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julho 31, 2007

PÊLOS PÚBICOS, POVÃO E PISCINAS

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Gil Elvrgren e Earl Moran

Para mim tenho que os melhores barcos e courts de ténis, as piscinas mais fantásticas são as dos amigos. Compus esta certeza pela generosa partilha que amizades abastadas em afecto e matéria justificam. Divinizo um embarque matutino e descida do rio até à beira amável do Atltântico – a outra conheço bem demais e ao lembrá-la, eu que não sou dada a náuseas marítimas, ainda revolvo, sem digerir, as maçãs-verdes e as bolachas de água e sal que durante metade dos oito dias foram o meu alimento. Bens amigos - prazeres e desporto sem que a conta da manutenção tenha o meu endereço. Em cada romaria contribuo com gourmandises consensuais e que os convivas têm a gentileza de aplaudir. Nem sei a que devo a benção de prezarem a minha companhia. E eu a deles, porque nem o frio, ou a chuva arrefece a quentura dos elos que nos unem.

Compreendo bem este soberba Mulher sem papas na língua. O povão sofre dos descuidos da fortuna - berço sem dossel de fina cambraia, modesta educação do espírito, a do gosto é arrasto, polimento baço das atitudes, as mãos e o corpo gastos, roupagem duvidosa e berros onde a modéstia no volume de som seria bem-vinda. Coincidem estes «deleites» com outros que dispensam das aspas a ironia: prestável, hospitaleiro e ganhando como pode o pão de cada dia. Por que a vida é brincalhona e me importam as gentes, estou inscrita no povão, tenho cartão de sócia e as quotas em dia. E depois, já vi muita socialite gritar duma ponta do supermercado – OK, na Buganvília da Quinta do Lago, mas berreiro do piorio! - para a outra: “ Manelinhoooooo, venha já práqui. Tá a ouvir a mãe ou não tá?”

Estou contigo, Rita – sebo, bikinis meia dúzia de números a menos do precisado, berreiros, malas frigoríficas, toalhas surreais e bronzeadores com cheiro são insuportáveis. Vem a tagarelice a propósito da oferta da piscina que em Lisboa serve a família. Um nico longe, sei, mas “quem com gosto oferece o que tem, a mais não é obrigado”. Garanto a isenção de pêlos púbicos femininos.


CAFÉ DA MANHÃ

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Desapareceu a Pessoa, ficam as personas que criou no cinema. Esta e tantas outras que entre a Cinemateca e o Quarteto aprendi a gostar. Muito.

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No mesmo dia, a despedida de Antonioni. Inspirados neste filme, Brian de Palma e Copolla realizaram "Blow Up" e "A Conversação". Neste particular, não há amor como o primeiro.

Publicado por Teresa C. às 08:24 AM | Comentários (7)

julho 30, 2007

LAMBER O SAL DUMA NOITE DE VERÃO

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Miguel Avataneo

Não digo como o poeta “quem sabe se a nossa sintonia não acaba em harmonia”. Entre nós a questão perdeu sentido. Temos a harmonia à medida da nossa intenção. E mais não queremos por ser tão melódica assim. Contas tu, conto eu, entre duas garfadas de uma carvoada de tamboril e gambas. A noite tépida de Verão à margem da outra margem que Lisboa é. O murmúrio do rio ondulando baixinho. O cheiro a carvão na mesa, ora tu, ora eu vigiando a assadura. Na rua (dispensámos a clausura da sala e da esplanada emparedada em vidros). E depois, pelo lugar não abundam escapes ou gentes que não venham ao mesmo que nós – jantar com Lisboa longe e perto. O pôr-do-sol avançando de ouro a rubro, pintando de igual cor o casario da cidade. O Tejo aos nossos pés, lambendo o friso de areia e a modéstia do par de embarcações ancoradas.

Perdemo-nos na beira-mar. Um suave arrepio marítimo percorreu-me os ombros e costas nuas. E andámos e sentámo-nos nos bancos de madeira cérceos do oceano. Ao longe, um forró invadiu-nos o lugar da fala e dos silêncio. Fugimos. Descemos por um carreiro entre socalcos de um jardim anunciado. Que outro povo se não o nosso, abandona de esmeros orla marítima tão bela? Falámos disso e daquilo, das camâras comunistas e do que entendem por desenvolvimento sustentado. Falámos da estação orbital que luz no negrume do céu, mais do astro brilhante cujo nome não lembrámos.

Não despedimos a lua que a noite recortava, sem mudar de margem e ver o que vimos ao contrário. De novo a areia recebeu os nossos passos sem que do Tejo os vagidos apagassem. O perto tropical da música e os bancos toscos de madeira iluminados por velas encenaram o desejas tu, desejo eu refrescados por margaritas. Vi-te, não desmintas, sei que sim!, um tudo nada surpreso pelo meu lamber guloso do sal na beira do copo. E concordaste – das margaritas, as melhores! De volta, cabelos ao vento, Amigo querido, a suavidade persistiu ao conduzires mansamente.

Publicado por Teresa C. às 08:42 AM | Comentários (7)

julho 29, 2007

ALLUMEUSE? MOI?

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Autor que não foi possível identificar

Affoleuse, aguicheuse, coquette, frôleuse. Teaser na fala inglesa. Provocadora, enfim, foi o rótulo que mereci de leitor costumado. Apetece retorquir, agora que passei ao sorriso: “On me surnomme pas allumeuse car je ne suis pas une petite coquine qui aime bien exciter les mecs. Je ne drague pas dans les boîtes de nuits, mais je retourne gaiement à la maison."

Fui procurar teste de «psi» (http://adosurf.free.fr/test/allumeuse.html) que o meu (in)onsciente investigasse - não me fico sem resposta, estando em causa o que o meu psiquismo, quiçá traiçoeiro!, cozinha quando a lua se levanta.

Pergunta 1
Para ti um visual sexy é
- uma saia curta
- um vestido coleante
- um corpete transparente

Pergunta 2
Ficas intimidada perante um homem que te agrada?
- sim e sinto-me desarmada
- um pouco ansiosa mas nada em mim o denuncia
- Intimidada? Nunca!

Pergunta 3
Encontras o vizinho que secretamente te alimenta os sonhos
- tens sempre uma frase pronta e directa que o descontraia
- finges distracção e deixas cair o conteúdo da pasta aberta
- ficas aterrorizada com medo que ele não te dirija a palavra

Pergunta 4
Um homem lança-te olhares quentes há um par de horas.
- ficas plantada no teu canto, escondida pelos óculos de sol
- perguntas se quer uma fotografia tua
- imitas uma starlette e divertes-te a pôr gloss nos lábios

Pergunta 5

«Flachaste» um giraço na praia.
- vais à água ao mesmo tempo que ele
- mudas de lugar para lhe caberes no campo visual
- fazes toplesse sabendo que ele não resistirá aos teus seios

Pergunta 6
Um bonitão e a “amiga” estão a três metros de ti
- cantarolas a música que ouves para chamares a atenção
- simulas devorares um livro e permaneces discreta
- passas creme no corpo como striptease tórrido

Pergunta 7
Numa saída em grupo em que está um amigo que te atrai
- permaneces simples e reservada para que não haja situações equívocas
- atentas nas reacções dele quando te interessas por outro
- ficas junto dele, filando-o com descaro

Pergunta 8
Provocas o sexo oposto só para te divertires?
- nunca! Isso não é para mim
- talvez, se estiver insegura
- é uma das minhas brincadeiras favoritas

Pergunta 9
Os teus maiores atractivos físicos são:
- os teus olhos
- a tua boca
- o teu cabelo

Pergunta 10
Comer um gelado é para ti
- um prazer sensual
- um agradável momento de gulodice
- uma boa maneira de refrescar.

«Cliquei» nas escolhidas especulativas opções - sem eira nem beira como é uso nos falsos testes de «psis». Corei, resfoleguei, bradei aos céus contra o meu calamitoso cérebro de galinha. Nem traduzo, não caia a minha reputação. Foi este o resultado: Sans aucun doute tu es une allumeuse! Pour toi, impossible d’être en face d’un mec sans l’allumer. Si tu ne cherches d’ailleurs à aller plus loin, aux mecs te le comprendre. Ne joue pas trop avec le feu quand même.

“Oh la la, miúda! Por esta não esperavas tu”, parece dizer a minha boca imóvel, entreaberta de pasmo, logo acima do queixo caído.

Publicado por Teresa C. às 12:05 PM | Comentários (12)

julho 28, 2007

LÁ SE VAI O CARREFOUR!

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Mark Blanton e Mel Ramos

Lá se vai o Carrefour dos queijos frescos em creme e doutras especialidades do mundo, raras a preço acessíve no mercado português. Eu, que odeio hipermercados cujo cheiro de imediato enjoo, o único que tolerava, sendo a economia prioridade, era precisamente o carrefour - encruzilhada - dos sabores. Do mercado era dito, como de outros, ser lugar ideal para travar conhecimentos românticos. Os corredores dos vinhos, divulgou jornal respeitado, se passeados com vagar propiciam que eles e elas se cruzem. Pergunta daqui e dali sobre a excelência dum vinho é o que basta para um improvável par verificar um do outro a sintonia em gostos, cheiros, luzir do rosto e atitudes. Tudo enquanto enchem o carrinho. O dois-em-um! A respeitabilidade do lugar, o filtro social e a roda da fortuna resolvem solidões de quem os lugares da noite evita. Isto sim!, é serviço público.

Ao contrário, temendo quebras nos lucros pela venda de produtos burocratas, os notários declararam guerra ao governo. A rapidez dos serviços Empresa e Casa na Hora dizem comprometer inconstitucionalmente os respectivos proventos. O rabear corporativo perante medidas que prezam a eficácia e o respeito pelo cidadão, é risível. Dos notários, como dos farmacêuticos, dos médicos e outros funcionários. Mexer em regalias instituídas e que as novas necessidades desmentem, é borrasca anunciada. Fossem respeitadas prerrogativas fedendo a bolor crescido e ainda usaríamos coulottes, nós, ceroulas, eles.

A Universidade Moderna está moribunda. Foi-se o tempo das privadas como pipocas, do luxo dos administradores obtido pela credulidade dos excluídos do crivo das universidades públicas. Os escândalos públicos e a imoralidade privada, somados à diminuição de candidatos para maior número de vagas que as universidades credíveis oferecem, foram porretada decisiva. E agora, senhores comerciantes do ensino, que ramo de negócio há para aí que vos interesse? Sugiro alguns fast e light como é fashion: fast-explicações ao domícilio e light-serviços médicos continuados.


CAFÉ DA MANHÃ

- Recebi a visita da Gisela Cañamero. Que blogue! Quanta excelência!...

- Belíssima a selecção de pintura da Gi. Galeria e textos impressivos.

- Obrigada, Mad. Honra-me surgir num espaço de tanta qualidade.

- Da Grécia com humor. Um regalo!

- O mulherio, a que pertenço, no seu melhor!

Publicado por Teresa C. às 09:32 AM | Comentários (5)

julho 27, 2007

DAS “LADIES NIGHT”, O COMPLEMENTO E O PORQUÊ

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Milo Manara e autor que não foi possível identificar

“Ladies night”. Pelo visto e experimentado não poderei perorar – jamais aproveitei uminha! Pelo relatado através de devotas, sim, as estórias são inúmeras. Falam de strip masculino – dégoûtant, je pense!, enquanto peça de carne que espera nota na tanga – de farra extrovertida, de copos e engodos, de olhares incendiários, de one night stands tão frívolas e inconsequentes como aquelas que o mulherio condena nos respectivos e pune e a quente vinga. Erro primeiro: diz a regra, não eu, que a vingança é servida fria. Sobre vindictas tenho limitada teoria: menorizam quem as pratica. A consciência das vulnerabilidades pessoais é filtro indispensável para a compreensão dos outros. Como exigir a alguém o brilho poliédrico do diamante, quando o juiz cristalizou em grafite? Carbono puro em qualquer dos casos; um electrão, porém, covalente ou deslocalizado, faz visível diferença. O diamante vale milhares e através do polimento reluz como jóia. A grafite é condutora de energias várias, mole e untuosa. A negro risca do papel a alvura.

Sobre os homens escreveu caríssimo comentador no antepenúltimo texto, serem das mulheres “delicioso complemento”. Delicioso e imprescindível, acrescento. A riqueza do pouco que aprendi, tem importante fatia recebida dos homens da minha vida. O pai foi, com luto o digo, exemplo maior de tesouro masculino. E não!, não lhe restrinjo o valor. Outros constituem o mesmo para quem os ama ou com eles privam.

Na interacção amorosa bem sucedida, o homem e a mulher nutrem mútuo respeito, admiração, práticas diferentes, discórdias, desilusões que o balanço afectivo integra. E se é verdade entre si o gineceu alimentar pelo humor os estereótipos, ao regressar aos braços de quem ama leva o saldo positivo de muito riso e a alegria da Mulher cujo parceiro ajudou a tornar maiúsculo o «m».

Voltando às ladies night, estimado leitor e "adoçante", especulo sobre algumas das razões de existirem. À cabeça vem o lucro dos empresários nocturnos: encher os cofres em noites menores à custa de uma falsa e frívola igualdade entre sexos. Lamento se muitas das "ladies" contribuintes, à conta de farra liberta, somente na obscuridade cortada por flashes de laser reclamam e exercem a paridade da condição feminina.

O anedotário dos sexos não é um mal. Dele faço uso colorido. Como retoque de néon na corrida dos dias.


CAFÉ DA MANHÃ

Nas referências ontem feitas aos leitores da estranja, deliberadamente omiti os que habitam países onde é falado o portugês. Na minha perspectiva, seria atribuir-me mérito a rondar o auto-elogio. Todavia, conheço-lhes os lugares e a fidelidade amiga. Sobre alguns deles, os mais assíduos, escreverei num qualquer outro dia.

Publicado por Teresa C. às 10:25 AM | Comentários (13)

julho 26, 2007

DE LISBOA, COM AFECTO

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Sorayama

Com afecto, de PT.JPG - Lisboa, para estes e outros leitores que têm este blogue nas virtualidades favoritas e, pelo mundo, o português não esquecem.

image001.JPG Russian Fed. - Rostov, Yaroslavl image002.JPG Japan - Ukishima, Shizuoka

image003.JPG Oman - Muscat, Masqat image004.JPG Sweden - Kista, Stockholms Lan

image005.JPG Poland – Warszawa image006.JPG Hungary - Szentendre, Pest

image007.JPG Italy - Serradifalco, Sicilia image008.JPG Germany - Koeln, Nordrhein-Westfalen

image009.JPG Netherlands - Amsterdam, Noord-Holland image010.JPG France - Vitrolles, Provence

image011.JPG Philippines – Manila image012.JPG United States - Antioch, Tennessee

GB.JPG UK - Cambridge IL.JPG Israel - Tel Aviv-Yafo TW.JPG Taiwan - T'ai-pei

Não sei se me pertence algum merecimento ou é a portuguesa saudade que reclama alívio. Pouco a razão importa quando constato, diariamente, os elos criados pelo fumo desta chaminé que chega a tão díspares sítios no mundo. Deste blogue tenho recolhido afecto e retorno que jamais ao rabiscar os primeiros textos ideara. Uma surpresa boa, uma de muitas que a fortuna deixou cair nesta leda escrevinhadora.

A oportunidade de crescer com quem me lê e analisa, tal como acontece em belíssimos textos/comentários, é um dos prodígios da «rede». E se nela encontram abrigo pedófilos, mercadores de almas, larápios, cabotinos ou escroques, contornei-os quando na «rede» bambaleio. Pelo dito não decorre candura patética; filtro o possível e do tempo espero decantação fina. O método não me tem traído.

Noutras «redes» há a nudez dos corpos - paga em carregamento de telemóvel ou em despudor viciante, - os blind dates - banal fantasia do sexo com estranhos -, os tórridos (des)amores que acabam em dilúvios de lágrimas e furacões de arrependimentos. Outras «redes» satisfazem a curiosidade pelo conhecimento de que precisa o evoluir do espírito – sem elas, como remediar, no instante preciso, uma ignorância incómoda? Viciantes todas, se a determinação pessoal deixar lasso o freio. Porque o percurso dos humanos não tem nos saberes a prioridade de vida, os afectos e o trabalho que apaixona são, afinal, o que de melhor advém das órbitas que marcam o tempo. O nosso.


CAFÉ DA MANHÃ

Daqui veio o desafio para nomear doze blogues que gostaria de desfolhar em livro e endereçar a outros tantos idêntico pedido, de feição a não quebrar a cadeia. Preservá-la cabe aos autores das prosas que nomeio.

- A.
- Alba
- Anarresti
- Arcepisbo de Cantuária
- Ela
- Katraponga
- Lobotomias
- Marta
- Nuno Guerreiro Josué
- Pornographo
- Sem Nada
- Sinedoque

Publicado por Teresa C. às 06:30 AM | Comentários (10)

julho 25, 2007

O QUE É BOM PARA A LEOA

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David R. Darrow

Este é o tempo da ética na política, na economia, na ciência e nas sociedades. Contraditoriamente, desde que me conheço e tenho consciência crítica, assisto impotente, salvo pela responsável denúncia pública e tentativa empenhada na minha coerência de vida, à amoralidade dominante que com o ideal ético coabita.

A ética pode designar aquilo que é descrito como a "ciência da moralidade", ou “Morada da Alma”. Uma teoria ética determina o que é bom, tanto para o indivíduo como para a sociedade como um todo. “Em Filosofia, comportamento ético é aquele considerado bom, e, sobre a bondade, os antigos diziam que: o que é bom para a leoa, não pode ser bom à gazela. E, o que é bom à gazela, fatalmente não será bom à leoa.” Este é um dilema ético típico segundo a Wikipédia.

Vem a reflexão ao caso das enfermeiras e médico búlgaros ontem libertados em Tripoli pelas boas graças de Durão Barroso. O governo líbio comutou-lhes a pena de morte pela prisão perpétua como pena de terem infectado no hospital de Benghazi 438 crianças com o vírus da Sida, entre as quais 56 já falecidas. Os clínicos terão emigrado para a Líbia na procura de melhores condições de vida. Nada a opor. Pela pobreza das condições de trabalho, disseminaram o contágio por via da utilização de seringas usadas. No meu subjectivo ponto de vista, a explicação não os iliba. Sendo a missão de enfermeiros e médicos salvar vidas, como entender a obediência a práticas assassinas a troco de meia dúzia de lentilhas?

O avião que transportava os libertos-condenados, acompanhados por gradas figuras europeias, foi recebido em Sofia pelos maiorais da Bulgária. De imediato, o Presidente búlgaro, Georgi Parvanov amnistiou os crimes. Porque é crime condenar a morte lenta meia centena de inocentes. Dar a Tripoli garantias para o tratamento das crianças e para a reabilitação do hospital de Benghazi é remate mercantil da tragédia. Perante os factos, a ética diz não, a amoralidade da pressão dos lobbies exibe um sim descarado.

Nota - de barato, concedo a minha insuficiência de conhecimentos detalhados sobre o acontecido.

CAFÉ DA MANHÃ

O João Silva, da Figueira da Foz, trouxe-me a nostalgia da cidade de veraneio e do lugar de Buarcos. Obrigada.

Publicado por Teresa C. às 08:49 AM | Comentários (3)

julho 24, 2007

MEA MAXIMA CULPA

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Edward

Mea-culpa, mea maxima culpa, por tão corrosiva escrita aos homens endereçada. E logo vinda das minhas teclas, eu que de alguns sou amiga, a outros amo – fique entendido não ser o meu coração um Inatel que a excursões oferece guarida -, a muitos admiro e com os conhecidos prezo a cordialidade respeitosa. Arredando da colação o meu inexistente desencanto deles, escrevi o lido por serem uns queridos, conquanto adoravelmente ingénuos julgando-se finórios, e porem-se a jeito de suave ironia. E se agrados me concedem e mercês lhes devo...

Tive sorte – nem me atrevo a dizer o costumado “mais do que mereço”, não se dê o caso de julgarem a frase ardil para retorno elogioso -, muita sorte! Os homens a que me prendem doces laços de amor-família ou próximos do amor-romântico são riqueza de que fruo. Talvez pelos meus fortes apegos sou optimista, exauro dos dias o melhor e não configuro amanhã pela precariedade pendente sobre os humanos. De ontem e de hoje, ainda que uma seta perdida atingindo em cheio o ninho vital de um ser, fosse substituído por avião desgovernado que entra pela casa dentro, mata centenas viajantes e imóvel cidadão dormindo na sua cama.

Se a gramática geral desfavorece o bicho-homem, a da Igreja abençoa-o e exalta-o. Afora ave-maria, salve-rainha, homilia e epístola, nomes femininos, todas as demais denominações litúrgicas são vocábulos masculinos: sacerdote, te deum, agnus dei, angelus, benedictu, confiteor, lavabo, pater noster, pelo-sinal ou baptismo. Mais digo: desde o tempo avito, as religiões estão orientadas para os homens, das mulheres cuidando enquanto reprodutoras do rebanho, clientes fiéis das igrejas e laboriosas domésticas dos altares. Na linguagem comum, beata é termo pejorativo, beato um homem beatificado e a caminho da santidade legitimada pelo Papa.

Não me seja dada pena grave pelas minhas venialidades irónicas. Pela condição brincalhona, mereço absolvição e como penitência a sentida reza de um pater noster.


CAFÉ DA MANHÃ

Sem açúcar e bem cheio. Deliciosamente aromatizado também por leituras como estas:

- Afinal, Menezes avança. Com ar de prisão de ventre, mas avança. Avança para que não haja... «funcionários públicos perseguidos». Não é tocante? -

- «Está uma pessoa distraída na inocente ocupação de dizer mal do Marques Mendes, e eis senão quando é brutalmente confrontada com a aterradora eventualidade de ele poder vir a ser substituido por Luís Filipe Menezes.»

Publicado por Teresa C. às 10:00 AM | Comentários (9)

julho 23, 2007

A LÍNGUA DELES

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Autor que não foi possível identificar

Por que é o tempo masculino? Pelos trovões, pelos relâmpagos, pelos furacões, pelo inesperado mau humor dos ventos, pelo ódio à doce calmaria? A Primavera – das estações do ano a mais bela -, a brisa, a neve de imaculada brancura, a limpa madrugada, a manhã, a tarde, a cumplicidade da noite, as doçuras da meteorologia são femininas.

O estafado destino das mulheres de há muitas gerações passa pelo lixo, pelo pó, pelo aspirador, pelo balde e esfregão, pelo fogão e pelo ferro. É deles o café enquanto lêem o jornal no sofá, à beira da mão o comando da televisão. Para que a tranquilidade enlace homens e mulheres, não seja lido sexismo nos estereótipos descritos. De facto, o sexo não possui feminino. O prazer, o orgasmo, os preliminares são masculinos. Porém, o que fariam os homens heterossexuais sem mulher que no jogo prévio inventasse e criasse apetência pela deliciosa brincadeira?

Dizemos um oceano, um mar, um rio, mas, quando um acidente acontece, a esperança na salvação acompanha o último suspiro. E se a razão do drama foi um acaso ou erro humano, sendo a mulher responsável diremos tudo não ter passado duma pouca sorte fortuita.

Se fosse homem, faria uma petição, ou não se agravasse a situação cada dia. É que se a lógica e a intuição são nossas, o casamento ou o divórcio é com eles, conquanto a pensão de alimentos e a casa fiquem connosco. Em geral, convenhamos, a língua portuguesa foi madrasta para os homens.

(adaptação de “La Grammaire")


CAFÉ DA TARDE

De Budapeste chegam magníficos postais pelas mãos do James Stuart. Tenho de remediar a nostalgia pelo lugar num regresso que não adiarei muito. Obrigada, James Stuart.

Publicado por Teresa C. às 08:04 AM | Comentários (5)

julho 22, 2007

UNS "CABRÕES"?

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John Luce

Quando, entre mulheres, a frivolidade apetece, o efeito é devastador. Nem adianto para quem, por ser fácil de antever. Das nossas peculiaridades sabemos, com as deles construímos enciclopédia, tendo a inteligência de somente a abrir e usar entre mulheres. Os clichés masculinos sobre o gineceu achamos tão delirantes que nos brotam lágrimas de tanto riso. Estereótipo comum é o das varonis criaturas acharem que nos defeitos e manias somos clones. Comum e revelador por repisarem coisa antiga e, em menos de quase nada, termos o desprazer de confirmar a rasante imaginação. Axioma com recorte tão fino como o anterior é o de a eito asseverarem não passarmos de malvadas umas para com as outras. Quando, distraídas, recalcitramos, depressa chega o cansaço. Algumas, mais generosas, condescendem, para que de alimento para a boca ou para o ego nada lhes falte.

Os nossos estereótipos mirando a condição masculina – e se os temos! – diferem na infinita variedade e na feição de lidarmos com eles. Aliás, são matéria secreta e cifrada que recusamos confessar mesmo sob efeito de banho com espuma cheirosa, champanhe bebido a meias mais oleada e sábia massagem envolta em luz difusa. Porque não me entendo traidora, o que a voz disfarça e o olhar assassino significa quando homem sem o menor sentido de oportunidade interrompe conciliábulo feminino, calo. Luísa D. - minha querida, perdoa-me! -, irei contigo ao Lux três vezes seguidas, juro, mas uma coisa revelo: como não rir perdidamente quando te referes aos homens como uns “cabrões”? “Todos!, excepto os da família”, acrescentas.

Publicado por Teresa C. às 09:19 AM | Comentários (4)

julho 21, 2007

SEM PONTA DE IMAGINAÇÃO

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Honey Potter

"Good artists borrow. Great artists steal." – Picasso

Consideram alguns que sem «imaginação» não há mérito daquele que escreve. Traduzo: ficcionar sem qualquer sustento real. Criar de raiz personagens e respectivas estórias. Inventar mundos alternativos à feição do Tolkien no “Senhor dos Anéis”. Ou como Rowling no “Harry Potter”. Supõem, julgo, que nesta criações e outras mais recuadas a realidade que emoldura o autor não contaminou a obra. Nisto pranto a minha absoluta discordância. Mais – não consigo sequer configurar escritor imune às emoções, acontecimentos, pessoas e sentimentos por ele experimentados. Mesmo quando a ficção surge como irrealidade fantástica, as personagens foram retocadas à custa da tia-avó intrometida, do amigo bom-garfo ou da vizinha com língua viperina.

Não sei escrever estórias sem ligação ao que me constitui. Ao vivido. Ao idealizado. À encenada projecção de dúvidas, gostos e desgostos. Isto faz de mim rabiscadora menor? O discurso escrito tem ardis e mistérios que me cativam. Bastas vezes me enrolo no encantamento das palavras e curvo o conteúdo pela fruição de vocábulos vindos dos aléns do pensamento. Retomo o curso, é certo, mas o gozo das artimanhas que as letras sugerem é tentador. Não fique retido considerar despiciente a substância dos textos. Nem um pouco! Pura fantasia o que escrevo? Umas vezes, sim, outras não. Um facto sublinho: em qualquer circunstância há a verdade da mulher que sou. Por lealdade – sempre ela que tantos amargos de boca me traz e devia(?) ter aprendido a rodear – para com o leitor, obrigo-me a esta reflexão.

Publicado por Teresa C. às 10:04 AM | Comentários (2)

julho 20, 2007

POST-IT VERDE-LIMA

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Sou portuguesinha de gema. Amiúde, caí na venalidade das peneiras. Da pose. Do estilo. Do “não me confundam com os incivilizados que por aí circulam” e de outros pré-conceitos quejandos. De não ser «tuga» por não deixar lixo caído no chão, reciclar as sobras de carne em crepes e empadas, separar lixos domésticos, economizar água, energia, as mãos da minha mui querida e ladina assessora, de sua graça Cila e, de caminho, as minhas. Ah, é verdade, ontem foi do mês o dia de cabeleireiro e manicura – uma brasileira de olho azul meigo e cabelo negro, capaz de virar do meio-mundo-macho as cabeças. Duas, por unidade, claro! Dizia eu que a «piquena», além de linda é convincente. Vai daí, persuadiu-me a pintar de vermelho garrido as unhas. Estragou-me a tarde, foi o que foi... Passei-a remirando as mãos, quase caindo na metáfora popular de espetar o indicador e soltar gritinho: “olha uma aranha!”

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Mas o que me tem dado conta do pouco juízo e mostrado ser pior que os piores, são os radares. Mais que muitos! Ora o máximo é oitenta, ora cinquenta que ignorava serem o comum urbano. Mão amiga e muito querida, antecipando-me a boca aberta e o queixo caído, enviou-me e-mail discriminando o «onde» e «a quanto». Li-o todinho! Rumino fazer dele cábula em pos-it verde-lima que enfeite o pó do tablier. Mas o que me dava arranjo mesmo era GPS com grilo-falante que guinchasse quando a sandália escandalosamente apoio no acelerador. Vale-me a justiça ter avisado entupir com os mil apanhados diários cuja ida a tribunal está prevista.

Publicado por Teresa C. às 09:00 AM | Comentários (18)

julho 19, 2007

MUITA PARRA E UVA MEIA

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Robert Anderson

Muita Parra e uva meia. A colecção Berardo será o que os olhos virem. Aos meus é como a Madeira que o homem viu nascer – tem picos e baixios. Mais destes do que daqueles. Colorida como as flores exóticas que na ilha o calor húmido germina. Com manchas de pobreza, emergente na maioria, escassa em nomes gloriosos. Não deslustra ou é incoerente com o que de João Berardo esperava. O gosto é um dom passível de educação, embora na distribuição pelos humanos os deuses sejam sovinas. O investimento de milhões em arte teve méritos: como detentor de fortuna pelo próprio engenho alcançada, ao Joe conferiu projecção e credibilidade. Por si só, diz a minha subjectividade, os baús de moedas dos donos contam pouco. A forma de os utilizar, essa sim, é delatora.

A mostra embevece quem chega e do átrio principal a vislumbra pela cor anunciada. No sala-após-sala, e são muitas!, é agradável rever uma Paula Rego de eleição, um Warhol que as sucessivas litografias banalizaram, um Magritte interessante, o delicioso Miró e delirante Dali. Do Picasso e do Bacon exibe o possível. Possuir trabalhos de qualquer deles é privilégio de muito poucos.

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Mel Ramos

O Surrealismo tem representação condigna. A Pop Art, um dos movimentos da arte contemporânea que me enfeitiça pela alucinante técnica de colagens e pintura, é crítica irreverente e humorada do american way of life. Mel Ramos, frequentemente escolhido para ilustrar estes textos, tem exposta uma das minha obras preferidas. Encontrei pobrezinha a recolha do Minimalismo.

Na esplanada do terceiro andar do CCB, descansei o olhar de tamanha dose de cor. O brilho das águas do Tejo, a lonjura aparente da Ponte e do Cristo-Rei, pacificaram a sensibilidade enquanto digeria o almoço e o visto.


CAFÉ DA MANHÃ

Magníficos textos! Quem me dera escrever assim...

Publicado por Teresa C. às 07:46 AM | Comentários (4)

julho 18, 2007

O NÃO-DITO DO NÃO-FEITO

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Autor que não foi possível identificar

Ousadias. Sabes-me capaz das visíveis, mas essas são fáceis demais. As do espírito, rente à pele, à água, ao vento, ao coração reservo-as para instantes e pessoas memoráveis. Especiais. Como tu. Como a alegria do teu rosto limpo e a tranquilidade do teu olhar. Mas isto foi depois. De início, convencemo-nos nada temer, tanto nos ocupavam ansiedades indefinidas. Porquê se era natural ver quem há muito sentíamos e tínhamos no coração? Mas havia o porquê. Não o de estarmos ali, que isso era certeza e desejo e acto. Transpareceria o «eu» da escrita na imagem fornecida? Seria dissonante, aos olhos de alguém que a alma aprendeu a ler, o invólucro, o corpo, o cabelo, a mobilidade do olhar? Na pele haverá o veludo da palavra? No olhar - sempre o olhar! -, nas mãos – recorrentes, sempre -, no infinito desejo de verter ternura, achá-la-á incómoda, atrevida talvez? O sorriso voará livre? Mas a pele era fresca, o cabelo rebelde, os olhos curiosos, as mãos bonitas, a pessoa não recusando questionar, revirar por dentro quem é.

Diria o tempo em que «fomos» como melodia de dois andamentos: a frescura da manhã, a liberdade do anoitecer. Em qualquer deles fomos harmónicos com o ser. Com a mulher que de tanto querer aos outros pode invadir o espaço ou a fala. E isso não queria. Por que afinal éramos quem havíamos engendrado e cujo pensamento perseguíramos. O dia foi tudo isto e muito mais que o não-dito.

Li o texto. Na amenidade do meu recolhimento, experimentei a repetida sensibilidade, os sentidos?, que nos aproximaram. Os sentidos são mais que cinco, para mim. E de todos falo. «Leio-te» pois. Quero conhecer o que te seduz e comove. Porque sabemos que o «nosso» tempo não foi fim ou interlúdio. (Re)Começo talvez.

Publicado por Teresa C. às 08:51 AM | Comentários (0)

julho 17, 2007

DA GOLGATE AO GALO DE BARCELOS

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Alison Blickle

Tinha de existir razão para o encarquilhado sorriso dos portugueses. Sim, sei, a nostalgia e a diluída crença em melhores dias ajudam a esborratar o riso. Mas mais havia. Tinha de haver. Quando um compatriota anónimo arredonda para cima os cantos dos lábios, a paisagem é, não raro, devastadora - dentola amarelada, vazios ocupados por gengivas descaídas, próteses bailarinas em risco de serem cuspidas, ferros dentários nas crianças, nos «andropausas» e «menopausas», estes rangendo dúvidas existenciais sobre o desempenho sexual das hormonas resistentes. Arreganhar os dentes não é fácil para os portugueses. Talvez por isso prefiram falar por entre dentes, dar com a língua nos dentes, dar ao dente ainda que o petisco custe os dentes da boca e só caiba na cova de um dente. Aguçar o dente, fazem menos mal, porém muitos excluíram dos dias agarrarem-se com unhas e dentes às prioridades pessoais.

Quando honesto recém-chegado ao estado adulto que a tempo e horas teve papeira, varicela, cabeça rachada por murraça em briga escolar, cuida de emprego com salário digno, contrato que legalize a procriação, comida a horas, roupa lavada e casa de banho sem tapete de pêlos, julga que durante anos a fio as favolas estão seguras, eis que a inutilidade dos sisos intervem. E doem e moem e desfazem no indivíduo a convicção de vigor imune a ridículos de cotas que, no mínimo, três vezes ao dia esfregam os dentes nas mãos.

Soube agora que a precária e mal cuidada dentição lusitana foi vítima de pasta de dentes falsificada. Não qualquer uma, mas a tradicional Golgate que durante anos e anos branqueou o sorriso de todos. A boa fé do povo foi ludibriada, a marca enxovalhada e, quiçá, para sempre saída dos copos-de-dentes perfilados sob telhado de pó ao lado das escovas do cabelo encardidas, perfumes e amostras de produtos com pedigree em dia de sorte ofertados. Falsificar a Golgate é tão, mas tão grave, que semelhante só galo de Barcelos pintado à moda do falecido Warhol.

Publicado por Teresa C. às 10:14 AM | Comentários (4)

julho 16, 2007

MÁ FAMA? BADAGAIO!

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Kiliaris Babis

Aos partidos políticos os portugueses ameaçam com o badagaio. Pela ausência, ou pela opção do voto propalam a quem os saiba ouvir que da politiquice estão fartos. Querem acções e rejeitam retóricas. Folclore genuíno temos, e bom. Imitações de feira, descaro, ideias maltrapilhas, dívidas de milhões e subornos, apre que estamos fartos! Não resta pachorra que tanto aguente. A contradição maior é a minha profunda crença de na política, como no resto, tomar a nuvem por Juno ser asneira certa. Posso cair na inocência, ser párvula ou pior, mas creio na correcção dos intentos de muitos que na política fazem vida.

Lisboa venceu! Viva a cidade que amo em paz, consciência e honestidade! Viva a urbe esconsa e humilde! Vivam os que pagando caro a afeição, porque podem, é certo, da cidade não arredam! Viva a mais bonita abordagem marítima dessa Europa fora! Qual Civitavecchia, qual Nápoles, qual Sardenha, qual Nice, Mónaco, St. Tropez, Atenas ou Malta?... Qual Livorno?... Mesmo a Villefranche-sur-mer dos meus impressionistas amores fica aquém do casario que bordeja, luminoso, o estuário do Tejo. Quem desta cidade de colinas roliças e ruas de má-fama, estreitas, em obras, mal calcetadas, deseja reviver a aventura e a nostalgia dos idos embarcados em caravelas, parta da Rocha Conde de Óbidos pelo entardecer e assista ao deslizar de Lisboa. Dir-me-á depois se nos portos do sul europeu existe mais lindo cenário.

Anónio, põe entre parêntesis os camaradas e sê lisboeta: ouve o respirar da cidade, perde-te na noite das vielas, percorre os caminhos de ponta, estaciona sem mordomias o carro para, em menos de uma multa, levantares uma encomenda ou resultado de análises, aventura-te no ventre urbano e nas franjas da cidade. Então, será altura de voltarmos à fala sobre Lisboa.

Publicado por Teresa C. às 07:01 AM | Comentários (5)

julho 15, 2007

SALTAR DA CAMA PARA DENTRO DOS SAPATOS

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Terry Rodgers

Estrila o despertador como clarinete desavindo com o sopro do tocador, pula da cama o cidadão como se fora recruta. Pode ensaiar horizontalidade na ronha, mas para quê? Para desvairado saltar da cama para dentro dos sapatos? A granítica rotina da maioria assalariada não tem dó, ou piedade. E torce, e enforma teimosamente até um trabalhador ser parafuso de poderosa engrenagem.

No estado adulto, aos atávicos traumas infantis, depois juvenis, acresce o da máxima produtividade com reconhecimento mínimo do patronato, da sociedade e da família, assim escasseiem mimos e o vivido for sobrevivente penúria.

Televisões e revistas impingem o despudorado sucesso como prioridade das vidas. No papel lustroso, os bem-sucedidos por mérito ou manha ou frivolidade são sorridentes protagonistas. Enquanto isto, sob o chapéu de sol na praia domingueira, jaze a arca frigorífica à mistura com as barbatanas e demais tralha de miúdos e graúdos. Quem pena a semana inteira espoja o corpo ao sol e abandona-se, ou nem isso pela insidiosa culpa do quase nada que sobra para si e para os filhos, pela canseira (des)esperada na segunda-feira.

Olhos vagueando por aléns que somente o próprio alcança, reconhece que no trabalho se esfalfa e resfolega sem da honestidade desistir. Logo, produz riqueza. Amealha um cêntimo? Não! E o convencionado sucesso? Nem a tanto aspira, embora, ocasionalmente, deslize na inveja. Aprendeu a ter por meta única uma vida responsável e séria. Finalmente, percebe do hoje o resumo – “Não luz? Não é ouro!”


CAFÉ DA MANHÃ

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Serpieri

Lisboa, a Cidade Branca (Dans La Ville Blanche) de Alain Tanner e das capitosas colinas, merece.

Publicado por Teresa C. às 09:18 AM | Comentários (0)

julho 14, 2007

ALFARIM ANTES, CRUZAR O VOTO DEPOIS

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Anna Halldin

Nada melhor do que convite para fim de semana fora de portas. Daqui a nada, vai rodear-me gente amiga. Gente linda. E o desfazer do oceano na fina areia da praia, a cozinha grande cheia de todos fazendo tudo, mais os grelhados no jardim iluminado por tochas e estrelas. E música e cavaqueira, bebida gelada no copo – as tuas caipirinhas, Leonor, rivalizam com o tal néctar que sabes cavar a minha perdição! -, adormecer quando a noite se levanta.

Amanhã, assim o sol seja rei, um doce espreguiçar e ala que se faz tarde para o café matinal na esplanada de sempre em Alfarim. Por vestimenta bikini e um algodão leve pronto a despir nas areias do Meco. Ali apregoaremos que é bom acordar são, gozar as carícias solares, aventurar o corpo nas ondas revoltas ou fagueiras próprias do lugar. Às regras diremos não – vou esquecer dos Uvs as horas proibidas, de renovar o creme na pele, de haver mais mundo além daquele. Porque fuga às normas vai com a minha natural rebeldia. Por amigos serem tesouro a que me dedico inteira.

Finalizando domingo, não deixo o voto por cruzar e, ainda com o fogo do sol na pele e um “brilhozinho nos olhos”, no regresso a casa soará bem alta a música da noite longa que o corpo recorda.

Publicado por Teresa C. às 09:54 AM | Comentários (4)

julho 13, 2007

GALOCHAS, VALENTINO, SO2 E GELADOS

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Amanda Ward

Arregalei os olhos ao saber que a venda de gelados no Reino Unido caiu em Junho 38% em relação ao ano passado, enquanto a venda de galochas subiu 222%. Mais soube esta semana: o nevão em Buenos Aires excedeu o de qualquer outro Inverno – talvez por isso, alunos e professores de uma escola secundária nos arredores da cidade promoveram e gravaram orgias envolvendo alunas de quinze e dezasseis anos. Com os meus botões, e não, por ora não visto camisa, cogitei: lá, como cá, o frio aperta nalguns edifícios públicos e os enregelados só pretenderam aquecer um pouquinho o ambiente de trabalho. Meritório esforço, não fora esquecida a verificação do B.I. dos convivas. No Chile, ali ao lado, um lago glaciar com trinta metros de profundidade desapareceu da noite para o dia. Investigadores animados pela ocorrência organizaram expedição. Problema - ao chegarem, a já água brotava por oito lados. O clima e a Terra ensandeceram? Pudera! Ninguém ignora, neste particular, as tropelias humanas.

“A fábrica Amoníaco de Portugal, no Barreiro, foi obrigada a parar a produção devido à emissão de níveis ilegais de dióxido de enxofre. O Ministério do Ambiente tomou esta medida depois de detectar mais de 500 miligramas de dióxido de enxofre por metro cúbico de ar.” Trocando por miúdos, três vezes mais que o máximo permitido. O SO2, para quem destas minudências pouco saiba, é um gás com curto tempo de vida na atmosfera – reage com o oxigénio do ar, transforma-se em SO3 que, em presença do vapor de água atmosférico, origina ácido sulfúrico. Ácido tão forte que corrói o calcário de edifícios e estátuas – fácil exercício especulativo é imaginar os danos nas frágeis vias respiratórias -, bem como economias (na Alemanha, o valor dos prejuízos ultrapassa os 7 250 milhões de euros/ano).

Para me consolar destas e outras malfeitorias ambientais, coisita simples bastaria – a oferta de um Valentino. É que o mundo é um sítio frágil, o estilista já vai nos setenta e seis, pode «quinar» e dele nem «unzinho» tive.


CAFÉ DA MANHÃ

1 - Dei conta ontem, mas o dia, de tão cheio, distraiu-me. Ao Luís Carmelo os parabéns pelo quarto aniversário de um dos meus blogues preferidos.

2 - "A Síndrome do Macho Alfa" - magnífico texto da Passionária no seu blogue “pós-moderno e pós-feminista, ou breves reflexões frutos de um mau feitio”

3 – Mui agradeço ao ligações para este blogue vindas do Nuno Maranhão, do Coffe Cup e da Marsu.

Publicado por Teresa C. às 09:08 AM | Comentários (2)

julho 12, 2007

CAPRICHOSAS MARAVILHAS

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Autor que não foi possível identificar

A apoteose da selecção das Sete Maravilhas do mundo começou mal. A vaia de quarenta mil pessoas antecipou os ventos uivantes do início da semana. Por minutos, a Luz foi cenário (im)provável do Monte da Emily Bronte. As gentes optaram pela inconveniência - concedamos não ser uma festa exposta aos olhos do mundo o momento para reclamações de trazer por casa. Virtude: não recearam proclamar na vaia a seriedade da consciência crítica relativamente à cúpula governativa e à classe política que alterna a vez democrática como se fora jogo de matraquilhos.

O que mal começa, melhor acaba, soe dizer quem aos adágios se apega. A festa foi linda, as maravilhas escolhidas, o Ben Kingsley um senhor que desde “House of Sand and Fog” não via. A bela indiana, que ao lado dele sorria, reluziu com a eleição do Taj Mahal e com o jeito de menino-homem-sabido do nosso Ronaldo. Ao apagar das luzes, houve beijo intercontinental e, suspeito, quente, ao arrepio da noite fria.

Dos agora exponenciados destinos turísticos, inscritos em milhões de agendas viajantes, conheço uma. É verdade! A mania de repetir a fruição de lugares, livros e filmes que amo, circunscreve a reduzido palmarés as minhas peregrinações pelo mundo. O Coliseu, entre o Palatino e o Célio, é o que vejo e invento. Ao trivial conhecido, acrescento as pinceladas históricas do Steven Saylor – se devoro ficção histórica(?) em geral, a policial é gourmandise de que não abdico. E como ele ensina a amar as delícias e misérias da urbe que o Tibre atravessa... Às Novas Maravilhas constantes do rol oficial, prefiro as minhas e as que persigo. Sou assim: caprichosa, mas dedicada criatura.


CAFÉ DA MANHÃ

1 - Umas semanas como nacional peregrina e eis que deixei escapar o desafio da caríssima Leonor. De imediato, penitencio-me. Das minhas cinco últimas leituras, e sim!, para mim são sazonais, algumas constituo como revisão encantada de livros. Segue junta a lista.

Júlio Pomar – “Poema do Dito e do Feito” complementado pelo “Apontar com o Dedo o Centro da Terra” do Lobo Antunes.
Susana Prieto e Lea Vélez – “A Casa do Destino” - oferta recuada cuja leitura adiei.
Gabriel Garcia Márquez – “A Incrível e Triste História da Cândida Eréndira e da sua Avó Desalmada”
Vilhena – “História Universal da Pulhice Humana” - primeira leitura.
Cesare Pavese – “Fogo Grande” - primeira leitura

2 – Renovo o agradecimento ao Portal Minderico pela divulgação de textos que por aqui registo.

Publicado por Teresa C. às 06:30 AM | Comentários (2)

julho 11, 2007

A PACIENTE INGLESA

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Jan Bollaert

À beira dos sessenta, por entre brumas e smog, entretinha o vazio e a falta de hormonas vivazes na rede virtual que o longe aproxima. Visitava salas de chat - mercados de carne em tradução literal -, ignorando(?) os fundos lodosos. No silêncio doméstico, amparava-lhe o desamparo o romantismo do chintz esparramando das rosas a paralisia, repetido nos reposteiros da sala, na cabeceira da cama, na «senhorinha» capitonné que a melhores tempos assistira. Da ligação óptica a fantasiados mundos venturosos, não tardou a dependência somente igualada pelos litros de chá bebericados. Não, não se resignaria às compras de bairro, à reforma coroada por festa e ramalhete florido e mais canecas e bules e inutilidades cheirosas! Queria mais. Mistério e aventura. Afagos. Sexo que não arrotasse pubs. Bombons. Um homem.

À beira dos cinquenta, as dúvidas são tenebrosas. Ele sabia-o e para si omitia e fingia, vazando encanto ao lançar, onde calhava e também na rede, as redes da sedução que conhecia. Calhou pescar, entre brasileiras, portugueses, africanas and so on, a inglesa. Por facilidades próprias, foi à ilha da rainha conhecê-la. Entre chá e sandochas de pepino, a adrenalina piou baixinho. Manteve o polimento e no regresso deu folga ao laço. Sendo a fortuna marota, um exemplar do pescado antigo abriu – milagre! - as guelras e revelou escamas luminosas. Veio o romance, o «amor» aqui e ali sacudido por fanecas resistentes.

Corria a vida assim-assim, quando a inglesa decide corresponder ao amável convite - chutado para canto com o passar dos muitos dias - de vir a Portugal fruir do sol e do bombom lusitano. Caiu-lhe o mundo em cima. E agora? Inglesa com portuguesa finória era refinada trinitroglicerina. À namorada conta um conto: colega de trabalho à beira da reforma, convida-a por gentileza e não é que ela teve a insensatez de aceitar? Teria de a receber, fazer o sacrifício de ser escort por quinze dias. Mais nada. Mera cortesia e honra que palavra dada merecia. Ouvindo mais que o relatado, a namorada viu (in)feliz oportunidade de dissecar breus ocultados. Esperou, feita lagarta ao sol, o desenrolar da trama.

A TRAMA

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Laura

A inglesa diz chegar num sábado. A namorada passa com ele esse fim de semana. Adia a vinda da inglesa por oito dias. Ele antecipa no sábado seguinte a despedida desse fim de semana a dois para receber no domingo a «colega». À chegada, o infortúnio prega dolorosa partida: a senhora cai e fica uma amálgama de nódoas negras e luxações. Ele relata o infortúnio à namorada. Põe a inglesa no hotel (disse). Na manhã seguinte, o estado clínico piora. Centro de saúde com ela. Nada partido. Um analgésico que a dor náo alivia. Trá-la para casa e para a única cama. Ele cozinha, cuida da doente e dorme com ela. A coisa piora. Paralisia semelhante às das rosas do chintz dos cortinados. Hospital. Emenda do diagnóstico com medicação nova. A senhora chora o sofrimento e a pouca sorte. Ele anima-a. Antecipar o regresso? Improvável. Está marcado o avião para ambos e combinadas duas semanas de férias - very british indeed - que à portuguesa dissera de árduo trabalho na estranja. A namorada sugere a dois o fim de semana anterior à demorada viagem. Quer mitigar antecipadas saudades. Ele recalcitra por razões de «trabalho». Devagar, a inglesa melhora. Enfiado em camisa de onze varas há um. Entupida com analgésicos e (des)ilusões, uma. Espectadora atenta da trama, outra.

Publicado por Teresa C. às 10:53 AM | Comentários (4)

julho 10, 2007

CAFÉ DA TARDE

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Autor que não foi possível identificar

Quem, com justiça, preferir à modéstia da Boneca Capitosa leitura bem mais proveitosa, recomendo esta.

Publicado por Teresa C. às 04:24 PM | Comentários (3)

NA QUERMESSE A BONECA CAPITOSA

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Elvgreen

Uma dúzia de candidatos à Câmara de Lisboa é obra! Mais parece congregação de mordomos para costumada festa da aldeia com direito a missa cantada, banda, foguetório, procissão, anjinhos de asas de nylon, ranchos folclóricos, música pimba e bailaricos.

Na festa da paróquia que as autárquicas lisboetas imitam, os mordomos acotovelam-se em compita para segurarem do pálio os varões ou carregarem no ombro a esquina de um andor. Começado o leilão das oferendas, os mordomos incentivam o povo para lances chorudos aos tabuleiros que cada um recheou e paus-mandados carregam. Sobre a toalha de linho com gasto rendilhado espreitam presuntos com mais unto do que carne, leitões ressequidos, garrafas de azeite e vinhos da cooperativa, côdea de de broa-triga-milha e queijos pingando gordura.

Enquanto a banda toca, (des)anima no adro a quermesse. Ursos de pelúcia, boneca capitosa a que chamam Lisboa, canecas em louça reles, mais os jogos-de-cama e estampas da Última Ceia não convencem o povo a comprar senha – resistentes mamarrachos que o pó encardiu têm de sobra. Mais do mesmo? Não, obrigada! E já em casa, festa e companhia desfeita, comentam qual da dúzia foi o mordomo que melhores provas deu e lidere a comissão seguinte. Ora, que se lixem! Já basta adiar o piquenique da famelga em troco do braço votante na missa de domingo.

Publicado por Teresa C. às 09:05 AM | Comentários (4)

julho 09, 2007

MASTROS, MARÉS E MARINHEIROS

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Yuliang Wu

Dois acontecimentos de pesos diferentes – um custando à gravidade esforço mínimo (“O Abominável Mundo dos Cibernautas” da autoria do Renato Montalvo e da Conceição Monteiro publicado pela Gradiva) e outro compensando a esforçada acção terrestre com reacção de milhões de newton (a Ponte da Lezíria). O primeiro baratucho se comparado com os 200 milhões de euros que custou o segundo. Denuncia um o sexo virtual de menores a troco de carregamentos de dez euros no telemóvel, dramática e barata-feira!, o outro ligando «A1» e «Ans» como rápida passagem para a outra margem, de Lisboa desviando o ronco poluente dos motores que a não demandam. Como qualquer obra pública portuguesa, nas vésperas da inauguração vieram as objecções - que não, que não podia ser, que os mastros maiores do doze metros não passavam e agora como fariam os barqueiros para prosseguirem navegação sem arrear o mastro ou dele cortarem o extremo? Ora isto não pode ser! Os garbosos mastros são para ver e usar, nunca para atravessarem cabisbaixos corredores aguados.

Mastros, marés e águas dá pano para velas. O mastro masculino, comumente designado pénis e de que este blogue regista a ausência, é berloque associado a duas bolas. Órgão elástico que tanto pode ficar inesperadamente duro - no escritório, na rua, sujeitando o proprietário ao embaraço da calça arrebitada – ou mole quando era esperada consistência de aço. Útil para a evacuação de líquidos. Unidade de medida da inteligência nos machos humanos - maldade pura! - cujo tamanho – dizem os invejosos! - é inversamente proporcional ao do automóvel que possuem. Instrumento, entre outros, para a procriação.

Nalgumas populações do Zimbabwe (se não mesmo no resto do mundo) 70% da matéria cerebral masculina reside no pénis. Inábeis usam-no como recurso para calar durante alguns minutos as mulheres. Funciona como videoconsola em autogestão energética. Tão adictivo que um varão saudável joga com ele três horas por dia, pensa vinte horas no jogo e na outra hora tenta mudar de assunto. Os grandes inimigos das jogatinas do pénis são o futebol, o Papa, a falibilidade do látex e a Nintendo. Olha a desdita que arrasta quem nos cromossomas mistura X com Y!...

Publicado por Teresa C. às 11:27 AM | Comentários (3)

julho 08, 2007

PIRÂMIDE AFIADA

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Vladimir Kush

É verdade, Francisco, que quem estuda e tem boas notas no decorrer do ano lectivo obtém classificação a contento nos exames nacionais de Física (12º), Física e Química(11º) e Química(12º). As dificuldades fundamentais não respeitam às novas estratégias de ensino, aos critérios de avaliação ou ao desinvestimento da tutela – o equipamento dos laboratórios é a cada ano melhor e tecnologicamente mais desenvolvido e cresce o protagonismo das aulas laboratoriais nas aquisições das competências necessárias às ciências ditas experimentais.

Os problemas são outros e fundos. A maioria dos alunos chega ao ensino secundário oriundo das escolas básicas, ensinados por professores cujos objectivos pedagógicos são adequados ao sucesso na conclusão do nono ano de escolaridade. Temos, como decorre das estruturas escolares, uma fractura entre ciclos de estudo, em vez de estabelecimentos de ensino onde os docentes podem leccionar, em simultâneo ou rotativamente, 12º ano e 7º ano de escolaridade. A perspectiva da dialéctica ensino-aprendizagem muda por completo – o professor terá objectivos mais abrangentes, preparando os alunos de acordo com perspectivas e competências futuras, conquanto subordinado aos conteúdos curriculares do nível leccionado. No quadro estrutural presente, ao concluírem o ensino básico, os alunos vêm adaptados a um ensino concreto – de acordo, aliás, com o desenvolvimento intelectual da faixa etária – e deparam à entrada no secundário com ritmos de trabalho exigentes e conteúdos que requerem treinados raciocínios lógicos e abstractos. Ora, para isto não foram suavemente preparados. É o choque. A inadaptação. A ruptura. A fuga. O sucesso em pirâmide afiada culmina no 12º ano. Convém enfatizar que três anos de estudo nas escolas secundárias são curtos para modificarem os enraizados hábitos de modéstia nos desafios pessoais e a facilidade.

Mais há: os cursos de ciências e tecnologias requerem dos alunos muito empenho pelas três abordagens obrigatórias em cada ciência curricular – componente teórica, teórico-prática e laboratorial, sustentada esta em relatórios individuais que devem cumprir normas rigorosas e prazos específicos. Por outro lado, pais e alunos raramente levam a sério a informação de todas as classificações obtidas desde o início do 10º ano contribuírem para a média final de conclusão do secundário - média decisiva para o ingresso na universidade.

Os alunos que sustentam as aprendizagens em trabalho esforçado e talento que lhes determinou a escolha vocacional, ainda que genérica ao findarem o ensino básico, têm sucesso à altura da dádiva. Os que optam pelo estudo das ciências por razões frívolas como o prestígio social ou a perspectiva de entrada facilitada no mundo do trabalho, sem que as capacidades de disciplina interior estejam à altura e não abdiquem desta fragilidade, verão nublado o sucesso.

Publicado por Teresa C. às 10:37 AM | Comentários (5)

julho 07, 2007

BEEF COM HUEVO A CHEVAL

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Mark Blanton

Dizem encaminhada a actual legislatura para ditadura sorrateira. O povo respiga e rebela-se e diz à boca cheia que antes o 24 de Abril que a presente desdita. Acusam o executivo de rolhar discordâncias, insubmissões infantis - os dizeres murais nos pardos espaços dos funcionários públicos -, dos inquéritos, dos castigos à moda das mestras de antanho com palmatoadas, orelhas-de-burro, tempo de martirizado ridículo contra as paredes do fundo, a escrita - “juro que não repito e estou arrependido» - por cem vezes repetida pelos insolentes. E vai a pique a (des)graça de Sócrates por ter dado o flanco à conta de (des)propósitos acerca de canudo tão canudo como o de milhares de portugueses que por via do empenho ou das cábulas e rábulas e enrolanços vários são tidos por licenciados com direito ao respeitado(?) título de doutor - tal como na América Latina sucede para quem veste terno claro argolado com gravata - ou qualquer outra falácia aceite por quem cursou cinco anos e para o doutoramento não chegou a paciência, a arte ou o engenho.

Os portugueses, ou não se soubessem madraços!, gostam de autoridade que os arrebanhe e conserve no redil protegidos por robusto cão de guarda, desde que de volta recebam caridosas (demagógicas?) ilusões de palmadinhas no lombo. Ora disto não tem abundado. Por outro lado, a lista de mudanças no ramerrão costumado de gentes que se revêem na prudência do velho postado no Restelo futurando desgraças é contra-natura. Pingassem explicações, ainda a coisa se compunha, mais não fossem que liames traduzidos na fé de sairmos da penúria. Mas o homem – um bonitão bem enfarpelado e inteligente, benza-o Deus! – afivelou carranca. Um sorriso franco polvilhado com tiradas de fino humor, como soe fazer nos cíclicos debates na Assembleia, e cresceria do homem o entendimento, das medidas indigestas o alívio. Ocasional bitoque acompanhado de honesta e gelada cervejola, nunca fez mal a ninguém e tira da barriga as misérias. Pranto fé na ronda europeia de que agora é anfitrião – talvez relembre a postura gentil nas múltiplas fotografias de família.

Publicado por Teresa C. às 12:49 PM | Comentários (2)

julho 06, 2007

TERESA C.

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Teresa C.

Nas últimas semanas, quiçá sempre, a Teresa C. tem sido um tédio. Graças ao Deus em que acredito, a mulher que abriga a fracção C. é muito mais do que ela. Tem imperfeições várias, algumas que muito estima, outras nem por isso mas com as quais aprendeu a conviver e domesticar nos limites do possível. No plano estritamente pessoal, é amável com o corpo por lhe servir de suporte ao espírito. Damo-nos na perfeição, como casal antigo que descobriu as mútuas fraquezas e, malgré tout, preserva afeição genuína. Não subscrevo rol de mudanças – atenuar do nariz o contorno levemente arrebitado, esticar sulcos que o cansaço – esse malvado! - denuncia, tirar daqui e pôr ali, insuflar, aspirar ou outros mil artifícios. Assim como das ostras saboreia a frescura e a pureza do sabor, ainda que como bivalves não primem pela beleza, o mesmo faz com ela a dona da Teresa C.. Aproveita o que tem e evita projectar futuros, não chegue rede apertada ou artefacto preciso que a subtraia ao mundo conhecido.

A mulher acordou com um sorriso. Nem sempre, convenho, conquanto a rabugice matinal não a amofine. Hoje, o sol entra pelas portadas de vidro, os objectos luzem coloridos, a serenidade é rainha, o dia ela antevê prazenteiro, o dourado da pele contrasta com o branco da seda mínima que a (des)cobre. Do obrigatório dispõe-se a recolher o gosto e mandar às malvas os desgostos que sempre pairam nas horas úteis. Porque é uma felizarda que horários rígidos não engaiolam, reclamará do sol os afagos na pele, no ginásio treino esforçado e duche deliciosamente frio. Chegado o adormecer hemisférico do sol, renovará a prova das delícias lisboetas. Mulher feliz, a patroa da Teresa C.!... Suspeito que esta, olha para a outra e murmura: “se fosse gente inteira, gostava de ser assim.”


CAFÉ DA MANHÃ

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- “ELA” achou por bem e devido a mui gentileza, atribuir a este blogue nova nomeação para "O Prémio "Blogue com grelos". Relembro “premiar mulheres que, na sua escrita, para além de mostrarem uma preocupação pelo mundo à sua volta, ainda conseguem dar um pouco de si, dos seus sentires e com isso tornar mais leve a vida dos outros. Mulheres, mães, profissionais que espalham a palavra de uma forma emotiva e cativante. Que nos falam da guerra mas também do amor. A escrita no feminino, em toda a net lusófona tem que ser distinguida."

- O mui caro comentador Nilson Barcelli recomenda o “Sem Pénis, Nem Inveja.” Quando daqui andar arredio, sei agora onde posso encontrá-lo e deliciar-me com a leitura e a música que propõe. Ontem esteve magnífico! Num clique lá me tem."

Publicado por Teresa C. às 09:23 AM | Comentários (4)

julho 05, 2007

CAFÉ DA TARDE

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Runci

Calor? Praia? Mar? Os pés nus e a pele que sobra do biquíni sentindo da areia e das ondas o roçar? Madre mia, que o clima é mais caprichoso do que eu! Os UVs que se cuidem – quero para mim procissão de mão-cheia de fotões a bambar. É porque o riso combina com preguiçar, sugiro visita ao novíssimo Gerador da Anedotas. À mão bebida gelada e aí está duma tarde esplendoroso final.

Publicado por Teresa C. às 04:05 PM | Comentários (2)

EM BUSCA DO «JE T’AIME»

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Kamille Corry

O Minderico e o Makejeite – a significância dos nicks merece estudo a preceito – sugerem que se há morcegos-machos-humanos-da-noite-após-noite, as fêmeas também existem. E se existem! Em número inferior, concedamos, mas igualmente arrastando na noite a cauda da penúria dos dias. Não fazem do balcão parede ou ponto de vigia - preferem canto que valorize olhares compridos. Rosto de viço betumado pela maquilhagem sombria, plumagem fingida, corpo murcho, as membranas alares, finas como papel, estendidas.

Crianças velhas. Todo o ano escrevinhando cartas ao Pai Natal que tanto pode chegar em Fevereiro como em Julho. Ludibriadas, desamadas mais por si próprias do que por outrem, (des)crentes, (des)esperançadas, (des)iludidas. Em quê? No redentor embrumado que o sangue agite e as ressuscite. Contornos tão difusos que qualquer - real ou inventado por inadvertido gesto equívoco – cumpre. E entregam o que são a troco de um engano. Seu. (Des)obrigado a retorno.

Dos machos e das fêmeas nocturnas tenho dó. Com angustia o digo porque aos outros endereço estima. Acredito na geral coabitação da bondade e da maldade. Na luz que o breu alterna. Na riqueza da infinita diversidade humana. E se aqueles, poucos, a quem permiti retirar do que sou as camadas com brilho, me afirmam com óculos cor-de-rosa que das pessoas suavizam as lâminas aguçadas, atento na observação crítica. Mas não desisto ou mudo o filtro. Anteponho a doçura da paisagem humana que me cerca e abastece de fé.

Publicado por Teresa C. às 08:29 AM | Comentários (5)

julho 04, 2007

DE ISLINGTON AO BULE

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Autor que não foi possível identificar

Ao falar de uma cidade que julgo bem conhecer, anteponho pronome possessivo. A relação de posse – a «minha» Coimbra, Roma, Évora ou Nova Iorque – tão somente significa que amei do todo uma parte. O que nos lugares de afecto me prende é o meu modo de os ver: pessoal, subjectivo, por isso intransmissível. De igual modo, ao descrevê-los, perpassa o que deles sinto e pouco do que são.

A «minha» Londres começa para as bandas de Islington ao descer meia dúzia de degraus e apanhar o autocarro. De King’s Cross em diante, prefiro caminhada até Covent Garden que, se as horas bem tiver contado, encontro semi-fechado pelas nove e pouco da manhã. Por ali pauso na espera da azáfama renascida, olhando a chegada das caixeiras, as portas uma a uma abertas para infinitas saídas e entradas, os expositores que os ambulantes desembrulham e recheiam de quinquilharia ordenada. Um expresso depois, rumo a direito até à sala da National que o apetite escolha - o enleio na loja da galeria adio. O meio do dia encontra-me no cimo de Hyde Park ou descendo a Kensington para farta paragem em Knightsbridge. Petisco no Harrod’s, afastada a turba do almoço, e deixo Chelsea para a tarde. Aos domingos, preciso da paz de Notting Hill para o pequeno-almoço, de percorrer os cais-sul do Tamisa, deambular na Tate Modern que remato com as lambidelas do vento na travessia da Millenium Bridge.

Do «meu» Porto mais lembro o sol do que a chuva ou a morrinhada. Gosto, na Foz, do pequeno hotel de charme próximo da rotina da Agustina Bessa Luís e do bulício das lojas e das esplanadas soalheiras abrigadas por corta-ventos. E do Bule para almoçar. Nos dias de utilidade reconhecida pelo trabalho das gentes, está deserto. As madeiras sólidas, os angulados recantos para espera entretida com diálogo ou um copo, a sala sóbria, o avançado que estende além do jardim o olhar de quem come, os idos da água correndo pela parede de vidro são detalhes que degusto enquanto o palato agradece. A generosidade do pato lascado à mistura com o arroz que o refogado bronzeou, mais o serviço amavelmente eficaz e o gosto fiel da refeição nortenha, seduz-me. Na despedida bem-disposta pelo equilíbrio perfeito entre a qualidade e o emagrecimento da carteira, é renovado convite o sorriso iluminado pelo azul da chefe de sala – um metro e oitenta delgado encimado por cabelo louro e rosto lindo, mais provável numa passerelle do que em lugar de comer lembrando os hotéis-turismo.

Publicado por Teresa C. às 12:14 PM | Comentários (0)

julho 03, 2007

OS CLIENTES DA NOITE

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Erica Chappuis

Os clientes da noite-após-noite não procuram a felicidade. O que não podem ter ou a si próprios sonegaram é motivo e fim. Aperaltam-se com toga vistosa, compõem as pregas, levam na cabeça invisível coroa de louros composta ao deitar do sol. Corrida a noite, da frescura das folhas de loureiro cheirosas resta o murcho de cobre que as pintalga. Porque ninguém foge dos conflitos interiores, a toga debruada a ouro é suposto tapar o que só eles, nem eles?, julgam saber e as luzes (des)focadas não revelar. Encostam-se ao balcão ou aproveitam das sombras o jogo. Seguram na mão o copo, nos olhos a sapuda mobilidade. Dardejam olhares carvoentos ás carnes que entram e saem. Ao requebro de uma anca. A uma atitude marcante. À altura duns pés nus por tiras presos a sandálias. Aos que cobiçam na fractura do tédio.

Da consciência dizem os morcegos humanos ser mal de que padecem quando as coisas correm mal. Exaltam o desprendimento, o cinismo, a frieza que dizem necessária à sobrevivência, há muito descarrilados das linhas do coração. Possuindo ouvido apurado, orientam-se com perfeição no falso negro da nuit américaine e detectam, ainda em voo, as presas. Da suspensão nocturna emergem com o papo cheio, alguns dobrando o peso em alimento á custa da própria ruína ou de quem da cautela prescindiu.

Publicado por Teresa C. às 07:47 AM | Comentários (5)

julho 02, 2007

SEM QUE A FINA PENUGEM ERICE

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Rowena

Quando um homem quer fazer amor e a mulher quer falar, não tardam os sarilhos. Ela buscando o último sentido para um facto ou um dizer, ele sem outra metafísica que a da libido pulsiva. Ela tilintando os carrilhões de pensamento sem que a penugem fina da pele erice enquanto do sonido não vir o fim. Ele, ouvindo sem ouvir, aquiesce e sofisma para a distrair da teima retórica que sabe atraí-la. E o entesado desejo, na espera de ser cumprido, finda o tempo útil, gasta a semi-vida radioactiva esmorecendo a energia. Dela os orgásticos espasmos induzidos pela entrançada ráfia do por-dizer. Dele o cansaço do músculo que não viu a mina quente, nem veio do fundo molhado. Dela o coração batendo nos ouvidos que não ouviram o que esperavam ouvir. Dele os cegos tropeções na mobília de uma sala mutável da qual, sem fadiga, ela enumera os cantos e as regras e os sítios e o lugar do capacho e do lavatório onde as poeiras da alma ele deve largar para que não conspurque, de ambos, o espaço.

Ela rainha de um domínio e de um rei a quem não nega desvelo ou privilégios, quando ele mais confiava em doces alquebramentos. Vassalagem adquirida e feito súbdito o rei, sobrevirá o cansaço pela garantida satisfação dos caprichos. Abusando o consorte da rebeldia ou confinando ao leito o empenho, abdicará do trono a rainha, e, noutro castelo, fará oferta do corpo e do espírito e dos fluidos emotivos a suserano que os recolha e as porfias sabiamente encaminhe.

Publicado por Teresa C. às 12:39 PM | Comentários (5)

julho 01, 2007

ÚTERO

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Arlette Steenmans

Galgar a distância pelo ventre da cidade. Sem história. Não para mim. Antes aventura. Formigueiro. O metropolitano.

Útero de Lisboa, o Metro como opção. Manhã soalheira de um Junho indeciso entre estações. Como passsageiro que das catacumbas eléctricas não faz hábito. Dia inaugurado com café e um pretzel. Caminhada curta e faço-me à bocarra funda de Lisboa. Estação iluminada, limpa, fresca como o ar da manhã. Plataformas amplas encostadas a cerâmicas de autor. A arte como anfitriã. Informações precisas orientando a espera. Pontas de cigarro omissas.

A carruagem é nova. Confortável. Olho gentes, comuns como eu, silenciosas, como eu, peças, como eu, das linhas cruzadas da cidade. Sucedem-se os cais. (Per)Corridos com tempo marcado, proibindo o impulso de pasmar diante de uma, mais do que outra, obra da escavada galeria de arte metropolitana. Mendicidade como memória. Utentes corteses, grafittis raros. O povo que somos mudou e persiste – sofrido, com remendos nos bolsos e meias gastas as solas da esperança. Humilde, mas digno no desalento. Austero – escasseiam sorrisos –, conservando aceso o gesto solidário. Deste povo gosto. Não lhe roam a esperança. Larguem-no os carteiristas das vontades.

Publicado por Teresa C. às 11:20 AM | Comentários (0)