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junho 19, 2007

PRAZERES MÚLTIPLOS

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A escrita pode ser vício e os vícios é suposto serem maus. Ou condenáveis. Ou desviantes do tido por «normal», o quer que seja este estranho carimbo que a esmo aplicamos para significar o comum. Ora, desde que «sou» me atemoriza ser cópia dos demais. Por que sim, por me ter sido ensinado o prazer da conquista pessoal, por que aprendi a gostar do pouco que é meu, por o copy/paste não apreciar - dá arranjo, convenho, se num arquivo busco um momento do que fui. E invento e distancio-me da mulher que afadiga nas teclas os dedos, projectando e (re)arranjando conversas frívolas ou de confessionário ouvidas em parte (in)certa que polvilho com esparso pó do que experimentei. A verdade nem carece de delongas. Diz-se na fracção mínima dum suspiro: tenham a fineza de não levar a sério esta que assina Teresa C.

Como afirma cordão na «rede», de acordo com os padrões actuais os nascidos antes de 86 não deviam ter sobrevivido. Lambíamos as cores bonitas das nossas camas de bebé pintadas com tintas à base de chumbo. Brincávamos com panelas, ignorávamos capacetes para andar de bicicleta, viajávamos seguros do amor e desvelo dos pais em carros sem cadeiras, cintos e airbags. Bebíamos água da mangueira do jardim, mascávamos pastilhas elásticas de empréstimo, o pão com manteiga não engordava por tudo esmoer a brincadeira. Estar incontactável nos horários estabelecidos a ninguém afligia. Não havia 40 canais de televisão, filmes de vídeo, home cinema, telemóveis, computadores, DVD, chat na Internet. Tínhamos amigos - se os quiséssemos encontrar havia o liceu, a casa ou o telefone fixo. Jogávamos ao elástico, à macaca e saltávamos à corda. Do xadrez, das cartas e das damas fazíamos pretexto para serões. Íamos a pé para casa dos amigos e para a escola. Infringidas normas sérias, não nos valiam os pais - estavam do lado da lei. Pertenciam-nos fracasso, sucesso e responsabilidade. Com tudo aprendemos a lidar.

Das competências adquiridas no crescer, a menor não foi usar com perícia a imaginação. A ela devo inconfessáveis prazeres em múltiplas posições. Por tudo, caríssimos leitores, distanciem do meu ignoto real o que escrevo. É mezinha saudável sem acoplar bula pejada de contra-indicações.

Publicado por Teresa C. às junho 19, 2007 07:41 AM

Comentários

Hoje foste pouco original... escrever todos os dias tem esse risco.
Já no tempo em que nem sequer havia isso se dizia o mesmo, ainda que as facilidades citadas fossem outras.
Daqui a 20 anos podemos repetir a dose... e assim sucessivamente.
Sinal que continuamos a envelhecer.
Um boa terça-feira.

Publicado por: Nilson Barcelli às junho 19, 2007 09:36 AM

Não sei se foste [ou não] original. O que sei é que me revejo completamente em tudo o que escreveste. E às vezes é bom sentir que... há mais alguém ... na mesma onda!
Um excelente dia!

Publicado por: Viajante às junho 19, 2007 10:31 AM

Também eu estou na vossa «onda» é bom saber que não estou só neste presente onde às vezes me sito dinossaurio, regressar ao passado das convivências ,das brincadeiras do pão com manteiga e marmelada, das correrias no jardim ou no pátio da escola faz-me pensar se as nossas crianças estarão a ser suficientemente crianças e isso assusta-me... que adultos vão ser? as crianças que o não foram?

Publicado por: Tita às junho 19, 2007 11:30 AM

a imaginação é uma excelente aliada. na escrita como fora dela. e quando escrevemos acrescentamos, reorganizamos, seleccionamos. felizmente. quem tenha paciência [e imaginação, pois claro] que tente espremer o que aqui pomos [nestes espaços gentilmente cedidos por terceiros] para do sumo criar uma pessoa. eu o sumo prefiro bebê-lo e não inventar um fruto ou uma árvore inexistentes.
quanto ao tempo que não nos ligávamos nestas redes que os computadores permitem, criavam-se laços e cultivavam-se hábitos a que não faziam a mínima falta estes acessórios e engenhos com que comunicamos. tão facilmente eu combinava um encontro de amigos, sem a muleta do telemóvel e mantinha o contacto sem a acessibilidade do mail que isso só mostra que estes meios ajudam mas não são essenciais. deste teu texto passa-me a ideia que termos crescido em era em que estas coisas não existiam contribui para a o equilíbrio e o prazer com que lidamos agora com elas.

Publicado por: troblogdita às junho 19, 2007 12:21 PM

para reforçar o post anterior. não era preciso, caríssima Teresa, porque está lá tudo, e quem não entende que vá entendendo! embora tudo isto tenha dado dois belos escritos literários, este último, principalmente, onde me revejo com ternura, embora nada saudosista, e sim, acho que à sua maneira, as crianças estão a ser crianças, pelo menos, as minhas. tenho sempre esse defeito, de tomar as minhas como exemplo, mas é só o que tenho, apesar de estar de olhos bem abertos ao que me rodeia, e através das minhas crianças tentar que elas espalhem essa infantilidade e esse gosto pela vida, com o interesse e a perspicácia que nós tínhamos que ter para imaginar a vida. dou-lhes pão com manteiga e marmelada e conto-lhes muitas histórias de então. eles levam o pão para a escola e contam as minhas histórias aos outros. tenho um rebanho de contadores de histórias. e isso faz-me muito feliz. pode ser que eles sejam melhores adultos e consigam tornar outros melhores. são só desejos. sonhos. mas temos a casa cheia de sonhos!

Publicado por: sweety às junho 19, 2007 12:26 PM

Chamava-se a isso Liberdade.
Corremos riscos? Ah! Pois corremos muitos riscos de cuja ignorância todos ganhámos. Porquê? Porque hoje somos livres, ao contrário de todos aqueles a quem tanto protegemos que os fizemos escravos de tudo... Até do progresso.
Viva a Liberdade!
PS. Só mais tarde decobri que essa Liberdade da infância e de parte da juventude tinha um preço que era pago por muitos que usaram a vida para que todos fôssemos livres. Mas não somos, pois não?!

Publicado por: j às junho 19, 2007 03:38 PM

Nilson Barcelli - Aceito a bondade do comentário, até porque acerta no que sou: uma mulher banal que difere de algumas apenas por ter este meio de se exprimir.

Viajante e Tita - e sermos tão comuns que noutros vemos memórias boas espelhados, não é bom? Por mim falo - é delicioso.

Troblogdita - é bem verdade. Talvez por isso frua destes novos meios com o misto de parcimónia e gozo que referes.

Sweety - deliciou-me o seu comentário. Quanta riqueza no que descreveu! A sua intervenção será post, mais dia, menos dia.

J. - pagámos um preço, sim, por essa liberdade. Mais os nossos pais que nós, julgo; contudo, através deles pagámo-lo também.

Publicado por: Tati às junho 21, 2007 09:36 PM

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