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abril 21, 2007

A PEÚGA

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Starr Abbot

Uma vez, perdeu a peúga. Reviraram tapetes, espreitaram debaixo dos assentos, sacudiram as roupas a monte. Já vestidos, portas do carro abertas, foi vê-los de cócoras, os sapatos brilhantes enterrados na lama, espiolhando as inocentes ervas húmidas, não tivesse, num arremesso impetuoso, sido atirada a bendita peúga pelo vidro aberto. Certo era não poder chegar ao lar, doce lar, com um pé despido. Comprar novo par de peúgas nada resolvia por duas razões: a eficiência da mulher como dona de casa que a roupinha trazia bem controlada, e o despropósito da hora.

Na segunda tempestade dos sentidos fora de portas desapareceu a aliança. A face dele esvaiu-se. “Que raio de desafinada culpa o fazia tirar a dita, ainda que ela lhe conhecesse o estado civil?” E lá estava o anelar, maldosamente exibindo na mão morena o desenho claro do ouro perdido! Ela, solidária, ajudou-o na repetida cena de vasculhar viatura, ervas e chão. Nada! O anel, que a Santa Igreja abençoara como símbolo de fidelidade até a morte o levar, parecia apostado em punir o pecado ainda quente. Resignou-se à perda. Teria o caminho de regresso para engendrar desculpa a preceito.

Na volta, dizia ele – “Como pode alguém submeter-se aos preceitos da fé? Em pequeno, ai de mim se não era bem comportado. Na adolescência, masturbação, carícias às namoradas, beber, fumar, faltar à missa, arrastar a manhã na cama, eram graves infracções a um qualquer ditame religioso. Consequência: afastei-me duma Igreja intolerante, especializada na condenação do prazer. Homem feito, julgando-me sólido nas convicções, sou forçado a acreditar no divino ou no maligno, ainda não decidi. A Entidade cansou-se de me encobrir as patifarias. A prova é o que tem acontecido. Ora, se Ele está metido nisto é porque viu, e se viu existe. De qualquer modo estou lixado. E, minha querida, esquece por largo tempo o amor campesino!

Publicado por Teresa C. às abril 21, 2007 11:10 AM

Comentários

Moral da história: nunca descalçar as peúgas e jamais retirar a aliança!

Publicado por: Minderico às abril 21, 2007 12:52 PM

Ora,
é mesmo conto para crianças...

Então não se percebe logo a artimanha?

Publicado por: -pirata-vermelho- às abril 22, 2007 12:26 AM

ups aiaiai isso não se faz...agora acabam as loucas noites no campo:(beijos doces, gostei muito do teu espaço.

Publicado por: Madeirense Marafada às abril 22, 2007 02:20 AM

Minderico - não descalçar peúgas e nunca, mesmo nunca, tirar a aliança. Se pecar que o faça com toda a verdade possível! ;)

Pirata-Vermelho - artimanha? Onde, onde? Foi malandreco, sabe disso...

Madeirensemarafada - obrigada pela visita e pelo comentário.

Publicado por: Tati às abril 23, 2007 05:38 PM

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