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junho 30, 2007

PROCISSÃO DE NADAS

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Autor que não foi possível identificar

Separar das trevas o dia pela feitura da luz terá sido a primeira obra do Criador. Luz primordialmente entendida como marcha atinada de corpúsculos, depois como onda veloz, hoje sabida como procissão de «nadas» que ondulam energia pura e nula massa – os fotões.

Para o deleite do visto a existência de luz é condição comum. Seja diurna ou nocturna a fracção do dia, o iluminado é protector; o negrume inspira temores pelo perigo que pode esconder. Nas paisagens visuais é assim e são as que privilegiamos. Outras há para afinados sentidos como o cheiro, o tacto, o ouvido e o sabor. Percorrendo trilho avulso com olhos vendados, que paisagem olfactiva reteríamos das silvas, canas, morangueiros silvestres, violetas, dentes-de-leão ou funcho? Um a um comporiam o desenho olfactivo do lugar, ou reteríamos soma confusa sem as parcelas nomear? Quem diz visão, diz olfacto, diz paisagens tácteis, gustativas ou sonoras. Num bosque – jamais entendi porque abundam no mundo e por cá se resumem a bouças, matas e matagais – palpados os caules, as folhas, o chão, a que detalhes resumiríamos a descrição?

A Exposição Universal de Paris em 1900 – megaevento para comemorar a mudança do século - foi provavelmente o derradeiro sonho iluminista de um mundo ordenado e controlado, apto a ser representado e transmitido também pela sumptuosa luz que a Torre Eiffel inaugurou e derramava a si e ao homem glorificando. Haja luz! E o mundo não mais foi o mesmo.

Publicado por Teresa C. às 02:02 PM | Comentários (0)

junho 29, 2007

MAGANOS A LENTILHAS

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Deborah Poynton

Ratificar sem referendo o novo Tratado Europeu? Nem pensar! São precisas hostilidades, dinheiros públicos para «campanhar» com bandeiras e ecrãs gigantes e protagonizar prime time que exiba o agitar das massas as barrigas para cima e para baixo sob mando de cantorias que entrem no ouvido e nas manipuláveis cabeças enfiadas em bonés com a sigla do partido ou do sim ou do não, tanto faz, o que importa é brilhar e corar as faces e as palmas das mãos de tanto louvar a compasso as incendiadas retóricas de quem o maior gosto é soprar o ego como se fora clarinete que deixa no ar o rasto e nas mentes o entulho da cacofonia que era para ser melodia e não foi mas que importa porque se o preciso é desorientar a malta à custa do vazio nos bolsos dos quais a porca da vida tudo levou para sustentar uns maganos dispostos a passeio em pelota de valores por meia dúzia de lentilhas a que chamam holofotes como se as fúnebres velas os esperassem hoje e não houvesse amanhã.

Publicado por Teresa C. às 08:48 AM | Comentários (4)

junho 28, 2007

O COMENDADOR

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Anthony Christian

“Foi um contentamento para o Comendador a notícia, que a esposa lhe dera, de lhe oferecer, em breve, um pequeno herdeiro do seu nome, e, sobretudo, da sua fortuna.

— É verdade isso? — exclamou o velho capitalista, contendo os ímpetos do coração.
E como fosse fraco dos nervos, desatou a chorar de satisfação, ensopando de lágrimas de felicidade o seu alvo lenço de linha, vasto como um lençol.

A generosidade do Comendador, durante os meses de expectativa, foi espantosa. Fraldas, camisinhas, sapatinhos de lã, barretinhos de seda, tudo isso entrava em quantidade pela porta do palacete, em que a mãe engordava contente, esperançada com a ideia de ter, enfim, uma criaturinha do seu sangue.

Passou o quinto mês. E o sexto. E o sétimo. Este último, passou-o o capitalista a procurar, sorridente, um nome para o pirralho. E concluiu:

— Se for homem, irá chamar-se Museu Berardo.
— E se for mulher? — indagou a esposa.
— Não é.

Antes do oitavo mês, o comendador mandou a esposa para Lisboa, não fosse onde estava mal assistida. Trinta dias depois, recebia o seguinte telegrama:
"Comendador — Lisboa — Extraí fibroma. Saudades — Esposa".

Para o capitalista a notícia foi um choque. Furioso, apoplético de raiva, respondeu de imediato:
"Madame Esposa — Funchal — A combinação foi dar outro nome à criança. Caso insista chamar Fibroma ao recém-nascido suspenderei mesada — Comendador".

Respirou com força. Era pai...”

Adaptado de um conto de Humberto Campos


CAFÉ DA MANHÃ

Um de muitos textos fabulosos. Quando a sensibilidade e talento e pensar se conjugam lemos textos assim.

Publicado por Teresa C. às 10:21 AM | Comentários (3)

junho 27, 2007

RAIMUNDOS E ROSAS

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Anna Halldin

Dura oito horas contadas do amanhecer. Amarela. Rosa. Habitat – Ria Formosa. Única no mundo. Em vias de extinção como muitas outras coisas – os Raimundos, por exemplo. Ou os Justinos. Os justos por matriz pessoal. O exercício do poder sem retribuição à sorrelfa. Sem cair no «poderzinho».

Hoje, raramente se dá hoje a conhecer. A Tuberaria Major ou Alçar-do-Algarve, outrora abundante, partilhava a quietude das zonas húmidas do litoral algarvio com os caniços, juncos e o tomilho-cabeçudo; observava a busca de alimento na água salobra dos corvos-marinhos-de-face-branca e das garças-cinzentas. Os pinheiros e sobreiros que debruam o sapal, estabelecem o recorte da linha-do-céu. A Comunidade Económica Europeia declarou prioritária a salvaguarda da curta vida da rosa amarela e forçou a alteração do PDM da Câmara de Loulé. Final feliz para a preciosa flor.

É recorrente incendiar polémicas sobre obras públicas atentatórias da preservação de espécies, tal como por ora acontece com a localização do novo aeroporto de Lisboa. Dois casos - a Ponte Vasco da Gama versus sapal do rio Tejo, a A2 versus habitat de alguma vegetação rasteira, ratos e outra bicharada. Perorei, esgrimi argumentos, divulguei o risco que corria o bem-amado sapal. No encolher da distância entre o Tejo-para-cima e o Algarve concluí a aprendizagem que iniciara com a Vasco da Gama – alertadas as instituições para danos ambientais, haja dó e piedade quanto à exacerbação dos cuidados. O sapal do Tejo conserva a riqueza da biodiversidade, tem saúde e recomenda-se. A A2, construída aos bochechos porque agora hiberna este bicho, ora agora procria aquele, foi calvário para muitos e afectou a economia nacional. Que saiba, a bicharada e a flora autóctones lá estão.

Porque aprender com o acontecido é obrigação, é possível compatibilizar interesses da Mãe Natura com necessidades humanas. E, se bem procurar, encontrarei Raimundos, Justinos, justos e exercício de poder recto com respeito pelos cidadãos.


CAFÉ DA MANHÃ

Agradeço as ligações para este blogue estabelecidas pelos seguintes blogonautas:
Graça Morais
António Luis, Dora Coimbra, José António Duarte e Pedro Viseu
Textículos
Mafa
Fantasma Pervertido
Um Corpo Estranho
Alice
Marisa
Johnnyboy
Inês, Marta, Rute e Sónia
Linjona
V. N. Fernandes

Publicado por Teresa C. às 11:06 AM | Comentários (2)

junho 26, 2007

O HOMEM QUE (DES)AMAVA AS MULHERES

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Gerald King

João Gomes de baptismo, João Galdério de alcunha. Padecia de obsessão pela conquista como necessidade vital do «ser» e exorcismo contra a solidão. Assemelho-o a Bertrand Morane pela dependência das mulheres – o homem que nem uma soube amar, mas tão somente o que delas julgava a essência. Uma dizia não buscar Bertrand o amor, mas a ideia que dele fazia. Outra explicava: "É difícil recusar-te os prazeres, porque pedes como se a tua vida dependesse disso.” Entre o complexo de Édipo e a tara por pernas roliças, entre sexo em locais públicos e a paixão pela voz de uma telefonista, descobriu-se incompleto ao não conseguir amar de verdade. Morreu na tentativa. Retrato em que Truffaut se reviu ao examinar a seu modo – também ele mulherengo - a natureza masculina. Tivesse conhecido o João Gomes e nele veria um competidor do amigo Michel Fermaud, encartado femeeiro e torneira do anedotário do filme.

O João Gomes é como era Bertrand - um coleccionador. No caso de fotografias. Mais do que das mulheres com as quais se deita e põe na mira da objectiva. Começou por reuni-las em álbuns, artísticos, afirma. Recomenda a quem lhe dá ouvidos para não escolher companheira sem os desfolhar primeiro. Quando o computador se tornou batedeira das claras da vida, arquivou em pastas de bytes a arte(?) da sedução(?). Num esgar de riso, ao exibi-las, afirma rijas as carnes da Sandra, torneado deleite o corpo da Sofia, tronchudas as pernas da Lisa, caprino o olhar da Delfina, de pêra murcha as molezas da entradota Cristina que pendurou em saltos a trouxa de feira quando o glamour pretendia. Escancara das mulheres o logro, a dor, a triste condição de modelos descartáveis cujo portfólio agencia.

Abre “O Homem que Amava as Mulheres” a cena dum cadáver que é sepultado e apenas algumas mulheres rodeando o túmulo. Os flashback contam do defunto Bertrand Morane a vida. Distinto do João Gomes pela poesia que, ainda assim, as mulheres lhe mereciam – “os pares de pernas femininas são compassos que em todas as direcções percorrem o globo terrestre, dando-lhe equilíbrio e harmonia".


CAFÉ DA MANHÃ

”Às 10 na Loja das Meias?” – magnífico texto de memórias que partilho.

A Bad teve a gentileza de nomear este blogue como candidato ao que abaixo enuncio. Obrigada.

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Publicado por Teresa C. às 08:30 AM | Comentários (2)

junho 25, 2007

DAS MULHERES, OS REDONDOS

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Alberto Castelli

Entre homens e mulheres abunda ruído na comunicação oral - falada, corrijo, não padeça de ambiguidadeo meu discurso. Eles acusam-nos de até aos alhos pintarmos mil bugalhos. Dos pormenores aos molhos até chegarmos aos factos. Soando o gongo para uma mulher escutarem, ajeitam-se no assento, acendem um cigarro e aguardam, sem fervura do sangue, os preliminares. Jaz a beata no cinzeiro, engoliram o café e ainda trabalhamos a moldura da substância. Trocam a perna traçada e, com vaga esperança de sucesso, interrompem para dizer: “dizias que foste assaltada. Quando foi isso?” E nós abespinhadas – “não ouviste o que contei? Pois se acabava de sair do cabeleireiro, só pode ter sido segunda-feira às duas da tarde, ou esqueces que meia hora depois já estou no trabalho? Aliás, a Elisa estava impossível, e do corte de cabelo que pedi, comprimento médio com as pontas que ladeiam o rosto mais compridas, assim como a Victoria Beckham, vês o que me fez? A Nixa afirma que fico com ar de garota ladina. Tu que achas?” E eles que sim, que é verdade, que estamos óptimas, mas adiante, “onde foste assaltada?” – “Era o que explicava antes de interromperes. Conheces a charcutaria que fica em frente do BCP? Numa corrida entrei para comprar uns mimos mais umas fatias de peru fumado. Ao pagar, o terminal de pagamento estava avariado e eu sem dinheiro. Já eram duas e um quarto, imagina!” Ele torce o pulso como quem no relógio busca razão para o formigueiro nas cruzes. Com voz arrefecida, arrisca “levantaste o que precisavas no ATM e fanaram-to depois?” Ela – “Não me deixas falar! Antes tivesse sido... mas não. Pior, muito pior... Na conta nem um cêntimo restava.” Aliviando a impaciência no tilintar das moedas para a despesa, remata “Ah, não foste assaltada!” e acena à funcionária. A injuriada levanta-se e vira as costas com a fúria tão alta como a bainha da saia: “és insuportável! Nem conto o resto. Fica bem.” Até ao carro vocifera: “todos iguais estes estupores; cretinos, egoístas, incapazes de ouvirem uma mulher.”

CAFÉ DA MANHÃ

À Amok muito agradeço a nomeação deste espaço para Blogue Com Grelos - "Mulheres, mães, profissionais que espalham a palavra de uma forma emotiva e cativante. Que nos falam da guerra mas também do amor. A escrita no feminino, em toda a net lusófona tem que ser distinguida"

Publicado por Teresa C. às 08:30 AM | Comentários (4)

junho 24, 2007

A RÉGUA DO NARCISISMO

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Autor que não foi possível identificar

Narcisismo – “estado psicossexual em que o objecto de amor é o próprio ou um objecto com o qual o sujeito se identifica.” Freud, Dr. Sigmund Freud, dava como aceitável dose equilibrada de narcisismo que à pessoa conferisse gosto por si; Morrisson defendia saudável aquele que confere ao adulto discernimento das suas necessidades relativamente aos outros.

A separação de entes importantes na pessoalidade das vidas fractura, quantas vezes!, um caminho no antes e no depois. Afastamento compulsivo, por que o escolhido pelo indivíduo não cabe na asserção. O luto imposto faz soçobrar muitos, a outros permite reavaliar o trajecto percorrido e pensar criticamente o presente, a quase todos debilita o tónus narcísico e emocional. A privação do elo-substrato-de-estabilidade agudiza o luto e exacerba o sentimento de rejeição em quem excede o nível dito “normal” de amor por si próprio.

Dado como precário para todos os humanos o equilíbrio psíquico, convirá não cair na vã tentação do receituário bem intencionado de conselhos avulsos, porém inábil ou supérfluo, prodigalizado a quem atravessa período denso. E, tendo consciência da fragilidade psíquica dos humanos, dou graças por não padecer de síndromas depressivos, os “males da alma” ou “nervos doentes” de antanho. Quando a insidiosa maleita se anicha no «eu», quer reactiva a esporádica e séria agressão, quer crónica e sem cura à vista, respeito profundamente quem sofre. A noção do transitório bem-estar é, por isso, mais precioso. Anavalha-me a sensibilidade o chavão: “tem tudo para ser feliz, mas é um(a) fraco(a) ou não se deixaria ir abaixo assim. Tanta gente com cruéis motivos para dores íntimas, que resiste!”

O sentimento de perda é holofote que ilumina o passado e presente. Os narcísicos lidam com o abandono como veleiro perante o Adamastor, incoerentemente vendo-se como navio a que pouco adianta a potência das máquinas. E é a humilhação que agudiza o sofrimento. A (in)consciência de valendo tanto à luz centrada no umbigo, ser diminuta a cotação no mercado dos afectos. Cair no egoísmo empedernido e cínico é o passo seguinte. Aniquilar com um gesto ou frase de gelo um mundo de amor e verdade que o outro abriga. Não fora a solidariedade devida a quem sofre, e apeteceria repetir o chavão – tantos a quem a alma dói e conservam a bondade.

Publicado por Teresa C. às 01:14 PM | Comentários (2)

junho 23, 2007

VERMELHO IMPERIAL

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Jenifer Janesko

Encarnado. Tempestuoso. Vibrante. Decidira-o para quando fossem dele os olhos que a viam. Saiu do banho. Não secou a pele. Adivinhava cada linha de água na sinuosidade do corpo. Entreabriu a janela e, alcovitada por uma vela, deitou-se. Queria lenta a evaporação da água. O perfume suavizando-se com ela. Gucci Rush. Rubro. Excessivo. Rosas - vermelhas, porque não? - apimentadas por madeira e âmbar.

Usaria vermelho imperial. Voluptuoso, imponente, tom profundo de adensado mistério. Nunca o vira. Porém, do pouco falado e muito intuído, conhecia-lhe a perspicácia, a (des)ilusão, o (des)encontro, a avidez que escondia sob o registo négligé. Ao novo, estava adicto. Simulava não ouvir os próprios passos na busca do inédito - corromperia a imagem que de si fornecia - que, finalmente, lhe detivesse o calcorreio. Como descrente aguilhoado pela fé que a renega por medo ou cobardia. No caso dele, medo. Do engano. Da dor. Da rejeição de si próprio. Do vazio. Pela sobranceria distanciando a esperança que, tão somente, o movia.

Ao verem-se seriam rosas, como veludo encarnado, que o olhar dela ao dele estenderia. Se as não vislumbrasse, se no rosto dela mais não visse que o fácil – aventura, oportunidade, apetite –, recolheria uma a uma as pétalas esmorecidas. Juntaria duas, como lábios, e demoraria na face dele um beijo. Num silêncio de veludo, sairia.

CAFÉ DA MANHÃ

Quatro anos de excelentes leituras. O Bruno Sena Martins está de parabéns.

Publicado por Teresa C. às 10:12 AM | Comentários (6)

junho 22, 2007

SUBINDO A CASTILHO

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Gill A. Elvgren

Passando Junho do meio, da minha Lisboa é a rua mais cheirosa. Verão chegado, boa parte dos garridos violetas desapareceu dos jacarandás da Rua Castilho. Durante a feira das letras arrumadas em livros, há fartura das grinaldas de flores que, olhos erguidos, vemos antes do céu. Ainda hoje não descortino se a romaria anual que prezo cumprir ao Parque Eduardo VII é devida ao coro de solicitações impressas pedindo “leva-me, leva-me”, ou à exótica moldura azul-anil-violeta.

Subindo a Castilho com o Parque a ladear a direita, a segunda rua à esquerda encavalita veículos sob tílias capitosas. Continuando em frente no cruzamento onde, atrás do balcão do quiosque, pontifica a D.Rosarinho – o viço do humor regula pela meteorologia – é compacta a folhagem bicolor de onde pendem cachos de recém-nascidas flores de tília. O aroma afirmo, sem o ter visto, alvo e denso. À lembrança ocorre a precariedade dos enfeites e a nula serventia – avançada a gestação das bagas, no parto ali abandonam a vida.

Quem do campo sabe segredos reconhece o cheiro que apaga o de ramalhete de rosas. Houvesse tempo e escada e certeza de não infringir avulsa lei da autarquia, para uma cesta vindimaria as flores. Depois de secas em tabuleiro forrado, de cada mão cheia adicionada a água fervente surge o chá, calmante, dizem, sabendo ao aroma do Verão nascido, digo.

Publicado por Teresa C. às 06:40 AM | Comentários (2)

junho 21, 2007

VULVA INSINUADA

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Miguel Ângelo

Apreciei a forma e o conteúdo do comentário vindo do Brasil através da assertiva manipulação das teclas do Geraldo Facó Vidigal e publicado no “Café da Tarde”. Pouco contraponho à justeza das reflexões, que, além de outros méritos, me obrigaram a (re)pensar e rever o “Sem Pénis” – confirmei a propriedade de alguns, não muitos, pendentes masculinos que publiquei. Quanto ao “Nem Inveja” foi omissa a contestação.

Se do membro másculo expus reproduções, vieram, e arrisco o "sempre", a propósito do texto que ilustram, tal como os nus em geral. É evidente a subjectividade estética que sustenta as escolhas das pinturas que dia-a-dia exponho. Não desminto alguma indiferença ao gosto pelo convencionado recato julgado próprio de mulher-de-bem(?). A palavra “alguma” atrás escrita não resulta somente do arreigado temor às abusivas generalizações de quem na Ciência preenche parte do dia – a humildade de admitir que a riqueza do real não pode, em absoluto, ser espartilhada por regras, teoremas ou modelos -, mas sim da consciência de, não raro, obedecer a cautelas ditadas por vãos(?) pré-conceitos.

Ao peregrinar pelo mundo em busca de galerias de arte, tudo passou pelo monitor, incluindo pornografia gratuita. Constatei que vaginas e ânus femininos abertos são comuns, mesmo quando de arte se trata, raramente por constituírem depurado objectivo pictórico, mas por facilidade comercial. Onde começa e acaba a cedência, a confusão entre erótico e pornográfico? Por prudência, dose bastante de ignorância do público-alvo do blogue e respeito, censuro iconografia que, ociosamente, confronte inadvertidos leitores. E há o pudor, sim. A gruta da mulher, que à vida novas vidas traz, é mais do que lábios e clitóris, é âmago da existência como da Terra o núcleo sólido envolvido em fina membrana líquida.

As representações do pénis remontam aos clássicos dos quais os emblemáticos a maioria das gentes conhece. A vulva exposta – da insinuada são inúmeros os registos – o senso comum conota com pornografia. Reconheço que um blogue pode induzir evolução no entendimento artístico. Jamais avaliei como machista a minha precaução. Porém, admito ser ignota a última razão que subjaz à selecção da pintura que publico. Manter-me-ei vigilante à (in)consciência a que me apego na defesa da igualdade dos direitos de homens e mulheres.

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Rafael

Publicado por Teresa C. às 08:44 AM | Comentários (8)

junho 20, 2007

TÓS, BETOS OU NELOS

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Mark Young

De baptismo, António. Poderia ser Alberto e para os amigos Beto; Nelo se fosse Manuel a vontade dos padrinhos. Mas não!, calhou-lhe o Toninho de que se desfez mal atingiu a idade do querer. Por apelido Santos, podia ter sido mais um Pereira entre milhões. Santos Pereira sendo conjugação de pai e mãe. Na certidão de nascimento um mangas-de-alpaca assentou António Santos Almeida, Tó para os compinchas. Duas letras que o descreviam na perfeição – à uma, era curto, calhando com a preguiça do (sobre)viver, às duas, nome inteiro era coisa de gente com mais posses e pretensões, negada pela esquerda radical que, sem um gesto, afirmava defender.

Da infância dolorida e da adolescência ao Deus-dará, poderia ter surgido homem bom. Não foi o caso – iniciou nas fumaças os desvios, derrapou para adicta escolha, recuou, caiu no álcool, curou-se e foi andando menos mal. Da juventude à idade adulta fez-se biscateiro e apurou o talento de «bater couros» a incautos fosse no estudo, nos empregos precários ou na matreirice a que sujeitava as pessoas em geral. “Está-lhe na massa do sangue”, diria o povo ao encolher os ombros, rematando sem dizer: “não vale a pena gastar cera com ruim defunto. Assim é, assim será!”

Com a argúcia e inteligência, preciosos bens herdados, poderia ter investido positivamente na vida. Ora, isso obrigava a cuidados, disciplina, esforço, tudo razões de alergia para quem encasquetara prover ao respectivo sustento pela atávica preguiça gerida a partir da cama. Optou pelo estatuto mais simples e para o qual obtivera licenciatura, mestrado, doutoramento e pós-graduações várias: exímio larápio de almas e dinheiros. “Mas respeito valores”, jurava, cruzando os dedos de ambas as mãos e deixando soltos os pés para rasteirar desavisado que o acaso aproximasse.

Está bem na má vida que conhece. Os ventos correm de feição aos cabazes de Tós que na horizontal ziguezagueiam entre os pingos da chuva. Indo molhado o início do adiado estio, uma coisa sempre peço aos santos da minha devoção – “tende piedade!, não me deixeis escorregar em laje puída ao alcance dos Tós, Betos ou Nelos deste mundo. Amem.”


CAFÉ DA MANHÃ

Para quinta-feira adio a resposta ao comentário que ontem publiquei. Não sou «piquena» de ceder a uma vagina pintada sem arengar um pedaço.

Publicado por Teresa C. às 08:07 AM | Comentários (2)

junho 19, 2007

CAFÉ DA TARDE – LIBERAÇÃO DA VAGINA

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Mark Blanton

Comento aqui porque meus ancestrais eram, na maioria, o que você denomina "homens do norte" carago. Mas na verdade guarda relação é com as mulheres. Nortenhas ou não. Acessei seu blog por acaso: procurava informações sobre as cartas de Mariana Alcoforado e por isso preferi efetuar a busca via google pt, que creio mais objetiva e precisa em relação a questões e fatos da história lusitana. Uma referência leva a outra, e, ao dar com seu blog, ocorreu que adiei a busca original e nele me concentrei.
Muito interessante, instigante, inteligente e outros "ins". Percorri-o inteiro, em ordem decrescente, de junho de 2007 a 2005. Já está na minha lista de "favoritos". Apreciei não apenas seus textos, mas também as ilustrações, de muito bom gosto.

Mas foram as ilustrações que terminaram por chamar minha atenção a ponto de, insignificantemente, postar comentário, parte sério, parte jocoso: é que, súbito, dei de cara com um belo desenho de uma moça nua, de autoria de Sorayama, o qual entretanto trazia as orgulhosas cores de Portugal a tapar a vagina (Vide "TROCAS E BALDROCAS", março 10, 2006). Pensei: "Mas que raios? Sexo só por amor à pátria??? Ou seria um espalhafatoso e patriótico absorvente higiênico???". Daí a vir eu a prestar atenção a todas as ilustrações do blog, foi um átimo.

Por todo o blog há corpos nús, apresentando nádegas, peitos, pêlos pubianos, em profusão. E sensualidade, sem dúvida; mas não vaginas. Essas ora estão apenas intuídas, ora escurecidas, enrustidas, envergonhadas, escondidas. E até mesmo censuradas. Exceção, embora delineada apenas de forma muito sutil, é um desenho de Milo Manara em "TELEGRAMA". Se houve outras, estavam em ilustrações das que não mais abrem pela Internet. Já quanto a ilustrações expondo abertamente pénis, num blog "sem pénis, nem inveja", há. E os há aos magotes. Surgem por toda parte, às vezes vigorosos, outras firmes, com frequência orgulhosamente expostos em muitas ilustrações .
Não confundir: Eu escrevi "SURGEM", não SOERGUEM-SE.

Pergunto:
- porque há de ficar estabelecido que pénis é coisa a razoavelmente expor, e vagina a esconder? Acaso um seria mais pornográfico que outro?
-porque ilustrações e/ou fotografias de vagina, exceto se expostas de forma quase assexuada para fins de ensino de medicina, seriam vulgares, pornográficas e imorais, por definição?
- e afinal, porque cargas d'água o órgão gerador masculino haverá de ser exposto sem pejo, e o feminino deve ser envergonhadamente ocultado? Há aqui (não me refiro ao "locus" blog em si, mas a Portugal, ao Brasil, a toda a parte) sem dúvida auto-repressão, a qual, creio, resta ainda a ser por todos superada.

Não se negue a extrema competência das religiões em reprimir a mulher, principiando por coibir, vedar e enclausurar a beleza do órgão gerador de vida humana. A meu ver, representa forma vívida de machismo, onipresente.
Destaque-se que há casos comprovados, no mundo animal (do qual a humanidade é parte, a despeito do despeito de alguns), de geração - e efetiva concepção - sem a presença de macho. Isso por fêmeas; nunca o contrário.

A singeleza com que é genericamente aceite que a exposição pública do órgão masculino em ilustrações é normal, natural e razoável, enquanto a do feminino é imoral, vergonhosa e pornográfica é uma agressão tanto à inteligência humana, quanto à beleza e grandeza da própria criação, seja ela encarada como Divina ou natural.

Na verdade a opressão principia com a afirmação de que, segundo o Gênesis, a mulher não passaria de uma costela com um buraco... ou dois, ou três, dependendo da preferência; não cometamos o desatino de discriminar entre orientações e/ou preferências sexuais. Independente desse não desinteressante debate numérico, decorreria daí ser a fêmea um mero acessório do macho. Mas hoje nem futebol é mais jogo só de macho!

Pela igualdade entre os sexos, que não se dará sem a liberação imagética também da vagina! O problema de enfrentar esse preconceito originário seria, talvez, o panorama de radicalização potencial: não seria impossível que ortodoxos, em apoio à exacerbação da vergonha institucionalizada, viesssem a erguer-se qual novos cruzados agredindo com suas espadas as brechas da legislação, pugnando pela proibição também do nu masculino...

Êpa! A imagem mental de espadas investindo contra brechas também pode ser erótica e atentatória ao pudor.

Melhor deixar como está, a vagina eternamente envergonhada, reprimida, suprimida, subjugada, censurada, sangrando em público, senão é capaz que algum ser saia por aí imbecilizado destruindo espadas em monumentos públicos e túmulos ancestrais.

Haja machismo arraigado!

De São Paulo, Brasil, para Portugal
Geraldo Facó Vidigal

Publicado por Teresa C. às 04:50 PM | Comentários (4)

PRAZERES MÚLTIPLOS

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A escrita pode ser vício e os vícios é suposto serem maus. Ou condenáveis. Ou desviantes do tido por «normal», o quer que seja este estranho carimbo que a esmo aplicamos para significar o comum. Ora, desde que «sou» me atemoriza ser cópia dos demais. Por que sim, por me ter sido ensinado o prazer da conquista pessoal, por que aprendi a gostar do pouco que é meu, por o copy/paste não apreciar - dá arranjo, convenho, se num arquivo busco um momento do que fui. E invento e distancio-me da mulher que afadiga nas teclas os dedos, projectando e (re)arranjando conversas frívolas ou de confessionário ouvidas em parte (in)certa que polvilho com esparso pó do que experimentei. A verdade nem carece de delongas. Diz-se na fracção mínima dum suspiro: tenham a fineza de não levar a sério esta que assina Teresa C.

Como afirma cordão na «rede», de acordo com os padrões actuais os nascidos antes de 86 não deviam ter sobrevivido. Lambíamos as cores bonitas das nossas camas de bebé pintadas com tintas à base de chumbo. Brincávamos com panelas, ignorávamos capacetes para andar de bicicleta, viajávamos seguros do amor e desvelo dos pais em carros sem cadeiras, cintos e airbags. Bebíamos água da mangueira do jardim, mascávamos pastilhas elásticas de empréstimo, o pão com manteiga não engordava por tudo esmoer a brincadeira. Estar incontactável nos horários estabelecidos a ninguém afligia. Não havia 40 canais de televisão, filmes de vídeo, home cinema, telemóveis, computadores, DVD, chat na Internet. Tínhamos amigos - se os quiséssemos encontrar havia o liceu, a casa ou o telefone fixo. Jogávamos ao elástico, à macaca e saltávamos à corda. Do xadrez, das cartas e das damas fazíamos pretexto para serões. Íamos a pé para casa dos amigos e para a escola. Infringidas normas sérias, não nos valiam os pais - estavam do lado da lei. Pertenciam-nos fracasso, sucesso e responsabilidade. Com tudo aprendemos a lidar.

Das competências adquiridas no crescer, a menor não foi usar com perícia a imaginação. A ela devo inconfessáveis prazeres em múltiplas posições. Por tudo, caríssimos leitores, distanciem do meu ignoto real o que escrevo. É mezinha saudável sem acoplar bula pejada de contra-indicações.

Publicado por Teresa C. às 07:41 AM | Comentários (7)

junho 18, 2007

DAMASCO BOROLENTO

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Kamille Corry

É raro o meu choro. Naquele dia, desde o acordar sabia as lágrimas rondando com pés de lã. Há dias em que amo menos os outros e a mim. Mal abre a manhã, identifico sinais do desamor e ensaio avistar as razões. Durante a órbita diurna vou ressuscitando a alegria até pela tarde meada chegar a paz. Escancarada a janela do dia, abri-me ao amor num privado excesso emocional. Logo eu, que o vulgo julga racional convicta... Contrariando a minha dádiva, a noite cresceu mal. Pela urgência de anestesia para a consciência, adormeci num ápice, na esperança de a amordaçar. Mas não. Ao acordar estava inteiro o desgosto. Insidioso. Perverso. Cruel. Como se me tivesse portado mal, muito mal, e os pais, os avós, as tias, os bisavós, todos reunidos em concílio na sala vetusta que conheço bem demais, me olhassem aniquiladores, deixando-me liquefeita, engolida pelas juntas das traves de madeira do chão.

A umbigos defuntos desfiz projectos de continuidade do “bem ser e parecer” perante a miúda sociedade local. Como era uso do clã. Como me estava destinado. À parte modesto desvio, tenho-me ajeitado menos mal à herança. Só que eles - os jesuítas, cónegos, freiras, doutores e proprietários - canibalizaram descendentes ou laterais insubmissos, sei-o de fonte limpa!, até por via da dureza do torno os encaixarem no molde de aço e lacrarem como garante da pertença ao clã familiar. Rejeitando ser tira de damasco borolento do forro das paredes do salão, depois caído num canto do soalho onde só as teias crescem no tempo fechado, insisto na liberdade. Na lucidez grata aos que me antecederam. No amor aos que resistem de cujos beijos e abraços preciso, sem abdicar de quem sou.

Publicado por Teresa C. às 07:44 AM | Comentários (8)

junho 17, 2007

LUISINHA

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Autor que não foi possível identificar

Está breve a chegada aos quarenta anos. Dois filhos, a Catarina e o Afonso, um marido lindo de ver, poder económico, bando de irmãos e sobrinhos formando um sólido núcleo familiar. Viaja, do ténis e do ski faz desportos de eleição que os quatro partilham. No final de semana, vivendo ali pràs bandas do Parque das Nações, é ver o casal e os pequenos montados em bicicletas gozando do Tejo a vista e o ar. Ela retrata a mulher bem sucedida na vida e na profissão.

A estatura média e o corpo esguio aproveita-os para visual descontraído, com bom gosto, a juventude exaltada pela agilidade dos gestos, qual Julia Roberts nos melhores momentos da vida e no cinema. Pragmática, faz das ciências exactas o mundo lógico e profissional. Também neste particular fiável, e reconhecida por méritos inquestionáveis. Evita cabeleireiros, manicuras, ornamentos ociosos; o rosto de linha puras apresenta-o lavado. O dourado sazonal da pele é produto das práticas desportivas e do mar. Por tudo distanciada das que o mesmo conquistam pelos cremes bronzeadores ou imobilidade paga ao minuto nos solários.

Negando o glamour e os artifícios, são a inteligência, o humor, a vigorosa saúde física e mental exalada que encanta ao primeiro olhar. O que faz da Luisinha uma mulher especial, para lá da amizade que nos une? O que escasseia no conturbado presente – um modo de estar na vida equilibrado, são e atento ao essencial.

Publicado por Teresa C. às 11:55 AM | Comentários (3)

junho 16, 2007

COM ÊXITO, RICOS E LINDOS

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Jar Ling

“Os filhos dos ricos são bonitos e têm sucesso, os dos pobres perpetuam inferioridade nos ferretes sociais.” A beleza rica é, frequentemente, uma falsa beleza, atentando bem. O luzir da pele e do cabelo, a elegância de um pé sem mácula delicadamente apoiado na vertiginosa curvatura de uma sandália, o embrulho das formas em tecidos perfeitos são partes de um todo fascinante carimbado como belo. As competências sociais afinadas por sucessivas gerações são o brilho dos salões. Os descendentes assimilam como água uma série de códigos que, frequentemente, os distancia dos demais. Todavia, é sabido que qualquer ser humano inteligente, culto, ou simplesmente informado, de duas uma: ou emerge socialmente pela cópia das condutas que o integram nas elites dominantes, ou preserva o desprendimento considerado um valor, não raro uma excentricidade que o compraz pela «imagem de marca» associada.

Em ambientes socialmente heterogéneos como as escolas, contabilizado o sucesso, nele dominam adolescentes cujas famílias possuem recursos económicos e culturais. Os mais desfavorecidos têm, globalmente, menor sucesso escolar. Dando por adquirido o logro do pensamento nazi, não é aceitável supor privilégio de castas a inteligência e demais dotes do intelecto fundamentais para o êxito na consolidação das aprendizagens. Em que resquício cerebral se esconde a diferença referida na constatação? Havendo igualdade no apoio afectivo da família e no acesso às ferramentas necessárias, arrisco resposta breve: nas competências sociais. Saber falar em público, adaptação a ambientes diversos mesmo se aparentemente superiores ou hostis, possuir uma linguagem corporal espontaneamente correcta permite ao intelecto concentrar-se no essencial e lateralizar como ociosidades verdadeiros calcanhares-de-Aquiles nos menos preparados para a exposição social.

Publicado por Teresa C. às 10:34 AM | Comentários (2)

junho 15, 2007

ANA, MARIA E O ESQUIFE

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Autor que não foi possível identificar

Quando do gosto surgiu o amor, ele declara, solene, vassourar poeiras do que daí em diante seriam enganos ou memórias ou exercício disperso da libido. Não entesourara, dizia, enleios duradouros em que o ser vive e morre na ondulação. Afirmava-os fogachos que uma varridela a preceito apagaria no momento. Ela acreditou – não se despedira da candura de nos humanos depositar fé. Por ela julgava os outros. A ele também.

De um aparente arbusto pode nascer tronco e copa de árvore enfeitada por atractiva folhagem resistente às borrascas de Março, ao granizo de Abril, ao vento de Maio e às noites frias de Junho. Assim julgava ela o sentido laço de que uma ponta apertava; a outra, supunha, estaria firmemente presa no coração ou o que o físico músculo simboliza e a ele pertencia. E tinha paz.

Entre embaraços que o embaraçavam e depois a confrangiam, teve por incerta a certeza da casa arrumada e do chão limpo que somente os pés femininos dela pisariam. Determinada, tirou a limpo a dúvida. Havia a Ana e a Maria, mais o que ela julgara um esquife e de onde pulava, ligeiro, um ido. Olhos secos e sem tremura na voz quis entender a razão da pacífica(?)convivência entre verdade e mentira. E percebeu – a matriz de alguém a meio tempo clandestino endeusa a lua que na noite ilumina gestos míticos e vadios, enquanto teme e recusa e foge ao brilho do sol que a realidade expõe sem ocultar imperfeições. De todos, dela e dele. Aceitou o que entendeu por nobre. O resto? Adormeceu.


CAFÉ DA MANHÃ

“Que Nojo!” – O começo desta nova rubrica não poderia ter sido mais exemplar. Congeminava eu um texto, sobre o mesmo, para um dia mais corrosivo – que os tenho, olá se tenho! – e esta Mulher-Menina, sempre atenta, antecipou-se com a singeleza rara que a caracteriza.

Publicado por Teresa C. às 09:32 AM | Comentários (3)

junho 14, 2007

DO CORRIERE DELLA SERA AO NEW YORK TIMES

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Imagem cujo autor não foi possível identificar

Em média, os ambientes fechados retêm cerca de 80% da nossa vida. No quotidiano urbano, o valor sofre acréscimo substancial – saímos de casa pelos subterrâneos das garagens, confinados ao automóvel, e entramos nos serviços que nos tomam cerca de oito horas diárias. O regresso repete a ida, com alguns acréscimos - enfiamo-nos nos estacionamentos cavados no chão dos ginásios, dos centros comerciais ou supermercados. O condicionamento do ar, pequeno-almoço ou outra refeição fora de casa, soma riscos à servidão que temos por civilizada – combustões de cigarros ou equiparados, as necessárias para transformarem alimentos crus em sabores e texturas que o palato aprove e processem a digestão, expõem-nos a poluentes de concentrações superiores às do tráfego urbano.

Portugal ainda é, juntamente com o extremo norte da Europa, um paraíso ambiental no que concerne à qualidade do ar. A zona da Lombardia, tendo como fulcro Milão, e a do Ruhr são hematomas feios nos já de si poluídos países da Europa Central. Naquelas regiões, um cidadão tem diminuída a esperança de vida aproximadamente trinta e seis meses, enquanto no coração europeu a redução ronda os vinte e quatro meses. Pois bem: a Comissão Europeia prepara-se – finalmente! – para legislar a concentração máxima das MP 2.5 (ver texto do dia 1 de Junho). Tudo aponta para que o valor legislado seja de 25 mg/m^3. Portugal, um dos oásis europeus, apresenta concentração média de exposição a aerossóis de 60 mg/m^3. Decorrem daqui urgentes mudanças nas regras sociais e, principalmente, afinar a consciência crítica, a solidariedade e a cidadania.

A contaminação atmosférica traduzida em doenças graves alertou a comunidade médica. Por estudar, do ponto de vista clínico, estão os resultados da última investigação promovida em Portugal pelo CITIDEP através do EuroLifeNet.Science e de que deram conta jornais nacionais, poucos!, o Corriere Della Sera e o New York Times entre os de renome mundial. O valor de 500 mg/m^3 atingido na cozinha de um dos jovens prestadores de serviços na investigação enquanto a mãe preparava um jantar de grelhados, dá que pensar. Julgo estar certa se predisser, a médio prazo, uma revolução nos hábitos sociais.

Publicado por Teresa C. às 08:12 AM | Comentários (2)

junho 13, 2007

SEDA RASGADA

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Autor que não foi possível identificar

Descemos a Avenida em passo corrido e atravessámos o restolho das marchas alfacinhas com as mãos em laço. Dos balões e papelotes e pedaços de seda rasgada nalgum tropeção maldito, evitámos pisar os vestígios – havia pouco tinham sido tradição marchante agitada pelos corpos bailadores, à cidade oferecendo alegria durante meses trabalhada. Olhávamo-nos e ríamos do momento e do que véspera um ao outro contáramos num registo de partilha empoada pelo afecto. Ao saltarmos os restos da folia, acrescentámos despojos pessoais de mágoas e saudades, também eles dançando ao ritmo do vento da noite fria. E ríamos.

Não rumámos em peregrina nostalgia aos sítios onde a festa se encavalitava - preferimos serpentear os plátanos incrustados em canteiros de trato modesto. A calçada portuguesa ainda cantava, talvez reagindo aos nossos passos gingões, ou não tivesse sido marialva a noite e o dia casamenteiro. Largávamos do outro a mão quando as entroncadas árvores se interpunham, para a procuramos com pressa, como se o riso ilusionado fosse fluido que uma vez impedido de correr arruinasse ilusões, ou, como bruma densa, ocultasse os sóis das nossas vidas. Amámos Lisboa. Pelo gosto e pela inocência do ritual exorcista ríamos.

Publicado por Teresa C. às 07:50 AM | Comentários (4)

junho 12, 2007

A MINHA É MAIS CASTA QUE A TUA

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Barn Dog

“É idêntica a dispersão sexual das fêmeas e dos machos humanos." Opinião deles que elas não tardam a desmentir – apontam-se, mais as conhecidas e amigas, como exemplo contrário à redução. Homens argumentam que, sendo incontável na respectiva vida sexual o número de parceiras e pelo óbvio adquirido de serem precisos dois para o sexo partilhado, as mulheres são tão promíscuas quanto eles. E detêm-se em detalhes que se cansaram de ouvir: “nunca fiz isto, jamais traí, mas contigo não foi possível resistir”, “que «cama»!... Com o meu marido é uma seca”, “nem sei como me seduziste e num instante me abri para ti”. Acrescentam, não raro, vir o complemento: “à tua conta tive de ir à ginecologista e tratar-me do mal que me pegaste. Entre consulta e receita aviada na farmácia deves-me cento e cinquenta euros.” Por outro lado, defendem, perante a descarada oferta feminina resta-lhes sucumbirem, não sejam tomados por parvos ou indecisos na orientação sexual.

Da mulher duas visões: a exposta, em que (muitos?) homens se revêem, e a que recolhi em diálogos libertos no seio do gineceu. É invulgar determo-nos em relatos sexuais, sejam razões a subalternização da vida sexual, o pudor ou o estigma da castidade feminina. Vinda à baila a intimidade, são os afectos, os cenários e os personagens das memórias ou da actualidade que, vividamente, descrevemos, indissociáveis das emoções experimentadas no feminino e particular sentir. Nisto distanciadas de alguns relatos frios e contabilistas deles.

Nem adianta trazer à colação factos ancestrais: os homens disseminam as sementes, as mulheres seleccionam o progenitor que proteja e ajude a cuidar do ser que durante nove meses carregarão. É ocioso relembrar a importância do acesso e da eficácia dos métodos contraceptivos na alteração dos comportamentos sexuais. “A minha mulher é casta, as outras são umas cabras! Procuro-as pela adrenalina da conquista e pelo sexo altivo, bem diferente do que em casa me é servido”, larga a inquietação: será que esta teima persiste?


CAFÉ DA MANHÃ

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Autor que não foi possível identificar

No dia que lembra o trabalho infantil, é também meu o desejo das crianças não serem arredadas do direito de crescer em liberdade.

Publicado por Teresa C. às 11:46 AM | Comentários (6)

junho 11, 2007

AO PENSÁ-LO, JÁ PASSOU

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Colleen Ross

Bufam autocarros de rolar pesado, apitam condutores desabridos e desavindos com a pressa ou a dolência dos outros, agoiram dramas os sonoros avisos das ambulâncias, roncam ziguezagues as motas no caldo motorizado das vias urbanas. O «encarnado» impacienta pelo vagar, o «verde» angustia por ser curto demais, o amarelo pisca o olho aos peritos em «verde-tinto» - dele conhecem os segundos permitidos ao acelerador. Chiam travões nas passadeiras, rosna a subespécie humana promovida a condutor poderoso que os peões julga detritos dos escoadouros viários. E há o fumar-chupado de um cigarro, a beata largada pela janela, o tamborilar dos dedos no volante ao ritmo da ânsia pela chegada, as notícias e a falta-delas e a música e a patética voz (des)animada do locutor que a sintonia baba e a trauteada leitura do CD – quantas vezes raivosa, quantas entediada. E ao mecânico e rigoroso pulsar do tempo a subjectividade do indivíduo chama mentirosa.

Quem do tempo requer tempo para o tempo diário de «ser», começa por fruir desse tempo nos tempos que diria mortos. Sai mais cedo que a pressa. Ao volante, caindo o proibido-avançar, atenta nos enfeites da manhã, em detalhes da arquitectura que o hábito esqueceu. Ouve a cacofonia exterior como o respirar da vida, ou evita-a, cerrando os vidros, para deleite de música harmónica com o instante do «eu». E se é neutro ou soalheiro ou húmido ou frio o dia, quem ama o tempo dele ama e respeita o diverso. Aproveita a consciência do inexorável pulsar atómico para desfrutar do segundo que, ao pensá-lo, já passou.

Publicado por Teresa C. às 11:15 AM | Comentários (4)

junho 10, 2007

HOMEM DO NORTE

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Kenney Mencher

O negócio prometia. Atravessou a Arrábida ainda com o sabor acre do cimbalino que o Esteves – “trabalhador, educado, bom moço, carago!” – lhe servira ao balcão. Nos Carvalhos, ainda remoía a “porra de vida do rapaz que, suando mais, ganha menos que o cabrão do Pimentel. Tenho de perguntar à contabilidade quanto é que o gajo ganha; não faz a ponta de um corno a chefiar o armazém do Lordelo que precisa de trabalho e responsabilidade. À vinda, troco as voltas àquele filho da puta e ponho o Esteves no lugar dele.”

Antes da saída para Espinho, o pensamento estava por conta da Carminho. “ Tanto a avisei que filho dos Menezes não podia ser boa rês, e, teimosa como a mãe, só aquele lhe serviu para casar. Agora vê-se: mau pai e pior marido. Um ricalhaço em peneiras e apelidos, que de seu tem defeitos e a porra do casarão em Barcelinhos a cair aos pedaços. E eu que lhe sustente as manias se o quero às boas com a minha filha e que os meus netos tenham juntos pai e mãe!... Ah carago!, nesta do veleiro para a Carminho e os garotos passearem - até onde chega o cinismo do gajo!... - quem o vai foder sou eu.”

Parou na área de serviço da Mealhada. Tinha tempo. A reunião com o inglês era às onze, e o melhor era concentrar-se na agenda e na negociação da proposta. Água fria na cara, uma dose de cafeína e outra de nicotina ajudavam. Dali a Lisboa era um salto; precisava de arrumar os detalhes para a porrada de dinheiro em jogo não lhe voar das mãos.

Manhã meia, Repsol de Gaia à vista, decide o mesmo que na véspera – água fria no rosto, cafeína e nicotina em doses combinadas. Um dia de cão, o anterior. A coisa que prometia ser despachada, meteu happy hour e jantar, mais uns copos num bar de chickens a pedido do inglês para culminar o sucesso da rendilha negociada. Hotéis lotados por miserável conjunção, quase o traziam de volta movido a vapores etílicos. Telefonou ao Santos do escritório – “Oh homem, desenrasque-me daí uma dormida em Lisboa.” “Claro que sim, Senhor Engenheiro,” para minutos depois ligar com um «nada» pungido na voz. “Santos, você tem o jornal de hoje? Arranje-me aí uma puta e diga-lhe ser coisa para toda a noite.” Assim foi.

Publicado por Teresa C. às 01:49 PM | Comentários (11)

junho 09, 2007

REFRESHING! EXULARATING! INVIGORATING!

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Gil Elvgren, Vado, Mark Blanton

“A água negra do imperialismo” teve início modesto. Tentando criar um remédio para a dor-de-cabeça, o Dr. Pemberton pegou num latão, misturou ingredientes e obteve um xarope caramelizado. Vendeu-o como eficaz na cura dos males do corpo e da alma, omitindo ter feito a beberagem com folhas de coca. Segundo investigações laboratoriais, são elas o sétimo e secreto item da composição viciante da bebida. Fórmula química apenas conhecida por dois homens.

No final do século dezanove, a Coca-Cola, simbolizada pelo logotipo tal qual o conhecemos e desenhado pelo Dr. Pemberton, foi divulgado em larga escala – “Delicious! Refreshing! Exularating! Invigorating!”. O farmacêutico lucrou cinquenta dólares e gastou setenta e quatro na propaganda. Em contrapartida, as campanhas para a divulgação mundial da Coca-Cola fizeram escola na publicidade e no marketing. Todas com um denominador comum – exibem pessoas saudáveis e felizes.

A mulher foi e é comum ingrediente publicitário. A imagem fornecida evoluiu com a sociedade. Casta e sóbria até aos anos quarenta, pudor diminuído e malícia aumentada nos fifties, corpo desnudo no último quarto do passado século. Na década de oitenta, um ilustrador malicioso foi mais longe – inseriu nos posters uma pequena silhueta de mulher fazendo sexo oral. Depois de impressos e pintados nas traseiras dos camiões da Coca-Cola, alguém atento percebeu a brincadeira. Todo o material foi retirado de circulação, o artista demitido e processado. Um desses posters vale hoje uma fortuna para coleccionadores que, por esse mundo fora, cotam caricas como selos preciosos.

Publicado por Teresa C. às 11:40 AM | Comentários (3)

junho 08, 2007

DA DITADURA «CHAVESCA» AO PRAZER

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Steve Hanks

Pela mão do Nilson Barcelli veio à laia de comentário a seguinte reflexão: “Das siestas, guardo boas e más recordações de criança, pois no Verão era uma rotina diária familiar (um dever acima do direito). Se a noite anterior fosse mal dormida, eram 2 horas retemperadoras para a azáfama brincalhona que se seguia, mas o silêncio entre as 13 e as 15 horas era uma espécie de ditadura chavesca que às vezes desandava em repressão pelo ruído da canalha fura-siestas.”

Logo me vieram à memória as horas e horas e horas de sestas compulsivas em que, omisso o sono, o livro saía do esconderijo e, na penumbra, a leitura era continuada. Descoberta a marosca, foi imposta a escuridão total. Não desanimei – substituí a leitura pela invenção de histórias que, soando o clarim dos passos maternais, havia de tornar desenhos a carvão. Assim treinei o traço que intervalava com outras brincadeiras e a leitura do permitido pela censura familiar – o proibido lia à mesma, cuidando de ocultar as «obras de perdição para meninas de bem».

Por hábito não faço sestas de sono; razão deve remontar à rejeição infantil. Todavia, sendo grata a ocasião, da penumbra faço cúmplice de partilhas e da doce fadiga que me adormece e aceita no rosto o meu sorriso. No quotidiano, basta-me paragem nas encadeadas obrigações para fuga breve que o ar livre envolva. Respirar exigente o meu!... Nego o ar confinado se o corpo exige repouso. Sendo o intervalo de tempo generoso, caminho um pouco e torno funda a inspiração - à mistura com o dióxido de carbono liberto contrariedades, tensão ou tédio. Esta espécie de sesta andante devolve-me energia e concentração, legitimando que, no final do dia, a casa e a consciência das tarefas cumpridas me saibam tão bem. E, chegada a noite pequena, adormeço como seixo inamovível por ventos ou marés.

Publicado por Teresa C. às 12:39 PM | Comentários (3)

junho 07, 2007

COSE DELLA VITA

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Eric Christensen

Sabes do meu gosto por vozes encorpadas como bom vinho que me serves após baile no teu copo e a demora púrpura escorrida no vidro. Delicia-me o jeito discreto de lhe sentires o aroma e ler-te aprovação. Gosto de vozes cheias, lembrando noites longas de tabaco e whisky, prostradas por desmandos dos sentidos que a manhã sonolenta confirma. As vozes de clarinete evito por sugerirem finura dos corpos e funis da vida. Serão nossas por estes dias as vozes e os dias cheios e o cristal pintado de purpura ou dourado se este for escolhido pela tua adivinha do meu desejo. Inventas apetites que me serves sem receio de engano – por que antecipas o meu agrado, enriquecemos o pecúlio íntimo.

Rumaremos aos sítios do absinto. Respeitaremos o ritual de o beber - água gelada vertida com vagar sobre cubo de açúcar que, numa colher, encima o destilado cheirando a anis, funcho e ervas várias. Absinto clareado e opacidade adquirida, é o momento de o degustar. Lembraremos Van Gogh, Rimbaud, Baudelaire e Toulouse-Lautrec que dele conheciam o prazer e a má-fama, enquanto o sol pinta de dourado a pele e as hastes dançarinas das palmeiras trazem ao mar cheiros de alfazema e açafrão. Por essa altura, pousaremos no regaço os livros e, em silêncio, os dedos entrelaçados recitarão um poema. Com ele faremos coro em italiano – “Sono cosa della vita ma la vita poi dov'e” - e em inglês – “Some for worse and some for better but through it all we've come so far”. Sabemos que “They're just human contradictions feeling happy / feeling sad / these emotional transitions / all the memories we've had / yes, you know it is true.” “Sono cose della vita vanno prese un po'cosi.”

Publicado por Teresa C. às 12:31 PM | Comentários (0)

junho 06, 2007

MULHERES DE ATENAS

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M. L. Garmash

Comentando o texto “As Mulheres Secam? Cedo?”,Alba escreveu: “Credo, Teresa! Este post, transcrevendo algumas das ideias feitas sobre as mulheres com mais de 40 anos que por aí circulam, deixou-me perturbada. Talvez por me ter apercebido da perversidade contida em alguns pensamentos, bem atrás da aparente admiração e generosidade...Afinal, muitas vezes recebemos as ditas frases em mails ilustrados com belas imagens e sempre com a intenção de "fazer uma mulher inteligente feliz". A ideia com que fico dos 8 chavões é que as mulheres de mais de 40 anos são mais discretas, mais requintadas, mais calmas. Certo. E a quem é que isto beneficia mais, ou de outra forma, serve melhor? A elas? Não creio. Sabe, de forma muito oblíqua lembrei-me das "Mulheres de Atenas" cantadas por Chico Buarque, das que não têm sonhos, só têm presságios... Será que estas mulheres de mais 40 anos dos emails generosos têm sonhos? Ou são tão sensatas e tolerantes que já se conformaram com muita coisa? Certo, não fazem cenas, são discretas, pegam na bagagem e retiram-se em quase silêncio, conduta tão diferente das raparigas mais "nervosas", que gritam e exigem... Tanta coisa para pensar, Teresa!”

Sabe?, Alba, quero acreditar que após os quarenta ou cinquenta ou as décadas que vierem, os sonhos existem e suavizam os dias de homens e mulheres. Por que anular os sonhos é o mesmo que acoitar desesperança e, sem ela, quem poderá viver inteiro? O filtro com finos poros por onde passam as escolhas e o requinte de serenos, porém intensos, modos de estar, beneficiam, em primeiro lugar, as pessoas, neste caso mulheres. É patamar que os verdes anos não configuram atingir. Contempla a sabedoria amores tranquilos e generosidade pelas gentes, parceiros, filhos e pais? Tanto melhor! A conformação pode provir da argúcia para o conveniente, para o possível, e ser pungente limite à esperança que impõe rebeldia perante status quo borolento. Sabedoria é outra coisa – conhecimento das prioridades da vida que o «ser» desafiam a cada novo dia. Os chavões que pela «rede» rodopiam, tendo como alvo e correio o gineceu, salvo os de fino humor, confrangem leitores, sejam homens ou mulheres. E sim, Alba, é verdade, além de sonhos, ilusões e dádiva temos presságios. Não de fatalidades irrecuperáveis, antes de quadro antecipado dos riscos atentatórios da matriz pessoal e do querer. Por que a sabedoria reside num valor a que três letras dão significado: paz!

Publicado por Teresa C. às 07:41 AM | Comentários (8)

junho 05, 2007

FUMO SEM EIRA NEM BEIRA

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Chelin Sanjuan

Não é possível descrever como quem rasga a pele o que não se experimentou ou conheceu. Ainda menos se o veículo do registo for a palavra que, desenhada em solo alvo, é o que é – desenho significante se a palavra já o tiver. E quem a literatura aprendeu a amar, ainda que dela não faça saber específico, sente arrepio quando o brilho falso imita jóia genuína. Isto e muito mais retive da “Conversa Pessoal e Transmissível” com este Senhor.

Da cadeia das palavras prezo o gozo de as ligar sem que atrapalhem o fluir do pensamento. Com sentires passados e presentes, com impressivas observações dos quotidianos faço renda – jamais lhe aprendi os segredos, o que na minha escrita explica muita coisa! –, servindo de agulhas as teclas e de algodão o fio das ideias. Preciso do arrepio na pele para me debruçar sobre um texto. Todavia, como distingo a escrita ditada por conhecimento enraizado, daquele outro, fugaz, sugerido pela ocasião...

“Amo a liberdade; por isso, as coisas que amo deixo livres. Se voltarem foi porque as conquistei, se não foi porque nunca as tive!” – li isto em qualquer lugar que esqueci. Assim lido com as palavras. Largo-as para que juntas voem e desenhem no ar mensagem inteligível. Se o fizerem, por instantes foram o meu respirar. Pairando como fumo sem eira nem beira, é sinal as palavras não ter sabido preservar.

Publicado por Teresa C. às 07:21 AM | Comentários (3)

junho 04, 2007

AS MULHERES SECAM? CEDO?

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Colleen Ross

Atento comentador sem papas nas teclas escreveu a propósito do “Sexo Assistido” de ontem: “Isto é de uma refinada maldade(zinha)! Apenas comparável àquilo que me parece o sublinhado do que se me afigura uma injustiça ontológica - as mulheres secam; cedo! E perdem confiança em si por se saberem inaptas á procriação; como se isso fosse obrigação...”

Antes de contrapor a minha posição à referência citada no comentário, lembro lugares-comuns que circulam pela «rede».

1 - Se uma mulher com mais de 40 anos, não quer assistir ao jogo de futebol, não reclama ou passarica em círculos no meio da sala; simplesmente aproveita para fazer o que lhe interessa.

2 - Uma mulher com mais de 40 adquiriu confiança, sabe o que quer e quem quer.

3 - Uma mulher com mais de 40 teve a sua cota de relações “importantes" e "compromissos". Evita amantes infantis, egoístas ou possessivos.

4 - As mulheres, depois dos 40, odeiam cenas públicas. Se o respectivo descarrilou, pode dar-lhe uma bofetada com luva-branca, mas, em regra, desaparece.

5 - As mulheres com mais de 40 geralmente prezam o carinho e o elogio e a quem amam. Sabem, pelo vivido, como é desagradável a invisibilidade numa relação.

6 - As mulheres com mais de 40, como é natural, acresceram sabedoria e tolerância.

7 - Uma mulher com mais de 40 não perde tempo: se alguém é imbecil, ou o diz com elegância ou se afasta.

8 – Uma mulher com mais de 40 sabe usar como nenhuma outra um batom encarnado.

É dose de chavões difícil de engolir, todavia, quem bem procurar, muitas verdades encontrará. As mulheres secam? Cedo? Olhem que não, olhem que não... A sabedoria requinta sabores e o gosto no empenho. E, quando a procriação já não estiver em causa, será o tempo da liberdade dos apetites sexuais sem submissão aos químicos e ao calendário. Depois, quem toma como sua ideia tão démodé prova abstinência outdoor. Se estiver comprometido numa sociedade binominal afectiva, folgo reconhecer tão rara e valente contenção.


CAFÉ DA MANHÃ

- A mui querida «Ela» concedeu-me a honra de inaugurar a nova rubrica – “Dos Outros os Momentos”. Agradeço, e só espero não deslustrar a fabulosa escrita da autora destes “Momentos”.

- Hoje, ao final da tarde, na TSF, nas conversas de que sou ouvinte habitual - "Pessoal e Transmissível” – é o Eduardo Pitta o convidado. De tudo um pouco são feitas estas conversas. A diferença entre literatura gay e literatura homossexual será um dos temas. Estarei atenta.

Publicado por Teresa C. às 10:29 AM | Comentários (9)

junho 03, 2007

SEXO ASSISTIDO

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C.A. Holland

O veneno de certas aranhas da América do Sul irá competir com o Viagra ao produzir repetidas e repetidas erecções. Ainda bem! A disfunção eréctil remediada parece-me bem, assim o princípio activo do suco aracnídeo adquira a forma de pílulas, xarope ou spray. Já foi descoberto produto para as mulheres snifarem e fruírem não de um, não de dois, mas de cascata de orgasmos capazes de as deixarem mais destroçadas do que vinte minutos na wave em nível dez. A sensação de esgotado relaxamento é semelhante, embora incomparavelmente mais prazenteira e divertida por ser treino a pares.

Ter a beleza fatalmente um senão, é uma estopada. O exercício físico por via do coito induzido irá, tal como a frequência de um ginásio, obrigar a atestado médico em papel timbrado que assegure a perfeita saúde do candidato a sexo vigoroso. Mal comparado, é como dose de botox capaz de criar a ilusão do tempo voltar para trás. Admitindo a bondade da afirmação que assegura nos homens ir, com os anos, o sexo subindo à boca – o que as partes baixas perdem em viço, ganha o abdómen em dimensão -, talvez o inexorável processo se detenha por via do gasto de calorias e tonificação muscular. Porém, uma coisa é arquear corpo esguio, outra é fazer o mesmo com uma dúzia de quilos a mais. Se completar um quilómetro em quinze minutos de passada rápida expulsa pela boca os bofes dos sedentários, o equivalente numa hora de lá-para-cá obriga a sexo assistido por sacerdote e acólito com a caldeirinha da água benta e os santos óleos na mão.

Publicado por Teresa C. às 11:12 AM | Comentários (9)

junho 02, 2007

GAVETA DE LINGERIE

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Hoang

Abriu as gavetas da lingerie. Na de cima, os brancos, pérolas e tom-de-pele. Na do meio, rendas e cetins em tons ousados, encarnados mínimos, turquesas , azuis sulfato, de céu, verdes de terra ou de folhagem recém-nascida em Abril, estampados geométricos, floridos, fúcsias, laranjas e dourados. Na de baixo, os negros, castanhos e azuis fundos, delicadas rendas sobrepondo o preto a tons de mistério. Não hesitou – acariciou a leve matéria cor-de-cereja. “Esta é perfeita!”

Nem era um dia especial, não fora achar-se naquele instante pronta para se vestir de amor. O vestido de malha sedosa, subtilmente preso por um laço interior, desnudou-lhe do corpo as formas, e ao espírito nenhum atilho prendia ao que fora anterior. Vestida para amar, não para aceitar amores. Frutos pendentes dos galhos existem por todo o lado implorando: “recolham-me por que, de maduro que estou, acabo caído e, por fim, murcho entre ortigas e ervas secas.” Afectos mentirosos não via ou queria. O amor que a acordara era, antes de mais, pela vida e por ela; primeiro de muitos passos para de si galgar o íntimo e correr alegre e transparente como cristal de mil sóis. Se o ribeiro encontrasse solo fecundo em verdade e solidez, seria dele a fonte e juntos lograriam prado tranquilo que dos humildes bichos-da-conta a cigarras e mariposas fosse abrigo. Fosse a verdade esquiva ou a máscara tentadora, o ribeiro desviaria o caminho.

Podia ter despido a seda que revelava corpo e alma prontos para o amor. Não o fez. Aventurou-se e saiu à rua. Antes, deu segundo nó no laço que, subtilmente, melhor prendeu do vestido o interior.

Publicado por Teresa C. às 09:16 AM | Comentários (3)

junho 01, 2007

FUMADORES VERSUS GRELHADOS

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Michael Mobius

Os aspiradores passivos das MP 2,5 culpam cada baforada dos fumadores. É justa a queixa pela levada de doenças respiratórias e alérgicas que o vício engrossa. Os inocentes passivos que na legislação antitabágica se revêm, reclamam para os «nicotinodrogados» proibições, coimas e segregação social. Esquecem que a humana necessidade de alimento obriga diariamente a cozer, assar, grelhar ou fritar. Acedendo às relações gráficas entre a exposição às MP 2.5(1) e o quotidiano, a perplexidade abalaria certezas – o uso da frigideira ou da saudável(?) grelha produz tantas partículas nocivas como o ardente cigarro, ambos muito destacados dos níveis produzidos pelo tráfego urbano.

As MP 2.5 uma vez inaladas, fazem escala nos alvéolos pulmonares e partem daí para a circulação sanguínea. Asma, bronquite crónica, rinites, alergias e o cancro são alguns dos males que, aninhadas no organismo, cultivam. Diminuir a emissão de gases poluentes é importante, porém que não sejam acossados somente os fumadores. Em Portugal foi o CITIDEP - Centro de Investigação de Tecnologias de Informação para uma Democracia Participativa – que promoveu o EuroLifeNet.Science(2) Centenas de estudantes nacionais e estrangeiros, avaliaram em simultâneo e durante semanas, os níveis de exposição às MP 2.5 através de um medidor móvel e localizados por um GPS que transportavam no quotidiano. Os resultados obtidos serão divulgados no II Encontro Internacional EuroLifeNet que hoje e amanhã decorre. Veteranos e jovens investigadores apresentarão os resultados das campanhas de recolha de dados. Veremos se a comunicação social descobre carne neste osso.


(1) O conceito material particulado (MP) denomina uma mistura de partículas sólidas e gotas de líquidos em suspensão no ar. As de maior dimensão MP 10 (micrómetros) são retidas nas partes superiores das vias respiratórias e a respectiva concentração está legislada. De fora ficaram as de dimensão igual ou inferior a 2.5 micrómetros – milionésima parte do metro.

(2) O objectivo do programa EuroLifeNet é testar uma metodologia inovadora de recolha de dados (exposição pessoal a partículas, poluente atmosférico com graves efeitos na saúde), em condições de rigor e fiabilidade que contribua para a consciencialização cívica dos cidadãos, em especial os jovens, da sua responsabilidade social no problema e na sua solução.

CAFÉ DA MANHÃ

- Um milhão de visitantes é feito que merece ser celebrado. Muitos parabéns minha querida!

- Um texto magnífico a não perder.

Publicado por Teresa C. às 07:21 AM | Comentários (6)