« DA CABANA DO PAI TOMÁS AO SILENCIAR DOS GRILOS | Entrada | MERENDAS APRESUNTADAS »

agosto 06, 2007

A INTELLIGENTIA DA FÓRMULA DE DEUS

80_Bronze_Drum__1.jpg
Autor que não foi possível identificar

Quatro baptizados de uma assentada. Valeu o despacho do pároco que conseguiu a proeza de numa hora concluir a celebração. Foi atento aos pais e aos rebentos lindos – um Francisco, uma Inês, um David e uma Vanessa. Casar e baptizar em Agosto é hábito que entendo – amigos e família em férias, maior disponibilidade para tratar das bodas e fatiotas. Ora, foi por isto que a homilia rondou. A confusão entre acessório e essência da vida familiar. Objectos que respeitam o dever, segundo preceito católico que o celebrante enfatizou e eu desconhecia, duma apresentação condigna. Não trocar as voltas e dispersar no consumo energia que falta aos afectos na família, é erro. Grave. Que põe em risco o crescimento saudável de petizes e graúdos. Mensagem transmitida com vocábulos simples e isenta de teologia incompreensível. Até aqui, estava postada em silêncio, aplaudindo conteúdo adequado a quem os filhos baptiza. O pior veio no fim do ritual do baptismo. Pergunta o sacerdote qualquer coisa como isto: “Pai, estás disposto a encaminhar o teu filho na fé e prestar-lhe nesse caminho assistência? Mãe, auxiliarás neste compromisso o teu marido?”

O remate não me foi indiferente. O pai orienta, a mãe não estraga. É isto o pedido pela Santa Madre Igreja? Ainda e sempre a subalternização da mulher em relação ao homem numa Igreja que estraga nos ritos o que na prática defende – cooperação do casal e mútuo auxílio. Porque desistente não sou, rilhei os dentes e fiquei até à benção final. E não por ser convidada dos pais de algum dos neófitos; nada disso! Ali estava num templo, reflectindo sobre um Deus de tantos nomes e diferentes séquitos. O José Rodrigues dos Santos, no “Fórmula de Deus” – uma obra de divulgação científica muito interessante e com erros de pouca monta facilmente desculpados pela simplicidade dos códigos usados -, aborda várias religiões e o Deus que todas liga. É certo o pendor abusadoramente pedagógico revelado desde o primeiro livro. Porém, a divina intelligentia que a ciência poderá clarificar através do arrastado estudo sobre o campo unificado – eléctrico, gravítico e magnético – é teia bem entretecida. Quem do ultramicroscópico pouco sabe, e das leis que o regem ainda menos, tem pela curiosidade determinada do Tomás, também protagonista no Codex, uma viagem romanceada e leve pela teologia, química e física.

Publicado por Teresa C. às agosto 6, 2007 09:12 AM

Comentários

Fui criado em ambiente familiar católico, onde ir à missa, ao confesso, comungar, etc., era uma obrigação incontornável, a menos que a doença nos atingisse.
Hoje, por variadíssimos motivos, sou agnóstico.
Mas verifico que a maioria dos católicos têm a sua própria religião, isto é, continuam a ser católicos mas não subscrevem muitos dos princípios da Igreja.
Aparentemente, até porque a dita Igreja sabe o que os seus fiéis pensam, seria fácil adaptar os seus ritos e leituras à actualidade. Mas há quem pense que se isso acontecesse era a própria Igreja que seria posta em causa e o mais certo é que ela definhasse. Daí ela ser conservadora e, neste sentido, é-o por questões meramente estratégicas de sobrevivência. Mas não faço ideia se é assim ou não, pois não sou especialista e nem sequer li a "Fórmula de Deus"... (deve ser um dos próximos...).

Publicado por: Nilson Barcelli às agosto 6, 2007 03:49 PM

Folgo em saber que, de quando em vez [ao que julgo], também procuras um espaço [físico] onde te possas encontrar contigo! A Vida para ser vivida em plenitude não deve abdicar dos prazeres da terra [todos os prazeres] mas importa que reserve, também, um espaço destinado à reflexão sobre os aspectos metafísicos que dão [ou não] sentido à da sua existência.
Tira-me apenas uma curiosidade: a tua formação é em ciências ou em letras?

Publicado por: Viajante às agosto 6, 2007 06:42 PM

As igrejas são espaços que visito e onde gosto de me sentar e sentir...sou atenta ao mundo e aos outros e estes espaços são lugares com história(s) que me tocam.
Ao contrário de si Teresa não me faz nenhuma impressão o discurso "gravado"da fórmula de "despachar"casamentos , batizados e demais celebrações...quem procura e consome estas práticas fá-lo porque lhe dizem alguma coisa e são estes que alimentam a repatição do acto, tal qual foi e...será!
Preocupada fico , não rejeito, com a desinformação que noutras áreas e com repercussões bem mais graves a igreja vem mantendo ignorando olímpiamente o estado da arte nomeadamente ,e em jeito de exemplo, em relação às doenças sexualmente transmissíveis e ao planeamento familiar.
Não sou católica mas sou mulher, mãe e cidadã e isso faz-me cerrar os dentes e não me calar...em matéria de pecados qual poderá ser maior?
E...não gostei do livro do JRSantos, exactamente pelas razões que apontou" abusadoramente pedagógico ..."lê-se mas não o recomendaria.
Termino dizendo-lhe que decorridos anos desde que a comecei a ler mantenho o que que me fez recomendar o seu blog a amigos(alguns dos quais são agora também seus leitores).
Gosto muito de ler o que escreve e ah!...a imagem de hoje, verdadeiramente espantosa!! Parabéns.

Publicado por: MI às agosto 6, 2007 10:11 PM

Querida,
Venho só dizer que adoro as imagens que aqui coloca, muito estéticas e habitualmente plenas de erotismo.
Já quanto ao que escreve nem sempre estou de acordo.
Essas costas são muito sexy...

Publicado por: SHREK às agosto 7, 2007 02:12 AM

É com loas destas, eruditas -qb, como diz você- que m'engata. ...tava! Porque não se distingue a prática do rito, deixe-se de propagandazinhas, s'il vous plaît.

(Acerca de uns artigos seus ali em baixo, você não me parece decadente; parece-me culta, embora com a mania que se mascara de fútil)

Publicado por: -pirata-vermelho- às agosto 7, 2007 04:39 PM

Nilson Barcelli - Não creio no definhar de uma Igreja pela adaptação cautelosa às mudanças sociais. O conservadorismo pode facilmente ser confundido com alheamento das ansiedades profundas e legítimas dos humanos. E si, leia o livro. Gostaria de ter o seu feedback.

Viajante - Ciências, conquanto o estudo das regras e verdades e modelos e especulações do palpável não me esgote a curiosidade.

Mi - Julgo que reacção crítica ao que nos cerca e em que cremos é reacção lúcida que também partilho. E sim, o J R S é por vezes insuportável com o seu toque de mestre-escola.

SHREK - A pintura de hoje delicia-me. Tanto que aquela postura diz em silêncio...

Pirata Vermelho - Futilidade versus profundidade. O eterno desencontro (complemento?) em que me enredo.

Publicado por: Teresa C. às agosto 8, 2007 11:01 AM

Os complementos são d'harmonia! Nunca de ninharia... senão vai-se inelutavelmente desembocar em encantos anti-sherazadícos (neste particular sentido dos afectos consumados, claro)

Publicado por: -pirata-vermelho- às agosto 8, 2007 05:39 PM

Pirata Vermelho - Perfect! Parfait!, se preferir e como é mais do nosso jeito.

Publicado por: Teresa C. às agosto 10, 2007 12:06 PM

Você leu o livro?

Publicado por: tó carente às agosto 6, 2008 10:09 AM

Comente




Recordar-me?