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junho 08, 2007
DA DITADURA «CHAVESCA» AO PRAZER

Steve Hanks
Logo me vieram à memória as horas e horas e horas de sestas compulsivas em que, omisso o sono, o livro saía do esconderijo e, na penumbra, a leitura era continuada. Descoberta a marosca, foi imposta a escuridão total. Não desanimei – substituí a leitura pela invenção de histórias que, soando o clarim dos passos maternais, havia de tornar desenhos a carvão. Assim treinei o traço que intervalava com outras brincadeiras e a leitura do permitido pela censura familiar – o proibido lia à mesma, cuidando de ocultar as «obras de perdição para meninas de bem».
Por hábito não faço sestas de sono; razão deve remontar à rejeição infantil. Todavia, sendo grata a ocasião, da penumbra faço cúmplice de partilhas e da doce fadiga que me adormece e aceita no rosto o meu sorriso. No quotidiano, basta-me paragem nas encadeadas obrigações para fuga breve que o ar livre envolva. Respirar exigente o meu!... Nego o ar confinado se o corpo exige repouso. Sendo o intervalo de tempo generoso, caminho um pouco e torno funda a inspiração - à mistura com o dióxido de carbono liberto contrariedades, tensão ou tédio. Esta espécie de sesta andante devolve-me energia e concentração, legitimando que, no final do dia, a casa e a consciência das tarefas cumpridas me saibam tão bem. E, chegada a noite pequena, adormeço como seixo inamovível por ventos ou marés.
Publicado por Teresa C. às junho 8, 2007 12:39 PM
Comentários
Também ando e também desenho
por gosto!
E se
aparecesse aqui um desses carvões, no café da manhã, por exemplo?
Um ou uns...
Publicado por: -pirata-vermelho- às junho 8, 2007 05:03 PM
Desenhar, apenas traço indelével que fica para sempre nas memórias onde guardo religiosamente os esboços que a imaginação cria.
Mas caminhar, isso sim! É um sucedâneo altamente valioso para a sesta que, infelizmente, não me permitem gozar.
Da infância não me ficou nenhum trauma anti-sesta, pelo facto singelo de não ser hábito fazê-la. Apenas permanecem as recordações do alegre retouçar que nem frios nem calores impediam.
Publicado por: j às junho 8, 2007 06:07 PM
Pirata-Vermelho - tentador o que sugere. Repescarei alguns e talvez esparrame esse meu lado íntimo por aqui.
J - Tive baloiço suspenso de um braço forte da frondosa nogueira de uma das casas da minha infância. Somente a corda devia doer, não?
Publicado por: Tati às junho 12, 2007 06:24 PM