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abril 30, 2007

“AO GAJO QUE NOME ATRIBUI?”

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Luis Royo

Daqui veio pergunta justa sob a forma de comentário: “ao Gajo, que nome atribui? Puto? Mesmo que só por um dia?” E substância não falta à perplexidade. O masculino do vulgarismo puta não existe. Equivalente, mas soando a promoção, há prostituto. Para a mulher termo pejorativo, para o homem termo profissional. O português metafórico é igualmente injusto para a mulher. Vejamos:

vadio: homem que não trabalha
vadia: puta

boi: homem gordo, forte
vaca: puta

aventureiro: homem que se arrisca, viajante, explorador
aventureira: puta

atirado: semelhante a aventureiro, sempre disponível
atirada: puta

garoto de rua: garoto pobre que vive na rua
garota de rua: puta

homem da vida: pessoa letrada a quem diversos meios deram sabedoria
mulher da vida: puta

ambicioso: visionário, enérgico, com metas
ambiciosa: puta

Homem da noite: boémio
Mulher da noite: puta

Pré-conceitos carimbam as mulheres que desrespeitam os normativos inerentes à condição de senhoras ou meninas de bem. A ciência, meteórica nas estradas do pensamento criativo, a literatura e outras manifestações culturais evoluem reflectindo o presente. Os preconceitos bebidos com o leito materno são insidiosos - passam de geração em geração como marcadores dominantes na herança genética. Até quando?

Publicado por Teresa C. às abril 30, 2007 10:02 AM

Comentários

Um caminho tentado para a banalização da palavra e do conceito foi a apropriação e ostentação. A palavra "slutty" quando aplicada à forma de uma mulher se vestir é um insulto mas pode ser e é usada como um elogio atrevido à ousadia do tipo de roupa que se traz vestido. Num artigo do MEC há uns anos ele dizia que gostava de palavrões, desde que usados de forma metefórica, como são usadas geralmente. Dizia ele que sempre que alguém se referia carinhosamente a um amigo como "meu filho da puta" uma prostituta algures via reduzido o peso do título que lhe é atribuído popularmente. Eu penso que enquanto se considerar uma prostituta uma mulher de segunda e o sexo como algo que suja - especialmante as mulheres que se atrevem a tocá-lo já que os homens devem usar luvas - é difícil ultrapassar totalmente esta cultura que penaliza a liberdade sexual feminina. E muitas vezes a simples liberdade de agir segundo a própria vontade, já que se cola uma reputação a uma mulher mesmo sem ela ter feito nada para isso, quando se quer menorizar essa mulher. O reverso do poder do sexo também é esta preversão de enxovalhar quem atenta contra o estabelecido.

Publicado por: anarresti às abril 30, 2007 02:31 PM

Só um acrescento. Há uma palavra, que não é de forma nenhuma o equivalente para os homens mas que tem algum peso. As mulheres têm uma forma muito particular, intensa e precisa de dizer "aquele tipo é um porco", referindo-se ao comportamento, atitude perante o sexo e principalmente à forma como se dirigem às mulheres, como as tratam. Acho que só uma mulher o consegue dizer com esse sentido, com a entoação certa, com essa forma de expressar nojo. E que não é o mesmo de dizermos nós, "ela é uma porca". Claro que a palavra não ganhou a autonomia que a que está aqui em jogo tem, nem sequer costuma ser usada [neste sentido] sem estar minimamente no contexto daquilo que designa.

Publicado por: anarresti às abril 30, 2007 02:39 PM

Grande post e grandes comentários. Um subsídio:

puto: miúdo pequeno
puta: puta

Publicado por: pornographo às maio 3, 2007 04:24 AM

Brilhante!

Publicado por: Xantipa às maio 4, 2007 08:28 PM

Anarresti - "Eu penso que enquanto se considerar uma prostituta uma mulher de segunda e o sexo como algo que suja - especialmante as mulheres que se atrevem a tocá-lo já que os homens devem usar luvas - é difícil ultrapassar totalmente esta cultura que penaliza a liberdade sexual feminina. E muitas vezes a simples liberdade de agir segundo a própria vontade, já que se cola uma reputação a uma mulher mesmo sem ela ter feito nada para isso, quando se quer menorizar essa mulher. O reverso do poder do sexo também é esta preversão de enxovalhar quem atenta contra o estabelecido."
Este excerto do teu comentário é apelo para um texto. Como sempre, querido amigo, aprecio a lonjura do teu horizonte sensível.

Pornographo - o subsídio veio a calhar! Obrigada.

Xantipa - Grata pelo apreço e parabéns pelo seu magnífico blogue.

Publicado por: Tati às maio 5, 2007 12:45 PM

Mais uma publicação da TATI fantástica.
A mulher continua a ser tratada pelos homens como uma qualquer coisa, que uns dias, eles divinizam ,sobretudo quando muito obedientemente cozinham, passam a ferro e limpam,aturam as más disposições e o ler do jornal á mesa num completo alheamento, sem nenhuma consideração por quem passou uma grande parte do dia trabalhando, para que tudo esteja em ordem, outros dias, consid!eram ser a tal puta que não respeitam, mas de quem exigem que se supere para que o seu prazer seja supremo.
Claro que terei sempre de realçar as honrosas excepções que só confirmam a regra.
Como tenho pena desta sociedade tão preconceituosa e consequentemente tão lmitada na sua inteligência.
Obrigado, mais uma vez, TATI por publicar artigos destes.
MARIA

Publicado por: Maria às maio 6, 2007 09:32 PM

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