« DOBRADAS NA ARCA | Entrada | COM ÁGUA-CHILRA »

abril 09, 2007

DOCE MIDI

Isa Maria Lovers 3 copy.jpg
Isa Maria

Três anos atrás. O sol fazia de Cascais doce Midi até nos odores lá mais para a frente no Guincho. A vegetação rasteira, avezada à secura das dunas, despontava nas promessas de Abril. Antes, na Marina quase deserta naquela manhã santa, caminharam no cais e na conversa íntima com o vagar da brisa. Pela frescura que desdizia da luz do dia, retomaram o abrigo quente do automóvel virado ao mar e à quentura. Aconchegados nos assentos, sem fracturarem a fala, ele descalçou-lhe os saltos e soltou os pés envoltos em meias finas como pele, encimadas por ligas que a saia de crepe fino compunha. E a manhã deslizou como soía.

Fosse pela proximidade dos espíritos que adivinhavam incêndio, ou pela inevitabilidade, não cuidaram da pergunta nem da resposta – a cumplicidade silenciosa do motor levou-os dali. Com lassidão vaguearam sem destino, jurariam, até à modesta colina terminada em arriba. Chegado o meio do dia, a rudeza do sítio, o calor, o abandono, os pés descalços dela, o olhar marítimo e aventureiro dele, soltaram a âncora do bom senso em que haviam fundeado. Sem cautelas navegaram. Afrontaram dos corpos a maré bravia. Três anos depois, tão indomada como o fora na arriba.

Publicado por Teresa C. às abril 9, 2007 09:00 AM

Comentários

O que é a Vida!
A lógica, que nunca abandonou os meus modos de pensar, encontrou hoje nesta sua bela e apaixonada confissão um motivo a menos para se aplicar. Porque a paixão é, por natureza, avessa à lógica.
Quer ver porquê?
Se fosse vivo, faria hoje 65 anos o meu grande Amigo Adriano.
Que lógica pode resistir à recordação do Homem, que cantava como ninguém, a Solidariedade?
Que lógica pode resistir à violência da paixão que faz de duas pessoas pouco mais que uma só?!
Um beijo, porque me fez reviver o que, afinal, em mim nunca morrerá...

Publicado por: j às abril 10, 2007 01:41 PM

Sabe? Como leitora acontecem frases, descrição de determinados momentos que, fossem fotografias para sempre registadas em película coloidal, me descrevem no passado ou no presente como se foram minhas. Todos passamos por estes instantes mágicos nas leituras, no cinema ou no teatro. E fazemos daquela obra a que, diremos mais tarde, é o livro, o filme da "nossa vida".
Fiquei feliz por, embora modestamente, lhe ter trazido ao dia o desejo de lembrar quem para si foi(é) querido.

Publicado por: Tati às abril 14, 2007 10:13 AM

Comente




Recordar-me?