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abril 25, 2007
SEM FILTROS E COM DÚVIDAS

William J. Kalwick
Era um país a preto e branco. Havia o bem e o mal. A virtude e o pecado. O permitido e o proibido. Pessoas certas e erradas - comunistas, ladrões, democratas, assassinos, livres-pensadores, trafulhas, irreverentes, prostitutas, liberais, bêbados, artistas ousados, ateus. Somente na riqueza havia três categorias – muito ricos, remediados e pobres (a maioria).
Era um país de filtros. Uniformes nos níveis de porosidade – passava o situacionista e ficava retido o “perigoso”, cruzado a vermelho pelos censores. Os humores e a tacanhez dos polícias do espírito filtravam a informação, os livros, os filmes, a música e o teatro.
Era um país de famílias – as poderosas e as outras. Mas famílias. Pai, mãe e filhos, ascendentes e descendentes, todos com estado civil triangular: viúvos, casados ou solteiros. Estes como pessoas menores sendo adultos e mulheres. Uma depressão no feminino – “doença dos nervos”, diziam – podia ter uma de duas razões: pesadas mágoas se casada, falta de homem se solteirona (estado avançado da degradação das mulheres que “ninguém quis”).
Era um país de homens. Governavam o povo e as famílias, detinham os cargos superiores, pertencia-lhes a exclusividade da vida militar e doutras profissões.
Era um país analfabeto, rural,com elevada mortalidade infantil, pejado de deveres e diminuído em direitos, salvo a bebedeira, o prostíbulo e o futebol.
Era um país sem dúvidas. Do nascer ao morrer. Acabada a primária, era sabido que, podendo a família sustentar “os estudos”, o destino seria a Escola Industrial ou o elitista Liceu. Os meninos pobres para se instruírem iam para o seminário, enquanto as meninas pobres faziam a “lida da casa”, trabalhavam nas fábricas ou no campo. O rapaz sabia que a guerra o esperava no alvor da juventude e, caso sobrevivesse, no regresso empregava-se e constituía família. As raparigas casavam cedo para amarem e procriarem com decência; trabalho fora de casa apenas por necessidade ou capricho da abastança. As mulheres eram velhas aos quarenta anos. Havia a certeza da morte ser precedida pelo “chamar o padre” e pela Extrema Unção; caso contrário, iam direitos ao Inferno e a família incorria em grave risco de escândalo social perpetuado até à terceira geração.
Há trinta e três anos que Portugal legitimou a dúvida. Bem maior não há.
Publicado por Teresa C. às abril 25, 2007 09:15 AM
Comentários
Viva a Liberdade!
Viva a Alegria!
Apesar de todas as dúvidas e incertezas, apesar de tanto haver ainda por fazer, apesar de todas as incompetêmcias e vilezas, repetirei sempre:
Viva a Alegria!
Publicado por: j às abril 25, 2007 10:17 AM
Belíssimo texto Tati. É que era assim mesmo. Um grande beijinho e Viva Liberdade! :)
Publicado por: Vieira do Mar às abril 25, 2007 11:32 AM
Muito belo ... e certeiro. Parabéns à Tati. 25 de Abril, SEMPRE!
Publicado por: minderico às abril 25, 2007 12:21 PM
Como dizia o Zeca:
25 de Abril sempre!
Publicado por: Sandro às abril 25, 2007 01:59 PM
Não posso estar mais de acordo com este retrato do país a preto e branco.
Parabéns!
Vivam as cores, todas!
Foi linda a festa!
Joana
Publicado por: Joana às abril 25, 2007 02:36 PM
Os portugueses não aprenderam absolutamente nada depois do 25 de Abril. A liberdade para eles é uma palavra completamente vã, na prática não sabem o que quer dizer. Por isso engolem dia após dia as constantes restrições às suas liberdades individuais e acham muito bem. Tenho muita pena que aqueles que falem de «liberdade» abracem com tanto entusiasmo o totalitarismo que começamos a viver.
Peço desculpa por comentar desta forma num blog que não foi criado para estas coisas mas, como diz o post, temos de ter direito à dúvida.
Publicado por: Mário às abril 25, 2007 03:17 PM
Dá gosto ler esta sua descrição daquilo que precedeu 'o arejar das almas'; encoraja, alegra
mas!
sublinho a indicação do Mário - poderá ajudar a entender o descalabro futuro.
È que nem 'Portugal legitimou a dúvida' nem a dúvida se coloca - vai apenas! sendo constatada...
Publicado por: -pirata-vermelho- às abril 25, 2007 07:11 PM
Não só legitimou a dúvida, como deu ferramentas, as eleições, para se mudar o que se pensa que está mal.
Votar livremente! Liberdade, nem que seja para dizer mal!
Só por isso valeu a pena.
Publicado por: marta às abril 25, 2007 08:02 PM
... e pensar que da dúvida surgiu a "eleição" de Salazar como o maior português de sempre...
Enfim...
Publicado por: Rakel às abril 25, 2007 08:49 PM
Minha cara TATI
Que maravilhosa e singela descrição desta "junta de freguesia" que, apesar do 25 DE ABRIL de 1974,teima em persistir e, mais grave, nós "cantando e rindo" . Este texto com, a tua autorização, certamente, que vai ser ajuda preciosa para, de forma apelativa, iniciar as minhas apresentações sobre o 25 de Abril nas imensas escolas que todos os anos, ainda, desenvolvem essas iniciativas (até quando...)
Mas como diz uma amiga minha
25 de ABRIL sempre ... (apesar dos pesares)
bjs de Abril
ccbb
Publicado por: ccbb às abril 26, 2007 09:39 AM
Adorei o texto! Beijinho
Publicado por: Leonor às abril 26, 2007 06:26 PM
Alguém disse na Rádio: Fizemos o 25 de Abril para mudar o Regime mantendo o Governo e acabámos mantendo o Regime mudando o Governo.
Publicado por: JG às abril 26, 2007 06:33 PM
Estimados comentadores - Entre dúvidas e incoerências, derrotas e esperança, este novo país seduz-me. É frágil, pecador, nostálgico e iludido como eu. Quando o critico com dureza é como se falasse comigo. Porém, o amor a esta terra pobretanas e ao povo que nela viva sai intacto.
Obrigada pelas vossas palavras. Todos li
atentamente. E sim, destes textos que por aqui vão ficando usem-nos como bem aprouver. São vossos a partir do momento que os publico.
Abraços e beijinhos gratos.
P.S. A propósito, algum candidato a desfazer o 13 dos comentários? Não sou supersticiosa, mas pitada de prudência nunca fez mal a ninguém.
Publicado por: Tati às abril 28, 2007 10:15 AM
quatorze. :-D
Publicado por: anarresti às maio 4, 2007 04:29 PM
Só alguém como tu capaz de por aqui me mimar assim. :) Beijo
Publicado por: Tati às maio 4, 2007 05:44 PM
Era um país a preto e branco - Agora é só cinzento. Havia o bem e o mal. Agora só o “assim-assim”. A virtude e o pecado - Agora quase só o pecado. O permitido e o proibido - Agora só o permitido. Pessoas certas e erradas - comunistas, ladrões, democratas, assassinos, livres-pensadores, trafulhas, irreverentes, prostitutas, liberais, bêbados, artistas ousados, ateus. Somente na riqueza havia três categorias – muito ricos, remediados e pobres (a maioria). - Agora para além desses (eu acrescento) corruptos e gays. Agora na riqueza só há duas categorias – poucos ricos, e muitos muito pobres.
Era um país de filtros. Uniformes nos níveis de porosidade – passava o situacionista e ficava retido o “perigoso”, cruzado a vermelho pelos censores. Os humores e a tacanhez dos polícias do espírito filtravam a informação, os livros, os filmes, a música e o teatro. – Agora não há filtros (passa toda a porcaria).
Era um país de famílias – as poderosas e as outras. Mas famílias. Pai, mãe e filhos, ascendentes e descendentes, todos com estado civil triangular: viúvos, casados ou solteiros. Estes como pessoas menores sendo adultos e mulheres. Uma depressão no feminino – “doença dos nervos”, diziam – podia ter uma de duas razões: pesadas mágoas se casada, falta de homem se solteirona (estado avançado da degradação das mulheres que “ninguém quis”). – Agora é um país de famílias desfeitas. Apesar disso, Pai e Mãe têm que sustentar os filhos até aos trinta e muitos anos, porque apesar de lhes terem proporcionado uma licenciatura, estes não arranjam emprego.
Era um país de homens. Governavam o povo e as famílias, detinham os cargos superiores, pertencia-lhes a exclusividade da vida militar e doutras profissões. Agora é um pais onde os gays e prostitutas tomaram conta do poder. Tomaram conta das televisões, das rádios e dos jornais. É também um país de lojas dos chineses onde um povo inteiro se está nas tintas para o facto de os operários chineses ganharem 7 a 10 cêntimos por hora. O que interessa é que os produtos são baratos. O que interessa é que nenhum dos partidos portugueses se insurja contra a falta de respeito pelos direitos humanos na China. O “internacionalismo proletário” tão apregoado pelo PCP, pertence ao século passado - VIVA O CAPITAL.
Era um país analfabeto, rural, com elevada mortalidade infantil, pejado de deveres e diminuído em direitos, salvo a bebedeira, o prostíbulo e o futebol. Agora é um país de pessoas letradas com a orientação de professores com horário zero ou professores com 12 horas semanais, pouco mais de metade das horas trabalhadas diariamente nos países do oriente, ou o mesmo que um operário fabril trabalha em Portugal diariamente por 400 Euros. Agora já não estamos pejados de deveres. Só temos direitos: Pagamos dez vezes mais de impostos, a televisão acabou com os jogos de futebol, já não temos os directos enfadonhos de Fátima nas televisões, existem imensos programas culturais, os concursos televisivos já não são feitos para atrasados mentais, os bons programas são transmitidos as horas “nobres”, os nossos políticos já não são corruptos, os árbitros também não, os tribunais funcionam muito bem, já não há pedófilos (com excepção do Bibi), temos pleno emprego, plena escolaridade mínima; enfim, é tudo uma maravilha, somos todos doutores, muito bem formados.
Era um país sem dúvidas. Do nascer ao morrer. Acabada a primária, era sabido que, podendo a família sustentar “os estudos”, o destino seria a Escola Industrial ou o elitista Liceu. Os meninos pobres para se instruírem iam para o seminário, enquanto as meninas pobres faziam a “lida da casa”, trabalhavam nas fábricas ou no campo. O rapaz sabia que a guerra o esperava no alvor da juventude e, caso sobrevivesse, no regresso empregava-se e constituía família. As raparigas casavam cedo para amarem e procriarem com decência; trabalho fora de casa apenas por necessidade ou capricho da abastança. As mulheres eram velhas aos quarenta anos. Havia a certeza da morte ser precedida pelo “chamar o padre” e pela Extrema Unção; caso contrário, iam direitos ao Inferno e a família incorria em grave risco de escândalo social perpetuado até à terceira geração.
Agora é um país só com dúvidas! Do nascer ao morrer.
Assim, porque é que:
-Um dos n/ primeiros-ministros apoiou o Bush na guerra do Iraque?
-Outro dos n/ primeiros-ministros não condena os atentados á livre expressão e o desrespeito pelos direitos humanos na China e não recebeu oficialmente o Dalai Lama?
-Os pedófilos e os corruptos não são presos?
-Há cada vez menos ricos e mais pobres e a classe média vive cada vez com maiores dificuldades?
-As Câmaras Municipais, agora que o saneamento e o abastecimento de água às populações está quase todo feito, ao contrário de 1974 em que estava tudo por fazer, continuam a aumentar os impostos a cada ano que passa?
-Se é verdade que 93% das Empresas portuguesas têm menos de 20 Trabalhadores e são responsáveis por 90% do emprego, porque é que o governo só apoia a Auto Europa, os Bancos, as Sonae´s, que representam apenas 3% dos empregados em Portugal?
-O Estado que deveria dar o exemplo de “Pessoa de Bem”, não paga atempadamente aos seus fornecedores e não paga juros de mora e, “ad contrarium”, cobra juros de mora usurários aos contribuintes que são a sua (do Estado) própria essência, quando estes se atrasam?
-Os subsídios do Fundo Social Europeu que foi criado para apoiar as empresas na formação do seu pessoal não é dado a estas e é dado a Sindicatos, Associações Empresariais, Institutos governamentais, Câmaras Municipais e outros que tais, que por sua vez as distribuem pelos seus dirigentes e “compadres” que são constituídos formadores “à pressa”, a maioria das vezes sem a mínima qualificação?
-Sendo proibido por lei o pagamento de imposto sobre outro imposto o governo cobra para o Estado IVA sobre o IA (Imposto Automóvel)?
Tantas outras duvidas existem! (desabafo meu)
Há trinta e três anos que Portugal legitimou a dúvida. Bem maior não há.
ESTAMOS DE ACORDO!
E eu tenho muito orgulho em representar o miúdo da história “O REI VAI NÙ”!
Publicado por: Shamir às setembro 27, 2007 04:52 PM