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julho 25, 2007
O QUE É BOM PARA A LEOA

David R. Darrow
Este é o tempo da ética na política, na economia, na ciência e nas sociedades. Contraditoriamente, desde que me conheço e tenho consciência crítica, assisto impotente, salvo pela responsável denúncia pública e tentativa empenhada na minha coerência de vida, à amoralidade dominante que com o ideal ético coabita.
A ética pode designar aquilo que é descrito como a "ciência da moralidade", ou “Morada da Alma”. Uma teoria ética determina o que é bom, tanto para o indivíduo como para a sociedade como um todo. “Em Filosofia, comportamento ético é aquele considerado bom, e, sobre a bondade, os antigos diziam que: o que é bom para a leoa, não pode ser bom à gazela. E, o que é bom à gazela, fatalmente não será bom à leoa.” Este é um dilema ético típico segundo a Wikipédia.
Vem a reflexão ao caso das enfermeiras e médico búlgaros ontem libertados em Tripoli pelas boas graças de Durão Barroso. O governo líbio comutou-lhes a pena de morte pela prisão perpétua como pena de terem infectado no hospital de Benghazi 438 crianças com o vírus da Sida, entre as quais 56 já falecidas. Os clínicos terão emigrado para a Líbia na procura de melhores condições de vida. Nada a opor. Pela pobreza das condições de trabalho, disseminaram o contágio por via da utilização de seringas usadas. No meu subjectivo ponto de vista, a explicação não os iliba. Sendo a missão de enfermeiros e médicos salvar vidas, como entender a obediência a práticas assassinas a troco de meia dúzia de lentilhas?
O avião que transportava os libertos-condenados, acompanhados por gradas figuras europeias, foi recebido em Sofia pelos maiorais da Bulgária. De imediato, o Presidente búlgaro, Georgi Parvanov amnistiou os crimes. Porque é crime condenar a morte lenta meia centena de inocentes. Dar a Tripoli garantias para o tratamento das crianças e para a reabilitação do hospital de Benghazi é remate mercantil da tragédia. Perante os factos, a ética diz não, a amoralidade da pressão dos lobbies exibe um sim descarado.
Nota - de barato, concedo a minha insuficiência de conhecimentos detalhados sobre o acontecido.
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às julho 25, 2007 08:49 AM
Comentários
Diria antes, querida Amiga, que este é o tempo da hipocrisia, camuflada ou não em ética.
Ética (έθος: hábito, costume,...) é, em sentido geral, um conjunto de regras que deviam servir-nos de norte. Deviam... No entanto, como se vê pelo tristíssimo episódio a que se refere, a ética dos tempos que correm é mesmo a hipocrisia, o "politicamente correcto", o dito-e-não-sentido, o sentido-e-não-dito.
Publicado por: j às julho 25, 2007 09:41 AM
"...a ética diz não..."
Cara amiga, qual ética, a europeia?
Uma vez mais apresenta-se um juízo de valores do tipo ocidental, de católico, cristão....
Não olvide que Líbia é Africa, é árabe, é islâmica.
Os valores sao diferentes, sao outros, nao podemos estabelecer comparativos nem avaliar sobre a nossa perspectiva.
Sei do que falo... em África já vivi no Norte (islâmica, arábica) já vivi no centro (lingua portuguesa, católica), já vivi no sul (anglo-saxonica e outras, cristã protestante e outras).
Países onde a esperança média de vida nao é superior a 35 anos, onde a mortalidade infantil é superior a 50%, onde a taxa de nascimento é 10 vezes superior à média europeia.... o valor de algumas centenas de crianças é diminuto.
No nosso juízo, o que aconteceu (o modo como aconteceram estes factos) é iníquo, imoral... mas na perspectiva da Líbia, nem sequer é um "negócio", é antes justiça, está certo, a maioria do povo aprovaria se lhes fosse concedido direito de opiniao.
Vou dar-lhe um outro exemplo da intolerancia ocidental... a história do véu e da burka.
É comum a corrente europeia de pensamento "libertem a mulher islâmica" "é direito da mulher islamica de nao utilizar o véu". Ora essas correntes sao absolutamente despropositadas, demonstrando que nem entendem a cultura nem tampouco a religiao islamica. Que o véu é uma decisao voluntária da jovem ou mulher como prova de obediencia e subjugaçao ao seu Deus, raramente imposiçao de pais ou marido. Utilizam-no porque acreditam na religiao (depois de colocado, nao poderá ser retirado, significando o abandono da crença, isso sim em termos familiares é gravíssimo).
Há fundamentalismos, é verdade, como na Europa também os existem, na religiao.
Terá sentido que os islâmicos criem correntes de pensamento do tipo: "libertem a mulher europeia que por vezes tem que usar uma cruz ao peito, obrigada pelo marido e família"? nao faz sentido.
Os juízos que fazemos sobre o assunto das crianças contaminadas com HIV é paralelamente idêntico aos juízos que os africanos fazem sobre os "brancos" que fumam e têm cancro e espalham cancro aos próximos com o seu fumo. É também identico ao que os islamicos (neste caso com absoluta razao) acusam, de os ocidentais utilizarem a televisao para espalhar imoralidade, libertinagem, vicios e violencia através da televisao, nao poupando as crianças.
Publicado por: James Stuart às julho 25, 2007 11:16 AM
J. - a verdade é que as descobertas científicas e o avanço geral do conhecimento merece análise ética pelas sociedades ditas evoluídas. E o resto? Como fica? Vícios de antanho, actuais virtudes?
James Stuart - A coerência e oportunidade do seu comentário são relevantes. Alertou-me para as diversidades culturais que determinam diferentes valores morais. Julgo tentar tê-las presentes quando de considerações éticas se trata. Na situação referida, porém, não me parece que as diferenças éticas sejam tantas assim. Estarei enganada ou, simplesmente, desinformada?
Publicado por: Teresa C. às julho 26, 2007 11:48 AM