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maio 22, 2007

PATINA DE FRANGO ASSADO

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Alessandra Ariatti

Para quem vem das Amoreiras e mergulha na cidade esquecida, o cheiro a frango assado antecipa Campolide. De arquitectura pobre, comum em Portugal, a classe média que a recheava envelheceu e passou a envergonhada pelas reformas pequenas. Com a patina do tempo – visão romântica da pintura descascada que a acidez da chuva sulcou de negro – o bairro laborioso tornou-se lar de terceira idade, o apoio domiciliário substituído pelo comércio de vão de escada. O Sr. Zé, que vende frutas, legumes e básicos de sobrevivência, dá o alarme se há baixas na contagem das visitas diárias. O mesmo com a Cidália que limpa as escadas de para cima de meia dúzia de prédios, ou a D. Joaquina que, atrás do balcão, bem conhece os fregueses da leitaria herdada do defunto – “Mais valia tê-la vendido quando o «chinoca» quis comprar, mas que quer?, ensimesmou que gente daquela nem vê-la e olhe no que deu!, enfiou-me neste prisão; foi-se, que Deus o tenha, meio ano depois de nada valendo a esquisitice porque o chinês abriu uma loja duas portas a seguir.”

Deslustra o bairro não ter marcha que arrebate troféu na dengosa Avenida na noite de Santo António. Merece olhar de esguelha pelo acesso directo ao humilde bairro da Liberdade prás bandas da Serafina. Falta-lhe o sortilégio do vizinho Campo de Ourique, cujo comércio a nata social (re)descobriu, ou do elitismo da Lapa. Não é uma das setes colinas engendradas pelo frade Nicolau de Oliveira à imitação de Roma - São Vicente, Santo André, Castelo, Santana, quinta S. Roque, Chagas e a sétima, a colina de Santa Catarina do Monte Sinai desdobrada em socalcos para o rio. Já bastando o bastante, viria o cheiro a frango assado desde o meio das manhãs anular os perfumes-de-sair das poucas senhoras de sobrancelhas de lápis destacadas no pó-de-arroz. Amoreiras e Campolide extremam segmento de idiossincrasias duma cidade impiedosa no arrumo das classes sociais.


CAFÉ DA MANHÃ

A pintura do Michael Zavros ilustra dos gestos a alquimia.

Publicado por Teresa C. às maio 22, 2007 08:01 AM

Comentários

Eh, D. Teresa! Muito bem... extremou-se-lhe o apuro de sensibilidade pra coisa pública.
Ou só terá deixado entretransparecer?

(passe a notação popularucha do meu comentário - é a apoiar, a condizer)

Publicado por: -pirata-vermelho- às maio 22, 2007 03:51 PM

Noutros tempos, nos tempos em que o frango crescia quase só a "picar o chão", era esse um dos cheiros de Campolide que eu apreciava.
Hoje, fico-me por alguma saudade mas também pela raiva escondida que as maiores dificuldades de vida e a pobreza daquelas gentes que por ali vivem em mim provocam.
Saudade e raiva, ambas um pouco apaziguadas pela sempre bela prosa da minha querida Amiga.

Publicado por: j às maio 22, 2007 05:51 PM

foi há tão pouco tempo que morei em Campolide... Em frente à janela do meu quarto havia um edifício com a seguinte inscrição: 'serviço de material de instrução'. todos os dias ia para a cama com aquele enigma...

Publicado por: diziaelabaixinho às maio 23, 2007 01:28 AM

Pirata-Vemelho - A coisa pública motiva-me mais que o revelado; pois se há tantos que por aí o fazem bem melhor e mais fundamentados do que eu!

J - e o regalo das canjas, do arroz no forno, mais a ave ncorada, das galinhas-de-pica-chão? Obrigada.

Diziaelabaixinho - Enigmas de bairro que preferimos não desvendar, por que o mistério adensa o viver.

Publicado por: Tati às maio 27, 2007 09:38 PM

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