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abril 24, 2007

ROSA DAMASCENA

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Boris Novak

Proponho-te atravessarmos o Vale das Rosas e chegar a Kazanlak ao entardecer. Embriagarmo-nos com o odor das rosas damascenas - cálido, levemente picante e semelhante ao mel. Dizem-nas das flores as rainhas pelo óleo de ouro e por ter sido Vênus a alquímica. Apressemo-nos, porque Abril finda e não tarda a colheita das pétalas pelas cinco da manhã, antes que o sol lhes seque o óleo que a noite concentrou.

Entraremos no lobby espaçoso do Grand Hotel Kazanlak. A assimetria da arquitectura e a herança comunista irá surpreender-nos: todavia, o conforto é certo. Não esperamos um leito de pétalas de rosas vermelhas com meio metro de profundidade como o de Cleópatra quando conheceu Marco António. À luz de um só vela, inventaremos o nosso. De cada vez diferente. Um cenário que desafiamos e refazemos. A vertigem renovada pelo almíscar dessa noite. Sândalo para a seguinte.

Sabes?, ao pequeno-almoço quero o iogurte búlgaro, simples e amargo. Dispenso o bufete. Brincarei, lábios entreabertos, com a brancura da guloseima na ponta da colher. Olhar fixo no teu enquanto bebes o sumo de laranja e petiscas de tudo um nada. Do café forte, a expectativa do primeiro gole - aprovaremos ou não. E falaremos da igreja russa de Shipka com as cúpulas douradas resplandecentes ao sol. Daremos tempo à visita. Ao recolhimento. Mais teremos: o túmulo Trácio mais próximo levantado no séc. IV A.C. A espiritualidade dos frescos irá reter-nos. Depois, ultrapassaremos as faldas da cadeia montanhosa dos Balcãs. Para a noite cetim e sândalo. Sofia pode esperar.

Publicado por Teresa C. às abril 24, 2007 08:13 AM

Comentários

De rosas pouco sei. Apenas que as amo.
O seu comentário, porém, encheu-me a manhã de recordações sublimes.
Não é o total despojamento de Agia Sofia (Άγια Σόφια, para a querida Carla...), nem a divina grandiosidade de Sergiev Possad ou da cúpula florentina de Bruneleschi que as suas palavras me recordaram. Mas sim, a profunda religiosidade da pequeníssima igreja ortodoxa de Míkonos (Μύκονος, para a nossa amiga...) tão intensamente sentida que me levou às lágrimas mais incontidas...
Como tudo é relativo!
Veja bem como uma conversa sobre as mais belas flores tão facilmente nos conduzem aos mais altos píncaros a que pode aspirar o nosso pobre espírito!

Publicado por: j às abril 24, 2007 10:24 AM

Quase me convencia a voltar a viajar! É que...
o estar-lá é o leit motiv de qualquer ida e o estar-lá exige o querer e saber assumir o fingir ter ali nascido... não é fácil.
Descontando a perda de dois dias para tratamento do trauma, se for de avião.

E ainda há quem vá para Cancun?

Publicado por: -pirata-vermelho- às abril 24, 2007 05:22 PM

J - A sua descrição transportou-me a momentos idos e à urgência de rumar a destinos que adiei. Fascinou-me a espiritualidade da descrição. Obrigada.

Pirata-Vermelho - somente uma vez peregrinei pelo mundo na condição de viajante. Inesquecível esse modo de estar, partilhar os hábitos, olhar por dentro os lugares e as pessoas. Jamais saí como turista convencional, de «pacote« comprado em agência. Delineio o meu programa de viagem reservando uma fracção ao acaso e à surpresa. "Fast" viagens, de hotel em hotel ou apenas para lagartar ao sol, nunca. Digo eu...

Publicado por: Tati às abril 25, 2007 10:43 AM

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Recordar-me?