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setembro 24, 2007
A FELICIDADE NUM EMBRULHO

Tobin James Mueller
A felicidade vende. Bem. Muito. Barato - ao preço dum seguro, duma ligação de internet, de um automóvel, iogurte ou de um refrigerante. Publicitários fazem do júbilo sofisticada ferramenta de consumo, substituindo a interioridade do sentimento pela dependência dos bens. O histerismo dos participantes em competições asnas por uma dúzia de electrodomésticos é, do mesmo, outra prova - torradeiras, aspiradores, plasmas e carripana, o marido mais a sogra e a prima e o vizinho numa cacofonia berrada de apoios e conselhos q’arrebentam tímpanos espectadores. É o mundo ao contrário. Os antípodas da racionalidade como espectáculo. O contentamento vão. A posse como a nova felicidade – mais ter, melhor ser.
Escrevia Carlos Drummond: "Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons". Pelo prazer simples do doce engolir. Sem outras metafísicas do que comer chocolates, como Álvaro de Campos recomendava na Tabacaria:
Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.
Quem desperdiça a folha metálica por que só embrulha um prazer, despreza da vida partes. No recuo aos horizontes de ontem, o reconto do histórico pessoal clarifica o hoje e privilegiar memórias desencantadas prova falta à lição maior: para ser feliz até um certo ponto é preciso ter sofrido até esse mesmo ponto. Negando mérito e algum louvor aos que da pele se acercaram e a sorte vária afastou, é o próprio que a si nega primeiro, porque quem foi o faz. E falam dos gajos do passado íntimo, das «chocas» com as quais se deitaram, apetecendo perguntar se foram gado barrosão sem outra serventia que estéreis parideiras ou inaptos cobridores. Ignoram o escrito de Yourcenar: "A felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a, a menor falta de delicadeza desfeia-a, a menor palermice embrutece-a”.
CAFÉ DA MANHÃ
Opção 2


Publicado por Teresa C. às setembro 24, 2007 06:57 AM
Comentários
Escolho a opção 2.
Isto, claro, se tiver "direito" a um exemplar.
Sem retirar um átomo à valia incontestável do conto vencedor, acho que todos, independentemente da participação ou não na brincadeira, deveríamos ter "direito" a uma recordação da querida Tati (pagando, obviamente...).
Publicado por: j às setembro 24, 2007 09:57 AM
gosto do texto tanto, acho-o tão brilhante no modo literário de dizer um estádio aberrante porque passa a nossa sociedade, tanto que a decisão sobre a tshirt...gosto de ambas, mas em verdade, talvez, se sempre me couber em sorte (rss) me fique mais elegante o preto :)e, depois do dito, tenha vocemecêa uma boa segunda feira!
Publicado por: mcorreia às setembro 24, 2007 10:44 AM
Bom dia
Tendo agora as duas opções das t-shirts em maquette , eu escolheria a opção 1 em branco.
Mas prescindo da que eventualmente me couber (como leitor apenas), no e só no caso de a Tati mandar elaborar umas dezenas, de modo a baixar substancialmente o custo unitário.
De outro modo, vamos "aborrecer" a Tati com trabalho.
Claro que se houver t-shirts a "granel" eu gostaria que me coubesse um exemplar, a "pagantes", obviamente.
Vítor
Publicado por: Minderico às setembro 24, 2007 10:52 AM
Agora, sim, uma pequena nota acerca do seu magnífico texto, querida Tati.
Ninguém diria melhor que Yourcenar:"A felicidade é uma obra-prima...". É-o, sem dúvida. E quantos de nós não a falseámos já, com uma palavra mal medida, um gesto impensado, uma carícia fora de tempo, um beijo sem sentimento, um esquecimento, uma desatenção.
Contudo, a felicidade não existe. O que existe é um processo de aproximações sucessivas à felicidade, do qual apenas têm consciência aqueles que privilegiam o ser em detrimento do ter. Aqueles que escolhem a forma de ser rico que consiste em desejar menos. Aqueles que, como Cesário, desejam não morrer para "buscar e encontrar a perfeição das coisas".
Para esses, a felicidade é, afinal, pouca coisa. É, por exemplo, o que sinto quando pela manhã leio a querida Tati; ou o que me inunda a alma agora, neste preciso instante em que o céu azul se me mostra em todo o esplendor de uma manhã de um belo Outono.
Publicado por: j às setembro 24, 2007 11:40 AM
excelente texto a inaugurar em grande o quinto ano de actividade deste blogue!
vangloriarmo-nos do tédio sentido, da maçada que é viver, da imbecilidade dos outros, do tempo perdido, como se de troféus, é bizarro, realmente. somos os únicos artesãos possíveis desta obra-prima. mãos à obra!
abraço.
Publicado por: troblogdita às setembro 24, 2007 03:05 PM
Teresa, só os que não conheceram a felicidade podem dizer que ela não existe.
Belissimo texto !
Publicado por: Justo às setembro 24, 2007 04:38 PM
(A opção 2, aqui presente, é fraca; não se precisva empretecê-la à volta.)
Chapada nas trombas do caneco qu'o seu texto hoj'aplica a meio-mundo e arredores.
Grande Teresa...
j'vuzème!
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 24, 2007 04:45 PM
...e quando é qu'os pobres de cristo, os vulgares peões, os qu'andam aqui aos recados conhecem as outras juradas?
(Bem gostava de lhes entrever a intimidade!
Não é 'o organismo'... é entrevê-las; só.)
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 24, 2007 04:48 PM
En tout cas,
defina felicidade, se puder.
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 24, 2007 04:50 PM
(Atão,
mas não era para ser o vencedor a escolher o trapinho que vai ter qu'envergar!? Seria bem assim acompanhar o seu mérito, o dele... já que não o convidaram para o almoçareco.)
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 24, 2007 05:11 PM
J. - e vai ter. Amanhã o café matinal tratará do assunto.
Felicidade existe? Eu «cá acho» que sim. Não em contínuo, mas fracturada em deliciosos momentos que valem da vida o valer.
Mcorreia - apreço que tenha o seu remetente vale mais que ouro. Da t-shirt falo (de falar, claro! ;)) amanhã.
Minderico - terá a sua t-shirt se a quiser. Amnhã, como lá em cima disse, o assunto terá tratamento matinal. E quanto orgulho por saber umas das minhas pinceladas envergadas por leitores exigentes!...
Troblogdita - e, sabemos ambos, nas nossas vidas não temos feito outra coisa que não fruir do melhor e aceitar o pior como indispensável ensinamento. Outro abraço de volta.
Justo - Tal qual. E sou feliz tantas vezes, que de quando em quando me pergunto se tenho diminutas expectativas ou se em tudo procuro contento.
(tenho sentido a falta da sua assertividade sensata. Quanto prazer saber que está de volta...)
Pirata-Vermelho - limitei-me a expor o que odeio ouvir "à ce propos" das gentes.
Felicidade - sereno contentamento (sem paz não há júbilo que me encha e transborde e me faça melhor do que sou).
As outras juradas? Descrevê-las-ei uma a uma num destes dias.
Publicado por: Teresa C. às setembro 24, 2007 05:29 PM
vinha dar os parabéns pelos 4 anos e nem sei o que dizer, não me apetece aqueles elogios de o teu blog está muito bom, gostei muito das fotos, os textos estão excelentes,etc... etc... etc., mas é tudo isto!
vou voltar!
Publicado por: inês às setembro 24, 2007 05:59 PM
Parabéns pelo post. Muito tinha a dizer amiga, principalmente sobre esse estado de consciência a que se chama felicidade. Talvez o que fica depois de um entusiasmo bem sucedido! Quanto aos "meninos" que falam das "cochas com quem se deitaram", não imaginam eles (ou imaginarão em total consciência solitária) que são "cobridores" ou demais palavras feias... Talvez ainda não tenham entendido o que significa deitar com alguém. Emocionalmente pobres, não os vamos condenar. O julgamento mais profundo é o da consciência própria. Beijos amiga.
"Pirata - vermelho" - Falta de gosto falar em "almoçareco", não?
Publicado por: Ela às setembro 24, 2007 06:45 PM
Não; ironia, não?
Ou, ab initio, qualquer abancanço por ali seria distinção por aí(-além)?
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 24, 2007 08:12 PM
Ela - Minha querida Amiga, não são «cochas», são mesmo «chocas» o que é bem pior! Vacas, estás a ver?, mas em gíria da região. O teu apreço vale ouro. Sabes disso e muito mais. ;)
Pirata-Vermelho - sempre danadinho para a brincadeira! Pois saiba que foi um banquete e tanto com o rio em fundo. Houve rosbife e risos e fala e mais o que não digo, mas rematou com excelência o domingo.
Publicado por: Teresa C. às setembro 25, 2007 09:27 PM
Nunca o pus em dúvida, cara Teresa C.
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 26, 2007 06:28 PM
Bonito.
Publicado por: Lapa às outubro 3, 2007 04:09 PM