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agosto 14, 2007

CAÍDA A MUSSELINA

Kamille Corry threshold.jpg
Kamille Corry

Nos sótãos onde julgamos tudo conhecer, protegidos por finas nuvens de pó que da luz coada pelas janelas esconsas riscam o caminho, a surpresa acontece. Do meu subi a escada de granito e por lá me perdi numa tarde. Abri baús, destapei o meu carrinho de bebé amorosamente tapado com fina cambraia, abriguei melhor o mobiliário da «casinha» das bonecas, num merendeiro forrado a chita florida desdobrei os fatos do bebé-chorão, alguns adquiridos na Materna, outros confeccionados por uma prima nos tempos livres da Justiça. Abri gavetas e portas da secretária do avô - lá estavam os álbuns filatélicos e numismáticos, mais as partituras das músicas que compunha. Na estante herdada das tias solteiras desfolhei figurinos de moda do início do século, colecções completas das selecções do Readers Digest e almanaques que os anos amarelaram. Pelo ar abafado dum dia quente, fechei a porta de acesso, despi a musselina, prendi ao alto o cabelo e, como vim ao mundo, destapei um sofá para me refastelar na leitura. Do vinil em fila retirei um LP do Duke Ellington.

Era uma almanaque do ano em que nasci, repleto de conselhos domésticos, regras de etiqueta, mãos-cheias de lugares-comuns e primórdios saborosos dos actuais livros de auto-ajuda. Se não, vejamos:

- Quando alguém fizer uma pergunta a que não queira responder, sorria e pergunte: "Porque quer saber?"

- Diga "Saúde!" quando alguém espirrar

- Case com uma pessoa que goste de conversar. Quando a velhice chega, a capacidade de falar e ouvir é o mais importante

- Confie em Deus, mas deixe a casa aferrolhada”

Intemporais dicas de comportamento! Escorregaram décadas e as atitudes comumente sensatas, seja lá o que isso for!, são as mesmas – a substituição do irritante “santinho”, o rodeio polido da pergunta inconveniente, o essencial duma parceria amorosa, o amanhã que cada humano rege como motor e produto da engrenagem.


CAFÉ DA MANHÃ

Agradeço ao Luis Maia o destaque que deu ao “ Sem Pénis” no Blorganaizer e as ligações para este blogue estabelecidas por via da Coralina e da Eva, pelo Helder Robalo, Joshua, LFM, Mar de Gente, Manuel Ribeiro, Paulo e Zé, Rakel, Rebel e Ronim.

Publicado por Teresa C. às agosto 14, 2007 08:53 AM

Comentários

Descrito como é seu costume, este regresso à infância deixou-me o gosto amargo-doce do retorno a Ítaca: feliz pelo reecontro com os seres amados (Penélope, infância); nem tanto, pela saudade da eterna memória da aventura (as coisas importantes dos tenros anos).
A imagem de si, qual Eva entregue aos prazeres do Eden, trar-lhe-ia mais amargos de boca se a minha Amiga não fosse a Mulher livre que é...

Publicado por: j às agosto 14, 2007 11:22 AM

Revolver os sótãos da nossa infância é mergulhar nos fundos da alma. Muito do bom que nos invade radica nessas memórias.

Publicado por: Minderico às agosto 14, 2007 11:43 AM

Despida a musselina, serviste-te do sofá e entregaste-te ao prazer...da leitura...! Adoraria fazer-te companhia...
;) Bjo

Publicado por: Viajante às agosto 14, 2007 12:27 PM

Á

LU !
meuse...


un point c'est tout

(obrigado p'a janta qu'havia de ser bem entretida, se fosse como a d'amigos, até às tantas...)

Publicado por: -pirata-vermelho- às agosto 14, 2007 06:50 PM

pont'e vínrgunla na janta
e
que m'intress'a musselina duma senhora que é tão linda,
noutras coisas 'inda por cima?

Publicado por: -pirata-vermelho- às agosto 14, 2007 06:52 PM

(o que queria dizer era...)

um 'pont'e vínrgunla' ali na janta
e
que m'intress'a musselina duma senhora que é tão linda?
noutras coisas 'inda por cima.

(importa-se d'apagar o de cima?)

(E era o A da Allumeuse que não é Á;
e era pra ser com elles;
e era tanta coisa...

está a ver o estado em qu'isto me deixa?)

Publicado por: -pirata-vermelho- às agosto 14, 2007 08:37 PM

Eu aprendi que nunca se responde a uma pergunta com outra pergunta...
Será que estou errado ou tenho que bater ao sótão de lugares-comuns da Bobone?
E se a encontro nua?
O que faço?
Pergunto-lhe por que está assim?
E se ela também leu o almanaque do seu avô?

Bom feriado

Publicado por: Nilson Barcelli às agosto 14, 2007 10:31 PM

J. - Como acontece com toda a gente, das memórias procuro o melhor. Mesmo quando de negra aparência, fica o que por via dos factos aprendi e integrei como lição de vida. E sim, sem espírito livre - não libertino, o que faz toda a diferença - a mulher que sou não teria sentido.

Viajante - A verdade é preferir as solitárias leituras. E antes de preparos impróprios, garanto não ser surpreendida.

Pirata Vermelho - Janta de amigos sãos de alma e que a boa disposição e mesa prezam são tesouro que estimo. Garanto um cabrito a preceito ou umas feijocas à pastor regado com qualidade. Para terminar, um leite-creme queimado com espátula de ferro à antiga (as argolas de caramelo deixadas pela máquina eléctrica, abomino). E que a conversa e as larachas durem até ir alta a noite .

Nilson Barcelli - O almanaque era das tias, e olhe que de maneiras polidas elas sabiam. O facto é que também o mesmo me ensinaram, daí a surpresa com a dica referida. Encontra-me nua, jamais, que a minha privacidade "defendo com unhas e dentes".

Publicado por: Teresa C. às agosto 15, 2007 09:50 PM

Se fosse maldoso dizia: "antes" acredito e "perante"? Mas não! Ao que julgo a intenção seria escrever "ante". Ou não seria? ;)

Publicado por: Viajante às agosto 15, 2007 11:55 PM

Eu é que agradeço o prazer de te poder adicionar ao meu blogroll :)!

Publicado por: Coralina às agosto 16, 2007 01:53 AM

(...) vi por entre a voragem do mato o que resta da eira onde gostava de me deitar depois de jantar, nas lajes quentes, a ouvir os manguais a malhar o pão e histórias da carochinha cochichadas e proibidas às primas, que nos ficavam a ver sentadinhas nos degraus da escada, a uma distância que as tias consideravam prudentemente segura. Se calhar roídas de inveja, ou talvez não, porque volta e meia voltava a cabeça e via-as com a mãozinha a tapar a boca e a rirem-se a olharem-nos pelo canto do olho, as grandes ranhosas!
Nessa altura, o céu tinha a mesma cor aveludada do Livro de Leitura da 3ª. classe, mas em vez do casal de costas que o Estado Novo mandava de regresso a casa – o marido em mangas de camisa, com um chapéu e uma enxada ao ombro, a dar a mão aos filhos e a mulher na outra extremidade da corrente familiar, pobrezinha mas honrada –, entretinha-me a recortar as silhuetas dos cavalos que pastavam no prado, com um enorme cão da serra deitado ao lado, atento ao meu menor gesto e com ar de quem não percebia patavina porque raio é que eu estava ali de papo para o ar. (...)

Publicado por: fallorca às agosto 16, 2007 08:55 AM

Viajante - Lol! Não, não era...

Coralina - Beijinho grato.

Fallorca - ora bem!, conheço isto mas os lerdos neurónios não jaudam nem um pouco. Quer ter a gentileza de me situar?

Publicado por: Teresa C. às agosto 17, 2007 04:27 PM

Quis apenas partilhar (publicamente) consigo, o prazer que me deu tentar localizá-la algures numa Beira, onde passava as férias na infância e adolescência. Não se trata de lerdice nenhuma, o texto ainda é inédito.

Publicado por: fallorca às agosto 17, 2007 05:46 PM

rica mulher

Publicado por: filipe às dezembro 2, 2007 07:54 PM

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Recordar-me?