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junho 25, 2007
DAS MULHERES, OS REDONDOS

Alberto Castelli
Entre homens e mulheres abunda ruído na comunicação oral - falada, corrijo, não padeça de ambiguidadeo meu discurso. Eles acusam-nos de até aos alhos pintarmos mil bugalhos. Dos pormenores aos molhos até chegarmos aos factos. Soando o gongo para uma mulher escutarem, ajeitam-se no assento, acendem um cigarro e aguardam, sem fervura do sangue, os preliminares. Jaz a beata no cinzeiro, engoliram o café e ainda trabalhamos a moldura da substância. Trocam a perna traçada e, com vaga esperança de sucesso, interrompem para dizer: “dizias que foste assaltada. Quando foi isso?” E nós abespinhadas – “não ouviste o que contei? Pois se acabava de sair do cabeleireiro, só pode ter sido segunda-feira às duas da tarde, ou esqueces que meia hora depois já estou no trabalho? Aliás, a Elisa estava impossível, e do corte de cabelo que pedi, comprimento médio com as pontas que ladeiam o rosto mais compridas, assim como a Victoria Beckham, vês o que me fez? A Nixa afirma que fico com ar de garota ladina. Tu que achas?” E eles que sim, que é verdade, que estamos óptimas, mas adiante, “onde foste assaltada?” – “Era o que explicava antes de interromperes. Conheces a charcutaria que fica em frente do BCP? Numa corrida entrei para comprar uns mimos mais umas fatias de peru fumado. Ao pagar, o terminal de pagamento estava avariado e eu sem dinheiro. Já eram duas e um quarto, imagina!” Ele torce o pulso como quem no relógio busca razão para o formigueiro nas cruzes. Com voz arrefecida, arrisca “levantaste o que precisavas no ATM e fanaram-to depois?” Ela – “Não me deixas falar! Antes tivesse sido... mas não. Pior, muito pior... Na conta nem um cêntimo restava.” Aliviando a impaciência no tilintar das moedas para a despesa, remata “Ah, não foste assaltada!” e acena à funcionária. A injuriada levanta-se e vira as costas com a fúria tão alta como a bainha da saia: “és insuportável! Nem conto o resto. Fica bem.” Até ao carro vocifera: “todos iguais estes estupores; cretinos, egoístas, incapazes de ouvirem uma mulher.”
CAFÉ DA MANHÃ
À Amok muito agradeço a nomeação deste espaço para Blogue Com Grelos - "Mulheres, mães, profissionais que espalham a palavra de uma forma emotiva e cativante. Que nos falam da guerra mas também do amor. A escrita no feminino, em toda a net lusófona tem que ser distinguida"
Publicado por Teresa C. às junho 25, 2007 08:30 AM
Comentários
Verdade! E mais...se, ao contrário, formos nós, homens, a descrever suncinta e apaixonadamente o funcionamento de um motor a jacto o que ouvimos no fim é:
Mas afinal, já compraste os bilhetes? Quando vamos?
E resta-nos aquele ar apatetado de quem teria mais proveito se tivesse explicado ao cão que sempre inclina a cabeça em silêncio quando fica confuso.
Publicado por: JG às junho 25, 2007 11:07 AM
há quase sempre maneiras eficazes e saborosas de nos interrompermos mutuamente, quando é ruído o que é transportado no espaço entre os dois.
Publicado por: troblogdita às junho 25, 2007 12:18 PM
JG - Não queres certamente dizer que além de pecarmos por discurso redondo aos homens não sabemos ouvir? Seja o conto novidade ou revele da sensibilidade a fundura, e qualquer pessoa que com outras queira aprender, ouvirá serenamente. Sabes?, para da ouvinte reteres o espírito, reserva a da propulsão a jacto para o alvor da paixão - ouvimos atentamente por do homem tudo querermos saber e pela oportunidade atempada de distinguirmos se ele deseja uma mulher ou um cão. ;) Beijo
Publicado por: Teresa C. às junho 25, 2007 01:48 PM
Troblogdita - estou mais contigo nessa sábia interrupção do remate que tarda a chegar com sabor inesperado.
Se há pouco omiti resposta ao teu comentário, foi pela delíciosa picardia com o «nosso» JG. Beijinho.
Publicado por: Tati às junho 25, 2007 02:04 PM