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maio 21, 2007
SEM BATERIA

Colleen Ross
Derramava a consciência por detalhes prioritários. Como picada de mosquito foi o lembrar incómodo da banalidade que a todos já sucedeu – “Estou sem bateria; falamos quando chegar.” Suspendi o gesto a meio e da atenção concentrei a entrega. O cocegar da desconfiança empolou-me o espírito como pele que reage ao veneno de insecto. Se não cuidasse de garrote que lhe impedisse o alastrar, ficava arranhado o espírito – reconheço os sinais da tentação de especular, de ir a favor do vento da fantasia, esquecendo o solo firme onde os pés assentam e os factos são.
“Sem bateria”, acrescentara algumas vezes à laia de omissão-mentira, sabendo da minha incompatibilidade entre o ser e o parecer. Em pequena, quando no caminho das mentiras ensaiei os passos, o rubor ou os olhos baixos afadigados em pestanejar tornavam-me transparente. Ao crescer, julguei-me habilitada a tentativas com sucesso – pueril engano!, liquefazia o íntimo e sobrenadava o embuste. Arquivei o balanço dos infelizes ensaios para memória futura e nas crises da verdade limitava-me a omissões. Quando o suporte electrónico do telemóvel deixou de atafulhar o porta-bagagens e o aparelho ficou maneirinho, passei a usá-lo. Viria a coincidir com o novo hábito o mentiroso acrescento ao não-dito – “sem-bateria.” Como pano caído sobre os bastidores dos momentos. Como fuga ao não apetecido. Como mentira descarada. Arranhão doloroso. Infidelidade à boa-fé do outro e ao meu ser.
Publicado por Teresa C. às maio 21, 2007 10:04 AM
Comentários
Será caso para dizer que o grau da mentira é directamente proporcional ao avanço da tecnologia.
A inversa, pelos vistos, também é verdadeira, em certas circunstâncias... A execução do "choque tecnológico" é directamente proporcional à mentira!
Um beijo, pelo bem-estar matinal que sempre me provoca.
Publicado por: j às maio 21, 2007 10:56 AM
Publicado por: Tó às maio 22, 2007 12:42 AM
Conhece esta escrita breve?
http://www.umamoratrevido.blogspot.com/
Publicado por: -pirata-vermelho- às maio 22, 2007 05:01 PM
J. - não folgo em reconhecer aproveitar algumas vezes do pior que ela concede. Não aprovo desvios à verdade sendo meus. Demorei a ceder aos telemóveis com câmara incluída - "e se me pedem imagens locais quando não pretendo dar a conhecer o destino da fuga?" Neste mundo vigiado recuso mais cercas que as obrigatórias. Um beijo grato pelo não-silêncio.
Tó - Visitarei, descanse!
Pirata-Vermelho - se a conheço e admiro meu caro. Escrita assim requer talento que não cabe a todos.
Publicado por: Tati às maio 22, 2007 08:51 PM
conheço e aconselho a sua leitura atenta.
Elsa.
Publicado por: pirata vermelho conheço e aconselho vivamente a sua leitura a toda a gente. É espectacular!! às agosto 26, 2007 05:09 PM