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junho 18, 2007

DAMASCO BOROLENTO

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Kamille Corry

É raro o meu choro. Naquele dia, desde o acordar sabia as lágrimas rondando com pés de lã. Há dias em que amo menos os outros e a mim. Mal abre a manhã, identifico sinais do desamor e ensaio avistar as razões. Durante a órbita diurna vou ressuscitando a alegria até pela tarde meada chegar a paz. Escancarada a janela do dia, abri-me ao amor num privado excesso emocional. Logo eu, que o vulgo julga racional convicta... Contrariando a minha dádiva, a noite cresceu mal. Pela urgência de anestesia para a consciência, adormeci num ápice, na esperança de a amordaçar. Mas não. Ao acordar estava inteiro o desgosto. Insidioso. Perverso. Cruel. Como se me tivesse portado mal, muito mal, e os pais, os avós, as tias, os bisavós, todos reunidos em concílio na sala vetusta que conheço bem demais, me olhassem aniquiladores, deixando-me liquefeita, engolida pelas juntas das traves de madeira do chão.

A umbigos defuntos desfiz projectos de continuidade do “bem ser e parecer” perante a miúda sociedade local. Como era uso do clã. Como me estava destinado. À parte modesto desvio, tenho-me ajeitado menos mal à herança. Só que eles - os jesuítas, cónegos, freiras, doutores e proprietários - canibalizaram descendentes ou laterais insubmissos, sei-o de fonte limpa!, até por via da dureza do torno os encaixarem no molde de aço e lacrarem como garante da pertença ao clã familiar. Rejeitando ser tira de damasco borolento do forro das paredes do salão, depois caído num canto do soalho onde só as teias crescem no tempo fechado, insisto na liberdade. Na lucidez grata aos que me antecederam. No amor aos que resistem de cujos beijos e abraços preciso, sem abdicar de quem sou.

Publicado por Teresa C. às junho 18, 2007 07:44 AM

Comentários

Viva a Liberdade, querida Amiga!
Sem ela, onde poderíamos encontrar a doçura das suas lágrimas, ou o azedume de algumas queixas?
"Tira de damasco bolorento" é que nunca!
Beijo as suas lágrimas ao desamor de certos dias.

Publicado por: j às junho 18, 2007 09:29 AM

um abraço terno,
sejam os dias e as pessoas cúmplices da tua felicidade.
nuno.

Publicado por: troblogdita às junho 18, 2007 10:59 AM

Ai o amor dos 50 depois de outros que se julgam sempre os piores.

Pela primeira vez a TATI or Tesesa C, como queira, se apresenta desolada. Lhe digo, minha amiga, que não será a última porque isto de "amores" tem mesmo que se lhe diga e nunca corre como queremos.
Uma coisa lhe garanto. ninguém consegue conciliar a nossa opinião com as dos que nos são mais próximos. É assim a natureza humana e não há volta a dar-lhe, senão adaptar-se.
Mas isso passa ou como diz pessoa amiga: É a vida

Incógnito

Publicado por: amordos 50 às junho 18, 2007 11:52 AM

Aos três comentadores uma primeira nota: este texto tem meses de arquivo na gaveta das emoções. Não foi actual o sentimento. Poderia ser, não foi, será meu de novo quando o tempo o quiser. E não falo do amor romântico que une um par; se bem for lido o escrito está clara a referência aos afectos por mim e pelos outros. Se os dois primeiros comentadores logo o entenderam, o terceiro desvirtuou. Por intuição e generosidade do Sandro Franco e pela amizade o Troblogdita, souberam ler o que escrevi. Os meus vastos amores estão bem e recomendam-se. Assim continuem, antes dos cinquenta ou depois. E sabe, Incógnito, conheço-lhe algumas das suas muitas manhas. O barro que deitou à parede não a sujou, antes escorreu na direcção argilosa dos seus frágeis pés.

Publicado por: Tati às junho 18, 2007 03:14 PM

Um bjo pelo "post" e doi mto gds pelo comentário...! Excelente!!!

Publicado por: Viajante às junho 18, 2007 03:21 PM

Da realidade à ficção vai uma diferença abismal. pena que quem lê não saiba fazer essa distinção. Um escritor , embora vá deixando muito de si na escrita , teria que viver 100 vidas para sentir e viver tudo aquilo que escreve. Felizmente que a sua imaginação não tem limites e às vivências e experiências lhe acresce o dom literário. bem haja por isso.

Deixo um beijinho

Publicado por: Gi às junho 18, 2007 08:10 PM

Um texto cheio de garra, Teresa!
Quando o li inicialmente pensei que estava em presença de um relato de alguém cuja "criança interior" reclamava carinhos. Depois vi que era algo diverso. A nossa coerência. A nossa liberdade. A nossa dignidade. Parabéns, mais uma vez.

Publicado por: Alba às junho 19, 2007 12:45 AM

Alba - Obrigada pelo modo como me sabe «ler».

Publicado por: Tati às junho 21, 2007 09:24 PM

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