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junho 10, 2007
HOMEM DO NORTE

Kenney Mencher
O negócio prometia. Atravessou a Arrábida ainda com o sabor acre do cimbalino que o Esteves – “trabalhador, educado, bom moço, carago!” – lhe servira ao balcão. Nos Carvalhos, ainda remoía a “porra de vida do rapaz que, suando mais, ganha menos que o cabrão do Pimentel. Tenho de perguntar à contabilidade quanto é que o gajo ganha; não faz a ponta de um corno a chefiar o armazém do Lordelo que precisa de trabalho e responsabilidade. À vinda, troco as voltas àquele filho da puta e ponho o Esteves no lugar dele.”
Antes da saída para Espinho, o pensamento estava por conta da Carminho. “ Tanto a avisei que filho dos Menezes não podia ser boa rês, e, teimosa como a mãe, só aquele lhe serviu para casar. Agora vê-se: mau pai e pior marido. Um ricalhaço em peneiras e apelidos, que de seu tem defeitos e a porra do casarão em Barcelinhos a cair aos pedaços. E eu que lhe sustente as manias se o quero às boas com a minha filha e que os meus netos tenham juntos pai e mãe!... Ah carago!, nesta do veleiro para a Carminho e os garotos passearem - até onde chega o cinismo do gajo!... - quem o vai foder sou eu.”
Parou na área de serviço da Mealhada. Tinha tempo. A reunião com o inglês era às onze, e o melhor era concentrar-se na agenda e na negociação da proposta. Água fria na cara, uma dose de cafeína e outra de nicotina ajudavam. Dali a Lisboa era um salto; precisava de arrumar os detalhes para a porrada de dinheiro em jogo não lhe voar das mãos.
Manhã meia, Repsol de Gaia à vista, decide o mesmo que na véspera – água fria no rosto, cafeína e nicotina em doses combinadas. Um dia de cão, o anterior. A coisa que prometia ser despachada, meteu happy hour e jantar, mais uns copos num bar de chickens a pedido do inglês para culminar o sucesso da rendilha negociada. Hotéis lotados por miserável conjunção, quase o traziam de volta movido a vapores etílicos. Telefonou ao Santos do escritório – “Oh homem, desenrasque-me daí uma dormida em Lisboa.” “Claro que sim, Senhor Engenheiro,” para minutos depois ligar com um «nada» pungido na voz. “Santos, você tem o jornal de hoje? Arranje-me aí uma puta e diga-lhe ser coisa para toda a noite.” Assim foi.
Publicado por Teresa C. às junho 10, 2007 01:49 PM
Comentários
Nem todos os "homens do Norte" se encaixam na personagem dada pelo texto. Nem sempre esdtão virados para "putas e vinho verde". A maioria ainda alia sexo com afectos E isso, é mto bom Teresa...!
Publicado por: Viajante às junho 10, 2007 04:10 PM
Correndo o risco de ser inconfidente apresento o 'meu' homem-do-norte. O dela, da minha amiga, que lhe chamava o 'Homem do Ferro', devido à área de negócios. Quando ficava muito apertado por ela, pela minha amiga, que não o deixava divagar nas massas nem nas tretas do crédito difícil, dizia com a mesma frontalidade com que ensaiava uns convitezinhos, em desespero e apesar da presença da secretaria que o acompanhava sempre - Oh dótoura, num m'fuouda!
É típico. È pitoresco. Será nortenho
mas não percebo porque achamos que achamos graça a isto
Publicado por: -pirata-vermelho- às junho 10, 2007 05:00 PM
O carago puode sere du Nuortee..mas o "Homem do Norte" é muito mais do que a Teresa conseguiu ver!
O "binho berde!"as putas" o "fuoda-se, carago, biba a inbicta,e u Puerto!" são congéneres de quase todos os homens portugueses: só muda a pronúncia, dizem viva o Glorioso( e às vezes o meu pobrezito Sporting lá é louvado!), as putas mantêm-se,o vinho poder maduro(do Alentejo), o carago altera para porra!épá!tá a ver!cabrão! e o resto de Portugal "é só paisagem"...
Puro veneno? Nã...eu até acho que acho graça a estas diferenças(zitas)!
Mas que está bem escrito: Carago! F...-se até que está!
Publicado por: maria velho às junho 10, 2007 10:26 PM
Interrogo-me até que ponto em certas alturas da vida qualquer um de nós não cede ao 'homem/mulher comum' e comporta-se de uma forma mesquinha, boçal...
o 'Homem do Norte' é uma personagem universal que tendemos a desconsiderar por achar que não nos reflecte, mas será verdade tal presunção?
Um beijo
Publicado por: apenas um gajo e nada mais... às junho 10, 2007 10:36 PM
Ficamos a aguardar post com o título:
A MULHER DO NUORTE, CARAGO!
ps: parabéns ao "apenas um gajo e nada mais" ... na mouche! E válido para o binómio homem/mulher comum.
Publicado por: Minderico às junho 10, 2007 10:59 PM
A minha costela portuense e a minha costela lisboeta juntam-se para aplaudir este texto que com ritmo dá um retrato tão credível do homem de negócios do norte. E o humor do final, carago, merece mais palmas.
Publicado por: maria arvore às junho 10, 2007 11:51 PM
De adoçante a peregrino, de Tati a Teresa C.
A blogoesfera já não é o que era...
Beijo e boas escritas
Publicado por: João Mãos de Tesoura às junho 11, 2007 12:27 AM
Só para dizer uma coisinha: foi por defeito que comentei em excesso, capisce?
Publicado por: maria velho às junho 11, 2007 07:10 AM
Viajante - o texto pretende ser caricatura da sã frontalidade nortenha. E acredite, prezo-a!
Pirata-Vermelho - sabe a que acho graça? À não-cedência ao politicamente correcto aliada ao espírito-desenrasca.
Maria Velho - Aceito o seu ponto de vista, e, se ler o acima escrito, melhor me entenderá. Agradeço-lhe o comentário desempoeirado.
Apenas um gajo e nada mais... - Não desconsidero, bem pelo contrário: tal como diz, e bem, de «homem do norte» todos temos um pouco. Porventura, um pouco mais desse lado a quem do estereótipo se julga afastado não fizesse mal nenhum.
Minderico - acabo de o aplaudir :)
Maria Árvore - que bom ter entendido o que, de modo tosco, eu pretendi dizer.
João Mãos de Tesoura - é, meu querido, apenas se afastou por tanto tempo do Exacto, que julguei não o ver mais por aqui. Do Peregrinando constam os blogues que se finam ou são actualizados raramente. Um beijo amigo.
Publicado por: Tati às junho 12, 2007 06:52 PM
Vos, seus filhos da puta, em vez de meteres os cornos no vosso galinheiro, ide apanhar na bolha seus cabrões.
Publicado por: Alice às junho 17, 2007 01:14 AM
Comento aqui porque meus ancestrais eram, na maioria, o que você denomina “homens do norte” carago. Mas na verdade guarda relação é com as mulheres. Nortenhas ou não.
Acessei seu blog por acaso: procurava informações sobre as cartas de Mariana Alcoforado e por isso preferi efetuar a busca via google pt, que creio mais objetiva e precisa em relação a questões e fatos da história lusitana.
Uma referência leva a outra, e, ao dar com seu blog, ocorreu que adiei a busca original e nele me concentrei.
Muito interessante, instigante, inteligente e outros "ins".
Percorri-o inteiro, em ordem decrescente, de junho de 2007 a 2005. Já está na minha lista de “favoritos”.
Apreciei não apenas seus textos, mas também as ilustrações, de muito bom gosto.
Mas foram as ilustrações que terminaram por chamar minha atenção a ponto de, insignificantemente, postar comentário, parte sério, parte jocoso: é que, súbito, dei de cara com um belo desenho de uma moça nua, de autoria de Sorayama, o qual entretanto trazia as orgulhosas cores de Portugal a tapar a vagina (Vide "TROCAS E BALDROCAS", março 10, 2006).
Pensei: "Mas que raios? Sexo só por amor à pátria??? Ou seria um espalhafatoso e patriótico absorvente higiênico???".
Daí a vir eu a prestar atenção a todas as ilustrações do blog, foi um átimo.
Por todo o blog há corpos nús, apresentando nádegas, peitos, pêlos pubianos, em profusão. E sensualidade, sem dúvida; mas não vaginas.
Essas ora estão apenas intuídas, ora escurecidas, enrustidas, envergonhadas, escondidas. E até mesmo censuradas.
Exceção, embora delineada apenas de forma muito sutil, é um desenho de Milo Manara em "TELEGRAMA". Se houve outras, estavam em ilustrações das que não mais abrem pela Internet.
Já quanto a ilustrações expondo abertamente pénis, num blog "sem pénis, nem inveja", há. E os há aos magotes.
Surgem por toda parte, às vezes vigorosos, outras firmes, com frequência orgulhosamente expostos em muitas ilustrações .
Não confundir: Eu escrevi "SURGEM", não SOERGUEM-SE.
Pergunto:
- porque há de ficar estabelecido que pénis é coisa a razoavelmente expor, e vagina a esconder? Acaso um seria mais pornográfico que outro?
-porque ilustrações e/ou fotografias de vagina, exceto se expostas de forma quase assexuada para fins de ensino de medicina, seriam vulgares, pornográficas e imorais, por definição?
- e afinal, porque cargas d'água o órgão gerador masculino haverá de ser exposto sem pejo, e o feminino deve ser envergonhadamente ocultado?
Há aqui (não me refiro ao "locus" blog em si, mas a Portugal, ao Brasil, a toda a parte) sem dúvida auto-repressão, a qual, creio, resta ainda a ser por todos superada.
Não se negue a extrema competência das religiões em reprimir a mulher, principiando por coibir, vedar e enclausurar a beleza do órgão gerador de vida humana.
A meu ver, representa forma vívida de machismo, onipresente.
Destaque-se que há casos comprovados, no mundo animal (do qual a humanidade é parte, a despeito do despeito de alguns), de geração _ e efetiva concepção - sem a presença de macho. Isso por fêmeas; nunca o contrário.
A singeleza com que é genericamente aceito que a exposição pública do órgão masculino em ilustrações é normal, natural e razoável, enquanto a do feminino é imoral, vergonhosa e pornográfica é uma agressão tanto à inteligência humana, quanto à beleza e grandeza da própria criação, seja ela encarada como Divina ou natural.
Na verdade a opressão principia com a afirmação de que, segundo o Gênesis, a mulher não passaria de uma costela com um buraco... ou dois, ou três, dependendo da preferência; não cometamos o desatino de discriminar entre orientações e/ou preferências sexuais.
Independente desse não desinteressante debate numérico, decorreria daí ser a fêmea um mero acessório do macho.
Mas hoje nem futebol é mais jogo só de macho!
Pela igualdade entre os sexos, que não se dará sem a liberação imagética também da vagina!
O problema de enfrentar esse preconceito originário seria, talvez, o panorama de radicalização potencial: não seria impossívelm que ortodoxos, em apoio à exacerbação da vergonha institucionalizada, viesssem a erguer-se qual novos cruzados agredindo com suas espadas as brechas da legislação, pugnando pela proibição também do nú masculino...
Êpa! A imagem mental de espadas investindo contra brechas também pode ser erótica e atentatória ao pudor.
Melhor deixar como está, a vagina eternamente envergonhada, reprimida, suprimida, subjugada, censurada, sangrando em público, senão é capaz que algum ser saia por aí imbecilizado destruindo espadas em monumentos públicos e túmulos ancestrais.
Haja machismo arraigado!
De São Paulo, Brasil, para Portugal
Geraldo Facó Vidigal
(o lamentável comentarista, ademais de lamentar comentar, lamenta ainda antecipar que não tem qualquer parentesco com o grande jogador de futebol luso, e, mesmo sendo parte da amálgama brasileira, com ancestrais lusitanos em especial, e ibéricos e francos subsidiariamente, todos daí emigrados há gerações, sua habilidade nesse popular desporte é próxima a zero. Mas sua filha - quiçá pela origem milanesa da avó materna - não joga nada mal :-)
Publicado por: Geraldo Facó Vidigal às junho 19, 2007 08:59 AM