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junho 21, 2007
VULVA INSINUADA

Miguel Ângelo
Apreciei a forma e o conteúdo do comentário vindo do Brasil através da assertiva manipulação das teclas do Geraldo Facó Vidigal e publicado no “Café da Tarde”. Pouco contraponho à justeza das reflexões, que, além de outros méritos, me obrigaram a (re)pensar e rever o “Sem Pénis” – confirmei a propriedade de alguns, não muitos, pendentes masculinos que publiquei. Quanto ao “Nem Inveja” foi omissa a contestação.
Se do membro másculo expus reproduções, vieram, e arrisco o "sempre", a propósito do texto que ilustram, tal como os nus em geral. É evidente a subjectividade estética que sustenta as escolhas das pinturas que dia-a-dia exponho. Não desminto alguma indiferença ao gosto pelo convencionado recato julgado próprio de mulher-de-bem(?). A palavra “alguma” atrás escrita não resulta somente do arreigado temor às abusivas generalizações de quem na Ciência preenche parte do dia – a humildade de admitir que a riqueza do real não pode, em absoluto, ser espartilhada por regras, teoremas ou modelos -, mas sim da consciência de, não raro, obedecer a cautelas ditadas por vãos(?) pré-conceitos.
Ao peregrinar pelo mundo em busca de galerias de arte, tudo passou pelo monitor, incluindo pornografia gratuita. Constatei que vaginas e ânus femininos abertos são comuns, mesmo quando de arte se trata, raramente por constituírem depurado objectivo pictórico, mas por facilidade comercial. Onde começa e acaba a cedência, a confusão entre erótico e pornográfico? Por prudência, dose bastante de ignorância do público-alvo do blogue e respeito, censuro iconografia que, ociosamente, confronte inadvertidos leitores. E há o pudor, sim. A gruta da mulher, que à vida novas vidas traz, é mais do que lábios e clitóris, é âmago da existência como da Terra o núcleo sólido envolvido em fina membrana líquida.
As representações do pénis remontam aos clássicos dos quais os emblemáticos a maioria das gentes conhece. A vulva exposta – da insinuada são inúmeros os registos – o senso comum conota com pornografia. Reconheço que um blogue pode induzir evolução no entendimento artístico. Jamais avaliei como machista a minha precaução. Porém, admito ser ignota a última razão que subjaz à selecção da pintura que publico. Manter-me-ei vigilante à (in)consciência a que me apego na defesa da igualdade dos direitos de homens e mulheres.

Rafael
Publicado por Teresa C. às junho 21, 2007 08:44 AM
Comentários
A complexidade do pornográfico versus erótico vergo-a às redutoras definições que me facilitam a diferenciação: "amostragem obscena do nu" a primeira "aquilo que põe o Ser em questão" a segunda. Um beijo de bom dia Teresa C.
Publicado por: JG às junho 21, 2007 09:39 AM
estive a rever mentalmente as imagens que publiquei no meu blogue. e é curioso, já tive um texto com uma foto de Mapplethorpe em que se vê um pénis enorme a sair de uma braguilha aberta. e quanto a genitália feminina, nada. a não ser um desenho que encontrei e que cheguei a retirar porque sendo o nome "cunt" me trazia para o blogue buscadores à procura dessa palavra. e, lá está, era um desenho em que a vulva era apenas insinuada. a imagem era quase toda branca, só com traços muito leves a sugerir contornos e sombras. penso que será como dizes, o senso comum leva a evitar representações que deixem escancarado o que se pode fazer adivinhar. e talvez haja raízes para essa opção de que nem sempre temos consciência. lembro-me de ler sobre o que era dito (penso que por médicos), há um par de centenas de anos, sobre os genitais femininos. dizia-se que o facto de a mulher ter tapadas pela pilosidade as partes pudendas só vinha confirmar a sua natural e desejável tendência para a modéstia.
Publicado por: troblogdita às junho 21, 2007 10:32 AM
Desculpe Teresa, se exagerei um tanto: verdade que falo de falo, mas aos magotes de fato não os há. Há aí coisa de meia dúzia.
A bem da verdade, não tivesse de imediato percebido tratar-se este de blog de excelente qualidade literária, nele não teria perdido um segundo. Muito menos a comentar.
E comentei apenas pelo fato de ter sido um tanto escandalosa a escolha das cores da censura, que levei à conta mais de chiste do que de séria.
Mas censura havia só no sexo feminino. Pronto.
Parênteses: tendo em vista o comentário de JG à "Liberação da Vagina" e o de troblogdita a esse, andei diletantemente pesquisando um pouco sobre sinónimos em língua lusa pelo mundo.
Pesquisa nada muito ampla e nem mesma científica.
Em
//inconfidencias.blogs.sapo.pt/arquivo/2006_06.html;
//pt.wiktionary.org/wiki/buceta; e
//pt.wiktionary.org/wiki/xana,
encontrei mais de 200 sinónimos de vagina.
Algumas considerações, menos enfáticas:
Antes do advento e expansão das religiões que derivaram do judaísmo, e dessas suas variantes, até a segunda metade do século XX (i) a mulher era um ser mais importante e participativo nas civilizações e (ii) sexo era bom, saudável e mais livre.
A submissão da mulher esteve desde seus inícios relacionada a sua vagina.
Na Roma católica passou-se a denominar a vagina como "pudendo". Essa denominação atinge ainda hoje a medicina moderna.
Nos escritos medievais portugueses era freqüente referir-se às vaginas das mulheres como "suas vergonhas".
Sendo essa a raiz do problema moderno que resta a superar, aí deve ser enfrentado.
Toda pessoa razoavelmente culta ouviu falar, tem noção ou sabe a história (ou ao menos estórias) sobre tratamentos diversos, e mais livres e abertos, dados ao sexo em civilizações extintas, como na antiga Grécia, em Khajuraho na Índia, na Roma pré-católica, na África mediterrânea pre´- muçulmana, na Europa extra - romana pré-católica, em Avalon, e até nos Andes.
E nessas sociedades a mulher e seu papel também variaram em cada cultura.
As posições masculinas como senhores da guerra são em todas sempre claras.
Mas a mulher não está sempre desarmada. Sua posição soicial era freqüentemente relevante. E, entre as divindades admitidas, era de poder, senão de força. Diana, v.g., é caçadora.
Mencionei anteriormente um marco bíblico repressor.
Outro seriam as inexistentes Sodoma e Gomorra. Há quem as relacione com Pompéia e Herculano.
Esses dados culturais informativos de uma religião da qual derivaram outras e dessas suas variantes é que hoje impreganam nossa cultura.
Nada a opor à cultura atual em si ou a saudáveis recatos que estão a marcá-la.
Sensualidade é bom e saudável.
Erotismo é prelibação mental de sexo.
Pornografia só existe porque antes existe repressão:
- o que é escondido, misterioso ou proibido atrai, demanda ação oculta dos atores e tende a degenerar em abusos e perversões.
Em tese o sexo é natural: não obstante é passível de refletir padrões culturais, os quais não são de per si condenáveis. Mas são potencialmente superáveis em seus excessos.
O que penso a superar são as rédeas condutoras tecidas de pré-conceitos atávicos, peias que são de serem cortadas em prol de mais hígida forma de admissão natural da figura feminina. Como parceira, não em igualdade de posições, até porque sexualmente contrapostas, mas em mútuo respeito participativo e complementar.
Daí a conveniência de que blogs sérios admitissem a naturalidade do natural, mantendo, sim , o recato.
E, já que não comentei inveja, invejo pessoas que têm a disposição de dedicar parte de seu precioso tempo em organizar, pesquisar, financiar e montar sítios de boa qualidade divulgadores de literatura, livremente acessíveis. Meus invejosos respeitos.
Geraldo Facó Vidigal
Publicado por: Geraldo Facó Vidigal às junho 21, 2007 03:04 PM
Em Tempo:
Interessante e curioso: relendo agora texto e comentários me dei conta de dois “atos falhos” (psicologia: “ação inconsciente que não se consegue deter.”).
Um meu e um seu.
O seu mistura ceder e decência :
“Onde começa e acaba a cedência, a confusão entre erótico e pornográfico?”.
O meu, enganar e impregnar:
“Esses dados culturais informativos de uma religião da qual derivaram outras e dessas suas variantes é que hoje impreganam nossa cultura.”.
Atos falhos têm o condão de trazer verdades, inquietações ou indagações das psiques à tona.
Geraldo
Publicado por: Geraldo Facó Vidigal às junho 21, 2007 04:06 PM
Uma ignorância minha:
Como comentar texto constante de arquivo (páginas anteriores) deste blog?
É possível?
Geraldo
Publicado por: Geraldo Facó Vidigal às junho 21, 2007 05:43 PM
JG - recebi com gosto o comentário e o beijo. Um meu de boa noite, JG.
Troblogdita - "o facto de a mulher ter tapadas pela pilosidade as partes pudendas só vinha confirmar a sua natural e desejável tendência para a modéstia." Se não modéstia, no mínimo defesa natural. E disso falo no texto, porque julgo ser maior a carga simbólica na genitália feminina do que na masculina.
Geraldo Vidigal - Está tudo no seu conciso comentário, tendo em vista abrangência do tema. E concordo consigo, sim. Por isso me declarei atenta às pinturas que reproduzo. Quanto ao texto já as tenho de sobra, creia, conquanto uma ou outra vez resvale para lugares-comuns dispensáveis.
Não foi lapso o termo «cedência». Queria precisamente realçar quantas vezes na pintura existe cedência ao que vende, e, por isso, rende.
É sempre possível comentar textos de arquivo. Surgem quotidianamente comentários a esses textos na minha fracção privada da plataforma que publicamente também estão acessíveis.
Publicado por: Tati às junho 21, 2007 09:55 PM
Pois então, parabéns!
Gostei do neologismo.
Relendo, agora que o sei desejado, "cedência" tem força e expressividade e até, no texto, cadência de poesia em prosa.
Geraldo
Publicado por: Geraldo Facó Vidigal às junho 21, 2007 10:24 PM
Hummmm!!
Esta coisa de onde termina algo e começa a outra..é complexa mesmo. Erotismo e pornografia são as faces da mesma moeda.No fundo (?) mostramos uma coisa e fazemos (?) outras. Agora , quanto ao pênis ,ao entrar hoje em teu blog e ler seu texto, assaltou-me a lembrança de sempre achar que tinha um pênis grande. Triste constatação com a vida real, ao rever e ver que estes micropênis, como o que esta reproduzido em seu texto, só ocorre mesmo no "erotismo" (falso) dos artistas. Por um tempo fiquei a xingar DaVinci...
Hoje , passando dos 50 , rio-me...
Também não tenho inveja !
Publicado por: Justo às junho 22, 2007 12:29 AM