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abril 08, 2007
DOBRADAS NA ARCA

Autor que não foi possível identificar
Quando a encontram, dizem os amigos: “O tempo não passa pela senhora. Está na mesma!”. E ela esboça um sorriso triste. Sabe da pele invejável para os setenta anos, da figura elegante, do porte amável. Sabe das dores quando acorda, da doença crónica que a degrada, das lágrimas pelo marido falecido e tão presente em cada recanto da casa, nas memórias, em anódinos pensamentos. E sorri quando não chora. Lembra Páscoas de há quinze anos. A ida em família à Vigília Pascal. As janelas abertas ao aroma das glicínias entrançadas na pérgula do jardim. O alvo linho estendido na mesa comprida. As flores, os cristais, a louça, o faqueiro dos melhores dias luzindo. O cheiro do assado. Do leite creme queimado. Do pão-de-ló húmido. As amêndoas de licor coloridas, imitando frutos, dispersas na mesa em taças de vidro. Lembra a alegria das quatro gerações misturadas. A tagarelice dos netos. Os brindes a pretexto de tudo.
O tempo passou por ela. Que não a desminta o aspecto. A mesa encurtou. As toalhas maiores esperam, o quê?, dobradas na arca. Não chegam à meia dúzia os talheres postos. Nem os marcadores com o nome de cada um fazem já sentido. Mexer-lhes e ver quantos sobram, é contar mortos queridos. E seca as lágrimas sem que os netos vejam. Pretexta o zelo na cozinha e foge de testemunhas. Sabe das mágoas comuns, porém, pelos anos de memória, pertence-lhe a maior fatia. Espreita o forno, faz recomendações e volta à sala. A pele brilha e a boca linda desenha um sorriso. Recebe beijos e afagos. É verdade!, o tempo não passou por ela; ela sentiu passar o tempo.
CAFÉ DA MANHÃ
Feliz Domingo de Páscoa.
Publicado por Teresa C. às abril 8, 2007 08:38 AM
Comentários
Teresa, se tivesse oportunidade de me chegar ao pé de ti dava-te um enorme beijo e agradecia-te a "arte" de escreveres tão bem e de forma que "cala cá no fundo"! Daqui [longe ou perto, não interessa]... aquele abraço!
Publicado por: João Carlos às abril 8, 2007 03:57 PM
Teresa, se tivesse oportunidade de me chegar ao pé de ti dava-te um enorme beijo e agradecia-te a "arte" de escreveres tão bem e de forma que "cala cá no fundo"! Daqui [longe ou perto, não interessa]... aquele abraço!
Publicado por: João Carlos às abril 8, 2007 03:57 PM
Tabém a mim me fez andar uns anos para trás e recordar as Páscoas em que todos éramos um só.
Páscoa alegre para quem o tempo ainda não teve tempo de destruir a alegria.
Publicado por: j às abril 8, 2007 05:28 PM
Uma excelente Páscoa para ti Teresa.
*
Publicado por: Sandro Franco às abril 8, 2007 05:40 PM
Um beijo muito grande para ti e uma feliz Páscoa!
Publicado por: Katraponga às abril 8, 2007 06:07 PM
Que belo reconhecimento.
Bem de si; digo eu!
Publicado por: -pirata-vermelho- às abril 8, 2007 08:50 PM
Um abraço pra ti de além-mar. A Internet permite estas coisas: um taxista aqui tão longe, no fim do fundo da América do Sul, capaz de te envolver num abraço carinhoso. Feliz páscoa pra ti e para os teus.
Publicado por: Mauro Castro às abril 8, 2007 11:33 PM
João Carlos - pela doçura da frase recebia-o como um mimo. Obrigada.
J - é isso mesmo, que o "tempo não tenha tempo de nos destruir a alegria." Adoro a sua visita.
Sandro Franco - beijinho grande.
Katraponga - Outro beijo de volta e muitos parabéns pela excelência dos textos que tens publicado.
Pirata Vermelho - Beijinho grato.
Mauro-Costa - que boa surpresa! O meu taxista preferido, dono de uma prosa que busco diariamente, e sempre, sempre observador da natureza humana com humor e afecto. Para ti aquele abraço cheio de infinito carinho.
Publicado por: Tati às abril 9, 2007 11:21 PM