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agosto 11, 2007

A CAIR DA TRIPEÇA? JÁ NÃO!

Art Frahm 17.jpg
Edward D'Ancona

A cair da tripeça. Décadas atrás, assim estava a região que por ora me acolhe. Chegar era um calvário de cinco horas de viagem. Seis com parança. A serra de S. Pedro Dias, de Coimbra para cá, era tormentosa empreitada. Curvas mais torcidas que os chifres do diabo, a crer na iconografia ingénua(?) então apresentada às crianças. Os estômagos rebelavam-se e os respectivos utentes “chamavam p’lo Gregório” toda a maldita viagem. O pessoal chegava à terra esvaído de forças e da cor no rosto. Só pelo final do dia, farta sopa de bagudos com abóbora passava pelo gorgomilo mais pedaço de broa cozida em forno comunitário de lenha ao lado do prato. Prato à mesa, porque em miúda escapulia-me para a cozinha e, com a cumplicidade da Luzia, tinha direito a dose servida em malga. Ai como sabia bem!... Isto confessei já adulta à família, beijocando a fiel Luzia que, sem cessar, repetia: “Ai a minha rica menina que pude vê-la de novo!...” E reencontrar-nos-íamos muitas vezes, apesar de em cada uma jurar a pés juntos ser a última.

Em férias, idas “lá fora” obrigavam a travessia de Espanha. Tantas foram, que ainda hoje me é penoso configurar paragem em Espanha. No regresso, havia a peregrinação ao El Corte Inglés e às Galerías Preciados para renovar guarda-roupa e adquirir material escolar. À conta disto, não errarei se afirmar que há uns vinte anos não revejo Madrid – as escalas em Barajas não contabilizo. Em contrapartida, chegar a Barcelona é recorrência sem cura – os navios que prefiro dali partem rumo ao turquesa e à bonomia e ao glamour e às ilhas mediterrânicas. Este ano também.

O trajecto da minha cidade à fronteira, passando por Celorico, era prova de um país pobre, se não miserável, em que o simples acto de viver mostrava a bravura da gente portuguesa. Tudo mudou no presente. Três horas dão e sobram para chegar. A inóspita A1 até ao quilómetro 189 é a parte dolorosa pelo tédio implícito. Daí para cá, há uma hora de... passeio. Compulsivo, claro!, pelos trinta quilómetros percorridos a menos de cinquenta. Têm nomeada as multas pesadas do big brother local constituído por radares, brigadas policiais e semáforos num único sentido (para que servem?, para abrandar, sei, mas o ridículo permanece, pois os peões daquela zona habitada não atendem). E as terras avistadas? Asseadas como as matas e os espaços públicos, casas dignas, apesar dos apertos de espírito causados pelas dúvidas no bom senso de alguns arquitectos.

Nem tudo o que luz é ouro e dá sustento à vida das gentes. Mas que é lindo de ver e merece fruição detalhada, ah!, lá isso é verdade.

Publicado por Teresa C. às agosto 11, 2007 09:19 AM

Comentários

Assim de repente lembro-me de Sedielos, e, de como a Régua se transformou numa cidade interessante.
:D

ai as voltinhas do Marão, figas diabo ;)

Publicado por: Sandro Franco às agosto 11, 2007 04:21 PM

Oliveira do Hospital!

Vou já pr'aí...

Publicado por: -pirata-vermelho- às agosto 11, 2007 05:08 PM

Sandro Franco - Sedielos não conheço, mas a Régua, essa sim, adoro!

Pirata Vermelho - Nope! Morno, morno. Onde escrevi uma hora devia, a bem da verdade, ter estar uma hora e meia.

Publicado por: Teresa C. às agosto 11, 2007 09:37 PM

(Ora, uma hora e trinta kms depois de Coimbra, pela S. de S. Pedro... o Dias sempre m'intrigou. Um santo com apelido comum?!)
_______________________________________________


Se for Seia aterro lá.
Se for Mortágua também dá...
(e o engraçado visto do lad'cá
é também gostar das autoestradas
da imposição
do 'ora vá'!)

Fique aí,
abra uma casa de chá p'as amigas e chame os poucos de quem gosta, os de fora, de vez em quando.

Lisboa acabou! O resto é paysage (en français para dar un air; de ccb, de vrão, já se vê... )

Publicado por: -pirata-vermelho- às agosto 11, 2007 10:14 PM

Pirata Vermelho - Seia? Nem pense! Odeio o aspecto de Amadora das Beiras. Vá lá, está morno, tente a quentura, s'il vous plait. ;) Ah, a propósito, havia de ver e ouvir o foguetório de artifíco que por este intante troa. Vou ao terraço, quer vir?

Publicado por: Teresa C. às agosto 12, 2007 01:15 AM

Vamos ver se a "axamos": Seia não é, Oliveira do Hospital também, e apelido de figura grande do fado de Coimbra... será Góis? Coja não me parece que seja, que "coija"!

Publicado por: fallorca às agosto 12, 2007 12:50 PM

Fornos de Algodres!!! Era muito verde e com qb de pinhal, sim... embora só me lembre de açudes e não de cascatas no Mondego, que se prolongavam até Nelas. E a grande figura do fado, é o Menano, só muito depois é que surgiu o Góis. Por outro lado, Góis, Coja, são serra do Açor... correcto?

Publicado por: fallorca às agosto 12, 2007 01:41 PM

Pode não ser Seia, querida Tati. Que, por acaso, também detesto ("cães de Seia, cães de Quintela, f... de Carragosela..."). Mas, por ali, há lugares tão de sonhos quanto os seus de Gouveia, Melo e arredores...
Um beijo serrano.

Publicado por: j às agosto 12, 2007 02:54 PM

(O Camacho...? Mas o Camacho não é 'daqui'... são os avós!

- 'tou tramado -

Nelas?...)


Quantas tentativas tenho?

Publicado por: -pirata-vermelho- às agosto 12, 2007 06:15 PM

pirata-vermelho, enfunemos numa renault 4vele para dobrar os ganchos da estrada, porque uma coisa é certa: há xanfana! e se é serra, não assam leitão, assam cabrito! quanto ao pão, será de centeio? triga-milha? broa? e o queijinho? ahahah

Publicado por: fallorca às agosto 12, 2007 07:48 PM

Que s'enfunem já as veles de piratas e fallorcas antes que s'escapem as belas, os tragos e as paparocas!

Publicado por: -pirata-vermelho- às agosto 12, 2007 10:53 PM

J - Quanta perspicácia, Amigo. Mais um pouco e bate certo.

Pirata Vermelho e Fallorca - esquecem um tocador afamado que o Casino Estoril há um par de anos celebrou numa exposição da discografia e documentação variada. E sim, foram os avós e o pai nascidos por aqui. Terra de juventude a que sempre voltou e muito amava. Era catedrático em Coimbra. Ajuda?

Enfunem as velas que o gosto será meu em lhes servir a janta :)

Publicado por: Teresa C. às agosto 13, 2007 06:10 PM

António Pinho Brojo... donde era, não sei, se é a ele que se refere. De qualquer forma, agradeço-lhe o prazer de ter percorrido alguns quilómetros para a tentar "localizar" nas viagens da minha memória. Perante a quase impossibilidade de a encontrar (falhei o lançamento do livro do Eduardo Pitta, estava em Asilah), se passar pela zona de Lagoa, em Porches pergunte, por ex. nas bombas de gasolina, onde ficam as Casas do Monte Alto, onde vive um gajo "esquisito, déme" que só gosta de carros velhos e tem cães.

Publicado por: fallorca às agosto 13, 2007 09:38 PM

Não vou insistir. Nunca apreciei por aí além o jogo da cabra-cega. Excepto quando, na tenra juventude e nos apertos hormonais, o jogo propiciava umas mãos um pouco mais afoitas!
De Manteigas a Linhares, ou de Mangualde a Celorico, há tantos lugares de rara beleza que qualquer deles se ajustariam à sua...

Publicado por: j às agosto 14, 2007 11:46 AM

Fallorca - Na mouche! :)

J - Mas se o Amigo acertou numa das duas opções! Um abraço sentido para quem comigo partilha lugares e memórias.

Publicado por: Teresa C. às agosto 14, 2007 02:25 PM

Querida Amiga,
já agora porque não ir até ao fim e dizer que o Poço do Inferno é assim como que a nossa Vøringsfossen?!
Tenho alguns bons amigos em Manteigas (ou tinha, já nem sei!).

Publicado por: j às agosto 14, 2007 06:41 PM

J - Não conheço a Noruega. Fiquei curiosa e ainda mais determinada a emendar esta falha no meu roteiro de viagens. E, já agora, conhece a Curva Bonita?

Publicado por: Teresa C. às agosto 15, 2007 09:35 PM

Pois é, querida Amiga!
Quem não for capaz de sentir o êxtase ao contemplar a beleza dos carvalhos e castanheiros da Carvalheira e de se deixar comover com a visão idílica que se avista da Curva Bonita, julgo que não merece estar vivo!
Destes e de outros parecidos locais costumo dizer que ninguém devia morrer sem ter oportunidade de com eles se maravilhar.
Deixe-me pedir-lhe que, por breves instantes, me empreste a visão dos seus olhos...

Publicado por: j às agosto 16, 2007 04:31 PM

J - mais que emprestar lhe digo: arrebanhe numa mochila o básico e venha rever o que tanto amamos.

Publicado por: Teresa C. às agosto 17, 2007 04:32 PM

Teresa C é só peneiras...
Talvez uma impostora das Beiras...
Quiçá uma ingénua mulherzinha
Proprietária de uma ou duas leiras.

Publicado por: Vasco Alva às outubro 15, 2008 11:48 PM

Publicado por: ujfzdhmm às agosto 19, 2009 10:36 AM

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