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junho 26, 2007
O HOMEM QUE (DES)AMAVA AS MULHERES

Gerald King
João Gomes de baptismo, João Galdério de alcunha. Padecia de obsessão pela conquista como necessidade vital do «ser» e exorcismo contra a solidão. Assemelho-o a Bertrand Morane pela dependência das mulheres – o homem que nem uma soube amar, mas tão somente o que delas julgava a essência. Uma dizia não buscar Bertrand o amor, mas a ideia que dele fazia. Outra explicava: "É difícil recusar-te os prazeres, porque pedes como se a tua vida dependesse disso.” Entre o complexo de Édipo e a tara por pernas roliças, entre sexo em locais públicos e a paixão pela voz de uma telefonista, descobriu-se incompleto ao não conseguir amar de verdade. Morreu na tentativa. Retrato em que Truffaut se reviu ao examinar a seu modo – também ele mulherengo - a natureza masculina. Tivesse conhecido o João Gomes e nele veria um competidor do amigo Michel Fermaud, encartado femeeiro e torneira do anedotário do filme.
O João Gomes é como era Bertrand - um coleccionador. No caso de fotografias. Mais do que das mulheres com as quais se deita e põe na mira da objectiva. Começou por reuni-las em álbuns, artísticos, afirma. Recomenda a quem lhe dá ouvidos para não escolher companheira sem os desfolhar primeiro. Quando o computador se tornou batedeira das claras da vida, arquivou em pastas de bytes a arte(?) da sedução(?). Num esgar de riso, ao exibi-las, afirma rijas as carnes da Sandra, torneado deleite o corpo da Sofia, tronchudas as pernas da Lisa, caprino o olhar da Delfina, de pêra murcha as molezas da entradota Cristina que pendurou em saltos a trouxa de feira quando o glamour pretendia. Escancara das mulheres o logro, a dor, a triste condição de modelos descartáveis cujo portfólio agencia.
Abre “O Homem que Amava as Mulheres” a cena dum cadáver que é sepultado e apenas algumas mulheres rodeando o túmulo. Os flashback contam do defunto Bertrand Morane a vida. Distinto do João Gomes pela poesia que, ainda assim, as mulheres lhe mereciam – “os pares de pernas femininas são compassos que em todas as direcções percorrem o globo terrestre, dando-lhe equilíbrio e harmonia".
CAFÉ DA MANHÃ
”Às 10 na Loja das Meias?” – magnífico texto de memórias que partilho.
A Bad teve a gentileza de nomear este blogue como candidato ao que abaixo enuncio. Obrigada.

Publicado por Teresa C. às junho 26, 2007 08:30 AM
Comentários
Obrigada Teresa
Curiosamente, quando estava a escrever isto, imaginei que algumas bloggers iriam partilhar comigo estas memórias.
Um beijinho
Isabel
Publicado por: Isabel às junho 26, 2007 11:04 AM
Isabel - foi um delicioso passeio "par le temps perdu" que tantas de nós conhecemos. Beijinho grande, Isabel.
Publicado por: Teresa C. às junho 27, 2007 12:06 PM