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agosto 12, 2007

"AXÁSTE-LO?" – "AXEI!"

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“São Brás do Coito desafoga um para afogar oito!”, diziam os serranos numa engasgadela de truz. A reza era egoísta e a léguas dos preceitos católicos que os levavam a recorrer aos sacramentos e às procissões em carreirinha de gentes, banda de música e andores. E à missa, ponto alto da semana aldeã. Antes, havia o banho em selha que panelas de água quente enchiam, camisa lavada e calças vincadas. No adro, os homens remexiam as novas – desavenças sobre a partição das águas de rega, futebol, mexericos e, o mais importante, a entrada das mulheres para a Igreja. Fossem moçoilas ou casadas, às mais vistosas endereçavam olhar de carneiro-mal-morto. Pela semana, havias as serenatas nocturnos às meninas cobiçadas pelos que em Coimbra estudavam. Por arte da viola e da guitarra, que as gargantas afinadas ilustravam, mereciam o acender três vezes das luzes da casa – código de agradecimento pelo desvelo. Rosto não podia assomar à janela, ou ficava a rapariga «falada». O romantismo dessas noites até hoje ecoa.

Ao longe,
ao cair da tarde,
quando no mar o sol lentamente se vai apagar,
é que eu penso no teu olhar tão meigo e profundo (....)

Esse foi o tempo das prendadas meninas de família que incluiu a mãe e a tia. Nas sobras do colégio, aprendiam pintura e bordados. Música também, ou não centrasse a casa dos avós tertúlias onde o fado de Coimbra era rei. Mas não só. O Giacometti, o Raul Solnado, o Vergílio Ferreira, entre outros, por lá passaram. Nas férias, conhecido tocador de viola, cujo apelido partilho e a quem a canção coimbrã muito deve, voltava à casa dos avós graníticos no bem ser e melhor parecer. O pobre do rapaz, aos domingos, era compelido a aperaltar-se e, junto à avó, assistir à Santa Missa. Ele preferia o coro onde somente homens tinham assento e lobrigavam as pernas das mulheres ajoelhadas. Mas não!... Davam-lhe rédea curta e ficava rente ao prie-dieu da matriarca. Eis quando ouve atrás de si um sussurro. “Quero fazer xixi”, dizia um petiz. “Não aguentas?”, retorquia a mãe. “ Nãoooo!” respondia o miúdo aflito. – “«Atão» vai ao adro”. Silêncio. Instantes passados, a mesma voz infantil: “Não o «áxo»!” – “Como não o «áxas? Chega-te para te desabotoar melhor os calções. Já está. Desanda!” No entretanto, esganiçavam-se as vozes em salmos cantados que ao tocador o ouvido arranhavam. Silêncio, enfim! Sente o garoto voltar ao assento e ouve a pergunta da mãe: “«Atão, axáste-lo»?” E o petiz: “«Axei-o»!” – “Dominus Vobiscum”, terminou o pároco que havia de ser meu tio bisavô.

Publicado por Teresa C. às agosto 12, 2007 10:05 AM

Comentários

Fez-me recordar, com uma pontita de saudade, os bons tempos juvenis em que, ao domingo, era obrigatório o "santo sacrifício da saída".
Logo que era ouvido o "Ite missa est", sentados no muro sobranceiro ao adro, mesmo em frente à porta por iriam sair, lá nos colocávamos estrategicamente, preparados para as pontuações a todas as miúdas, sobretudo às "emigrantes lisboetas" que procuravam, no Verão tardio, os ares fortes da serra para retemperar forças.
Se bem que hoje já não me sinta com "conhecimentos" para atribuir notas com a justeza devida, ainda repito, quando a companhia é adequada, a prática de antanho. Só que agora, apetece-me dar 20 a quase todas!!!
Boas férias serranas, querida Amiga.

Publicado por: j às agosto 12, 2007 02:50 PM

Teresa, és o máximo!!! Ainda bem que escreves! Um bjo longo [e malandreco...]

Publicado por: Viajante às agosto 13, 2007 12:03 AM

Gostei tanto que o levei ao meu Blorganaizer

http://blorganaizer.blogspot.com/

Quero voltar a ler um dia que me apeteça preciso de saber onde está

As regras estão no sub-título é só dizer

Publicado por: Luís Maia às agosto 13, 2007 03:10 AM

Cara Teresa,
Estive ausente, uma semana em Portugal.
Aproveitei hoje para ler artigos entretanto publicados e respectivos comentários.
Encontrei-me com um "bloguista" na semana passada (daquelas coisas raras, dois bloguistas que se comentam entre si, tal qual eu comento nesta caixa, e que decidiram conhecer-se e apertar a mao), e aproveitámos para ao vivo, por palavras e nao por letras, trocarmos opinioes e impressoes sobre alguns blogues que ambos visitamos com alguma frequencia e, por coincidencia tecemos comentários sobre o seu. Daí resultou uma opiniao e conclusoes muito parecidas, mas que agora nao vêm para o caso, porém estão relacionadas com o sua utilização de "imagens" e os resultados que obtem com esse uso, e os que nao teria caso os textos fossem destituídos das mesmas em complemento (enfim, chegámos a algumas conclusões sob uma perspectiva tecnicista quanto à edição do blogue).
Se deveria proceder com Scheherazade? Talvez.
Teresa, reler os comentários colocados nestes últimos 15 dias aos seus artigos é encontrar pessoas desiludidas (um comentador sentiu-se "burlado"), outras ofendidas... em suma insatisfeitas.
Também é verdade que tem outros comentadores com um reforço positivista e solidário à indiferença que a Teresa decidiu oferecer aos insatisfeitos.
Por outro lado, a utilização de uns certos termos e palvras mais rudes e "popularescas", bem como a sua contra-reacção (nao só por respostas directas da Teresa às reacções, como pela apostagem de fotografias pessoais, alegadamente) somente reforçou e confirmou os comentários de insatisfação, juntando a si "popularuchos", os que procuravam o seu blogue por razoes tão básicas quanto a de encontrarem imagens "eróticas" e referências a sexo e sexualidade (no modo como eles o sonham, que até então era refinadíssimo, mas para seu deleite, passou a ser básico e acessível, i.e. grosseiro)
Entenda-me, talvez, devido ao adiantado da hora, nao esteja muito capaz de me explicar.
Mas Teresa, veja os comentários, leia com atenção, há muito sentido nas palavras de alguns.
Sei bem, que alguns, mais "puritanos", como lhes chamou, até fizeram referencias às constantes imagens de "nus"... talvez tenham exagerado (até porque eram livres de nao clicarem no seu blogue e nunca o visitarem, por tal nao se entende que se ofendam com isso de imagens nuas).
Tal como referi anteriormente, as imagens aqui neste blogue dão "alma" aos textos, que por vezes sao melhores, por outras menos bons.
Pessoalmente nao tenho opiniao negativa excepto ao facto de que partilho a mesma opiniao de outros quanto às imagens pessoais.
Depois notei, ou pareceu-me (num sentido lato, é a mesma coisa) que a Teresa se deixou arrastar por "intimidações" ou "empurrões" de comentadores, que a provocaram, uns até com um nível muito baixo, e a Teresa deixou-se levar em explicações, em justificações (esteve a dar pérolas a porcos), publicou frases deles e justificou-se, quis provar nao sei o quê e publicou imagens que como disse julgo pouco coerentes.
Teresa, nao deixe de considerar os comentários das leitoras desiludidas, nem dos que se sentiram "burlados"...
O seu blogue tinha uma base (aquilo que a homens e mulheres atraía e os tornava insaciáveis e fiéis leitores)... a sedução misteriosa (uma constante e "eternalizada" "blind date")
A sedução perde-se com rudeza de palavras, o mistério perde-se com imagens pessoais.
Há sempre a oportunidade de remover alguns "posts"... e algumas fotografias, bem como remover comentários (bastantes). Ninguém fica ofendido com isso, é uma correcção oportuna e contrária de arrogância.
Inclusivé, este meu comentário tem todo o lugar na remoçao.
Sei que o leu antes de o remover, acredito que irá reler os comentários de que me referi.
Bem haja

Publicado por: James Stuart às agosto 13, 2007 03:54 AM

James Stuart: reli o seu (vosso) comentário; pesei as ideias mais do que as palavras; assiste-lhe alguma razão; contudo, lembrei-me de Duhrer, Degas, Leonardo e pensei: quem resistiu ao auto-retrato? Em 1820 Stendhal publica o seu magnífico ensaio O Amor...e diz a dada altura que tudo o que ali se vê escrito foi colectado por observação de experiências alheias; ri-me. Como seria possível fazer um ensaio de 500 páginas tão sensível e profundo senão por experiências sentidas e arrancadas à própria carne? Em toda a ficção até mesmo na científica quem consegue quebrar a emulsão entre a parte ficcionada e autobiográfica?
"Como o bom Eça o fazia, é melhor embrulhar toda a verdade num manto de fantasia".
As imagens: humanas, demasiado humanas, apelativas, muito! Concordo. Mas nunca vi um blogue que a elas não recorresse ou as substituísse por fluxogramas, plantas de casas, representações esquemáticas de órgãos de máquinas ou o lacónico resultado do rebater de um poliedro para o terceiro quadrante em geometria descritiva.
Quem lê um jornal sem a fotografia do crime na 1º página?

Publicado por: JG às agosto 13, 2007 09:02 AM

Sempre fui, desde o primeiro dia que comecei a visitar a blogosfera, sua leitora, e logo de seguida, sua admiradora.
É raríssimo comentar. Tem comentadores excelentes, nunca conseguiria dizer tão bem.
m
Mas hoje perante alguns comentários que têm vindo a ser feitos, e agora perante este de James Stuart, gostaria de dizer umas quantas, poucas coisas.
- Às vezes, há alguns comentários sobre nus que são um "meterem-se" com a Teresa, sem quererem ofender. Porque isto de escever e não se poder ver o sorriso que se tem nos lábios...Pelo menos, assim entendi alguns.
- Que, apesar de tudo o que os leitores, admiradores, possam pensar, os blogues são dos respectivos autores, que farão o que entenderem com eles.
- Que a qualidade deste blogue, tem sido sempre mantida, que não são só os homens que o lêem, as mulheres também o fazem, e que talvez seja exagerado James Stuart falar em nosso nome.
- Que James Stuart, está enganado, na minha opinião como é evidente, porque a sedução não se perde com a rudeza das palavras, nem o mistério com imagens pessoais, pelo menos não com a que vi. Penso até, que aquela imagem pessoal, por revelar tanto e tão pouco, só pode adensar o mistério.
- Que este blogue é o melhor blogue de escrita feminina na blogosfera, na minha opinião, também.

Publicado por: marta às agosto 13, 2007 10:56 AM

Olhe que você (eu sei que não e não porque eu o digo) não apaga nada, ouviu!?

Publicado por: -pirata-vermelho- às agosto 13, 2007 12:47 PM

Lamento ter sido mal interpretado por alguns leitores do blogue de Teresa, principalmente quanto ao tema "imagens". Tal como referi, somente incomodam certas imagens aos que, sabendo serem livres de este espaço não visitarem, insistem em aparecer... nunca afirmei que me perturbam, até pelo contrário.
Por outro lado, insisto na minha opinião de que a sedução e o mistério são quebrados, num certo parâmetro, pela rudeza de palavras e por imagens.
Porque Zorro é galã e charmoso usando a máscara que lhe esconde uma pretensa e misteriosa imagem, e quando acerta de florete ao peito do inimigo diz "é feita justiça" e não "apanhei-te, vou-te limpar o sêbo" (para não usar outras expressões que incluem palavrões)...
Mas enfim, é como tudo, opiniões valem o que valem...
Melhor seja que não volte a tocar neste tema, porque afinal, de que vale... mais tarde ou mais cêdo aparecerão leitores, diversos de Marta, que num instante tratarão de me injuriar... não tenho necessidade de me sujeitar a tal, nem Teresa merece a utilização deste espaço para estes fins.
Saúde

Publicado por: James Stuart às agosto 13, 2007 01:30 PM

Há uns tempos estive ali em Pedrogão Grande, junto à barragem do Cabril, em visita familiar... e dei conta de uma capela, onde se celebra missa aos domingos (num lugar que nao me ocorre o nome, mas pode ser Estevianas, nao estou seguro), que está implantada numa encosta.
Ora bem, acredite ou nao, a capela tem entrada principal ao nível térreo (absolutamente normal), mas pela inclinação do terreno, a cave, tem também no lado oposto uma porta a nível térreo.
Ali é a taberna.
Parece surreal, mas é a verdade, que a missa é celebrada para as senhoras, crentes, no mesmo tempo em que os maridos agurdam no piso inferior ao sabor de "penalties" de "morangueiro".
No Portugal profundo há disto, que somente os locais entendem as razões do homem contando com uma excepcional conivência celeste.

Publicado por: James Stuart às agosto 13, 2007 01:42 PM

J - tal qual! Ao ver as "teens" de hoje pasmo perante as belas obras dos pais e mães portugueses. Encantos que lavam os olhos.

Viajante - recebi o beijo... malandreco. Como veio por cabos ópticos, pela mesma via mando outro... porém casto. :)

James Stuart - entendo o que explanou e como leitor assistem-lhe,certamente, razões. Diferentes das minhas como supõe. Este espaço é tão somente uma brincadeira que não levo minimamente a sério. Adoro pintura, escrever é um respirar que me disciplina e ordena memórias e emoções. Respeito o leitor, porém não pretendo fazer disto um sítio que me alimente o ego - gosto de mim o bastante sem cair no erro do narcisismo - ou cative para além das palavras e das imagens. Se reparar nas minhas respostas aos comentários, sempre agradeci os favores e as gentilezas que me têm ofertado. Ao James Stuart também, pelo enriquecimento que a sua palavra ponderada, crítica, respeitosa e respeitável constitui. Procuro ser tão livre aqui como na vida privada, e, os muito poucos que me conhecem bem e sabem que este blogue é meu, dão conta disto.Estarei atenta, como até agora estive, aos comentários dos leitores. Prezo o favor de se pronunciarem sobre o " Sem Pénis". Aprendo com todos. Julgo ser a humildade uma das (poucas!) qualidades que tenho.

JG - Folgo que tenhas mudado de opinião. A vida é composta de mudança e quem do estado de crisálida recusar saída julga estar vivo mas engana-se - é um nado-morto.

Marta - Compreendeu-me Marta. Comigo partilha a condição feminina e entendeu o meu sentir tão comum nas mulheres. Comoveu-me o seu comentário. Obrigada pelo seu sorriso.

Pirata Vermelho - Não apago, creia, salvo quando os comentários são escabrosos e, mais do que a mim, ofendem os leitores desprevenidos.

James Stuart - Os comentadores deste espaço são normalmente afáveis. Injuriá-lo seria razão para banir o personagem, pelo muito apreço que ao James Stuart tenho.
Do que me foi falar... Penalties de morangueiro. Adoro, tenho saudades por enterrar há muito tempo. O seu apontamento está... delicioso como o morangueiro. ;)

Publicado por: Teresa C. às agosto 13, 2007 06:51 PM

Lido e re(lido), afigura-se-me estarmos na presença da emergência de uma certa falsa moral. Alguns comentadores são de opinião que o rosto descoberto estraga o jogo da sedução. Para alguns, vale tudo desde que não se retira a mascarilha...! Já me tinham falado da existência de seres que, para fazer amor [mesmo no âmbito do quadro legal, isto é, com papel passado no registo civil e na Igreja], apagam a luz. Será mais decente, dizem...! Ora, ora, a Vida vive-se com amor, paixão, entrega, sedução, entusismos(s), sem tédio, com erotismo, com uma pontinha de mnalícia [desde que não prejudique ningém]mas, sobretudo, com verdade.
Eu, tento ser assim. Nem sempre consigo, no entanto...!
Um bjo para a editora deste blog e parabéns pela busca de uma certa sensualidade erudita!

Publicado por: Viajante às agosto 13, 2007 07:00 PM

Jiajante - apenas leituras diferentes da mesma realidade. Não digo que os valores bebidos com o leite materno não exerçam a força da subjectividade. Nada de grande monta que estrague o prazer destas andanças. Beijinhos.

Publicado por: Teresa C. às agosto 17, 2007 04:30 PM

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