« A MINHA É MAIS CASTA QUE A TUA | Entrada | DO CORRIERE DELLA SERA AO NEW YORK TIMES »

junho 13, 2007

SEDA RASGADA

95_Gypsy_1.jpg
Autor que não foi possível identificar

Descemos a Avenida em passo corrido e atravessámos o restolho das marchas alfacinhas com as mãos em laço. Dos balões e papelotes e pedaços de seda rasgada nalgum tropeção maldito, evitámos pisar os vestígios – havia pouco tinham sido tradição marchante agitada pelos corpos bailadores, à cidade oferecendo alegria durante meses trabalhada. Olhávamo-nos e ríamos do momento e do que véspera um ao outro contáramos num registo de partilha empoada pelo afecto. Ao saltarmos os restos da folia, acrescentámos despojos pessoais de mágoas e saudades, também eles dançando ao ritmo do vento da noite fria. E ríamos.

Não rumámos em peregrina nostalgia aos sítios onde a festa se encavalitava - preferimos serpentear os plátanos incrustados em canteiros de trato modesto. A calçada portuguesa ainda cantava, talvez reagindo aos nossos passos gingões, ou não tivesse sido marialva a noite e o dia casamenteiro. Largávamos do outro a mão quando as entroncadas árvores se interpunham, para a procuramos com pressa, como se o riso ilusionado fosse fluido que uma vez impedido de correr arruinasse ilusões, ou, como bruma densa, ocultasse os sóis das nossas vidas. Amámos Lisboa. Pelo gosto e pela inocência do ritual exorcista ríamos.

Publicado por Teresa C. às junho 13, 2007 07:50 AM

Comentários

Dancei com esta ciganosa num tablao de Jerez de la Frontera.


Não sei dançar...
mas
todas as adegas estão abertas para provas e, daí, ficou, durante uns meses, o amor forte e amigo de uma prima.

Podemos morrer de pouco, num mundo tão vasto e... oco?

Louco?

Ou rouco?!

Publicado por: -pirata-vermelho- às junho 13, 2007 06:40 PM

Par contre
e talvez por ter nascido em plena avenida alfacinha
não se aguenta esta encenação entre uma modernidade natural e (quiçá) desejada e um la-feria-das-marchas em que as marchas se transformaram.

Mal por mal, antes o carnaval-brasileiro de torres!

Publicado por: -pirata-vermelho- às junho 13, 2007 06:44 PM

Teresa, este é, quanto a mim, um dos seus posts mais ternurentos. Fascinante a narrativa desta cumplicidade tão afectuosa!

Publicado por: Alba às junho 14, 2007 02:06 AM

Pirata-Vermelho - Rouco, louco e pouco. "Poucachinho" como aprecio ouvir. A sua tirada "la-feria-das-marchas" merece repetição.

Alba - Como me é preciosa a nossa sintonia... Estou-lhe grata.

Publicado por: Tati às junho 18, 2007 03:37 PM

Comente




Recordar-me?