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abril 02, 2007
LOIRA DESDITA

Autor que não foi possível identificar
Eram muitos. Chegaram arrastando malões e cozidos uns aos outros. Morenos, roupa leve trespassada pelo ar frio da manhã na estação do Oriente. Podiam ter vindo aos poucos. Mas não, a gentiaga inundou o cais num repente. Pelas etiquetas da bagagem, despejara-os, havia pouco, um avião. Ajuntavam-se e miravam os arcos cruzados, as nesgas do rio, o amontoado de prédios sem brio dos Olivais Sul. A conversa era discreta, de quem não se dá por seguro e deseja ver nos carris o transporte para o destino. Qual seria? Dele pouco saberiam dizer, salvo o nome, que a arribação a paragens estranhas deixa na face linhas de ansiedade e surpresa. Ergueram malas que lhes retesaram os músculos, contendo passados de chumbo para começo do futuro. Todos muito novos. Finalmente, ajeitados nos assentos.
Um casal, viajante de longe como os outros, permanecia isolado. Altos, fosse pela real estatura dele ou pelos saltos finos dela, no abraço em que se juntavam era confundida a fronteira dos corpos. Esguios. Ela de calções curtos, sandálias altas, douradas, suspensas por tiras no peito do pé que o carmim rematava e repetia nas mãos. Pernas nuas. O peito sobrando de um cai-cai seguro com firmeza. Loira desdita pela raiz do cabelo e pelo moreno da pele, luzia nas coxas uma fina penugem. Nele nada o distinguia - talvez fosse bonito... -, até o olhar era invisível por não se afastar do negro dos olhos dela, passeando-lhe as mãos nas pernas e os lábios no rosto. Afagos correspondidos. Sussurrados. Fosse o enleio ou a novidade amante, omitiam a tensão comum aos restantes brasileiros da carruagem.
A vigília vencia o cansaço. E olhavam o Portugal corrido, ignoravam a rotunda do Marquês de Pombal mais o cartaz agigantando medos xenófobos, recebiam de chapa o sol, embalavam o silêncio na constância da marcha. Conformados, pensativos, contabilizando as razões da partida e as incertezas aumentadas a cada quilómetro subtraído ao final da viagem. Arrastariam, depois, os malões até um qualquer abrigo. Rilhados os dentes de temor e de frio. Soprariam a esperança. As ilusões da partida, agora requentadas, calariam, até quando?, o vazio da chegada.
Publicado por Teresa C. às abril 2, 2007 09:16 AM