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maio 17, 2007

MANTEÚDO A SARDINHAS E VUITTON

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Pat Durgin

Ele não gostou do reparo do polícia. O cão estava lustroso, penteado, pedigree reconhecido por documento burocrata, coleira Louis Vuitton. Um passeio de automóvel cheiriscando o dono ao volante, era presente melhor que osso pouco rapado. Em Londres habituara-se às frias neblinas, à liberdade condicionada pelo estatuto de manteúdo por celebridade com paparazzi à coca. Nas vindas a Portugal apetecia-lhe despir o casaco de pêlo - impróprio para o sol que as nuvens não filtravam e pelo calor de lareira que a pele não suportava. E havia os cheiros. Dos churrascos em primeiro lugar. Febras e suculento entrecosto traziam-no de nariz alçado e, por isso, com o apetite em alta que o tédio dos biscoitos e rações não satisfazia. Minguava-lhe a musculatura no decorrer do Verão algarvio. Outros cheiros intrigavam-no – o do suor das gentes (des)temperado com bronzeadores de supermercado e o do peixe, sardinhas em particular, cozinhado na grelha aquecida a carvão.

Mais havia que estranhava: as andanças dos humanos divididos entre as casotas, areia e mar. Os gritos. As buzinas doudas. O bufar ruidoso dos escapes. Nem entre os muros da casa o bulício cessava; ressentia-se o sono, amolecia o corpo, vinha a modorra como anestesia de veterinário. Mas gostava. Fartura tinha de horários rígidos para passear, comer e dormir. Do cheiro a nada. De frio e silêncio. Das brincadeiras com os meninos no jardim e no casarão do bairro exclusivo. Por isso rabiava e espetava as orelhas no automóvel que o levava a passear. Quando viu o polícia imponente embirrar com o dono, rosnou. Apesar da memória confinada, sabia que lá longe onde estivera, com o senhor ninguém se atrevia. Menos ainda uma farda de giro. Os salamaleques e pedidos de autógrafos desculpavam infracções. Noite na prisão nem pensar! O Sr. Mourinho bem recalcitrou à admoestação, rosnou alto à moda dos humanos locais, misturando o pior linguajar dos nativos do sol e das sardinhas mais os chocos. Não é que o destempero obrigou o mister a pagar cara a pernoita fora da prisão?! Sacudiu as orelhas em sinal de desconsolo. Quantas saudades do barulho fora-de-horas, dos cheiros, da modorra acalorada, da servilidade devida ao seu dono e senhor...


CAFÉ DA MANHÃ

Falar de Blogues

17 de Maio, às 19 horas, na livraria Almedina, Atrium Saldanha, Lisboa

“Há cronistas que têm blogues. Porquê? O que acrescenta o blogue à crónica na imprensa e ao comentário na televisão?”

Carla Hilário Quevedo, Fernanda Câncio, José Pacheco Pereira e José Medeiros Ferreira irão responder. Pena minha não poder assistir.

Publicado por Teresa C. às maio 17, 2007 08:33 AM

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