse a nossa "elevação". será k sinonimo de elevação terá de ser forçosamente penitencia???
Publicado por: maria pekena às março 30, 2007 11:52 PM
Ao analisar os outros e a mim por via deles, nem sempre o visto fascina. Sendo genuíno o gosto de ouvir os outros, as mais das vezes mulheres, acumulei visões distintas de realidades semelhantes. E é sobre a condição feminina que na maioria das vezes me debruço ao ficcionar ou torcer o real. Os múltiplos rostos de uma só mulher fascinam-me. Aos homens não sou indiferente, porém o meu sexo distinto condiciona a leitura. Já uma vez por aqui fui apontada por ter dos afectos uma visão masculina. Não concordo. O que aos homens fui ouvindo em contexto de amizade ou distensão profissional ensinou-me um pouco. Não muito, concedo. Da atenção às pessoas não desisto como maravilha que o tempo não desgasta ou cansa.
Publicado por: Tati às março 31, 2007 07:43 PM
("A gente percebeu".
Agradeço, en tout cas, a gentileza de se ter preocupado em ajustar. Nem lhe vejo o masculino nem o feminino - vejo o seu pensamento)
Publicado por: -pirata-vermelho- às março 31, 2007 09:22 PM