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abril 16, 2007
CRUZES, CANHOTO!

Rowena
Destro e canhoto. Este como esquerdino ou sinistro ou desajeitado ou demónio. Lateralidade duvidosa. Posicionamento contrário ao tradicional. Insubordinado. Destruidor. Conotações negativas que a esquerda acumula. A direita associada ao bem, ao respeito pelo estabelecido. “Às direitas” adjectiva os íntegros, os rectos, os justos. “All in the Family”, “Uma família às direitas”, era protagonizada pelo Archie Bunker, homem trabalhador, férreo chefe da família, ultra-conservador. Minorias, política, sexo, religião, economia, guerra, liberdades individuais, a tudo reagia segundo os puros(?) cânones da tradição. “Cabeça de abóbora” era o outro, o genro, aberto ao novo e apostado em viver o seu tempo. O Archie, rude e intolerante, desprezava-o e fazia-lhe a vida num inferno.
A remota clivagem entre esquerda e direita no domínio das ideias sociais e, por isso, políticas, não se dilui perante a actual multiplicidade de saberes necessária para responder aos problemas das sociedades. O refúgio mental em estereótipos facilita as explicações aos simples de espírito ou aos demagogos por vocação. Os politicamente canhotos que fogem ao preconceito – no mínimo pobretanas, no máximo uns remediados sem pingo de gosto ou pedigree – merecem o desprezo reservado aos produtos contrafeitos. “Esquerda-caviar” é o rótulo. Uns blasfemos para a esquerda de sílex, tão preconceituosa como a direita convicta. E nesta dualidade alinham espíritos. Entrincheiram-se pessoas. Ideias. Soluções. Guerra sem quartel em que domina o pivete a bafio. Bolor que mancha a inteligência. Que envelhece e corrói. Que esfarela a razão.
Publicado por Teresa C. às abril 16, 2007 11:15 AM