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junho 22, 2007
SUBINDO A CASTILHO

Gill A. Elvgren
Passando Junho do meio, da minha Lisboa é a rua mais cheirosa. Verão chegado, boa parte dos garridos violetas desapareceu dos jacarandás da Rua Castilho. Durante a feira das letras arrumadas em livros, há fartura das grinaldas de flores que, olhos erguidos, vemos antes do céu. Ainda hoje não descortino se a romaria anual que prezo cumprir ao Parque Eduardo VII é devida ao coro de solicitações impressas pedindo “leva-me, leva-me”, ou à exótica moldura azul-anil-violeta.
Subindo a Castilho com o Parque a ladear a direita, a segunda rua à esquerda encavalita veículos sob tílias capitosas. Continuando em frente no cruzamento onde, atrás do balcão do quiosque, pontifica a D.Rosarinho – o viço do humor regula pela meteorologia – é compacta a folhagem bicolor de onde pendem cachos de recém-nascidas flores de tília. O aroma afirmo, sem o ter visto, alvo e denso. À lembrança ocorre a precariedade dos enfeites e a nula serventia – avançada a gestação das bagas, no parto ali abandonam a vida.
Quem do campo sabe segredos reconhece o cheiro que apaga o de ramalhete de rosas. Houvesse tempo e escada e certeza de não infringir avulsa lei da autarquia, para uma cesta vindimaria as flores. Depois de secas em tabuleiro forrado, de cada mão cheia adicionada a água fervente surge o chá, calmante, dizem, sabendo ao aroma do Verão nascido, digo.
Publicado por Teresa C. às junho 22, 2007 06:40 AM
Comentários
"...cheiro que apaga o de ramalhete de rosas..."
Sem sombra de dúvida.
O cheiro da tília em flor, ao mesmo tempo intenso e suave, faz esquecer o doce aroma da rosa.
É dos momentos mais festivamente vividos aquele em que me é possível sentar-me nesta época, por breves instantes, debaixo da mais frondosa tília da cidade.
Não é por acaso que (dizem...) Asclépio utilizava as tílias de Pérgamo para ajudar na cura dos doentes de "humores". Sentava-os debaixo das tílias, enquanto ouviam a suave música das cítaras e da água que corria em estreitos regos.
Ainda hoje, mas sobretudo na juventude quando apertavam as dores dos exames, o chá de tília é um remédio que adormece o corpo e acalma o espírito.
Publicado por: j às junho 22, 2007 09:47 AM
J - sinto a nossa harmonia quanto à pureza de algumas memórias rurais que partilhamos. Gosto muito do sentimento.
Publicado por: Tati às junho 27, 2007 12:03 PM