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agosto 21, 2007
“ESTÚPIDA! UMA PANCA DANADA...”

Deborah Poynton
Não sei se na altura era casada. Nem o detalhe importa no caso. Tiveram um affair que, mais a ela do que a ele, mudou o curso dos dias. Um cínico de gelo, como todos os impudentes. Amou-o, odiou-o e tentou pretensa amizade não sabendo com quem lidava. Ou sabia, porque algumas mulheres conhecem por dentro ao conhecer de verdade. Sem que o confessem, não vá a sapiência varrer dos dias amores que o sussurro da consciência antecipa desnaturados. Melhor fora a higiene, porém, a insanidade por um afecto condiciona a aceitação do lúcido desenho que a alma compõe a carvão. Com ela foi assim. Deixou-se ficar. Foi ficando, enquanto ele desbravava, com desdém, a selva feminina. Preferia as mulheres cheias de carnes e, como ele, de fraudes. Inseguro e desconfiado – os piores dos tresmalhados. Condescendia ter com ela ambiguidades ocasionais para obter sossego precário. E calá-la. Tolhê-la numa esperança vã.
Num arrepio de glaciar sujo, acusou-a de indiscrições que o incomodavam. Inocente ou culpada? Na (in)certeza do veredicto, a arrogância de deus-menor considerou-a culpada. Ela suicidou-se nessa noite. Deixou um filho. “Estúpida... Uma panca danada!”, comentou. E prossegue de olho posto no umbigo. O dele.
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às agosto 21, 2007 08:27 AM
Comentários
Nada justifica a morte. Nada. Muito menos a morte provocada. E se as razões se prenderem com emoções tresnoitadas ou sensações de mero prazer não correspondido, menos ainda a razão a justifica.
Porém, a consciência de existir sobrepõe-se quase sempre à essência da vida. Quando o existir nos proporciona "amparo" apenas junto de gente como ele, há muitos motivos para desistir do único verdadeiro dom de que dispomos: a vida própria.
Como diria FP:
"...Pensar na vida de nada serve...
Pensar de pensar na vida de nada serve...
Vamos para longe e a luz que vem grande vem menos grande."
Publicado por: j às agosto 21, 2007 10:22 AM
Cara amiga Teresa,
De modo a cumprir aquilo que prometi, faça favor de lá ir ver no szerinting...
Publicado por: James Stuart às agosto 21, 2007 03:38 PM
Eh lá!!! qu'isto é (d)escrever de muito saber e fulgurante em duas passagens
-"Um cínico de gelo, como todos os impudentes"
-"Inseguro e desconfiado – os piores dos tresmalhados"
Eh lá...
Publicado por: -pirata-vermelho- às agosto 21, 2007 11:23 PM
J - o texto não tinha por objectivo justificar o injustificável. Tão somente pretendia dos cruzamentos da vida reter como valor o respeito pelo outro. A vulnerabilidade existe em todos. Manipulá-la é perverso. Pelos menos «eu cá acho», meu Amigo.
James Stuart - Fui logo, vi, reli, revi e li de novo. Além de competente comentador, cumpre o prometido. O meu apreço.
Pirata Vermelho - Por vezes saem-me dessas. Correu-me bem, lá isso é verdade! Tão bem que ainda me pergunto onde é que terei lido isso.
Publicado por: Teresa C. às agosto 22, 2007 09:47 AM
Pronto, cumprido o prometido, acabei por retirar o meu desenho do blogue, na verdade em "grafite", mas que por graça a teresa chamou "carvão"
Publicado por: James Stuart às agosto 22, 2007 10:17 AM
Modéstia dessas se não for falsa é de dama com graça - tome lá um beijo!
Publicado por: -pirata-vermelho- às agosto 22, 2007 11:19 AM
James Stuart - E o que é a grafite se não carbono puro? Tal como o carvão, sendo que este é impuro. Os lápis ditos de grafite são mistura de argila e grafite - untuosa ao tacto, mole e condutora da corrente eléctrica. Em tudo semelhante ao diamante, salvo na cristalização que lhe confere propriedades tão distintas. Essa de retirar o carvão, achei mal. Estilizado, traço firme, estava óptimo, juro!
Pirata Vermelho - e eu sou lá para falsidades? Metade do que escrevo é resultado de leituras que desde os cinco anos amontoo. Sei lá onde estarão os verdadeiros autores daquilo que escrevo! Obrigada pelo beijo. Tome lá outro e "não diga que vai daqui" (tirada tipicamente beirã). ;)
Publicado por: Teresa C. às agosto 22, 2007 01:38 PM