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agosto 09, 2007
A GEOGRAFIA DAS CÓPULAS

Amanda Wachob
Parece que as gentes serranas da Estrela copulam sem eficiência. Do ponto de vista reprodutivo, quero dizer, porque a voluptuosidade implícita desconheço, salvo andarem os casais risonhos e com aspecto de lhes não faltar da carne os deleites. E não falta. Na mesa, estou certa disso. Ainda ontem, o Sr. Matias partiu ao meio cabra de vinte quilos e a metade que amanhou vendeu a uma só família. Enquanto afiava a faca e suprimia gorduras à peça do bicho, pela compradora fui sabendo que a guisaria em panela de barro com capacidade de vinte litros. A refeição opulenta celebrará as festas anuais da cidade e da freguesia onde habita. O modesto cabrito de quatro quilogramas e meio esperou pacientemente – eu com ele – que a potencial chanfana fosse esquartejada e trocada por vinte sete euros. Barata feira! Como um cabrito assado com batatas miúdas no forno não dispenso, a preparação começa no corte da carne – pedaços de porte médio que o forno não mingue ao sofrível. Cliente antiga tem privilégios: encomenda respeitada no tamanho e localidade natal do bicho. A receita? Azeite de excelência sem avareza no tempero, louro, sal, alhos uns tantos, duas cebolas, pimentão doce e leal vinho branco. Disto nada é segredo. Mas a assadura... ah... nessa está o busílis. E mais não digo.
O começo da prosa foi deliberado sofisma. Os beirões copulam tão eficazmente como os demais portugueses. São é poucos. Cada vez menos. E não é justo pedir-lhes procriação maior que aos casais do litoral urbano que centra a indústria e o emprego. As fábricas têxteis finaram-se na maioria, empresas são amostra esparsa, a agricultura é de subsistência e os serviços não absorvem quem procura trabalho. E migram. E desistem da terra que os governantes esquecem. Onde possuem raízes. Da vida tranquila e serena. Das escolas equipadas e dos serviços de saúde básicos, porém atentos. Dos dias que rendem pelas curtas distâncias e apoios da família.
Mas é linda esta terra e amáveis as gentes. Os que ficam lamentam a triste sina dos que partem. Estes anónimos nas cidades onde se acoitam. Sem direito ao “Bom dia, João!, a tua mãe vai melhorzinha?, o menino sarou as anginas?” Acanhados em apartamentos e comboios e autocarros. Betão à porta. Omissos os quintais e os verdes que lhes conheciam os passos no regresso do pão-nosso-de-cada-dia.
Publicado por Teresa C. às agosto 9, 2007 08:07 AM
Comentários
tão bem ler pela manhã as tuas crónicas serranas.
abraço.
Publicado por: troblogdita às agosto 9, 2007 08:32 AM
Que saudades, Deus meu!
Ainda que lá retorne amiudadas vezes, os tempos são outros e a recordação dos bons ares serranos cada vez mais se turva no crivo do tempo que passou.
Porém, o cabrito não dispenso. E este seu bem que aguçou o apetite apesar da hora tão matinal...
Publicado por: j às agosto 9, 2007 08:56 AM
Sofisma!?
Bem podia ter dito:
' Estes anónimos nas cidades onde se acoitam desistem da terra. Acanhados em apartamentos e comboios e autocarros. Betão à porta. Omissos os quintais e os verdes que lhes conheciam os passos no regresso do pão-nosso-de-cada-dia. Parece que as gentes serranas da Estrela copulam sem eficiência. '
Publicado por: -pirata-vermelho- às agosto 9, 2007 02:29 PM
Divulgação
Mais um Blog que se tornou um Livro!
www.camaradachoco.blogspot.com
Publicado por: Camarada Choco às agosto 9, 2007 06:03 PM
Troblogdita - E eu não gosto de te saber de malas feitas para lugar que também foi (é) meu? A conjugação das tuas letras continua perfeita. Beijinho.
J - E venha e volte que esta terra merece e as gentes merecem (nem falo da gastronomia, que pras bandas de Folgosinho é de arrasar!).
Pirata Vermelho - também, também... A desistência, contudo, entendo, por quem da vida não augurar futuro o sítio onde nasceu.
Publicado por: Teresa C. às agosto 10, 2007 12:02 PM
Já vi que conhece a Cabana do Pastor!!!
Bem merece uma tarde das nossas vidas, de vez em quando.
Mas não é único... Há muito mais, felizmente.
Publicado por: j às agosto 10, 2007 05:52 PM
J.- Conheço, mas não era a esse que me referia, mas sim a outro bem mais próximo dos cumes da serra.
Publicado por: Teresa C. às agosto 11, 2007 09:46 PM
Referia-se certamente a "O Albertino"!
Já viu o céu estrelado que avistamos desta Estrela, aqui?!
Publicado por: j às agosto 14, 2007 11:29 AM
J - Exactamente, Amigo. Bingo! Por alguma razão nos pertence esta sintonia inocente. E o céu estrelado, mais o Buçaco a limitar o horizonte é o meu cenário nocturno.
Publicado por: Teresa C. às agosto 14, 2007 02:50 PM