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abril 30, 2007

“AO GAJO QUE NOME ATRIBUI?”

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Luis Royo

Daqui veio pergunta justa sob a forma de comentário: “ao Gajo, que nome atribui? Puto? Mesmo que só por um dia?” E substância não falta à perplexidade. O masculino do vulgarismo puta não existe. Equivalente, mas soando a promoção, há prostituto. Para a mulher termo pejorativo, para o homem termo profissional. O português metafórico é igualmente injusto para a mulher. Vejamos:

vadio: homem que não trabalha
vadia: puta

boi: homem gordo, forte
vaca: puta

aventureiro: homem que se arrisca, viajante, explorador
aventureira: puta

atirado: semelhante a aventureiro, sempre disponível
atirada: puta

garoto de rua: garoto pobre que vive na rua
garota de rua: puta

homem da vida: pessoa letrada a quem diversos meios deram sabedoria
mulher da vida: puta

ambicioso: visionário, enérgico, com metas
ambiciosa: puta

Homem da noite: boémio
Mulher da noite: puta

Pré-conceitos carimbam as mulheres que desrespeitam os normativos inerentes à condição de senhoras ou meninas de bem. A ciência, meteórica nas estradas do pensamento criativo, a literatura e outras manifestações culturais evoluem reflectindo o presente. Os preconceitos bebidos com o leito materno são insidiosos - passam de geração em geração como marcadores dominantes na herança genética. Até quando?

Publicado por Teresa C. às 10:02 AM | Comentários (6)

abril 29, 2007

GANG ON THE MOVE

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Autor que não foi possível identificar

Ah cabeças-pensantes da politiquice nacional, fazei marcha à ré ou descoroçoareis tão humilde e safado povo a que me honra pertencer! Vede os enredos que arranjais por questiúnculas que só atrasam a resolução de chagas novas e antigas. Ponde os olhos no atraso económico, no desemprego, na falta de apoio às famílias trabalhadoras cujos filhos, de chave na mão, saem da escola rumo ao nada de estudo e formação que o dia-a-dia oferece. Olhai não os lírios do campo, que também os há e são dignos de ver, mas as potenciais vítimas do cancro no colo do útero que o plano da vacinação não contempla. Pensai se de tanto escarcéu é o povo que beneficia ou somente o protagonismo voraz e a venda de (des)informação. Esta mais não sendo que outra forma de corrupção ao promover denúncias avulsas a matéria de importância nacional. Dispersais do que aflige o povo a atenção, este sabiamente retaliando como pode: ignorando-vos o nome e rindo-se da volubilidade dos alvos que escolheis.

Jorge Sampaio foi nomeado pelo Sr. Ban Ki-moon para Alto Comissário das Civilizações. Equiparado a secretário das Nações Unidas, cabe-lhe promover o diálogo entre culturas e religiões e apaziguar conflitos. Pina Moura, chamado à Iberdrola em 2004 e agora à Media Capital a convite da Prisa, foi flagelado na praça pública. Segundo muitos, é outro boy que os socialistas premeiam e acumulam com a putativa tomada de assalto de uma televisão. A tese é frágil – a presidência de uma empresa, qualquer que seja, subdivide-se em áreas específicas, não sendo credível, quero admitir!, que o director de informação e os jornalistas sejam manipuláveis. Arrisco – para especialistas em conspirações, Jorge Sampaio é mais um boy do PS infiltrado numa estrutura do poder. Mundial, no caso. O que de algum modo o beneficia – vai para longe e nesta ruela não fará sombra a ninguém.


CAFÉ DA MANHÃ

Este Senhor foi ao cerne destas questões com a ponderação que o caracteriza. Por isso gosto de aprender com ele

Publicado por Teresa C. às 10:38 AM | Comentários (2)

abril 28, 2007

NUM TÁXI EM SANTA APOLÓNIA

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Blake Flynn

Trinta e nove anos. Alta, peito farto sobrando do continente, pernas longas que é raro esconder, lágrima e riso prontos, assertiva, profissionalmente fiável no cumprimento de horários e serviço. Entra e sai às oito a que soma meia dúzia de horas da deslocação e vida familiar. Mulher que não espera empurrões da vida – prefere ir ao seu encontro. Cuida-me dos pés. Abre a alma enquanto o faz. Há anos que nos entendemos assim: ela repartida em duas, a que vaza o espírito e a profissional, eu desempenhando o papel de ouvinte e de cliente, não raro, sofrida. Conta-me um Portugal que não conheci.

Nasceu no Ribatejo pobre sem meios para outras faenas que não as da subsistência. Feita a primária, aos dez anos trabalhava no campo e ensaiava a ordenha das vacas. Do alvorecer conheceu os matizes até aos catorze anos. Espigadota, apetitosa, a mãe viu nela rentável destino – entregá-la ao primeiro namorado que tivera e a quem a vida tratara bem. Homem nos quarenta, entediava-o a prima da miúda; aos dezoito anos e vários desmanchos, achou por bem casá-la com rapaz calado que empregava. Prevenindo enfados, de quando em vez misturava as duas. A paga era satisfatória e a vida em casa ia melhor. O remanso não durou: a pequena engravida e na lonjura das Caldas da Rainha quase viu a morte acenar. Jurou ali mesmo – disto nunca mais! E fugiu para Lisboa onde gente boa lhe garantiu sustento e trabalho doméstico. Foram cinco anos de recato e paz de espírito.

Num dos regressos da «terra», entra num táxi em Santa Apolónia e encanta o motorista de curtos vinte anos. Outros vinte duraria a união de amarguras, maus-tratos, queixas na polícia, ócio dele, fadiga dela, filho pelo meio. Há meses partiu-lhe a mão. Ela, decidida a não exibir medo, ameaçou-o de lhe arrancar a fruta com os dentes. Polícia de novo, APAV à mistura, muita hora de conversa com assistentes sociais que jamais satisfizeram o único pedido que fez – chamarem à pedra o homem. Ontem, foi de novo agredida. Por entre lágrimas, sorria – “Já arranjei casa. É a primeira a saber!” Contive a água que me enchia os olhos. O filho tem catorze anos.


CAFÉ DA MANHÃ

“Andámos escondidos um mês. Em treinos e posts esforçados, mais do que prometia a força humana. Apanharam-nos. Agora é ver o nosso nome arrastado pela rede da amargura.” Li e achei bem o arrastão. Junto-me a eles

Publicado por Teresa C. às 09:24 AM | Comentários (3)

abril 27, 2007

LICENCIADO, MENOS DE 40 ANOS

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Autor que não foi possível identificar

Abespinharam-se. Entendi – funcionário público que recebe uma brochura alertando para a corrupção, toma-a como recado pessoal. Uma indirecta de mau-gosto por estar regulamentada a infracção e sem carecer de lembrete. Reflectindo um pouco, e dando de barato que a campanha de (des)informação não abotoou ninguém, concluí a bondade da iniciativa.

É provado ter a arraia-miúda de abrir os olhos para não ser reduzida a mexilhão. Ora, é prudente estar atento, não acabe culpado um inocente como o funcionário subalterno da PT ao mandar ao molhe escutas telefónicas à entidade superior que as pediu. Cometer um crime por obedecer a ordem do superior hierárquico, é que não! Mais ainda quando os de cima enrolam os de baixo entretecendo fios subtis.

Acha que convém não descurar – bem à vista, excepto das finanças tão atentas ao funcionário por conta de outrem - é a discrepância entre o salário do autarca ou do graúdo iniciado no cargo com o fundilho dos bolsos à vista e acabando novo-rico. Rico. Muito rico. Novo-rico na mesma. E ainda há quem olhe de lado os construtores civis!... Quantas vezes sem escolha – ou desembolsam o subentendido, ou vêem a respectiva empresa remetida à falência por falta de empreitadas públicas.

Pelo dito e omitido, sarem os funcionários públicos o orgulho ferido e debaixo dos olhos de quem os precede ponham a malfadada brochura. O Estado que espere até 2009(?!) para ter o servidor ideal – com menos de 40 anos, licenciado, zeloso, impoluto e competitivo.


CAFÉ DA MANHÃ

Não são de perder os Olhares Alternativos Sobre o 25 de Abril deste senhor

Publicado por Teresa C. às 06:48 AM | Comentários (2)

abril 26, 2007

FECHEI A PORTA COM CUIDADO

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Andrew Potter

Podia ter ido ao Carmo ver as salas da rendição. Ou ao Palacete de S. Bento mirar o requinte da aristocracia política e cirandar pelo jardim cheirando a tília florida. Ou até, com divertida companhia, percorrer a pé o enguiçado túnel do Marquês. Mas não. Amanheci em casa e por aqui fiquei até um quarto para o meio dia.

No começo, foi uma vela - brilhante, transparente, de cor garrida. Tendo convivas fumadores, acendo cheiros sólidos. Semanas atrás, foi o caso. Entretém para aqui e para ali, deixei-a solitária e acesa por uma hora. Ao atravessar o soalho em busca de água fresca, deparei com fumaça espessa e negro-de-fumo na parede. Negro mesmo! Não sendo de arruinar momentos felizes à conta de um infortúnio doméstico, botei água na fervura e regressei ao bem-bom. Pelo entardecer, deitei mãos à obra – esfregão, Cif e detergente com fedor a amoníaco. Arruinei as unhas, mas a pintura abstracta desenhada a carvão desapareceu. Com o tecto piou mais fino. Lavado, ficou pior. Esmoreci - “alguém, que não eu, remediará isto!”

Arrepiada com o orçamento dum empresa publicitada via cartão, perguntei a um dos seguranças do condomínio se conhecia algum pintor. Que sim, que conhecia, e recomendou-me um colega. Ao telefone acertámos dia e hora – ontem, pelas dez. Ponteiro dos minutos a pique, entrou. Valeu o meu poder de encaixe para cobrir o pasmo – pedira um jeitoso para o ofício, não o homem da Coca-Cola Light deslizando em tronco nu pelos vidraças. Engoli em seco e pensei: “Do mal o menos. Ou como um antecipado tormento promete ser um prazer."

Dada a segurança que um segurança inspira, saí para caminhada de uma hora. Passo rápido, respiração compassada. Voltei. Empresa a bom ritmo, sugeri repasto. “Para beber? Cerveja, água, sumo, Coca-Cola? Light... talvez?” Pois foi!, escolheu a última. Pós-almoço, arrumou tudo na máquina - “perfeitinho, benza-o Deus!” – e falou: cliente do Holmes Place, queria mudar. Vendo-me fardada para a musculação, polidamente informou-se das condições do ginásio. Rumei ao treino e vim - tudo limpo e no sítio. Contas feitas, despedida breve, olhar fundo, acrescenta: “Precisando dalgum arranjo em casa, companhia para treino ou caminhar, tem o meu número. Estou aí!” Speechless, fechei a porta com cuidado.


CAFÉ DA MANHÃ

Este óptimo portal teve a gentileza de transcrever mais um texto meu. Estou grata pela escolha

Publicado por Teresa C. às 08:25 AM | Comentários (4)

abril 25, 2007

SEM FILTROS E COM DÚVIDAS

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William J. Kalwick

Era um país a preto e branco. Havia o bem e o mal. A virtude e o pecado. O permitido e o proibido. Pessoas certas e erradas - comunistas, ladrões, democratas, assassinos, livres-pensadores, trafulhas, irreverentes, prostitutas, liberais, bêbados, artistas ousados, ateus. Somente na riqueza havia três categorias – muito ricos, remediados e pobres (a maioria).

Era um país de filtros. Uniformes nos níveis de porosidade – passava o situacionista e ficava retido o “perigoso”, cruzado a vermelho pelos censores. Os humores e a tacanhez dos polícias do espírito filtravam a informação, os livros, os filmes, a música e o teatro.

Era um país de famílias – as poderosas e as outras. Mas famílias. Pai, mãe e filhos, ascendentes e descendentes, todos com estado civil triangular: viúvos, casados ou solteiros. Estes como pessoas menores sendo adultos e mulheres. Uma depressão no feminino – “doença dos nervos”, diziam – podia ter uma de duas razões: pesadas mágoas se casada, falta de homem se solteirona (estado avançado da degradação das mulheres que “ninguém quis”).

Era um país de homens. Governavam o povo e as famílias, detinham os cargos superiores, pertencia-lhes a exclusividade da vida militar e doutras profissões.

Era um país analfabeto, rural,com elevada mortalidade infantil, pejado de deveres e diminuído em direitos, salvo a bebedeira, o prostíbulo e o futebol.

Era um país sem dúvidas. Do nascer ao morrer. Acabada a primária, era sabido que, podendo a família sustentar “os estudos”, o destino seria a Escola Industrial ou o elitista Liceu. Os meninos pobres para se instruírem iam para o seminário, enquanto as meninas pobres faziam a “lida da casa”, trabalhavam nas fábricas ou no campo. O rapaz sabia que a guerra o esperava no alvor da juventude e, caso sobrevivesse, no regresso empregava-se e constituía família. As raparigas casavam cedo para amarem e procriarem com decência; trabalho fora de casa apenas por necessidade ou capricho da abastança. As mulheres eram velhas aos quarenta anos. Havia a certeza da morte ser precedida pelo “chamar o padre” e pela Extrema Unção; caso contrário, iam direitos ao Inferno e a família incorria em grave risco de escândalo social perpetuado até à terceira geração.

Há trinta e três anos que Portugal legitimou a dúvida. Bem maior não há.

Publicado por Teresa C. às 09:15 AM | Comentários (16)

abril 24, 2007

ROSA DAMASCENA

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Boris Novak

Proponho-te atravessarmos o Vale das Rosas e chegar a Kazanlak ao entardecer. Embriagarmo-nos com o odor das rosas damascenas - cálido, levemente picante e semelhante ao mel. Dizem-nas das flores as rainhas pelo óleo de ouro e por ter sido Vênus a alquímica. Apressemo-nos, porque Abril finda e não tarda a colheita das pétalas pelas cinco da manhã, antes que o sol lhes seque o óleo que a noite concentrou.

Entraremos no lobby espaçoso do Grand Hotel Kazanlak. A assimetria da arquitectura e a herança comunista irá surpreender-nos: todavia, o conforto é certo. Não esperamos um leito de pétalas de rosas vermelhas com meio metro de profundidade como o de Cleópatra quando conheceu Marco António. À luz de um só vela, inventaremos o nosso. De cada vez diferente. Um cenário que desafiamos e refazemos. A vertigem renovada pelo almíscar dessa noite. Sândalo para a seguinte.

Sabes?, ao pequeno-almoço quero o iogurte búlgaro, simples e amargo. Dispenso o bufete. Brincarei, lábios entreabertos, com a brancura da guloseima na ponta da colher. Olhar fixo no teu enquanto bebes o sumo de laranja e petiscas de tudo um nada. Do café forte, a expectativa do primeiro gole - aprovaremos ou não. E falaremos da igreja russa de Shipka com as cúpulas douradas resplandecentes ao sol. Daremos tempo à visita. Ao recolhimento. Mais teremos: o túmulo Trácio mais próximo levantado no séc. IV A.C. A espiritualidade dos frescos irá reter-nos. Depois, ultrapassaremos as faldas da cadeia montanhosa dos Balcãs. Para a noite cetim e sândalo. Sofia pode esperar.

Publicado por Teresa C. às 08:13 AM | Comentários (3)

abril 23, 2007

ROXO E AZUL

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Mozert

“Mon Pays c’est Paris.” Frase de Paul Poiret, o pai da Alta Costura. Apaixonado pelos impressionistas, aluno do pintor Jacques Doucet, começou a desenhar com sete anos e vestiu as maiores celebridades do seu tempo. Arrojou subir as saias ao ponto de mostrar as ligas rendadas das mulheres - um escândalo para o “tout Paris”. Coleccionador, reuniu manuscritos da geração de escritores que o precedeu (Stendhal, Baudelaire, Verlaine, Rimbaud) e da contemporânea (Apollinaire, Gide, Cocteau, Mauriac, Montherlant, Maurois, Morand, Valery, Proust, Giraudoux). Igualmente, foi mecenas de muitos outros (Suarès, Max Jacob, Reverdy, Breton, Aragon).

Coco Chanel criou a moda dos cortes rectos, o petit robe noir, blazers, colares compridos, boinas e cabelos curtos, que à mulher acresceram liberdade nas atitudes. Privou com Picasso, Luchino Visconti e Greta Garbo. Devido ao envolvimento com um oficial alemão durante a Segunda Guerra Mundial, no final da guerra os franceses não lhe perdoaram o romance e votaram-na ao ostracismo. Coco, rumou aos Estados Unidos. O assassínio do Presidente Kennedy e o facto de Jacqueline ser cliente Chanel, relançou a estilista e propiciou, juntamente com o êxito do seu tailleur (casaco, fato e sapatos), o regresso triunfal a Paris.

Desde a lonjura dos tempos que a moda funcionou como registo social, político e cultural. No período bizantino, o roxo, cor nobre obtida de um pigmento muito raro, era envergada pela classe dominante; os menos abastados usavam roupas de cor azul feita com ureia que os tintureiros obtinham a partir da própria urina. Nos 60’s e 70’s, as cores alegres e as flores encheram as ruas como símbolos da paz e do amor, da descontracção e da liberdade – valores da época hippy. Desengane-se quem a moda tem por frívola. A sua história caminha a par da história da humanidade.


CAFÉ DA MANHÃ

Texto fabuloso! Leitura imprescindível para quem da vida deseja o melhor.

Publicado por Teresa C. às 09:58 AM | Comentários (9)

abril 22, 2007

PATACA A TI, PATACA A MIM

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Dave Nestler

Ontem, setenta e cinco para ele, hoje, para o outro, o Sarkozy, qual será a percentagem de votantes? O Ribeiro e Castro pode voltar ao ramerrão de Bruxelas e, anonimamente, rugir pelos leões na savana de Alvalade; em contrapartida, hoje Ségolène só não roerá as unhas pelo natural polimento, dela, que nas unhas o artifício está presente. Para a candidata, a ida à segunda volta das presidenciais francesas seria “uma espécie” de Sorte Grande - o centrista Bayrou tão bem piscou os olhos aos socialistas, que à Royal roubou fatia do eleitorado.

Resumindo: o político caucasiano mais soalheiro de Portugal declara vitória no mesmo dia em que o franco-atirador menos político de França ruma à presidência na dianteira. Não está mal! É uma “espécie” de harmonia entre versões parecidas de políticos ressalvando a importância e o tamanho – M o nosso, L o outro. Os respectivos eleitores esfregam as mãos de contentamento e os inocentes espectadores arrecadam tampões para os ouvidos que os poupem às previsíveis (in)conveniências.

A “espécie” de vitória portuguesa, neste particular, foi o adianto, não podendo os franceses acusarem-nos de contrafacção nesta “espécie” de griffe política. Eles que fiquem com o Sarkozy, porque nós já estamos aviados.


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VANITAS, 51, AVENUE D´IÉNA, por Almeida Faria. O novo folhetim do Miniscente a partir de 26 de Abril de 2007.

Publicado por Teresa C. às 11:13 AM | Comentários (3)

abril 21, 2007

A PEÚGA

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Starr Abbot

Uma vez, perdeu a peúga. Reviraram tapetes, espreitaram debaixo dos assentos, sacudiram as roupas a monte. Já vestidos, portas do carro abertas, foi vê-los de cócoras, os sapatos brilhantes enterrados na lama, espiolhando as inocentes ervas húmidas, não tivesse, num arremesso impetuoso, sido atirada a bendita peúga pelo vidro aberto. Certo era não poder chegar ao lar, doce lar, com um pé despido. Comprar novo par de peúgas nada resolvia por duas razões: a eficiência da mulher como dona de casa que a roupinha trazia bem controlada, e o despropósito da hora.

Na segunda tempestade dos sentidos fora de portas desapareceu a aliança. A face dele esvaiu-se. “Que raio de desafinada culpa o fazia tirar a dita, ainda que ela lhe conhecesse o estado civil?” E lá estava o anelar, maldosamente exibindo na mão morena o desenho claro do ouro perdido! Ela, solidária, ajudou-o na repetida cena de vasculhar viatura, ervas e chão. Nada! O anel, que a Santa Igreja abençoara como símbolo de fidelidade até a morte o levar, parecia apostado em punir o pecado ainda quente. Resignou-se à perda. Teria o caminho de regresso para engendrar desculpa a preceito.

Na volta, dizia ele – “Como pode alguém submeter-se aos preceitos da fé? Em pequeno, ai de mim se não era bem comportado. Na adolescência, masturbação, carícias às namoradas, beber, fumar, faltar à missa, arrastar a manhã na cama, eram graves infracções a um qualquer ditame religioso. Consequência: afastei-me duma Igreja intolerante, especializada na condenação do prazer. Homem feito, julgando-me sólido nas convicções, sou forçado a acreditar no divino ou no maligno, ainda não decidi. A Entidade cansou-se de me encobrir as patifarias. A prova é o que tem acontecido. Ora, se Ele está metido nisto é porque viu, e se viu existe. De qualquer modo estou lixado. E, minha querida, esquece por largo tempo o amor campesino!

Publicado por Teresa C. às 11:10 AM | Comentários (4)

abril 20, 2007

BELLE ET VIEILLE EUROPE

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Bo Bartlett

Espermatozóides obtidos a partir da medula óssea. Alargando a possibilidade de reprodução por dispensar o macho. Da mulher a possibilidade de ser mãe e pai de meninas, por não possuir o gene Y. Espermatozóides masculinos somente necessários para equilibrar os géneros da população. Sobre a dispensabilidade do homem no acto reprodutivo, e confrontadas com a desigual repartição de responsabilidades no crescimento dos filhos, dizemos: “estavam a pedi-las!” Frequentemente, a mãe abandona a profissão para cuidar das crianças. Quantos homens fazem o mesmo? Quantos aproveitam a licença de parto para sentirem de perto a infinita alegria e tarefas e preocupações inerentes ao nascimento de um filho? Por todas as razões me orgulho da condição de mulher e testemunho a perplexidade masculina nesta sociedade nova que vamos dominando, quantas vezes à imagem do pior que do domínio social e político dos homens lembramos.

Os louros em extermínio. A subida para norte dos povos paupérrimos da zona equatorial, há muito chegou aos Estados Unidos e, mais recentemente, à Europa. As sociedades europeias são hoje caldo ebuliente de raças e culturas por via da emigração. Visível nas capitais cosmopolitas que atraem como mel os deserdados da população mundial. Por força da miscigenação subsequente, e do carácter recessivo dos genes responsáveis pelo cabelo louro e olhos azuis, a médio prazo na história do homem, as características ditas nórdicas aprestam-se à extinção. Evolução natural que a desigualdade na partilha da riqueza no planeta determina. Algumas características humanas sofrendo mortífero e idêntico destino ao de inúmeras espécies vegetais e animais desaparecidas.

Das desigualdades não cuidamos. Todavia, insidiosamente, vão alterando a face do mundo. Ao ignorarmos a degradação ambiental, fechando os olhos ao “feio, pobre e mau”, nós, ufanos da cultura da “belle et vieille Europe”, da indiferença fazemos sofá, esquecendo que os males da Terra não se confinam aos ecrãs agigantados nos salões.

Publicado por Teresa C. às 06:36 AM | Comentários (0)

abril 19, 2007

O TIPO DO MSN

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John Lockell

O Reverso da Gaja do MSN

Não havia como desmentir – os homens são como o pão de forma, quadrados, miolo mole e fáceis de dobrar. Sorria. Pelo retrovisor viu a maquilhagem esborratada, as olheiras vincadas e achou-se mais sensual que nunca. O cabelo, que o suor dos corpos humedecera, encaracolara nas pontas. Selvagem como as últimas horas. O Robin Williams embalava a condução lenta na noite inventada de lua-cheia.

Lembrava o começo da história. Caíra-lhe na sopa. Literalmente. À hora de almoço, num chat onde diluía ócios, tigela de sopa ao lado do teclado, aparecera o fulano armado em pimpão. Passaram ao MSN por insistência dele - importava ver a presa; dela, no caso vertente. Entre um gole de sopa e o puído toma-la-dá-cá, não tardou a ver nele o candidato ideal: femeeiro e disponível. Cedeu-lhe a convicção da autoria do arranjinho. Dela fora a sugestão do hotel a meio-caminho – “dividimos o distância a meias. Ficamos no Hotel Solterra que conheço de um casamento e não é mau.” Ele titubeou sobre as horas e uma viagem agendada. De pronto, retorquiu: “fica para outra vez, quem sabe?” Remédio santo – “daqui a três horas. Vens sem cuecas e de arrasar. Não esquecerás.” Engoliu em seco e escreveu: “seja, mas cama está fora de causa!” - “Isso vemos depois!”

Ficou imóvel. Telefonava? Uma SMS servia. Aviou-se e saiu. À hora combinada, lá estava – moreno, impecável, putice no olhar. Enlaçou-a e subiram. No elevador, a curiosidade dele roçou abaixo da cintura. Compondo ar distraído, registou-lhe a postura vencedora. Mordeu os lábios para não rir – que fará os homens julgarem que andar sem lingerie é transgressão feminina? A intimidade foi banal – lábios e mãos laboriosas, a tentativa de a derrubar no leito. Ágil, evitou-o. Sentada sobre si própria, rente ao chão, joelhos bem abertos, liga das meias à vista, carícias sábias, olhos subidos, centrados nos dele, e, sem que do corpo lhe visse a pele, resolveu o assunto num ai. A ideia do bar soou-lhe a vingança por ter levado a dela avante – “cama não!” Pareceu-lhe bem: a ansiedade fizera sede. Simulou o embaraço conveniente e desceu. Ele chegou dez minutos depois e sentou-se, longe dela, ao balcão. “Parvo todos os dias, mas OK, está a ir direitinho e não posso pedir mais.”

Ao entrarem para jantar, viram-se. Tinha escolhido bem – morena vistosa. O resto foi um entretém. O fulano, provocado por astúcia competente, estava uma rodilha. Ela, como engate borracho – e se estava lúcida! –, aceitava-lhe o passeio das mãos. Ao subirem aos quartos, o tipo com a profissional, ela com o dono do hotel, o elevador foi testemunha do caos mental do desgraçado. Merecia o recuerdo. Noite memorável - teve com o marido o melhor sexo dos últimos anos. Um senão – a saída de madrugada. Que fazer, se entrava às oito e dava teste à primeira hora?!...


CAFÉ DA MANHÃ

Devido a erro no sistema de comentários de quatro das últimas entradas, não me é possivel responder aos caríssimos comentadores. O sistema está de novo funcional.

Publicado por Teresa C. às 08:18 AM | Comentários (4)

abril 18, 2007

AMIGAS

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Terry Rodgers

Rentes ao coração. Afectos imaculados. De há muito tempo, ou germinadas em meia dúzia de anos e com raízes fundas. Repartidas por dois grupos distintos e desconhecidos entre si. Com prazer idêntico movo-me entre eles. Registos próximos, historial diverso. Origem na profissão ou dádiva social. Todas, e não peco pelo exagero, mulheres de excepção. Corajosas. Determinadas. Responsáveis. Pontuais. Amáveis. Lutadoras, a Isabel e a São. Doces, a Lucília e a Aida. Atentas, a Anabela e a Suzete. Sábia, a Margarida. Indómita, a Maria Dulce. Generosas. Fiáveis. À bondade da vida que delas me aproximou não recuso louvores. Cada uma estimo, de todas preciso e me dão mais do que dou. Da fundura dos afectos não desisto, nem de entretecer com contentamento a partilha.

Dizem atavismo do gineceu alfinetadas e traições e má-língua. Não crendo em bingo de afectos, a conclusão é uma: preconceito bolorento. Entre si, as mulheres são amáveis, preservam a intimidade, aplaudem o sucesso alheio, são solidárias. Conto pelos dedos de uma mão, e sobram muitos, rivalidades profissionais. Pessoais, nem uma. Entre amigas, a cumplicidade e os gestos afectuosos dominam. Não caímos em desabafos de leito ou esfarrapamos a casaca dos companheiros. Sobre a família desdobramos alegrias e preocupações. Comentamos política, economia, artes, as profissões e a sociedade em geral. Reflectimos com bonomia e graça o papel que desempenhamos no palco familiar e social. Alfinetar as ausentes nos encontros regulares, jamais. Manifestar saudade, interesse pelo bem-estar, auxílio se o período é ruim, sempre.

Dispenso a recorrência dos que dão por adquirido ser peculiar o microcosmo dos meus afectos femininos. Tesouro, é, certamente. A falsidade não sentiria assim.

Publicado por Teresa C. às 06:58 AM | Comentários (4)

abril 17, 2007

GAJA DO MSN

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Paul John Ballard

Começo do dia. Faltavam vinte minutos para a porta abrir. Dois suits conversavam de pé junto ao assento onde entretia a espera do voo. Tédio misturado com vestígio de ansiedade que o hábito não debelava. As leis da Física são respeitáveis, sabia, mas o aleatório, ali ou noutro lugar, esperava ao meu lado. A milhares de pés do chão mais provável; a derretida tentativa de Ícaro provava-o. A conversa dos fardados com ar de vou-ali-e-volto-já, arranhou-me os ouvidos. – “Não dormi nada, pá. Enrolei-me com uma gaja no MSN. De Leiria, professora, quarentas e meias-solas para gastar. Violino para cá e para lá, combinámos o encontro. Estava livre de tarde, e ajustámos o meio-caminho. Impus regras - vestida para matar, maquilhagem, meias, saltos e sem cuecas. Não é que a gaja aceitou?! A sério, só fui por desfastio, para ver se obedecia. Fiz o check-in no hotel, esperei uns minutos e apareceu; embaraçada, mas pronta para o castigo. Subimos, arrumámos o assunto e mandei-a descer para o bar. Quando chegasse queria vê-la ao balcão de perna à vista. Palavra que a intenção era ser mandado à merda e ficarmos por ali. Mas não, pá! Estava lá. Nervosa, bebia um martini. Dois tipos comentavam-na. Ignorei-a - fiquei do outro lado do balcão. Quando a vi no ponto, fui buscá-la para o jantar. Naquele fim do mundo, éramos nós e um casal. Pela conversa percebi serem os donos do sítio. Ela, um mulherão que não tirava os olhos de mim. Até a gaja comentou! Vieram ter connosco e arrastámos a conversa à custa das bebidas que o tipo mandou servir. Já tocados, melhor, tocado eu, que a gaja estava um cacho, acordei na cama da patroa e o marido com a professora. Liguei-lhe de madrugada e saímos. Ela, feita num oito, despediu-se e arrancou. Chegar a casa, fazer a mala, foi uma directa para aqui. Que achas? – Pá, que queres?, gostam de ser putas nem que seja por um bocado!”

Publicado por Teresa C. às 08:04 AM | Comentários (8)

abril 16, 2007

CRUZES, CANHOTO!

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Rowena

Destro e canhoto. Este como esquerdino ou sinistro ou desajeitado ou demónio. Lateralidade duvidosa. Posicionamento contrário ao tradicional. Insubordinado. Destruidor. Conotações negativas que a esquerda acumula. A direita associada ao bem, ao respeito pelo estabelecido. “Às direitas” adjectiva os íntegros, os rectos, os justos. “All in the Family”, “Uma família às direitas”, era protagonizada pelo Archie Bunker, homem trabalhador, férreo chefe da família, ultra-conservador. Minorias, política, sexo, religião, economia, guerra, liberdades individuais, a tudo reagia segundo os puros(?) cânones da tradição. “Cabeça de abóbora” era o outro, o genro, aberto ao novo e apostado em viver o seu tempo. O Archie, rude e intolerante, desprezava-o e fazia-lhe a vida num inferno.

A remota clivagem entre esquerda e direita no domínio das ideias sociais e, por isso, políticas, não se dilui perante a actual multiplicidade de saberes necessária para responder aos problemas das sociedades. O refúgio mental em estereótipos facilita as explicações aos simples de espírito ou aos demagogos por vocação. Os politicamente canhotos que fogem ao preconceito – no mínimo pobretanas, no máximo uns remediados sem pingo de gosto ou pedigree – merecem o desprezo reservado aos produtos contrafeitos. “Esquerda-caviar” é o rótulo. Uns blasfemos para a esquerda de sílex, tão preconceituosa como a direita convicta. E nesta dualidade alinham espíritos. Entrincheiram-se pessoas. Ideias. Soluções. Guerra sem quartel em que domina o pivete a bafio. Bolor que mancha a inteligência. Que envelhece e corrói. Que esfarela a razão.

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abril 15, 2007

A LAURINHA

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Lisa Remeny

“Vai ao João? Despachei-me agora de lá. Não tem muita gente, é boa hora. Sabe o que me disse a Idalina? O marido da Laurinha deixou-a. Cansado do peso que ela lhe punha, coitado!... Isto foi a manicura, mas a outra, a miúda ruiva também falou do mesmo quando me lavou a cabeça. Lembra-se da mãe? Uma senhora muito fina. As nossas famílias visitavam-se. Quem diria? Uma menina bem-nascida, educada, mãe de três filhos... A verdade é que nunca me enganou. Bastava reparar quantas vezes arranjava os pés e punha aquele esmalte encarnado nas unhas. Entrava para a depilação de quinze em quinze dias; completa, não sei se me entende... E olhe que a Idalina é que lha fazia. Custou-me a crer ao princípio, mas pus-me a pensar e foi somar dois com dois. Para o marido não era de certeza. Sabe o que faz isto? Tempo a mais! Empregada em casa, marido no consultório; fora os congressos e as noites em que estava de banco. Muito trabalha aquele homem!... Para não faltar nada à mulher e aos miúdos. Uma bela casa, antiguidades por todo o lado, pratas de família, tudo do bom e do melhor, tinha que dar nisto. Parece que a última foi o marido ter encontrado uma fotografia dela, descalça, nua não sei!, num barco. Parece que tentou desmentir e dizer que era uma amiga. Ele não acreditou. Então não é que usava anéis nos dedos dos pés? Que o marido lhe oferecia, veja lá! Foi isso que a desmascarou. Cá para mim, fartinho estava ele de saber, mas deixava andar. Quem sabe se não gostaria? Há gente para tudo... Curou-se depressa, segundo dizem. A Pilar, encontrei-a à saída, garantiu que o filho o viu com outra. Loira também. Parece impossível! É que não há modo dos homens aprenderem...”

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abril 14, 2007

O CUBO DE RUBIK

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Alain Aslan

Dos ruges-ruges se fazem as cascavéis ou como de um boato se arma uma calúnia. E passa de boca-em-boca mesmo quando um tira-teimas público o desfaz. O boato começa mal parido, sete-mesinho sem eira-nem-beira, esparramando-se pelo povo como suspiros-brancos-do-monte em campo abandonado. Ficou provado que o saca-de-carvão merece aos portugueses maior deferência do que a merecida pelas noitadas bêbedas, cábulas artesanais ou da mais fina tecnologia, pelas aulas da matina perdidas, comuns em qualquer universidade, privada ou não. Para muitos atoarda, para outros melhor que romeu-e-julieta à sobremesa.

Os reús-réus giram e as pedras caem por todo o lado. Licenciada por universidade pública em que o maior desvio – não meu, que por esse tempo figurava como menina bem-comportada -, era aceitar o pé-de-alferes de um professor ou assistente à conta da saia curta nas práticas e teóricas, somada a um pó-de-chipre afamado, fosse comigo e acabava com a tira-puxa fazendo o que o homem fez: papel carimbado e botava sobre ela uma saca de terra-inglesa. Trocar noites de prazer por outras atormentadas a ver o sete-estrelo, não me faz o género.

Pior que o cubo de Rubik saiu a prosa. Por que ao hífen acho graça, hoje foi uma tripa-forra.


CAFÉ DA MANHÃ

Imaculada Concepção – um texto belíssimo e profundo a ler aqui.

Publicado por Teresa C. às 10:01 AM | Comentários (4)

abril 13, 2007

MEA-CULPA

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Erica Chappuis

Mea-culpa. Perversa frivolidade que não largo! Maldigo os preconceitos fugidos à peneira fina da razão. E afirmo: para o futuro aumentarei cautelas contra as tiradas irónicas sobre pessoas e realidades que não domino. De antemão sei que de cedências ocasionais não me livro. Reconheço ter algumas malquerenças contra meia dúzia de vítimas. Respondo à consciência - “seja!, dez no total e nem mais uma.” O cabecilha é Bush, Mr. Busch. Sarkozy, o tal que afirma que “as pessoas podem nascer pedófilas", vem a seguir. O ricalhaço Berlusconi, mais os sócios pós-fascistas da Aliança Nacional e os xenófobos da Liga do Norte, é outro com lugar cativo no rol. Portugueses, excluindo alguns figurões com a justiça à perna, tenho os de sempre: a Cinha bronzeada da política – Sr. P. Portas -, o Emanuel, o Julião Sarmento, os condutores com o rei na barriga colados à minha, salvo seja!, traseira.

A uma Mulher genuína e granítica nas convicções demorei a prestar tributo. Muito nela me confrangia – a voz, o verbo à rédea-solta, a tinta do cabelo, um desleixo na postura que me confundia. Anos de convivência mediática forçaram-me a repensar a barreira que entre as duas interpunha. À voz habituei-me. Aprendi a simplicidade que a caracteriza. A liberdade emotiva da fala tardei a traduzi-la – espontaneidade que rareia. Pelo dito, e pelo que sendo público omiti, tenho pela Mulher e Deputada um elevado apreço. Obrigada, Odete Santos, pelo serviço ao país e às anónimas portuguesas como eu.

Publicado por Teresa C. às 06:47 AM | Comentários (5)

abril 12, 2007

TRÊS DIAS DE BARBA

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Roger Payne

“Reino – Animalia. Filo – Chordata. Classe – Mammalia. Ordem – Primatas. Super-família – Hominoidea. Família – Hominidae. Género – Homo. Espécie – Homo Sapiens. Estado de conservação – super populosa.

Recapitulação de matéria dada e esquecida. Importante é os chimpanzés e os gorilas partilharem a super-família dos humanos. Peludos portanto. Eles e nós. Se de excesso de pelagem não me queixo, salvo na demora em secar tanto cabelo, a que me coube em sorte é, ainda assim, incómoda. Corrigir sobrancelhas, conservar as pernas macias dos pés até aos joelhos – daí para cima os deuses foram amigos –, e a supressão de intimidades, constituem ritual periódico de desconforto e demora. Aceites pelo intervalo de prazer que proporcionam. Pior estão os homens, obrigados a rapar a face, cortar pêlos do nariz e dos ouvidos, chegando os mais audazes à tortura da depilação do torso e dos cinco membros.

Das mulheraças de outras eras - fartas de peito, ancas, buço e axilas selvagens - restam poucos exemplares. Uns anos mais e homens feitos serão querubins engelhados. Apreciando a dignidade do corpo, sublevo-me contra a obediência cega a ditames de moda sem tradução no bem-estar pessoal. Dado este por certo, resta a subjectividade do gosto. E não gosto. Peregrinação dos lábios que depare com barba de três dias por todo o corpo querido, é lixar um ímpeto afectuoso.

Publicado por Teresa C. às 08:40 AM | Comentários (0)

abril 11, 2007

VACAS DOUDAS

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Red Wood

Reza um provérbio árabe: “A árvore quando está sendo cortada, observa com tristeza que o machado é de madeira. “Assim, desgarrado, parece vir a propósito de nada ou, o que vai dar ao mesmo, inútil pela abrangência. Não perdesse sentido, seleccionei um endereço – a algazarra mediática, agora raspando o tutano do currículo académico de Sócrates, o José, o nosso, que os átomos do finado grego devem andar por aí na forma de vegetais, bichos e penedos.

Vivemos num rectângulo abarrotando de telemóveis mais do que pessoas, de cunhas, padrinhos, comissões, crimes lixivados e aspirantes a trafulhas. Pobrezinhos mais nas atitudes do que nos recursos. Delico-doces quando é previsto fruto. Moralistas para pacóvio ver. No caso socrático, o povo tem mais que o aflija, virando costas à novela de enredo pobre e omissa em bonitões que aliviem a visão dos respectivos.

Piedade inspiram-me os apresentadores de jornais noticiosos que, exauridos, mastigam semanas a fio os mesmos assuntos. Ele é a Independente, os Apitos, a Esmeralda, o Allgarve, as reformas negociadas numa(?) autarquia, a baixaria generalizada! Uma mão chega para contar as notícias semanais que provam sermos solidários, criativos, empenhados e bem-sucedidos. O melhor do povo é esquecido. Saem deseducados os muito novos e adubada a desesperança. Depois, por mor de um concurso, roemo-nos pelo defunto António ter levado a dianteira como o melhor português. Numa coisa tinha senso e, à sua maneira torcida, patriotismo - empalmava o mau e enaltecia o melhor do país. Aliás, como é feito aqui ao lado: os espanhóis, tão podres como nós, declaram, impantes, que a peste suína voou por cima, vacas doudas nunca houve, a hotelaria é do melhor, mesmo quando crassa a gatunagem e o lixo, o litoral é um paraíso a começar por Torremolinos.

Publicado por Teresa C. às 06:42 AM | Comentários (4)

abril 10, 2007

COM ÁGUA-CHILRA

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Elvgreen

A regra no universo é haver vida; esta entendida como irrequietude. Ora, o compacto, por inanimado que pareça, está carregado de mudança. Neste sentido, um calhau tem tanta vida como uma colmeia de abelhas. Ou abastança de micróbios. Quando o ultramicroscópico abre portas, é outro mundo que começa.

A ciência convocou a alma. Investigadores afadigam-se em busca do cóio que a esconde. Até três quartos do século passado, a alma como objecto científico escandalizaria teólogos, pragmáticos e sopraria as cinzas de Newton. Já Einstein, dado como era a especulações matemáticas tidas por visionárias, alinharia no experimentalismo paciente de Claude Bernard - nos finais do século dezanove, comparando o peso dos moribundos com o dos cadáveres em post mortem, declarou pesar a alma exactamente três gramas.

Ainda no mundo do muito pequeno, foi descoberta a bactéria da alegria. Adeus stress e depressões. Daqui a uns anos, uma injecção dos bichinhos em conserva e andaremos felizes. Mais informam os investigadores: o asseio, comer fruta e legumes bem lavados, banhos diários e “picuinhices” de semelhante teor dão cabo da bactéria Resumindo: ganhámos em limpeza o que perdemos em alegria. Razão tem o dermatologista que consultei à propos dum sinal íntimo: “duche diário só por excepção, coisa leve e jamais com sabões disfarçados.” Porque insisti na precisão de qualquer coisita para lanbuzar o corpo, passou-me receita. Ao aviar a dita, entendi: melhor com água-chilra do que com ouro.

Publicado por Teresa C. às 07:54 AM | Comentários (4)

abril 09, 2007

DOCE MIDI

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Isa Maria

Três anos atrás. O sol fazia de Cascais doce Midi até nos odores lá mais para a frente no Guincho. A vegetação rasteira, avezada à secura das dunas, despontava nas promessas de Abril. Antes, na Marina quase deserta naquela manhã santa, caminharam no cais e na conversa íntima com o vagar da brisa. Pela frescura que desdizia da luz do dia, retomaram o abrigo quente do automóvel virado ao mar e à quentura. Aconchegados nos assentos, sem fracturarem a fala, ele descalçou-lhe os saltos e soltou os pés envoltos em meias finas como pele, encimadas por ligas que a saia de crepe fino compunha. E a manhã deslizou como soía.

Fosse pela proximidade dos espíritos que adivinhavam incêndio, ou pela inevitabilidade, não cuidaram da pergunta nem da resposta – a cumplicidade silenciosa do motor levou-os dali. Com lassidão vaguearam sem destino, jurariam, até à modesta colina terminada em arriba. Chegado o meio do dia, a rudeza do sítio, o calor, o abandono, os pés descalços dela, o olhar marítimo e aventureiro dele, soltaram a âncora do bom senso em que haviam fundeado. Sem cautelas navegaram. Afrontaram dos corpos a maré bravia. Três anos depois, tão indomada como o fora na arriba.

Publicado por Teresa C. às 09:00 AM | Comentários (2)

abril 08, 2007

DOBRADAS NA ARCA

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Autor que não foi possível identificar

Quando a encontram, dizem os amigos: “O tempo não passa pela senhora. Está na mesma!”. E ela esboça um sorriso triste. Sabe da pele invejável para os setenta anos, da figura elegante, do porte amável. Sabe das dores quando acorda, da doença crónica que a degrada, das lágrimas pelo marido falecido e tão presente em cada recanto da casa, nas memórias, em anódinos pensamentos. E sorri quando não chora. Lembra Páscoas de há quinze anos. A ida em família à Vigília Pascal. As janelas abertas ao aroma das glicínias entrançadas na pérgula do jardim. O alvo linho estendido na mesa comprida. As flores, os cristais, a louça, o faqueiro dos melhores dias luzindo. O cheiro do assado. Do leite creme queimado. Do pão-de-ló húmido. As amêndoas de licor coloridas, imitando frutos, dispersas na mesa em taças de vidro. Lembra a alegria das quatro gerações misturadas. A tagarelice dos netos. Os brindes a pretexto de tudo.

O tempo passou por ela. Que não a desminta o aspecto. A mesa encurtou. As toalhas maiores esperam, o quê?, dobradas na arca. Não chegam à meia dúzia os talheres postos. Nem os marcadores com o nome de cada um fazem já sentido. Mexer-lhes e ver quantos sobram, é contar mortos queridos. E seca as lágrimas sem que os netos vejam. Pretexta o zelo na cozinha e foge de testemunhas. Sabe das mágoas comuns, porém, pelos anos de memória, pertence-lhe a maior fatia. Espreita o forno, faz recomendações e volta à sala. A pele brilha e a boca linda desenha um sorriso. Recebe beijos e afagos. É verdade!, o tempo não passou por ela; ela sentiu passar o tempo.


CAFÉ DA MANHÃ

Feliz Domingo de Páscoa.

Publicado por Teresa C. às 08:38 AM | Comentários (8)

abril 07, 2007

VAMOS A ELES!, DEUS EXISTE!

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Kristin Headlam

O cepticismo convicto é uma maçada. Como pode alguém conhecer o quer que seja se não acredita em nada? O céptico descrê das religiões, da filosofia ou da ciência. Duvida até do próprio cepticismo. Perde a magia que o pensamento científico tenta desvendar – no mistério à espera de entendimento reside o fascínio da Ciência. Quando erra, evoluiu. As religiões tradicionais permanecem estáticas por se afirmarem infalíveis, assim aumentando a distância dos homens. Uma ilustração: arredar um divorciado dos sacramentos - da comunhão, da possibilidade de apadrinhar casamentos ou baptismos – desmente o preceito católico da infinita tolerância para com o próximo.

Li, não lembro onde, dispensarem os cientistas do MIT a construção de catedrais e reuniões ao domingo para louvarem a teoria da relatividade ou o Big Bang. Simplesmente discutem teses e a respectiva validade. Para um céptico, alguns dos rituais religiosos são mecanismos de auto-motivação para preservar a fé. Semelhante à dos jogadores de futebol que proclamam antes de entrar em campo: "Vamos a eles! Deus existe, hem! A vitória é nossa! Deus existe!". Tivessem a certeza e não gritariam tanto. Um cínico, em muito semelhante ao céptico, vai mais longe: “o misticismo dos menos abastados e dos idosos existe pela falta de recursos ou de esperança em vida útil para curarem frieiras e artroses. Do mesmo modo, um rico na Igreja é aberração por violar em simultâneo princípios católicos e materialistas – os escandalosamente abastados só requerem salvação das ex-mulheres e dos advogados.”

Relevai-lhes, Senhor, a condição de ateus. No mínimo, são genuínos e têm piada.


CAFÉ DA MANHÃ

A playlist da próxima semana na TSF, entre as 13h00 e as 14h00, pertence a este Senhor. O mesmo que constou da lista dos seis escritores finalistas do Prix du Roman policier européen com o livro “Um Céu Demasiado Azul”. Deste conheço o mérito e pela antecipação da playlist não ficarei distraída.

Publicado por Teresa C. às 09:31 AM | Comentários (3)

abril 06, 2007

ENTRE ALELUIAS

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Will Kramer

A santidade do dia pede recolhimento. Na silêncio de uma igreja ou num parque da cidade. Não da minha, a Lisboa de sempre, mas doutra que, por ora, me acolhe. A planura da beira d’água e da água correndo parada, os papiros despenteados pelo vento, os vestidos floridos dos arbustos sem folhas, as vergas das esplanadas onde o sol antes de mim tomou assento, são confessionários tão legítimos como os embiocados entre paredes góticas. Omisso o sacerdote que me ouça o rol de desvios aos valores em que acredito. Celebração tão íntima e penitencial como em genuflexório obscuro. Inventado o silêncio pelo desejo de analisar o espírito. Soltá-lo é o melhor.

Ténis calçados, caminho por meia hora. Coluna em repouso, abdómen contraído, respiração pausada. Vento embaraçando o cabelo que o gesto de sempre afasta dos olhos. Teimoso, regressa, e repito o jeito que o leva. O pensamento vagueia no balanço do dever e haver entre Aleluias espaçadas por um ano. Arrependimentos? O erro e o remedeio fazem parte da vida. Respeitei prioridades? Amei pessoas e o trabalho, dei-me, recebi com humildade a verdade e a mentira. Enganei? Não. À minha estranha maneira, sou transparente. Assim me saibam ler. Permito-o? Talvez, à minha estranha maneira de ser leal e omitir. A penitência prescrevo e cumpro - com o sol ainda no alto, bebo uma caipirinha.

Publicado por Teresa C. às 08:58 AM | Comentários (5)

abril 05, 2007

TEMPERO DE AZEITE

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Andy Thomas

É esperada impressiva romaria dos que saem das cidades à cata de remanso entremeado com borrego em tempero de azeite, sal, pó de colorau, alho esmagado, duas folhas de louro, cebola cortada em quartos nos cantos do tabuleiro e dois copos de respeitável vinho branco. Na primeira meia hora, forno esperto que aloure os pedaços da carne e lhes contenha o suco. Brando depois, consentindo no nível inferior do forno o tabuleiro de barro negro onde batatas novas e miúdas, retirada pele em sete faces e regadas com calda fervida, merecem assadura. A Operação Páscoa da Polícia de Trânsito começou às primeiras horas do dia. No passado domingo, outra operação policial tentou conter no redil as claques de futebol. Desta ignoro o nome de código, afligindo-me as duas. Que cidadãos do mundo temos que só encarneirados por via de bordões, cajados e cães de fila cumprem o elementar do civismo?

A excepção ao quotidiano é certo acarretar euforia. Ao comando da viatura ou mascarados com cachecóis e pinturas tribais, os seres passam de obedientes contabilistas e pacatos membros da família a nova espécie da zoologia que grunhe, esbraceja, vilipendia e retira prazer orgástico da ferocidade nas atitudes. Mortos e feridos ficam pelo caminho sem que as pessoas-bicho se amofinem. Os desmandos têm direito a tempos noticiosos. As imagens soltam ais e uis aflitos dos que não saíram do sítio. Tendo-se por impolutos. Corteses. Amesendados no sofá, vociferam: “Punam os gajos! A bófia que os engaiole, pois para isso pagamos.” Diferentes dos vândalos públicos e dos assassinos da estrada? Sem dúvida, enquanto do sofá o traseiro não levantarem.


CAFÉ DA MANHÃ

O melhor do romantismo contemporâneo – “1 hora a andar pela tua rua no Google Earth”

Publicado por Teresa C. às 09:53 AM | Comentários (6)

abril 04, 2007

YEPS, NOPS, PK, JOKAS

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Mark Keller

Telemóveis, MSN, Skype, mails, chats, fóruns virtuais – comunicação da modernidade. Rápida, perecível, com impacto garantido, mais não seja pela resposta a momentâneo desalento, euforia, copos a mais, solitude (des)mentida. A coberto de nicknames ou do próprio nome - mais um que pode ser tão falso como os outros -, num qualquer sítio ignoto é construída ponte de junco e cordas, oscilando à mais leve passada. Tu dizes, eu respondo, replicas um desafio a que cedo, agitas a reposta como faena, da bancada sopro um beijo, devolves-me ramalhete de rosas. Depois... nada. Jogo, espectáculo a que assistimos na bancada coberta ou no sol-sombra mais barato e exposto.

Estando a escrita envolvida, é facilitada a percepção do interlocutor. A escrita fica gravada, eternizada, evidenciando a literacia do emissor, o nível cultural que a fala pode dissimular - um comercial eficaz tanto vende diálogo íntimo como um esquentador. O acto de escrever arrasta consigo a força das palavras e o impacto que elas têm no leitor. Como aparecem iguais vindas de quem vierem, fornecem a convicção de provirem de alguém como nós, boa e pura como gostamos de nos ver. O “outro” passa a ser uma extensão do “eu” a quem, à partida, damos o benefício da dúvida. A escrita infunde emoções. Embaladas por violino tocado com mestria, as emoções são reais.

A comunicação «telegráfica» criou uma estenografia peculiar: “sim” desfigurado em “yeps”, não em “nops” ou «ñ», “porquê” em “pk”, «q» igual a «k», beijos (des)promovidos a “bjs” ou, pior ainda, a “jokas”. E “delatam-se” registos, “printam-se” outros, “cadastramo-nos”, “forwadamos” paisagens paradisíacas pejadas de mensagens subliminares políticas ou religiosas. Por muito pró ou contra esta comunicação, seja diminuta ou crescida a importância atribuída, os laços etéreos podem, como os outros, ganhar densidade e acabarem incrustados no espírito.


CAFÉ DA MANHÃ

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Imagem cujo autor não foi possível identificar

Um dos dois blogues que mais prezo perfez quatro anos. O remanso da época distraiu-me e é com um par de dias de atraso que celebro o dois de Março. Pela qualidade, elevação e diferença presto homenagem.

Publicado por Teresa C. às 09:35 AM | Comentários (5)

abril 03, 2007

SHAKESPEARE E A TERMODINÂMICA

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Morrissey

P. Snow contrapôs Shakespeare e a termodinâmica, afirmando sinal de incultura o desconhecimento de um e outra. Ilya Prigogine (investigador do «tempo» e Prémio Nobel da Química de 1977) afinou pelo mesmo diapasão ao dizer que o desenvolvimento da física moderna ajuda a compreender Shakespeare. Arriscou a tese de que o que é válido para a complexidade químico-física é útil para a complexidade estudada pelas ciências humanas - a sociologia, a história, a filosofia. Bohr, o pai da concepção moderna do átomo, utilizou o castelo do Hamlet como metáfora de na mecânica quântica a realidade depender do observador. “Não é estranho como este castelo muda quando imaginamos que Hamlet viveu aqui? Como cientistas, acreditamos que um castelo consiste em pedras e admiramos o modo como o arquitecto as reuniu. As pedras, o telhado verde devido à pátina, a talha de madeira na igreja, constituem o castelo. Nada disto devia sofrer alteração pelo facto de ter sido habitado por Hamlet, e, no entanto, é completamente modificado. Subitamente, as paredes e as muralhas falam outra linguagem. Tudo o que sabemos sobre Hamlet é que o seu nome é referido numa crónica do século XIII. Mas todos conhecemos as questões que Shakespeare colocou, as profundezas humanas que revelou, pelo que Hamlet também tinha de ter um lugar na Terra, aqui em Kronberg.” (citação retirada da tradução inglesa Order out of Chaos, Man´s New Dialogue with Nature, Bantam Books, 1984)

Somos tentados a considerar inútil a ciência incapaz de gerar recursos que objectivamente melhorem o nosso quotidiano. Quando surgem, o mérito é atribuído à tecnologia, esquecendo a aliança entre ambas e a ociosidade da pergunta “o que apareceu primeiro, o ovo ou a galinha?”. Ao confundir aprendizagem do conhecimento científico com brincadeira aliciante para os infantes, foi esquecido o essencial: toda a aprendizagem envolve esforço e disciplina. A própria noção de autoridade foi baralhada com a de companheirismo. O pedagogo e a família têm por obrigação dar exemplo de empenho e rigor (distinto de intolerância). E se foi notícia a relação directa entre alunos de Medicina e a formação superior dos pais, merece a pena voltar a P. Snow e a Prigogine – educar também é presença-chave na abertura de múltiplos horizontes, aprender sempre para responder à curiosidade juvenil e considerar que na pedagogia não há determinismo. A realidade é incerta, depende do observador e tão relativa como a noção de espaço ou tempo.

Publicado por Teresa C. às 08:40 AM | Comentários (1)

abril 02, 2007

LOIRA DESDITA

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Autor que não foi possível identificar

Eram muitos. Chegaram arrastando malões e cozidos uns aos outros. Morenos, roupa leve trespassada pelo ar frio da manhã na estação do Oriente. Podiam ter vindo aos poucos. Mas não, a gentiaga inundou o cais num repente. Pelas etiquetas da bagagem, despejara-os, havia pouco, um avião. Ajuntavam-se e miravam os arcos cruzados, as nesgas do rio, o amontoado de prédios sem brio dos Olivais Sul. A conversa era discreta, de quem não se dá por seguro e deseja ver nos carris o transporte para o destino. Qual seria? Dele pouco saberiam dizer, salvo o nome, que a arribação a paragens estranhas deixa na face linhas de ansiedade e surpresa. Ergueram malas que lhes retesaram os músculos, contendo passados de chumbo para começo do futuro. Todos muito novos. Finalmente, ajeitados nos assentos.

Um casal, viajante de longe como os outros, permanecia isolado. Altos, fosse pela real estatura dele ou pelos saltos finos dela, no abraço em que se juntavam era confundida a fronteira dos corpos. Esguios. Ela de calções curtos, sandálias altas, douradas, suspensas por tiras no peito do pé que o carmim rematava e repetia nas mãos. Pernas nuas. O peito sobrando de um cai-cai seguro com firmeza. Loira desdita pela raiz do cabelo e pelo moreno da pele, luzia nas coxas uma fina penugem. Nele nada o distinguia - talvez fosse bonito... -, até o olhar era invisível por não se afastar do negro dos olhos dela, passeando-lhe as mãos nas pernas e os lábios no rosto. Afagos correspondidos. Sussurrados. Fosse o enleio ou a novidade amante, omitiam a tensão comum aos restantes brasileiros da carruagem.

A vigília vencia o cansaço. E olhavam o Portugal corrido, ignoravam a rotunda do Marquês de Pombal mais o cartaz agigantando medos xenófobos, recebiam de chapa o sol, embalavam o silêncio na constância da marcha. Conformados, pensativos, contabilizando as razões da partida e as incertezas aumentadas a cada quilómetro subtraído ao final da viagem. Arrastariam, depois, os malões até um qualquer abrigo. Rilhados os dentes de temor e de frio. Soprariam a esperança. As ilusões da partida, agora requentadas, calariam, até quando?, o vazio da chegada.

Publicado por Teresa C. às 09:16 AM | Comentários (0)

abril 01, 2007

F.U.C.K.

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Paolo Uccello

Na antiga Inglaterra, quem não pertencesse à família Real era obrigado a pedir autorização para fazer sexo. Desejando filhos, vinha do Rei o consentimento que, ao permitir o coito, entregava uma placa para ser pendurada na porta de casa com a sigla F.U.C.K (Fornication Under Consent of the King). Em Portugal, o termo equivalente possui também quatro letras: F.O.D.A. (Fornicação Objectivamente Derivada do Ócio - aos fins de semana, feriados e férias). Somos lá gente preocupada com tarjetas, carimbos ou legitimações burocratas? Isso é para os B.I.F.E.S (Britânicos Infelizes, Fodidos, Enfeudados na Soberana); nós é mais ronha.

Sem curar de trazer à colação a noção de tempo – já dizia Einstein não passar de uma ilusão persistente –, Dragões e Águias, os Leões por arrastamento, duvidarão do tiquetaque certo dos relógios até à hora do jogo. Uma eternidade desembocando num fogacho de noventa minutos, acrescidos dos subsequentes pelas demoradas masturbações intelectuais(?) dos doutos da bola. Fascinante é a zoofilia que os clubes ditos maiores reclamam - animais de porte imponente e perigoso, cuspidores de fogo, munidos de garras cruéis ou rugidos capazes de deixarem a selva escondida. Gosto muito masculino, esse, de atemorizar rivais com artifícios de meia-tigela.

Para hoje, está garantida a conjugação reflexiva do verbo foder. Quem o fizer esquece implicar a reflexibilidade que o sujeito pratique e sofra a acção ao mesmo tempo. Não importa - o que conta é os cabrões adversários ficarem a chuchar no dedo. Quanto ao substantivo ficará adiado até ao final do jogo, assim o resultado seja a gosto. De qualquer modo, as respectivas estão metidas ao barulho, seja pela prática substantiva ou pelas trombas rezingonas.

Publicado por Teresa C. às 08:09 AM | Comentários (7)