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maio 31, 2007

AMOR SEM FIOS

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John Falter

Amores telefonados. De presença por atacado, sempre curta demais. Quando a despedida dos corpos acontece, resta a voz, um ou outro e-mail, mensagens se urgência da alma fractura o trabalho. Um lá, outro além. Quotidianos de miudezas cuja partilha parece ociosa. Como se da sucessão dos instantes somente os grandiloquentes dignificassem de um a imagem no outro amado. Amado? Quais os parâmetros que distinguem o amor real – o idealizado, por que sublime, difere dos demais pelos intocados contornos que o dia-a-dia não perverteu – da necessidade de disfarçar nostalgias por sarar, da desesperança mascarada de ilusão, da urgência de um futuro que confira significado ao presente? É isto o amor?

Amor tem de ser fogo que queima e se vê, inquietação serena que contradiz a paixão, ânsia de partilha dos espíritos e dos corpos os fluidos, da pele e dos cheiros, fala muda de olhares e gestos isentos de culpa ou condenação. Amor exige confiança, ciúme que o senso filtre, descompasso do coração, desejo de futuro em que o «nós» conserve, plena, a significação. Obriga a força dobrada na guerra contra os medos, que vença o sentimento de precariedade e convença ser a vida como a Terra – firme, evolutiva, frágil se o descuido a esquece, rica, diversa, cruel na gestação de catástrofes, poderosa pelos (in)finitos recursos, majestática ao lembrar dos mortais a pequenez, bela por que somatório de inumeráveis (im)perfeições.

Ao amor empobrecem os fios ou as invisíveis luzes que a fala e os factos transmitem. Porém, amor. A conjugação da primeira pessoa no plural das decisões, omissões e vontades não carece de tecto comum, assim as luzes das tecnologias transfigurem sussurros e letras em abraços fortes.


CAFÉ DA MANHÃ

O "Almocreve das Petas" completou ontem quatro anos. Parabéns pelo necessário e magnífico trabalho.

Publicado por Teresa C. às 08:14 AM | Comentários (4)

maio 30, 2007

QUE VENHA A BORDOADA!

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Pearl Frush

Em cinco minutos e sem experimentar comprei na minha gruta de Ali Babá uma delícia de alças, nervuras, flores campestres, saia rodada, fita enlaçando a cintura e decote debruado com pirilampos de vidro. Mais – chegada a casa enfiei o vestido e caiu lindamente no corpinho de pobre que tenho a sorte de possuir. Isto sim!, é prova da minha lucidez. E não me venham com retóricas sobre o novíssimo escândalo das Provas de Aferição. A coisa é fácil de entender.

As provas de aferição servem para o que indiciam – aferir. São dois os níveis de informações obtidas – qualitativas e quantitativas –, e muitos os objectivos que logram atingir; o formativo não é despiciendo, nem restrito a provas iniciáticas. Ponderemos: a maioria dos nossos estudantes pouco ou nada se afastou do nível médio da iliteracia das gerações que os antecederam. Juntar letras e da palavra entender o significado não é o mesmo que ler. Da iliteracia advêm consequências danosas para o desenvolvimento individual e para qualquer abordagem científica. De resto, o raciocínio lógico que alicerça a leitura eficaz é semelhante ao da Matemática, ambas indispensáveis às Ciências em geral.

Uma prova de aferição traduzida quantitativamente, como qualquer outra que obrigue à conversão numérica dos resultados, obedece a rígidos critérios de correcção. Ora, se o conteúdo a testar é a compreensão da língua expressa num texto, julgo adequado dispensar factor de análise que, por si, nada tem a ver com interpretação. Mais adiante na prova, o aluno será avaliado pelo respeito da ortografia.

Incluir na avaliação final do estudante o resultado quantitativo por via desta aferição não configuro decisivo, conquanto seja opção aceitável se considerada como mais um parâmetro num processo de avaliação continuada. A sujeição ao rigor de um teste escrito nacional, a consequente comparação de resultados entre pares que propiciam o desafio do aluno com ele próprio, a habituação a um formato diferente do usualmente testado durante o ano lectivo, a motivação extra fornecida aos docentes para também eles subirem degraus na qualidade do processo ensino-aprendizagem, são os bens maiores. E que venha a bordoada, escrita ou silenciada pelos leitores, cada um aferindo a indignação pelos sítios pouco jeitosos para onde o respectivo desejo apeteça enviar-me.

Publicado por Teresa C. às 07:20 AM | Comentários (5)

maio 29, 2007

ABAJO CHÁVEZ, ARRIBA ESPAÑA

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Autor que não foi possível identificar

Detesto tigelas-meias excepto quando a sede-fome aperta e nelas bebo caldo passado de variados legumes. O Chávez é um ditador da treta, mais ditador do que treta, um bronco terrorista dos espíritos. Do corpanzil entroncado poderia advir harmonia ao dedilhar uma viola, força bovina para derrubar a miséria, pulso de ferro que levasse adiante um povo. Mas não! O homem entende por poder uma imitação palhaça do carisma que no Fidel é passado. Quem rente corta com tesoura de poda tem de a saber manejar ou elimina de vez a seiva de braços que haveriam de produzir riqueza. Com lágrimas venezuelanas e do mundo, segundos antes da meia-noite de domingo, a Rádio Televisão de Caracas (RCTV) emitiu pela última vez. Cinquenta e três anos resumidos a imagens retroactivas e ao hino nacional entoado com emocionada revolta pelos funcionários da estação. De imediato, a polícia desceu à rua montada em canhões de água para dispersar a multidão dos protestantes sem-medo.

Outra meia-tigelice que não entendo li no quiosque da D. Rosarinho - o Esteves-não-sei-das-quantas que deixou a mulher por via da Elsa Raposo e a esta deixou recuerdos físicos de dolorosos caldos, não é que anda enrabichado com uma das manas de bronze e de seu nome Cinha, a mesma que namorou um médico espanhol que ninguém viu e quando internada à conta dum chilique fechou na cara do Mário a porta do quarto privado dum hospital privado e o deixou murcho com as flores na mão? Mais uma: o FJV deleitou-me com a nova receita da civilidade espanhola à moda do Zapatero. Ingredientes: deitar cedo e cedo erguer, pernas para que vos quero em corridas, marchas e ginásios, cortar nos manjares salerosos feitos de tudo quanto faz mal e sabe bem. Que o homem arrede a tentação de decretar o fim da siesta - nas próximas eleições leva uma «zapatada» tal que aterra, directo, num Spa em Berlim.

Publicado por Teresa C. às 07:48 AM | Comentários (6)

maio 28, 2007

PROSTITUTA

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Milo Manara

A Paula Lee nomeou-me candidata ao Thinking Blogger Award. Visitei o sítio com vagar - escrita cuidada cuja substância, à primeira leitura, é exibicionista, decerto provocadora pela ficção(?) consistente. Personagem – prostituta selectiva na escolha dos clientes, com horário de atendimento e prestação de serviço ao domicílio. Versão actual de uma realidade antiga. Da Babilónia, Heródoto relatou o costume das mulheres da sociedade se oferecerem nos templos aos estrangeiros, em troca de algumas moedas e oferendas para a deusa. O Livro de Josué menciona a prostituta Raab, que pela bondade e coragem arriscou a vida ao esconder em casa dois espiões israelitas de visita à cidade de Jericó. Na Grécia, as hetairae conquistaram relevância social pela inteligência, pelo desprendimento, pela esperteza e pela capacidade de administração do capital; circulavam nos meios masculinos e teciam políticas. Rodopis, prostituta grega acumulou fortuna no Egito que justificou a construção duma pirâmide. Esta diversidade persiste e impede a cristalização de uma ou outra versão da prostituição, decorrendo a pergunta se não é a economia que regula e define as práticas das prostitutas.

“Enquanto se considerar prostituta uma mulher de segunda e o sexo como algo que suja - especialmente as mulheres que se atrevem a tocá-lo já que os homens devem usar luvas - é difícil ultrapassar a cultura que penaliza a liberdade sexual feminina. E muitas vezes a simples liberdade de agir segundo a própria vontade, já que se cola uma reputação a uma mulher mesmo sem ela ter feito nada para isso, quando se quer menorizar essa mulher. O reverso do poder do sexo também é esta perversão de enxovalhar quem atenta contra o estabelecido.” – Comentário do «Anarresti» ao texto “Ao gajo que nome atribui?” de 30 de Abril.

Ainda naquela entrada, «Maria», escreveu: “A mulher continua a ser tratada pelos homens como qualquer coisa que uns dias divinizam, sobretudo quando obedientemente cozinham, passam a ferro e limpam, aturam as más disposições e o ler do jornal á mesa num completo alheamento, sem nenhuma consideração por quem passou grande parte do dia trabalhando, para que tudo esteja em ordem. Noutros dias, consideram ser a puta que não respeitam, mas de quem exigem que se supere para que o prazer seja supremo.” Este é um doloroso olhar sobre a prostituição nos casamentos de amor morto e laço conservado por razões pragmáticas: sustento, estatuto, medo.


CAFÉ DA MANHÃ

thinkingbloggerpf8.jpg Agradeço a nomeação pela Amante Profissional.

- O blogue da Mad completou três anos. Parabéns!

- A um mui estimado comentador dedico a imagem de hoje.

- A Brit, o Espartano, o Fantasma Pervertido, o João de Miranda M., a Minnie Mouse e Daisy Duck, a Paula Lee, a Sweety e o Team 69 estabeleceram ligações para este blogue. Muito obrigada.

Publicado por Teresa C. às 10:25 AM | Comentários (9)

maio 27, 2007

A TARANTELLA DO VENTO

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Autor que não foi possível identificar

Com o vento gosto de dançar imitação de tarantella. Dançá-la a sós é dito ser má sorte, e, por isto, é uma dança de pares envolvendo um homem e uma mulher ou duas mulheres. A tarantella cujo nome veio de Taranto no sul da Itália, é um circulo dançante, executado no sentido horário até a música se tornar rápida e todos trocarem de direcção. O ciclo ocorre algumas vezes, ficando tão rápido que é difícil manter o ritmo. Soçobram, portanto, muitos bailarinos. Para fugir ao mau fado, escolho o vento como par. Se o obrigatório me engaiola e impede de voar livre, assomo à balaustrada de ferro lisos e ergo o rosto à dança aérea. Semicerro os olhos para me concentrar na música do vento e balancear a compasso o corpo grato.

A minha rua é pobre em gente – saem e entram nas habitações pelos corredores subterrâneos das garagens. Aos jardins interiores atrevem-se algumas, poucas, crianças com os pais. Como se a travessia do ar bailarino fosse perigo para a saúde das gentes habituadas ao contaminado condicionamento do respirar. Humanos de estufa que pouco sabem do prazer do frio nos ossos, dos pingentes de gelo debruçados sobre os caminhos, do calor benfazejo à pele que dela faz pingar humores, da súbita e generosa frescura das sombras vegetais. Mas eu reclamo do vento a tarantella e o convite para dançar.

Publicado por Teresa C. às 01:26 PM | Comentários (6)

maio 26, 2007

COM TOMATES

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Sorayama e Susannah Blaxill

Deste blogue o título é claro: “Sem Pénis, Nem Inveja”. No meu entendimento, da ausência de pénis decorre a omissão das bolsas testiculares vulgarmente designadas como os encarnados e polposos frutos pendentes do tomateiro. Ociosidades que parece nem virem ao caso. Mas vêm. A Luna, num gesto de bom humor e simpatia, nomeou candidata ao “Prémio Blog com Tomates” esta chaminé virtual. Averiguei o contexto. A “Voz em Fuga” escreveu: “Considero um Blog com Tomates aquele que luta pelos direitos fundamentais do ser humano.” Descansei – o berço era credível e sem as chuchas usuais. Mesmo assim... E por ali me fiquei ruminando congeminações.

Tomates. Sim ou não? Dos literais aprecio o lustro e a maciez, o sabor e a consistência estando no ponto, que é o mesmo que dizer nem verdes nem a cair de maduros, antes rijos e apetitosos. Inconveniente – derramado o sumo na pele, ganho borbulhagem e coceira nas mãos. Prefiro, por isto, saboreá-los directamente na boca sem os picar ou partir. Felizmente, há no mercado tomates em conserva já cortados e com aroma a mangericão. As pastas frescas merecem e fica soberbo o pitéu.

Voltando aos tomates do prémio – rica deixa me foi dada para desbronca soez. “Então é assim:” enjoo notícias vazias, a falta de elevação no discurso político, a intolerância, a propaganda de quem não fez e não deixa fazer, a rejeição primária ao novo, o politicamente correcto, a corrupção, os bufos, os mangas de alpaca por vocação, o boato, a trapaça mediática, a incapacidade social de proteger crianças e idosos, a arrogância, o cinismo, a medíocre preocupação pedagógica com a inconsciência cívica dos cidadãos, os gatunos de almas e malas, as decisões oportunistas ou levianas tomadas no ar condicionado dos fofos gabinetes, o martelar no «deserto» de um ministro e o ruidoso silêncio sobre Darfur. E não, não engulo essa dos senhores jornalistas não poderem aceder ao local onde a cada segundo se agiganta a maior tragédia deste começo de século. Hoje ouvi alguma comunicação social referir Darfur. Triste razão... Em Cannes, actores que sabem vender o talento e a cara laroca denunciaram o drama.

Publicado por Teresa C. às 11:14 AM | Comentários (5)

maio 25, 2007

DAS PAIXÕES, A CEGUEIRA

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Autor que não foi possível identificar

Até meados de Maio, os funcionários por conta alheia trabalharam para o sustento do país. Pagos os impostos, sete meses restam aos forçados cumpridores das obrigações fiscais para proverem às necessidades particulares. Ora o pessoal levantou-se cedo, aturou filas de trânsito, greves nos transportes, atendeu bizarrias dos chefes, obrigações familiares, compromissos financeiros, viu-se e desejou-se para sobreviver negando a revolta e conservar acesa a esperança duma vida melhor. E compra revistas de automóveis que jamais conduzirá, vê novelas, papa concursos das televisões, aos livros diz não como um terço dos portugueses. Por Feira do Livro entende promoção desinteressante do hipermercado. Ainda se fosse de vinhos e queijos...

Subindo degraus sociais, a preocupação é outra – feitas as contas, pedir a exoneração do cargo profissional é maior poupança que o recebimento do ordenado. “Tenho tanto projectos para satisfazer enquanto o fim não chega, que todo o tempo é pouco. Pagar para trabalhar? Nessa evitarei cair! Chegada a idade da reforma, o pagante será o Estado que há muito não viu a cor do meu dinheiro.” Havendo solidez nas finanças individuais, esta é belíssima decisão para quem trocou cometimentos pelo apaixonado zelo profissional. A cegueira das paixões cura-se se for escasso o retorno e descarado o assalto ao bolso. E depois, quem gosta de ser comido por parvo ainda que o condimento seja gostoso?

Publicado por Teresa C. às 07:08 AM | Comentários (4)

maio 24, 2007

SEXO SEGURO

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Autor que não foi possível identificar

Mulher que pretenda ser levada a sério “deve” ter fala circunspecta, disseminar na conversa referências culturais inquestionáveis, soltar indícios atentos ao In & Out intelectual. “Não deve” ser muito bonita, ainda menos vistosa – para muitos sinónimo de vulgaridade –, evitar arrojos na apresentação e dominar pela portentosa distância e pelos silêncios de onde pendem as «pérolas». Excepto na boniteza, este é o retrato oposto do meu.

Tivesse paciência ou vontade de impressionar, peroraria sobre íntimos e valorosos prazeres espirituais, voláteis indignações – o professor que o não é, dizendo o que não disse perante amigos que o não eram, e sob a alçada de uma directora com o pior das galinhas e sem prometer boa canja. As pulverizadas candidaturas à presidência da Câmara de Lisboa ou os alçapões do poder ou a metafísica criativa do ministro Mário Lino dariam temas «In» se condimentados com citações dos clássicos e garantia de elevação. Problema: dispenso ossos roídos e prefiro da vida o acontecer.

Os humanos têm apertos mentais que nem o ilustre António Damásio ainda vasculhou. Sem carecer de levantamento estatístico, larga percentagem de homens emparceirados em sociedades binominais afectivas consideram ter sexo seguro se a(o) respectiva(o) estiver fora da cidade. Chegada a exaltação da libido, gesto que retarde a penetração dos corpos é escusado. O preservativo não sai da gaveta ou do bolso do casaco, “se a (ele me) emprenhar logo se vê, porque a pensar não vou lá e isto é bom demais.” E não adianta informação, nem sisudez intelectual ou o bom senso costumado – ala que se faz tarde porque a maré é tão boa como o marinheiro e a embarcação já ondula na líquida fantasia. O amanhã? Por agora que se lixe, mesmo se o depois for lixado.

Publicado por Teresa C. às 08:17 AM | Comentários (10)

maio 23, 2007

HADDOCK, TARENTINO E OFFSHORES

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Michael Godard

Afirmas não ser vinho - “combinação química colorida e agradável de beber.” Admitiste que o palato esvaziou a garrafa e soltámos o riso pela insólita escolha. Entendi o repente e percebi também as razões do Hergé preferir o Capitão Haddock e achar difícil caricaturar mulheres – como reduzir a traços os infinitos cambiantes femininos? Aceito que o improvável coelacanto dos oceanos tenha sobrevivido à catástrofe que fez extinguir os dinossauros e, como fóssil vivo, desde há quatrocentos milhões de anos teime em resistir. "Neptuno das águas que um dia procurou solo firme e quis caminhar, nadadeiras como incipientes patas a contradizerem o corpo coberto de escamas" foi a descrição do Fernando Alves nos Sinais. Mesmo sem ver o último de Quentin Tarentino que seduziu Cannes - “À Prova de Morte” onde jovens voluptuosas terminam cruelmente assassinadas no asfalto por um psicopata -, compreendo o quase certo triunfo e a tranquila afirmação do realizador: “a única lista mais prestigiosa do que a dos ganhadores da Palma de Ouro é a dos perdedores.” Se de algumas coisas percepciono as razões, inferioriza-me nada entender de offshores nas Ilhas Virgens Britânicas, Cayman ou Bahamas. Não vou além de os ter por édens fiscais de habilidosos que sonegam os bens à colecta de impostos para que o cidadão comum os pague em vez deles. Ora, sendo infinita a minha ignorância e tendo em vista o bem comum, não é viável o extermínio destes fósseis humanos?

Publicado por Teresa C. às 06:28 AM | Comentários (7)

maio 22, 2007

PATINA DE FRANGO ASSADO

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Alessandra Ariatti

Para quem vem das Amoreiras e mergulha na cidade esquecida, o cheiro a frango assado antecipa Campolide. De arquitectura pobre, comum em Portugal, a classe média que a recheava envelheceu e passou a envergonhada pelas reformas pequenas. Com a patina do tempo – visão romântica da pintura descascada que a acidez da chuva sulcou de negro – o bairro laborioso tornou-se lar de terceira idade, o apoio domiciliário substituído pelo comércio de vão de escada. O Sr. Zé, que vende frutas, legumes e básicos de sobrevivência, dá o alarme se há baixas na contagem das visitas diárias. O mesmo com a Cidália que limpa as escadas de para cima de meia dúzia de prédios, ou a D. Joaquina que, atrás do balcão, bem conhece os fregueses da leitaria herdada do defunto – “Mais valia tê-la vendido quando o «chinoca» quis comprar, mas que quer?, ensimesmou que gente daquela nem vê-la e olhe no que deu!, enfiou-me neste prisão; foi-se, que Deus o tenha, meio ano depois de nada valendo a esquisitice porque o chinês abriu uma loja duas portas a seguir.”

Deslustra o bairro não ter marcha que arrebate troféu na dengosa Avenida na noite de Santo António. Merece olhar de esguelha pelo acesso directo ao humilde bairro da Liberdade prás bandas da Serafina. Falta-lhe o sortilégio do vizinho Campo de Ourique, cujo comércio a nata social (re)descobriu, ou do elitismo da Lapa. Não é uma das setes colinas engendradas pelo frade Nicolau de Oliveira à imitação de Roma - São Vicente, Santo André, Castelo, Santana, quinta S. Roque, Chagas e a sétima, a colina de Santa Catarina do Monte Sinai desdobrada em socalcos para o rio. Já bastando o bastante, viria o cheiro a frango assado desde o meio das manhãs anular os perfumes-de-sair das poucas senhoras de sobrancelhas de lápis destacadas no pó-de-arroz. Amoreiras e Campolide extremam segmento de idiossincrasias duma cidade impiedosa no arrumo das classes sociais.


CAFÉ DA MANHÃ

A pintura do Michael Zavros ilustra dos gestos a alquimia.

Publicado por Teresa C. às 08:01 AM | Comentários (4)

maio 21, 2007

SEM BATERIA

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Colleen Ross

Derramava a consciência por detalhes prioritários. Como picada de mosquito foi o lembrar incómodo da banalidade que a todos já sucedeu – “Estou sem bateria; falamos quando chegar.” Suspendi o gesto a meio e da atenção concentrei a entrega. O cocegar da desconfiança empolou-me o espírito como pele que reage ao veneno de insecto. Se não cuidasse de garrote que lhe impedisse o alastrar, ficava arranhado o espírito – reconheço os sinais da tentação de especular, de ir a favor do vento da fantasia, esquecendo o solo firme onde os pés assentam e os factos são.

“Sem bateria”, acrescentara algumas vezes à laia de omissão-mentira, sabendo da minha incompatibilidade entre o ser e o parecer. Em pequena, quando no caminho das mentiras ensaiei os passos, o rubor ou os olhos baixos afadigados em pestanejar tornavam-me transparente. Ao crescer, julguei-me habilitada a tentativas com sucesso – pueril engano!, liquefazia o íntimo e sobrenadava o embuste. Arquivei o balanço dos infelizes ensaios para memória futura e nas crises da verdade limitava-me a omissões. Quando o suporte electrónico do telemóvel deixou de atafulhar o porta-bagagens e o aparelho ficou maneirinho, passei a usá-lo. Viria a coincidir com o novo hábito o mentiroso acrescento ao não-dito – “sem-bateria.” Como pano caído sobre os bastidores dos momentos. Como fuga ao não apetecido. Como mentira descarada. Arranhão doloroso. Infidelidade à boa-fé do outro e ao meu ser.

Publicado por Teresa C. às 10:04 AM | Comentários (5)

maio 20, 2007

OUVINTE DE SILÊNCIOS

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Jim Warren

Ouvinte de silêncios. Como submarino imóvel que escapa ao radar do espírito interlocutor. O calado traduzo em fala, enganadora talvez. Não me arrogo acutilância ou dons divinatórios, todavia é a palavra suspensa que julgo entender melhor. Ou gestos por concretizar. Ou emoções pairando em limbo de reflexão.

Códigos tradicionais conheço alguns – matemático, social, físico, português - do literário, do vernáculo e do rural gostaria saber mais - , um par e meio de línguas alheias, arranho o código económico, o químico trato por tu. Apaixonam-me uns, outros uso com indiferença; de todos recolho vantagens como a de rir com gosto da resposta à pergunta “Porque se dissolve o urso branco na água? - Porque é polar.” Piada seca? - Nem um pouco para quem das partículas ultramicroscópicas conhece a estrutura. A gestão dos silêncios funciona como impressão digital: é exclusiva de um indivíduo. E se as curvas celulares da pele fazem parte do código genético que ignoro e, por isso, pouco me dizem, já as pontes e os fossos dos silêncios são delatores.

Na condição de submarino não me incluo nos atómicos que podem esperar anos por reabastecimento de combustível e serem armas letais - preciso de renovado fluido emotivo, de gestos mansos, da âncora da confiança. Sem lua que ao oceano dos sentimentos determine marés vazas e cheias definha o apelo do entendimento. Serão mudos os silêncios. Náufrago o outro. Eu insuflo o salva-vidas e aproveito a praia-mar.

Publicado por Teresa C. às 07:40 AM | Comentários (8)

maio 19, 2007

VER O INVISÍVEL

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Michael Zavros

Gostei de ver o invisível. De escutar o indizível. Confirmar o laço íntimo que une dois seres. Sentir a cumplicidade serena que a sabedoria dos anos traz. Por que um par afirma a ponte afectuosa por nadas somente reconhecidos por quem ama também. Matrizes diferentes – a jovialidade irresistível de um, a calma bonomia do outro. Pressenti o quotidiano de mútuos cuidados, a aposta de preservar justo o laço nos cumes e vales calcorreados sem a benção social ou o precário “até que a morte vos separe.” Li a alegria e o orgulho de um quando na ribalta o outro, com propriedade, se agigantava.

A partilha de dias e leito, isenta de leviandade, é como água que corre mansa entre margens, se esfarrapa contra penedos para reaver a fluida passagem. O sexo oscila como a alegria, o breu, a voluptuosidade ou os dias – toca édens e infernos ignorados, aquieta-se em afagos brandos, é bravio e adormece quando tem de ser. Quem da vida a dois, fundada com solidez, desiste aos primeiros escolhos, terá de reaprender, assim queira progredir na escolaridade dos afectos, a soletrar a palavra Amor.


CAFÉ DA MANHÃ

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Andrew Potter

Hé aqui la prueba de que Dios existe

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Autor que não foi possível identificar

Péro, también descansa...

Publicado por Teresa C. às 09:34 AM | Comentários (5)

maio 18, 2007

ORGASMOS AMBIENTAIS

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Sorayama

Pela mão atenta da Ex.ma Senhora Carla Santos recebi na caixa de correio deste blogue a informação seguinte:

“Sex Shop ao domicílio? Só para mulheres! Escutar, assessorar, informar e ensinar é a postura pedagógica que o Salão Internacional Erótico de Lisboa (SIEL) vai adoptar na edição de 2007. O público feminino será alvo de atenção especial: vai ter uma área de acesso exclusivo às mulheres.”

Ao declarar-me “Sem Pénis”, a Carla achou por bem que tão desprovida eu não deveria continuar. Por que a pedagogia é coisa séria, nada como a oferta de uma assessoria especializada – quiçá posso ter acesso a detalhes do potencial assessor? – e fornecimento domiciliário de artefactos adequados à falta do dito apêndice – indispensável é a ficha técnica dos materiais, porque sendo alérgica ao sésamo, a metais salvo ouro e platina, e ao não-metal selénio, quem me garante não ficar o meu corpinho borbulhento de um momento para o outro? O «pormaior» de uma área exclusiva a mulheres contrariou-me – fêmea que ao referido Salão se desloque só terá a ganhar com a terapia de choque dada por homens ululantes pingando humores viscosos. Aliás, a pedagogia do SIEL deveria começar por aqui.

Nem de propósito, os americanos revelam – finalmente! – preocupações ambientais em particulares que aos magnatas e à economia não causem danos. Desta feita recomendam que as viciadas em orgasmos no banho passem a fruir a seco do prazenteiro entretém. Entre o ir e o vir é um desperdício de água, bem escasso, é sabido, que é aconselhável economizar. De ora em diante, as water victims ouçam gravação da água corrente, encham um alguidar e limitem-se ao lava-pés.

Publicado por Teresa C. às 06:40 AM | Comentários (0)

maio 17, 2007

MANTEÚDO A SARDINHAS E VUITTON

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Pat Durgin

Ele não gostou do reparo do polícia. O cão estava lustroso, penteado, pedigree reconhecido por documento burocrata, coleira Louis Vuitton. Um passeio de automóvel cheiriscando o dono ao volante, era presente melhor que osso pouco rapado. Em Londres habituara-se às frias neblinas, à liberdade condicionada pelo estatuto de manteúdo por celebridade com paparazzi à coca. Nas vindas a Portugal apetecia-lhe despir o casaco de pêlo - impróprio para o sol que as nuvens não filtravam e pelo calor de lareira que a pele não suportava. E havia os cheiros. Dos churrascos em primeiro lugar. Febras e suculento entrecosto traziam-no de nariz alçado e, por isso, com o apetite em alta que o tédio dos biscoitos e rações não satisfazia. Minguava-lhe a musculatura no decorrer do Verão algarvio. Outros cheiros intrigavam-no – o do suor das gentes (des)temperado com bronzeadores de supermercado e o do peixe, sardinhas em particular, cozinhado na grelha aquecida a carvão.

Mais havia que estranhava: as andanças dos humanos divididos entre as casotas, areia e mar. Os gritos. As buzinas doudas. O bufar ruidoso dos escapes. Nem entre os muros da casa o bulício cessava; ressentia-se o sono, amolecia o corpo, vinha a modorra como anestesia de veterinário. Mas gostava. Fartura tinha de horários rígidos para passear, comer e dormir. Do cheiro a nada. De frio e silêncio. Das brincadeiras com os meninos no jardim e no casarão do bairro exclusivo. Por isso rabiava e espetava as orelhas no automóvel que o levava a passear. Quando viu o polícia imponente embirrar com o dono, rosnou. Apesar da memória confinada, sabia que lá longe onde estivera, com o senhor ninguém se atrevia. Menos ainda uma farda de giro. Os salamaleques e pedidos de autógrafos desculpavam infracções. Noite na prisão nem pensar! O Sr. Mourinho bem recalcitrou à admoestação, rosnou alto à moda dos humanos locais, misturando o pior linguajar dos nativos do sol e das sardinhas mais os chocos. Não é que o destempero obrigou o mister a pagar cara a pernoita fora da prisão?! Sacudiu as orelhas em sinal de desconsolo. Quantas saudades do barulho fora-de-horas, dos cheiros, da modorra acalorada, da servilidade devida ao seu dono e senhor...


CAFÉ DA MANHÃ

Falar de Blogues

17 de Maio, às 19 horas, na livraria Almedina, Atrium Saldanha, Lisboa

“Há cronistas que têm blogues. Porquê? O que acrescenta o blogue à crónica na imprensa e ao comentário na televisão?”

Carla Hilário Quevedo, Fernanda Câncio, José Pacheco Pereira e José Medeiros Ferreira irão responder. Pena minha não poder assistir.

Publicado por Teresa C. às 08:33 AM | Comentários (0)

maio 16, 2007

BAMBOLEO

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Autor que não foi possível identificar

Vapor de água e dióxido de carbono quase tudo. Sobem, enovelados no ar, os produtos da queima orgânica. Fuligem é subproduto. Calor a rodos como é próprio das combustões - do arvoredo, dos espíritos apaixonados, dos corpos enleados como eras. Raízes afundidas no exaltado suporte dos sentidos. Rumba, salsa, louco bamboleio. Soprando irados os ventos, é avivado o lume. Crepitam troncos e emoções. Água que escorre nas costas cujo rego os dedos perseguem. Que migra para o peito e contorna os seios. Conhecidos vales como novos leitos. Bebida sem saciar. Desaguando em formosa cascata que o incêndio serena, iludindo quem o julgar extinto, reacendido a qualquer momento – um beijo, uma carícia, fantasia partilhada. “Porque mi vida, yo la prefiero vivir asi”.

Os dias cálidos propiciam desatinos fogosos. E chega dos incêndios o tempo. Arde a terra que não mitigou a sede. Ardem matas por limpar – por descuido, pelo custo, pela propriedade dividida em mínimas fracções. Meios frugais combatem o riso das chamas. Mas há planos e campanhas e recursos maiores e formação humana. De fora ficam os donos dos prédios rústicos onde o mato ressequido se agiganta. Rastilho de pólvora seca propício à dança ardente. Bamboleio que “no tiene pardon de dios”.


CAFÉ DA MANHÃ

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Hoje, pelas 18.30, na Fnac do Chiado chega a “Cidade Proibida”.

Não mereço tanto, mas comoveu-me o laço solidário que nestas volatilidades as mulheres sabem prezar. Obrigada

Publicado por Teresa C. às 06:52 AM | Comentários (4)

maio 15, 2007

DA RODA AOS PATINS

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Heavenly Hussys

Parece ter surgido nos povos nómadas da Ásia Central. Sem a roda, adeus carro movido por homens, animais ou motores. À conta dos ancestrais carros de carga puxados pelo sexo tido por forte - à época, que na actualidade está emocionalmente mais débil que o oposto -, deve ter resultado a expressão “burro de carga”. Como a evolução social não esculpiu somente o masculino, na última meia dúzia de décadas, animais de carga têm sido as mulheres no cúmulo da profissão com o trabalho doméstico.

Uma frívola consequência da invenção circular foram os patins. Dão gozo, dizem, que eu nunca me ajeitei com aquilo nos pés – prefiro sentir-me rente ao chão e à segurança. Faltou-me a coragem de vencer o desequilíbrio e rolar contra o vento. Ainda assim, vim a fruir dos patins. No deslizar do tempo, aprendi a remeter aos patins o que, controlando, me condiciona, contrafaz ou desagrada. À frase que emudeço “vais de carrinho”, prefiro “vais de patins”, talvez por considerar que a despedida ganhava despacho e eu paz. Ao escabeche mediático – no caso a desaparecida Madeleine -, aos arregimentados cabotinos, cretinos, criançolas, crispados compulsivos – das letras, prefiro o «c» por que sendo redondo tem janela – mando passear de carrinho ao jardim das malvas. Se figura avulsa, aqui sim!, um par de patins alivia-me o constrangimento.


CAFÉ DA MANHÃ

A "parte séria" deste senhor, passa a estar - “porque às vezes me apetece”- aqui.

Publicado por Teresa C. às 08:24 AM | Comentários (0)

maio 14, 2007

GARFO NA FÊMEA

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Autor que não foi possível identificar

A Senhora de Fátima fez o milagre de domar a minha teimosia - deixei o carro na garagem e fiz-me aos carris. A publicidade do serviço Alfa Pendular é fiável. Mais: “numa carruagem possibilita do mundo a visão inteira.” Isto diria a antropóloga sentada ao meu lado. Pousado o livro de nome e autor estranhíssimo, capa sóbria, tudo indiciando seriedade intelectual, teve a subtileza de entender o meu ar frívolo e pôs-me a Lux na mão. Nem pestanejei. Cabeleireiro somente em Junho, e o funesto AVC da Margarida Rebelo Pinto escarrapachado na capa convenceram-me. Vi os bonecos e descansei – os quarenta e um anos da escritora resistiram. Ainda bem!

Do baú que é a mala de uma mulher, decidi entre dois autores. “E Deus Pegou-me Pela Cintura” foi a escolha. Satisfeita, há meses, a curiosidade pelo novo, era a fruição da escrita per si o apetite. A “Cidade Proibida” não tivera tempo de comprar. Mas qual quê? A «Mulher do Lado» não era a Fanny Ardant, mas igualava-a na densidade e ganhava na fala pensada. Curioso – sou silenciosa em viagens de carrego e adivinhei-a tal qual. Com dois homens soberbos a tiracolo, privilegiei a mulher. Fiz bem.

Ouvia a TSF. Conferia. Não via televisão. Também. Dera baixa da TV Cabo há uns anos e esquecera. Os serviços noticiosos pingavam regularmente no écran et ça suffit!” Finado o aparelho, substituiu-o por outro. Mais non!, Nada!, Niente ! Nadica de nada! Null! Resignou-se, lembrada a renúncia ao serviço por fio. Telefona uma amiga e vem à baila o sucedido – “Não te amofines. Espeta no orifício-fêmea do cabo o dente de um garfo e verás.” Achando milho a mais por tão parco investimento, experimentou. Metálico, dos dentes ao cabo, só tinha de sobremesa - “Vejamos no que isto dá!” Resultou. Ó pasmado espírito meu! Pode lá ser? Hum... a imagem ainda não é o que era. E se tentar com o garfo do forno? É maior. Perfeito não, melhor que antes! Pena o malvado do garfo teimar em cair... Fácil: colher grande ao alto e garfo nela encaixado. Nem o serviço pago jamais lhe oferecera tal perfeição.”

“Um homem o que faria?” – Perguntámo-nos em simultâneo. “Comprava uma antena ou uma parabólica ou um serviço domiciliário do melhor; antes, rezingaria e do incidente exigiria admissão de culpas ou faria drama”, acordámos. Uma mulher é expedita – usa um garfo e a electrónica funciona como bom tempero em assado.


CAFÉ DA MANHÃ

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A Myriam Zaluar, no suplemento "Domingo" do jornal "Correio da Manhã", publicou uma reportagem sobre blogues no feminino. A Mad, a 100nada em dois dos seus blogues, e a CK foram excelente companhia. Agradeço à Myrian a lembrança desta humilde escriba.

Publicado por Teresa C. às 09:32 AM | Comentários (8)

maio 13, 2007

QUANDO AS AZEITONAS SUMIRAM

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Mark Keller

Há vinte anos durava o casamento. “Por paixão”, afiançava ele. Não houve crise dos três, sete ou nove anos. Ou não dera por elas – “coisas de mulheres amuadas cujas razões deixam secretas e um gajo não adivinha nem entende”. Pelo sim, pelo não, dava-se por culpado e apaparicava-a até à volta da normalidade. “Uma mulher gosta de dizer às amigas: «aprendeu a lição e anda à minha roda como um cordeirinho». Fazia-lhe as vontades por umas horas ou um dia e a coisa resolvia-se.”

“Quando vieram os filhos, ela não via outros sóis ou luas. Como se eu tivesse cumprido a missão e só fosse preciso como pagante, tarefeiro e pronto-socorro de avarias. Tudo bem, pensava; a vida dos casais é assim e, seguro de assinar o ponto conjugal e trazer bem-estar à família, não seriam alguns imperativos da carne por fora a beliscarem o amor que lhe tinha. Miúdos mais crescidos, economato de vento em popa, julgava de volta à mulher a alegria que me apaixonara. Iludi-me. O que veio foi o ramerrão. Um nevoeiro frio e espesso. A dose massiva das enxaquecas. Pelas culpas que arrastava e pela família, conformei-me.”

“Estranhei a mudança na manteiga – um sucedâneo magro e ensosso. Desapareceram as bolachas que eu trincava ao serão. O sumo do meu pequeno-almoço sofreu um downgrade - marca branca do supermercado. Quando sumiram as azeitonas quis saber a razão – «ninguém as come excepto tu. Compra-as! E não te esqueças de levar o meu carro à revisão e mandar vir o homem para tratar do jardim e da piscina». Voltei à estratégia antiga. Num fim de semana e numa segunda-feira ficou tudo num brinco, excepto as farruscas da nossa vida. Não havia passado uma dúzia de dias, trouxe-me o papel do divórcio. Como murro seco. Dobrei-me na dor. No pesadelo. Mas assinei tudo. Fui um gajo porreiro. Hoje, sei: fodeu-me com aquela da revisão, do jardim e da piscina.”


CAFÉ DA MANHÃ

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No «Penso eu de que» a Cristina foi uma querida ao nomear-me para o Thinking Blogger Awards. É um elogio e tanto que agradeço.

“Leopardices” assim aquietam nostalgia que julgo minha e démodé.

Publicado por Teresa C. às 08:03 AM | Comentários (4)

maio 12, 2007

DO SONO, AS VIRTUDES

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Jeremiah Patterson

Somos o povo que menos dorme. Estudos validados comprovam que vamos para a cama demasiado tarde. Talvez por isso dormimos acordados. Talvez por isso andamos rezingões, invejosos, maldizentes e desconfiados – o desaparecimento da Madeleine, que hoje faz quatro anos, é melhor investigado que o das crianças nacionais. Pela tensão acumulada que o curto sono não compensa, corremos o risco de encimar a lista dos povos mais chatos do planeta. Ou o mais perigoso na estrada: 83% dos acidentes fatais na estrada são devidos ao adormecimento do condutor e a principal causa de morte a figurar nos índices de mortalidade rodoviária. Os picos da sinistralidade ocorrem durante a madrugada, por volta das 4 ou 5 da manhã – altura em que ocorrer uma redução espontânea da vigília, perdendo o condutor capacidades de decisão fundamentais, o que o leva a cometer mais erros. E os portugueses engordam, diminuem a memória, adoecem com hipertensão, diabetes e fragilizam o sistema imunitário – consequências directa das horas de repouso rapinadas. O corpo defende-se com o ritmo biológico – são cíclicas as manifestações primárias de fome, alegria, sede e período e frequência própria. Temos uns genes parecidos com os dos bichos da fruta que comandam o ritmo individual.

O maior militante anti-sono de todos os tempos foi Thomas Edison. Inventou a lâmpada eléctrica e alterou, definitivamente, o ciclo biológico humano ao criar a luz no meio da noite. Em 1910 as pessoas dormiam, em média, nove horas; hoje, a média é de sete horas e meia. Edison dormia no máximo cinco horas, e, talvez por isso, tenha criado a luz artificial. Já Napoleão era conhecido por lhe bastarem menos de seis horas de sono para se sentir repousado. Einstein precisava de nove horas de descanso, sobrando-lhe vigília genial para esticar o tempo, curvá-lo, brincar com ele e a matemática.

Faltam-nos horas de sono nocturno e a sesta. Não parecendo que a implacável economia dos dias de hoje venha a prevê-la no ritmo laboral, melhor é deitar cedo e cedo erguer. Para mim tenho que o contencioso português com a produtividade, a matemática e o optimismo aliviava de vez.

Publicado por Teresa C. às 11:22 AM | Comentários (2)

maio 11, 2007

SAI E ENTRA

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Mel Ramos e Thierry Beaude

Um que se vai, outro que veio. De um tive gosto primário – o homem era bonitão e tinha charme, fugindo à norma pão-de-leite dos compatriotas -, depois fundamentado se omitir a feia nódoa do Iraque. Do outro o apreço é antigo pela obstinada batalha nos areópagos mundiais e depois na terra natal. Um senão: perdeu o exotismo das camisas de meio colarinho iluminando o fato negro, e engordou como banal «instalado».

Raças diferentes. Países opostos na dimensão e nas coordenadas geográficas. O catolicismo como religião comum. Percursos unidos pela ambição de concretizarem projectos inovadores e pelos muitos anos de serviço prestados às causas que os mobilizaram. Ambos expostos à atenção mundial – um de modo permanente, outro quando ajudou ao parto de uma independência sofrida. No sai-e-entra – continuo a falar de cargos políticos, juro! – há a infinita diferença entre Ocidente e Sudeste Asiático, riqueza e pobreza, democracia antiga e nascente, língua dominante e ignorada (o tétum).

Blair e Ramos Horta. O primeiro designa um sucessor e espera-o um cargo lustroso. O segundo vai gerir a miséria, a instabilidade social, a ausência de quase tudo, salvo a afável humildade de um povo que lhe entregou a esperança de uma vida melhorada. As assimetrias do mundo resumidas em dois homens.


CAFÉ DA MANHÃ

Da Gi veio a informação: “Um "meme" é um "gen ou gene cultural" que envolve um conhecimento que é passado a outros contemporâneos ou aos descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma. Simplificando: é um comentário, uma frase, uma ideia que rapidamente é propagada pela Web, usualmente por meio de blogues. O neologismo "memes" foi criado por Richard Dawkins pela semelhança fonética com o termo "genes”. Pela simpatia que a blogger me inspira, colaboro com este Meme:

«Chegou o tempo de novas alianças, desde sempre firmadas, durante muito tempo ignoradas, entre a história dos homens, de suas sociedades, de seus saberes, e a aventura exploradora da natureza.»

Ilya Prigogine e Isabelle Stengers, A Nova Aliança, Gradiva

Endereço-o à Adriana Freire Nogueira, a "Ela", ao João, e ao Samuel, à Sinapse, ao Sinedoque e ao amigo de sempre Yardbird.

Publicado por Teresa C. às 08:50 AM | Comentários (4)

maio 10, 2007

PEVIDES, CONCOMBRE ET MARCEAU

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Phil Smith

Das francesas, alguém disse terem rosto de pevide. Dos homens franceses, digo eu, terem corpo de concombre mal-nascido – polpa lixivada e torcida. Até o Sarko não foge à regra, malgré o bronze de solário. A fuga para o iate milionário não lhe condeno – no pós-afadigada-campanha, o concombre le président quis recuperar o tom. Salvo os ícones de beleza do cinema francês, as gentes da rua podem ter chique, raríssimo!, mas falta o je ne sais pas quoi que a Ségolène possuiu. Ou a Binoche, a Tatou e a Marceau.

Por cá pia mais grosso. À mulher portuguesa faltam centímetros em altura, mas têm formas, benza-as Deus! É sabido dalgumas o exagero que, actualmente, funciona como marca social – as elites possuem figuras, na maioria, cuidadas e as de estatuto dito inferior, por mor da fraca vida, alargam em demasia. Nada, porém, que as assemelhe às «charolesas» americanas.

Como candidatas à presidência da Câmara de Lisboa temos uma já perfilada e outra em vias de o fazer – Helena Roseta e Manuela Ferreira Leite. Se da primeira prezo a coerência e assertividade, à segunda não nego competência, conquanto o esgar de quem bebe leite azedo pela manhã me impeça encómios maiores. Honra ambas a coragem e honestidade. Distingue-as também a figura – uma como maçã camoesa, a outra qual beringela. Os homens que se cuidem; sopram ventos femininos nas estradas do poder. As borrascas ou simples inépcia, mais a estéril tradição masculina como decisores, bem como a presente maioria de mulheres nas universidades e no trabalho, obrigam a mudança. Maria de Lurdes Pintassilgo foi prenúncio. Venha a confirmação.

Publicado por Teresa C. às 08:53 AM | Comentários (4)

maio 09, 2007

TU VEUX OU TU VEUX PAS

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Trevor Heath

Meteorologia. Pertinaz. Misteriosa. Imprevisível. Fugidia a conjecturas do Borda d’Água ou especializadas. Fascinante até no temor que pode inspirar. Trágica se é chegado o momento de perder energia acumulada. Sedutora pelo encanto ou magnificência. Por tudo feminina. À mulher presenteando com beleza acrescida quando reina o sol. Como hoje. Como nos muitos dias cálidos. Como no alvor do Verão. E vem o apetite pelo desnudar a pele, pela liberdade do corpo, subida a tensão erótica e o desejo de a diluir. Vem a leveza no estar, o gosto pela frivolidade e pelo colo atrevido, pelas pernas de cetim dourado brilhando à luz.

As calças remeto ao escuro dos armários. Quero vestidos, saias que esvoacem ou moldem a figura, sandálias de salto presas por tiras aos pés. Preciso de alças e ombros nus. Dispenso a lingerie ou uso-a em tons alegres. Quero branco e valentia nas cores. O preto confinado à íntima sedução. Ou o encarnado. Ou o preto e branco. Guardadas serão as meias encimadas por renda. As camisas. Os cinzentos. Exibidas as infinitas qualidades da condição de mulher.

E há a rebeldia da brisa que faz rodopiar a leveza dos tecidos. O gesto pueril, que tão bem o cinema captou, de prender o vestido à frente se ele insiste em voar. O gosto do capricho – encontrar o bikini fantástico de desenho revivalista, mínimo como convém. O desejo – eliminar fronteiras ociosas, inventar, dar corpo às muitas outras que me habitam. De todas sentir a unidade em que sou. Por todas fruir da meteorologia emotiva. Feminil. Como a Bardot – “Tu veux ou tu veux pas.”

Publicado por Teresa C. às 06:46 AM | Comentários (10)

maio 08, 2007

PORQUE OS AFFAIRS ACONTECEM

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Edwin Georgi

Affair relacionamento íntimo entre duas pessoas, desaguando ou não no sexo e que atraiçoe uma terceira. Não arredo pé da ideia de ser denominador comum dos affairs o desejo de mudança. Frustrações e o tédio, mais do que a propensão viciosa, são alguns dos outros rastilhos usuais. Tombar na ratoeira de classificar razões, quais enguias do pensamento, é disparate garantido. Corro o risco do ridículo. Sou lá mulher para me deter por tão pouco?

Decanter Affair - Processo (in)consciente de agitar uma relação insatisfatória, capaz de identificar o mal oculto e chamar a atenção do outro.

Way Out Affair - Pretexto para finalizar uma relação.

Rush Affair - Desejo de renovação romântica fermentado pela ilicitude do acto.

Bermuda Triangle - Espiral que pode durar uma vida, assenta no medo do compromisso, e é a rede emocional de quem receia colocar os ovos num só cesto.

Sendo curtas as pernas da mentira, dos affairs é garantida a descoberta. O choque, a raiva, a tristeza, a culpa, a inevitável pergunta – “Como foi possível meter-me nisto?” -, o pânico pela provável morte de uma relação que, afinal – descoberta fatalmente tardia! –, era pilar forte da vida. O fim de um «caso» pode reestruturar o indivíduo e o casal ferido, assim a solidez do amor, a cúmplice intimidade, a razão e a paciência entreteçam nova confiança. Um affair é ponto de viragem numa relação, não necessariamente o esquife.


CAFÉ DA MANHÃ

Uma nau que há quatro anos desafia o mar das ideias merece celebração. Parabéns a toda a tripulação.

Publicado por Teresa C. às 07:48 AM | Comentários (3)

maio 07, 2007

ATÉ AO CONCERTO DA GAL

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Autor que não foi possível identificar

Corre um Maio desorientado. Corriqueiro. Que não ata nem desata na antecipação do verão. Sem boas novas lusas ou da estranja. Nem no futebol há surpresas – o Porto é campeão e os «mouros» estão com as barbas à beira de prolongado molho. Pasmo perante a fertilizada imaginação dos comentadores políticos e desportivos, ou como da ausência de assunto se engendram notícias que preencham os intervalos das vendas publicitárias. Da Maddie nem rasto, como aconteceu a muitas outras crianças arrancadas à família por ignotos vilões. Um país hibernado na espera do subsídio de férias. O povo botando contas à vida, às dívidas dos cartões exauridos, ao mais que certo remanso do estio entre paredes e ventoinhas, mais umas fugidas à Caparica.

A silly season chegou mais cedo. Como os morangos, as nêsperas, as ameixas, os pêssegos, as uvas e as cerejas. As ervilhas de cortar, o feijão verde e as courgettes. Que duram, e duram no frigorífico pela transgénica condição. Perdido o rótulo de sazonais. As estações sem datação por vias dos frutos e legumes. Confundidas. Várias num dia só. E as gentes a precisarem da luz vibrante do Sul, da pele nua acariciada pela brisa, do corpo dourado ao sol, do calor agitando o sangue, os sentidos, soprando desejos durante os longos dias que as noites agigantam até serem dissolvidos a dois. Maio tão frio e Agosto ainda longe... Mas temos o concerto da Gal e o Junho algarvio tão perto. A açoteia rematada pelas copas dos pinheiros mansos e pelo azul do mar oferecendo intimidade amante. Venha a coreografia dos corpos nus ao som do rumorejar das ondas. Afinal, Maio até tem cor – o verde novo, o amarelo das giestas e o lilás das urzes.


CAFÉ DA MANHÃ

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Autor que não foi possível identificar

Foi há quatro anos que o Pioneiro abriu caminho na fumaça virtual dos dias. Muitos parabéns.

Agradeço à Abbie, Consciência Crítica, Egoísta, João de Miranda, Laema, Lp-Peixoto, Miss Detective, Nélio, Publicista, Rakel, Sam Bodi, Tita, Xada e ao Zé Ninguém as ligações para este blogue.

Publicado por Teresa C. às 10:30 AM | Comentários (7)

maio 06, 2007

“PAROLE, PAROLES”

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RGarrison

Era o tempo da Romy Schneider. Do cabelo liso acima dos ombros com as pontas viradas para cima. Certinhas. Das fitas largas na cabeça que lhe ficavam tão bem. Era o tempo da Maria Laforêt, do Alain Delon e da Dalida. Da saia acima do joelho que o bom senso media. O tempo do concurso da “Mulher Ideal” a que as suas amigas incentivavam a concorrer. Pelas mãos de fada, pela arte nos arranjos florais, pela perícia na economia doméstica que, com pouco, sofisticava uma refeição, pelo saber-estar social. Foi o tempo do cinema como local de encontro blasé. O tempo da meninice primeira que me soube dourar – o pé-ante-pé em camisa de dormir para a sua cama onde me abraçava, esvoaçava beijos e lia contos infantis.

Lembro-me de vir à sala para ser exibida no maior apuro e depois entretida algures enquanto decorriam os chás ou as reuniões Tupperware. De a olhar com o nariz espetado para cima, orgulhosa por dar a mão à senhora mais bonita da festa. De me motivar para a aprendizagem da costura, da essência do cozinhar, do gosto e feminilidade no vestir. De limitar as nossas conversas a generalidades, risos, conselhos e pouco mais – e eu ardendo no desejo de saber o que era isso de passar de menina a mulher. Lembro vê-la sonhadora, o livro caído no regaço, enquanto ouvia “Parole, Paroles.” De me aconselhar na escolha do vestido de noiva. De a ter ao meu lado em cada degrau da vida. De a amar, temer, admirar, amar e agora proteger - filha-mãe mimando a mãe-filha. E lembro. E vejo. Hoje e no tempo dos gira-discos e do concurso da Mulher Ideal. Ofereço-lhe a música aqui do lado, mãe. Ouça-a e descaia a revista no regaço. Trocarei as suas lágrimas por beijos meus.

Publicado por Teresa C. às 10:22 AM | Comentários (4)

maio 05, 2007

DO TRAPÉZIO À BOTA

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Julia Cuddlewell

Roberto Dualibi garante que a chave do sucesso está em reservar por dia oito horas para o trabalho, oito para dormir, e ter a certeza de que não são as mesmas. Para Camilo José Cela a sesta era o ioga da Ibéria. Caracterizada pela carácter apaixonado das suas gentes, as sonecas pós-prandiais, ao anularem a gravidade, amansam as emoções. Por que povos dados ao salero, sapateado ribatejano e sevilhanas, ao toureio, ao vinho e às cañas, precisa de calmaria como de pão para a boca.

Às sonecas agradecem as mulheres do trapézio e da bota peninsulares a intermitência nos sentimentos vulcânicos dos companheiros que, em vigília, descambam em violência enciumada ou meramente etílica. Fartas estão elas da despesa, maçada e risco de flagrante na dissolução de pastilhas de Xanax na sopa dos parceiros. Por isso digo: a jangada Ibérica, como a bota Italiana, devem às massas de água de fronteira a ondulação entre nodos e picos emocionais dos habitantes. O istmo da cordilheira dos Pirinéus e os contrafortes dos Alpes, são cais onde atracam pedaços de terra flutuantes no Atlântico e nos mares Mediterrâneo, Tirreno e Ligúrico. Tanto sol, azul marinho, dejectos de gaivotas porcalhonas, tarantellas, excelência de vinhos e calor propiciam caldo onde fervem corpos e neurónios. O gosto pelo toque. Pela nudez. Pelas noites. Pelo beijo. Pela infinita saudade do corpo que numa noite de final de verão ficou por amar. Pelo momento colado à frase de Herbert Von Karajan – “Quem decide pode errar. Quem não decide já errou.”

Publicado por Teresa C. às 11:31 AM | Comentários (4)

maio 04, 2007

PORCO E PORCO NOJENTO

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Stanislav Plutenko

O mui querido e belíssimo Anarresti, cuja fabulosa escrita acompanha outras qualidades, lançou a reflexão: “equivalente de puta no masculino é quem elas rotulam de «porco».” Antes de aquiescer, permito-me distinguir «porco» de «porco nojento». Não é despiciendo o acrescento. «Porco nojento» como o burgesso coçando os ditos e baba lúbrica escorrendo da queixada. «Porco» pode usar Armani, exponenciar a volúpia enquanto lubrifica a fantasia. Destes não prescindimos. Os primeiros odiamos. Não neguemos – os bonzinhos escolhemos para procriar, os porcos para memoráveis inconsequências. Trocar a utilidade é perigoso. Mil vezes pior do que trocar os «bês» pelos «vês».

O porco nojento pode ir do exibicionista, passar pelo pato-bravo emergente até ao administrador de empresa. Pública ou privada não faz a diferença. Deliciosamente porco não é qualquer um – precisa ter o dom. Sabe descer a pique com o olhar, despir enquanto sorri e alarga o nó da gravata, passar da conversa prosaica à intimidade insinuada, desta a semi-frases sussurradas, combinar malícia com riso solto soando a inocência. É dispensada a boniteza ou o estatuto. Uma T-Shirt e ganga casual servidas pela inteligência e suporte condizente tem efeito similar. Mulher experiente tem defesas, no conto-do-vigário cai alegremente sabendo da fraude o éden. Et c’est tout! Porém, para “amor de uma vida” – e quem não tem pelo menos um? – só por gravoso engano um «porco» é escolhido. Os «certinhos» levam, desapaixonadamente é certo, a melhor.


CAFÉ DA MANHÃ

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O Luís Aguiar-Conraria ponderou razão para nomear este blogue para o Thinking Blogger Award. Não devolvendo nomeações, e se seriam merecidas!, cumpre-me escolher cinco autores entre os muitos bloggers que aprecio e dos quais, por razões diferentes, recolho ensinamentos.

São eles:

A Sofia pela verdade emotiva
A Luna pelo humor e espontaneidade
O Eduardo Pitta pela profunidade das reflexões
O André Carvalho, a Vera Carvalho e a Leonor Barros pela diversidade e oportunidade das abordagens
O João Pimentel Teixeira pelos ecos de uma realidade africana que me fascina

Publicado por Teresa C. às 10:56 AM | Comentários (9)

maio 03, 2007

A MULHER, A CONCUBINA E A AMANTE

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Alain Dumas

“Uma mulher não é tão boa como uma concubina, uma concubina não é tão boa como uma amante e uma amante não é tão boa como um affair.” Sendo ambíguo o conceito de «boa», tomá-lo-ei por mulher que ao macho apetece tirar da vertical e dela experimentar as delícias na horizontal. Que é como quem diz, em qualquer posição. Assim ele aguente, porque se a prosápia masculina existe, quão longínqua está, as mais das vezes, do factual.

Evitemos arrepelarmo-nos pelo insuficiente fascínio aos olhos dos nossos homens. Eles estimam-nos como bastiões da retaguarda que os referencia, e, ao dizerem amar-nos enquanto inventam o desaguar das coxas da secretária, são leais. As respectivas são amadas em doméstica quietude com ardor diminuído pelo hábito e legitimidade. As outras prometem viagem de circum-navegação. Promontórios e regatos desconhecidos. Oceanos de emoções. Marés altaneiras. Mar-chão e neblina incómoda se for cometido o erro da regularidade.

A andança em círculo, tão prezada por tantos, esquece o fundamental – o cansaço das legítimas. Família, casa, profissão, interlúdios com amigas, profissão, casa, família e companheiro desligado do caldo rotineiro dão fartança. De homens em primeiro lugar. De falta de amor-romântico. De insuficiência de sexo vulcânico – o da camisa para cima e pijama para baixo conhecem bem demais. Germina o afastamento do marido-vegetal. E, sem que a idade iniba a decisão, o divórcio anuncia (re)começos. Afinal, quantos de nós desejam ou aceitam vidas de remedeio?


CAFÉ DA MANHÃ

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Capaz de vívidas letras de íntima reflexão, teve a gentileza de me nomear para o Thinking Blogger Award. Agradeço, penhorada, a distinção, por vir de Mulher que admiro e pela ilustre companhia

Publicado por Teresa C. às 08:09 AM | Comentários (4)

maio 02, 2007

DE DOUTOR A SR. NUNES

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Sally D.

P’ra cima de um dinheirão custa substituir potências em base dez de cartões de visita e papéis burocratas de resmas de instituições. Por esta via emagrecidos os erários público e particular. Além da maçada - referências na agenda, mudança na linguagem obrigando a reflectir duas vezes antes de falar. Depois, há aquela coisa insana de conhecer o currículo académico do interlocutor. Bacharel? Licenciado? Mestre? Doutor? Médico, pela inscrição na ordem dos médicos, ou licenciado em Medicina? Professor porque ensina ou Professor Doutor ainda que há anos não dê uma aula? Remedeio simples: abolir do tratamento formal os títulos académicos. O mundo evoluído há muito o fez - doutores são os médicos e ponto final. Passando o advogado a Sr. Nunes, tal como o talhante ou o sapateiro, adeus imbróglios escus(ad)os.

Segundo palestrou o Sr. Marcelo, candidato a emprego ou aluno que acompanhe com palavras de cortesia ou de identificação profissional um email anexando currículo ou trabalho merece a exclusão. De ora em diante, deverá escrever:

“Ex.mo Sr. Marcelo,

Venho, por este meio, entregar o meu trabalho.

João da Silva”

Dizem vício de pobretanas o «doutor» no linguajar. É remetida a culpa à ignorância basbaca de quem apelida, inocentando os (in)discretamente ufanos pela deferência – que diabo!, se queimaram as pestanas, dinheiro e fígado nas borracheiras da faculdade, têm direito a recompensa vitalícia e a obituário lustrado. Não querendo perpetuar atitudes menores, comecei por corrigir o João que me fornece a dose de cafeína matinal. Malicioso, não esteve de modas: - “Muito bem! Volto à menina Cheesecake. Pode ser?”

Publicado por Teresa C. às 06:33 AM | Comentários (3)

maio 01, 2007

VITELA À LAFÕES

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Autor que não foi possível identificar

Enrolo-me no ócio. Aconchego-me ao dia. As portadas abertas trazem-me ar fresco e silêncio. A cidade tranquila. Os aromas de Maio. O verde-criança que desponta. Chilrear de passarada. Colcha esburacada de nuvens. Horizonte idêntico ao de ontem. Inquietações velhas com roupa florida. Que dispo e reconheço de sempre. A ilusão do contributo para a mudança que uma dúzia de horas erodem até novo amanhecer.

Lembro a frase de Parsons, líder do movimento grevista de Chigaco de 1 de Maio de 1886 que a justiça burguesa levou a julgamento: "Arrebenta a tua necessidade e o teu medo de ser escravo, o pão é a liberdade, a liberdade é o pão". Após pouco menos de um século, nem arrebentámos o medo, nem fizemos da liberdade o pão. Pão do espírito. Pão das bocas que gritam desesperança. A vertigem da mudança social sempre adiada.

Detenho-me em factos avulsos. Numa Santa Comba Dão desprovida do chamariz de uma vitela à Lafões, de uma taberna de nomeada, de panorama de eleição. Esquecidos tempos de negra fama por dali ter saído no esquife um Juiz. Mas tem a tumba de Salazar. São andados dois quilómetros até ao Vimieiro, a casa onde o Homem nasceu. “Ilustre filho de Santa Comba Dão”, foi dito na manifestação de quatro dezenas de pessoas junto à campa de Salazar adoçada por flores frescas e velas acesas. E penso: tanta polémica por nada! Insensato é o temor dali nascer revolta extremada à direita que venha por aí abaixo roubar o silêncio, o verde-criança ou os aromas de Maio.

Publicado por Teresa C. às 11:34 AM | Comentários (4)