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julho 30, 2007

LAMBER O SAL DUMA NOITE DE VERÃO

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Miguel Avataneo

Não digo como o poeta “quem sabe se a nossa sintonia não acaba em harmonia”. Entre nós a questão perdeu sentido. Temos a harmonia à medida da nossa intenção. E mais não queremos por ser tão melódica assim. Contas tu, conto eu, entre duas garfadas de uma carvoada de tamboril e gambas. A noite tépida de Verão à margem da outra margem que Lisboa é. O murmúrio do rio ondulando baixinho. O cheiro a carvão na mesa, ora tu, ora eu vigiando a assadura. Na rua (dispensámos a clausura da sala e da esplanada emparedada em vidros). E depois, pelo lugar não abundam escapes ou gentes que não venham ao mesmo que nós – jantar com Lisboa longe e perto. O pôr-do-sol avançando de ouro a rubro, pintando de igual cor o casario da cidade. O Tejo aos nossos pés, lambendo o friso de areia e a modéstia do par de embarcações ancoradas.

Perdemo-nos na beira-mar. Um suave arrepio marítimo percorreu-me os ombros e costas nuas. E andámos e sentámo-nos nos bancos de madeira cérceos do oceano. Ao longe, um forró invadiu-nos o lugar da fala e dos silêncio. Fugimos. Descemos por um carreiro entre socalcos de um jardim anunciado. Que outro povo se não o nosso, abandona de esmeros orla marítima tão bela? Falámos disso e daquilo, das camâras comunistas e do que entendem por desenvolvimento sustentado. Falámos da estação orbital que luz no negrume do céu, mais do astro brilhante cujo nome não lembrámos.

Não despedimos a lua que a noite recortava, sem mudar de margem e ver o que vimos ao contrário. De novo a areia recebeu os nossos passos sem que do Tejo os vagidos apagassem. O perto tropical da música e os bancos toscos de madeira iluminados por velas encenaram o desejas tu, desejo eu refrescados por margaritas. Vi-te, não desmintas, sei que sim!, um tudo nada surpreso pelo meu lamber guloso do sal na beira do copo. E concordaste – das margaritas, as melhores! De volta, cabelos ao vento, Amigo querido, a suavidade persistiu ao conduzires mansamente.

Publicado por Teresa C. às julho 30, 2007 08:42 AM

Comentários

Se não fosse o negrume que, a espaços, me invade a alma nestes difíceis tempos, este belo pedaço de Sonho ter-me-ia feito sorrir.
Fica-me, porém, na memória, para deleite futuro.
Você, querida Teresa, bem merece ser a estrela que faria do Triângulo de Verão o quadrado de luz perfeito.

Publicado por: j às julho 30, 2007 09:25 AM

poetas inspiram poetas...mas você quer a corda sempre bem esticada...junta o formalismo ao conteúdo e desafia quem tem vagas soltas

Publicado por: blackhill às julho 30, 2007 11:19 AM

Cara amiga... que arrepio isso me deu.... lamber o sal do bordo do copo???

Publicado por: James Stuart às julho 30, 2007 12:46 PM

Vc tem uma escrita linda, "embaladora" se me permite diria uma prosa poética, cheia de imagens, sons e cheiros.
Vc dá-lhe um toque genial, num pedaço de puro romantismo estético, consegue meter a conversa, sobre câmaras comunistas e não perde o tom, nem o ritmo.
Muito bem.
Vc estará com certeza nas minhas 12 escolhidas

Publicado por: Luis Maia às julho 31, 2007 04:08 AM

J. - E sorria, porque se bem procurar mil razões irá achar. :)

BlackHill - É verdade. O equilíbrio difícil não me retira o gozo de cirandar no arame. Sem rede, acrescento.

James Stuar - Uma delícia, caríssimo, que acresce manter os níveis de sódio que o organismo precisa.

Luís Maia - Obrigada pelo comentário e pela intenção.

Publicado por: Teresa C. às julho 31, 2007 11:08 AM

Já agora e porque não misturo piada com conversa séria também informo que estou bem temperado, tanto que a minha homeopata me receitou comprimidos para tirar o sal que tenho em excesso

Publicado por: Luis Maia às julho 31, 2007 06:28 PM

Luís Maia - Ora aqui está um exemplo da dversidade humana: uns do sal da vida não se fartam, outros retiram o excesso. ;)

Publicado por: Teresa C. às agosto 1, 2007 08:30 AM

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