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abril 26, 2007
FECHEI A PORTA COM CUIDADO

Andrew Potter
Podia ter ido ao Carmo ver as salas da rendição. Ou ao Palacete de S. Bento mirar o requinte da aristocracia política e cirandar pelo jardim cheirando a tília florida. Ou até, com divertida companhia, percorrer a pé o enguiçado túnel do Marquês. Mas não. Amanheci em casa e por aqui fiquei até um quarto para o meio dia.
No começo, foi uma vela - brilhante, transparente, de cor garrida. Tendo convivas fumadores, acendo cheiros sólidos. Semanas atrás, foi o caso. Entretém para aqui e para ali, deixei-a solitária e acesa por uma hora. Ao atravessar o soalho em busca de água fresca, deparei com fumaça espessa e negro-de-fumo na parede. Negro mesmo! Não sendo de arruinar momentos felizes à conta de um infortúnio doméstico, botei água na fervura e regressei ao bem-bom. Pelo entardecer, deitei mãos à obra – esfregão, Cif e detergente com fedor a amoníaco. Arruinei as unhas, mas a pintura abstracta desenhada a carvão desapareceu. Com o tecto piou mais fino. Lavado, ficou pior. Esmoreci - “alguém, que não eu, remediará isto!”
Arrepiada com o orçamento dum empresa publicitada via cartão, perguntei a um dos seguranças do condomínio se conhecia algum pintor. Que sim, que conhecia, e recomendou-me um colega. Ao telefone acertámos dia e hora – ontem, pelas dez. Ponteiro dos minutos a pique, entrou. Valeu o meu poder de encaixe para cobrir o pasmo – pedira um jeitoso para o ofício, não o homem da Coca-Cola Light deslizando em tronco nu pelos vidraças. Engoli em seco e pensei: “Do mal o menos. Ou como um antecipado tormento promete ser um prazer."
Dada a segurança que um segurança inspira, saí para caminhada de uma hora. Passo rápido, respiração compassada. Voltei. Empresa a bom ritmo, sugeri repasto. “Para beber? Cerveja, água, sumo, Coca-Cola? Light... talvez?” Pois foi!, escolheu a última. Pós-almoço, arrumou tudo na máquina - “perfeitinho, benza-o Deus!” – e falou: cliente do Holmes Place, queria mudar. Vendo-me fardada para a musculação, polidamente informou-se das condições do ginásio. Rumei ao treino e vim - tudo limpo e no sítio. Contas feitas, despedida breve, olhar fundo, acrescenta: “Precisando dalgum arranjo em casa, companhia para treino ou caminhar, tem o meu número. Estou aí!” Speechless, fechei a porta com cuidado.
CAFÉ DA MANHÃ
Este óptimo portal teve a gentileza de transcrever mais um texto meu. Estou grata pela escolha
Publicado por Teresa C. às abril 26, 2007 08:25 AM
Comentários
Uma tremendíssima constipação impediu-me de comemorar, como costumo fazer, a data inesquecível.
Confesso, porém, que não me atrai muito a visita às "salas da rendição"... O cheiro ao bafio de outros tempos não me sai da pituitária, apesar dos esforços que o meu amigo otorino tem feito ao longo deste anos. Parece que é muito o tempo que nos separa desse tempo. Mas há recordações que se mantêm tão vivas como se tivessem tido lugar ontem mesmo.
Por isso, prefiro a rua, as novas gentes (ainda que analfabetas e sem espírito crítico).
Desta vez, contudo, tive que fazer uma comemoração doméstica, com consequências não tão "nefastas" quanto a sua, embora a justificarem intervenção "especializada"...
Daí, a minha ingénua pergunta: - Não haverá, lá pelas relações do seu coca-cola light man, uma "perfeitinha" que me ajude a pôr isto tudo em ordem?!
Publicado por: j às abril 26, 2007 12:08 PM
Você é muito engraçada.
Se a vejo, roubo-a!
Levo-a...
Publicado por: -pirata-vermelho- às abril 26, 2007 01:36 PM
Honni soit qui mal y pense!
Publicado por: JG às abril 26, 2007 06:49 PM
J - tenho a «perfeitinha» para si. Queira dizer o como e onde e a entrega será feita ao domicílio. ;)
Pirata-Vermelho: leve-me, leve-me, e verá a «prenda» que arrebanha...
JG - Malicioso! Adoro saber que anda por aqui.
Publicado por: Tati às abril 28, 2007 10:04 AM