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maio 27, 2007
A TARANTELLA DO VENTO

Autor que não foi possível identificar
Com o vento gosto de dançar imitação de tarantella. Dançá-la a sós é dito ser má sorte, e, por isto, é uma dança de pares envolvendo um homem e uma mulher ou duas mulheres. A tarantella cujo nome veio de Taranto no sul da Itália, é um circulo dançante, executado no sentido horário até a música se tornar rápida e todos trocarem de direcção. O ciclo ocorre algumas vezes, ficando tão rápido que é difícil manter o ritmo. Soçobram, portanto, muitos bailarinos. Para fugir ao mau fado, escolho o vento como par. Se o obrigatório me engaiola e impede de voar livre, assomo à balaustrada de ferro lisos e ergo o rosto à dança aérea. Semicerro os olhos para me concentrar na música do vento e balancear a compasso o corpo grato.
A minha rua é pobre em gente – saem e entram nas habitações pelos corredores subterrâneos das garagens. Aos jardins interiores atrevem-se algumas, poucas, crianças com os pais. Como se a travessia do ar bailarino fosse perigo para a saúde das gentes habituadas ao contaminado condicionamento do respirar. Humanos de estufa que pouco sabem do prazer do frio nos ossos, dos pingentes de gelo debruçados sobre os caminhos, do calor benfazejo à pele que dela faz pingar humores, da súbita e generosa frescura das sombras vegetais. Mas eu reclamo do vento a tarantella e o convite para dançar.
Publicado por Teresa C. às maio 27, 2007 01:26 PM
Comentários
bem visto, bem lembrado e bem escrito!
contra a calafetagem já Torga poemava ao "Ar livre" : arejar, arejar!!
esse apelo do vento é por aqui bem familiar... ou não estivesse Lisboa à mercê de Eolos, Tejo adentro, subindo as colinas por entre o casario, desabrigando até as almas nos terraços, varandas e miradouros
mas a evocação da balaustrada faz lembrar Cabo Verde, onde o vento não pára, insinuante e convidativo, e em especial um momento intenso no alto do Monte Verde, em equilíbrio arriscado entre o puro desamparo físico e a sofreguidão de sorver o fresco afago do lado de dentro da pele, quais ossos, a medula !!!
então há só um remédio: dançar...
Publicado por: argumentónio às maio 27, 2007 03:40 PM
Adorei esta dança das tuas palavras. Gostava de um dia tomar a vez do vento e dançar eu contigo.
Publicado por: Katraponga às maio 27, 2007 06:24 PM
É natural, não está você também "onde vejo o vento"? Pelo menos, é o que me parece
Publicado por: fallorca às maio 27, 2007 09:03 PM
Estamos na época da chamada 'aldeia global', mas cada vez mais longe da 'família global' e um prédio pode revelar-se um espaço bem vazio.
Publicado por: apenas um gajo e nada mais... às maio 28, 2007 01:19 AM
Argumentónio - adorei as imagens que pela via do seu discurso vi desfilar!
Katraponga - dancemos pois e vejamos onde nos leva a contradança... ;)
Fallorca - Acha?
Apenas um Gajo e nada mais - E logo hoje que é o Dia Internacional dos Vizinhos! Como lhe dou razão...
Publicado por: Tati às maio 29, 2007 10:06 PM
Teresa, é com prazer que acho... Mas admito perfeitamente estar enganado, o que não tem a menor importância. Muito mais teria o dia em que, por qualquer motivo, não a "lesse"...
Publicado por: fallorca às maio 30, 2007 06:33 PM