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abril 28, 2007

NUM TÁXI EM SANTA APOLÓNIA

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Blake Flynn

Trinta e nove anos. Alta, peito farto sobrando do continente, pernas longas que é raro esconder, lágrima e riso prontos, assertiva, profissionalmente fiável no cumprimento de horários e serviço. Entra e sai às oito a que soma meia dúzia de horas da deslocação e vida familiar. Mulher que não espera empurrões da vida – prefere ir ao seu encontro. Cuida-me dos pés. Abre a alma enquanto o faz. Há anos que nos entendemos assim: ela repartida em duas, a que vaza o espírito e a profissional, eu desempenhando o papel de ouvinte e de cliente, não raro, sofrida. Conta-me um Portugal que não conheci.

Nasceu no Ribatejo pobre sem meios para outras faenas que não as da subsistência. Feita a primária, aos dez anos trabalhava no campo e ensaiava a ordenha das vacas. Do alvorecer conheceu os matizes até aos catorze anos. Espigadota, apetitosa, a mãe viu nela rentável destino – entregá-la ao primeiro namorado que tivera e a quem a vida tratara bem. Homem nos quarenta, entediava-o a prima da miúda; aos dezoito anos e vários desmanchos, achou por bem casá-la com rapaz calado que empregava. Prevenindo enfados, de quando em vez misturava as duas. A paga era satisfatória e a vida em casa ia melhor. O remanso não durou: a pequena engravida e na lonjura das Caldas da Rainha quase viu a morte acenar. Jurou ali mesmo – disto nunca mais! E fugiu para Lisboa onde gente boa lhe garantiu sustento e trabalho doméstico. Foram cinco anos de recato e paz de espírito.

Num dos regressos da «terra», entra num táxi em Santa Apolónia e encanta o motorista de curtos vinte anos. Outros vinte duraria a união de amarguras, maus-tratos, queixas na polícia, ócio dele, fadiga dela, filho pelo meio. Há meses partiu-lhe a mão. Ela, decidida a não exibir medo, ameaçou-o de lhe arrancar a fruta com os dentes. Polícia de novo, APAV à mistura, muita hora de conversa com assistentes sociais que jamais satisfizeram o único pedido que fez – chamarem à pedra o homem. Ontem, foi de novo agredida. Por entre lágrimas, sorria – “Já arranjei casa. É a primeira a saber!” Contive a água que me enchia os olhos. O filho tem catorze anos.


CAFÉ DA MANHÃ

“Andámos escondidos um mês. Em treinos e posts esforçados, mais do que prometia a força humana. Apanharam-nos. Agora é ver o nosso nome arrastado pela rede da amargura.” Li e achei bem o arrastão. Junto-me a eles

Publicado por Teresa C. às abril 28, 2007 09:24 AM

Comentários

Olá Teresa

Sou um frequentador do seu Blog.

Com frequência, não tenho tempo de ler seus textos mas, as suas ilustrações são o máximo!

Me perdoe, às vezes copio alguma delas e colo no meu Blog.

Parabéns pelo gosto estético impecável.

Francisco

Publicado por: Francisco Souza às abril 28, 2007 03:19 PM

Eu ajudo - parto os cornos ao taxista (é assim que se diz, aqui no Cartaxo)

(Puta de vida!)

Publicado por: -pirata-vermelho- às abril 28, 2007 04:32 PM

Francisco Souza - obrigada pelas suas palavras. Volte sempre :)

Pirata-Vermelho - E então? Partiu? Hummm Cartaxo? E a lezíria ali tão perto...

Publicado por: Tati às maio 5, 2007 12:19 PM

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