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setembro 22, 2007

A PIRATA DA WILAYA

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Barndog

Eu andava por aí, um pouco por toda a parte, quando aquilo aconteceu lá em Tamanghasset, no sul da Argélia, durante a missão de apoio a uma equipa de geólogos de uma empresa angolana com sede em Lisboa.
Naquelas paragens, a milhares de milhões de quilómetros de qualquer sítio conhecido, era raro passar alguém que não estivesse ou tivesse estado relacionado com o negócio; e o negócio tanto podia ser o gás como as gajas do Niger e do Mali ou outra candonga qualquer. Aquele em que eu estava envolvido era a prospecção de um afloramento de manganésio que um consórcio encabeçado pela DjazirMine mas controlado por franceses e angolanos, se preparava para explorar em condições de concessão pouco claras e que tinha transformado por completo o até então imutável bem-estar da gente semi-nómada que ali vivia feliz desde o princípio do mundo.
Em menos de um ano Tamenghest passou a ser TamenVille e os hoteis, lupanares, cinemas, lojas de vídeo, ‘tabakifarias’ e tudo e mais alguma coisa, tinham invadido o lugar. As discotecas, cabarets e clubes nocturnos também e embora de iniciativa berbere, alguns exibiam muita qualidade; foi num deles que tropecei nela, na ‘Dama’.
De ambiente denso e fingidamente dramático, como interessa nestes negócios de sedução, o Ksar-Adal era inesperadamente luxuoso e ao gosto europeu. As empregadas eram seleccionadas segundo padrões bem estabelecidos – tinham que falar inglês e francês, que podia ser arrevesado ou com sotaques exóticos; tinham que ser altas, com mais de um metro e setenta; loiras, mesmo que fosse artificialmente e tinham que conhecer todas as danças de salão - tangos, paso-dobles, quick-step, etc.- capazes de fazer o encanto de qualquer escandinavo, grego ou nipónico, mesmo que fosse vesgo, engenheiro ou apenas vendedor de maquinaria para extracção do precioso mineral estratégico. O néon em dois verdes, por cima da entrada, era bem explícito

أخضر قصر
KSAR - ADAL DANCING
DELUXE

Deluxe! De facto, depois de atravessar um pequeno hall, iluminado com apliques déco, passava-se a um enorme salão de decoração muito cuidada, com cortinados de veludo, mesas redondas com pequenos candeeiros de abat-jour carmim, cadeiras de madeira maciça e uns sofás à volta, por baixo dos espelhos das paredes, a fazer recantos; ao fundo, sobre um plateau, a orquestra de dança e ao centro, a pista encerada.
Como ia a dizer, foi lá que tudo... tudo foi a minha morte emocional! A perdição do meu ser desportivo e arriscado. Até o beduíno das ideias ali ficou destroçado… tudo foi vê-la.

As meninas-dançarinas do Ksar-Adal andavam vestidas de verde e tinham nomes da mesma cor - a Mary Green, uma americana de grande chapéu de feltro e casaco de pele de cobra até aos pés, por cima do corpo nu ou quase; a Grün Fräulein, uma valquíria silenciosa, vestida de couro reluzente e apertado ao corpo, com a saia abaixo do joelho e botas de salto em agulha, altas mas a deixar entrever uma nesga da perna; a Paloma Verdecita, maquilhada pelo Almodovar lá do sítio, com a boca e unhas e olhos e sabe-se-lá-o-quê, tudo pintado em grenat e que dançava descalça; Mlle. Jeanne La-Verte, distinta, enigmática, com um bonito tailleur sem ombros mas com um accent a lembrar a Rue St. Denis; e outras, que embora muito atraentes e fascinantes se apagaram incaracterísticas quando a vi - a Dama-de-Verde!
O gesto nada teria significado se não fosse a intencionalidade do olhar simultaneamente gélido e incandescente com que me fitou quando, do alto da sua segurança profissional me chamou para a dança, de braço esticado na minha direcção, com uns movimentozinhos rápidos do indicador a dizer ‘anda cá!’. Era uma ordem; que me deixou inseguro e ao mesmo tempo intrigado. Devia ser tudo construção minha... é do kif! pensei; mas era embaraçoso não só porque, com o meu escasso metro e sessenta e pouco, era bastante mais curto que ela como porque nunca fui capaz de dançar aquelas coisas clássicas como toda a gente. Mas o que mais me afligiu foi o intenso fascínio em que me achei surpreendido e o pasmo por ela me ter chamado no preciso momento em que me imaginava a abraçá-la, perdido de gozo, no meio da pista, a dançar e a viver e a morrer de... whatever!
Em fundo, a música envolvente, tocada por um grupo que preenchia os intervalos da orquestra habitual, agora cantados por uma senhora em tudo semelhante às outras mas com um cabelo preto, lindíssimo, que lhe caía pelas costas abaixo. Talvez um privilégio por não ser dançarina; ou uma condição de contrato, por ser cantora

shee... wooore... bluueee veeelvet... oohh ohh
bluer than velvet were her eyes
warmer than May her tender thighs
la la laaa... la...

Foi uma pequena distracção em que me diluí mas ela lá estava, impositiva, com um brilho no olhar, a dizer ‘Vamos!’. Levantei-me e cambaleando mentalmente, segui a personagem de magia que me tinha saído no tarot daquela noite e de quem só conseguia perceber a imagem. Era uma mulher de idade imprecisa, esguia, com mãos muito compridas e que parecia absorver tudo aquilo em que punha, depunha, os olhos azuis, escuros dum tom como nunca vira. Denotava a segurança vinda da experiência de uma maturidade provavelmente arrancada a ferros mas que não deixara marcas visíveis, nem no corpo nem na cara; a não ser uma certa fixidez do olhar, momentânea, que notei por entre o zumbido mental que me obstruía.
A orquestra tinha regressado e agora, ali no meio da sala, a Dama-de-Verde tornara-se leve e a frescura que saía do seu corpo fez-me sentir quase tranquilo. Com a cara encostada ao peito dela lá ia escapando ao olhar de céu-e-inferno que era um dilacerante repuxar dos sentidos e que exercia sobre mim um fascínio quase dor. Parecia que sempre dançara o tango, La cumparsita! Ah Gardel... que volúpia!
Aspirava-lhe cada movimento e absorvia-lhe os ténues cheiros inebriantes. Aquela mulher seria minha; ou eu dela. Ou as duas coisas.
Incrédulo, ouvi-me a dizer, surdamente, Onde é que você vai quando saír daqui? e logo a seguir, num crescendo imparável, Se estivessemos na idade média roubava-a! Levava-a comigo à força... você é minha.
Nunca me sentira tão forte. Parecia renascer a cada minuto e sentia-o com uma certeza que me deu outro alento, Você diz adeus a isto tudo. Daqui vai ao vestiário buscar a sua carteira e vai ter comigo ao Hotel Al-Mansour. Amanhã vamos para a Tunísia e foi quando caí em mim, estarrecido; ao ouvi-la dizer, Foi de lá que vim! Mas vou para onde quiseres. Tenho andado sempre atrás de ti...
O quê!?
exclamei, mas... como!? Nunca estou muito tempo no mesmo sítio. De onde é que tu és?
A resposta nem a ouvi, perdido em investigações de memória dispersa. Sou de Lisboa, disse ela, desta vez fingi vir de férias e com um sorriso denso que me pareceu enigmático, acrescentou, trabalho no SIS e vim para cá para ver o que andas a fazer com esses lavadores de metais... mas já não consigo e afundei-me, eles não sabem de mim. Amo-te e vou contigo para qualquer sítio! Eu sou tua.
Um zumbido denso enevoou-me os sentidos. Apatetado saí dali à pressa, quase a correr.

Nunca mais a vi.

Conto mais votado entre os que excederam os 2500 caracteres no "Veneno Com Açúcar" – Pirata Vermelho

Dia 5 da “Despedida de Agosto da Tati”

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CAFÉ DA MANHÃ

Um comentador sugeriu que fosse possibilitada aos leitores uma t-shirt semelhante à que será ofertada ao premiado do "Veneno com Açúcar".

Opção 1

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Amanhã será publicada a opção 2. Os leitores decidirão qual das duas será escolhida.

Publicado por Teresa C. às setembro 22, 2007 09:26 AM

Comentários

Bem, logo pela manhã, fumando um dos meus primeiros cigarros, no escritório da fábrica em Minde, persianas abertas deixando ver toda a extensão do Polje, ler este extraordinário conto do Pirata-Vermelho, é um MOMENTO!

Um abraço grande a quem consegue escrever assim!

Vítor

Publicado por: Minderico às setembro 22, 2007 09:52 AM

eu juro que ao fim de buédanos a andar por estas lides, este deve ser o blog que me tem enchido as medidas que como vêem pelo tipo de escrita deste comentário, eu adoro o bem escrever, e por aqui não encontro outra coisa: ele é a dona da casa e são (ia dizer sus muchachos, mas entendo que não tenho intimidade suficiente)os rapazes que por qui escrevem: um mimo cada continho. Este, menina Teresa, é uma delícia! onde é que escreve este pirata?! ai não tem blogue?! então veja se abre, senhor pirata vermelho, que não é bonito andar a ler dos outros e não dar nada em troca, a não ser quando se abre um destes concursos que, FELIZMENTE, foi mal organizado (não te zangues, Teresa, que isto é só para dizer a verdade!!!) e deu nisto: vamos a ver e eram todos contos de qualidade! eheheheh e POR FAVOR contenta o Minderico (adoro este nick) e mesmo que seja até aos santos ou passando, natal ou para o ano, publica lá os contos todos que a gente agradece. Beijos e passa um fim de semana como, vou percebendo, tu bem sabes!!!

Publicado por: mcorreia às setembro 22, 2007 11:27 AM

esqueci-me: adoro a tshirt e QUERO UMA mesmo sem prémio: eu compro ou sei lá como QUERO e pronto.

Publicado por: mcorreia às setembro 22, 2007 11:29 AM

Apesar da boa intenção parece que a caça ia perder graça... a T-shirt deve ser só p'o vencedor.

Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 22, 2007 01:35 PM

"Não se pode olhar demasiado os espelhos dos mágicos; corre-se o risco de lhes arrancar a imagem".
A imagem de hoje da Teresa de 'ontem' é fortíssima; pelo olhar, impreciso...

Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 22, 2007 02:01 PM

M. Correia

Obrigado por gostar deste meu nick (Minderico). Informo-a, no entanto, que o meu nick vulgar na Net é: Manolo.

Mindericos são os habitantes da Vila de Minde, Concelho de Alcanena, ao Km 100 da A1, para Norte de Lisboa, claro.

Se quiser conhecer um pouquinho de Minde vá a:

www.minderico.com

Uma espécie de Portal que criei em 2001 para ir "brincando".

Beijinhos

Vítor

PS: Este Pirata-Vermelho, que me tem feito deliciar com as suas prosas, dichotes e coisas mais, tem o dever de criar o seu próprio blog ;-)

É que, pessoas como ele, têm de ser lidas.

E não só aqui no Sem Pénis nem Inveja.

Publicado por: Minderico às setembro 22, 2007 03:31 PM

Ando por aí, amigo Mindas, um pouco por tod'a parte.

(Obrigado, pelo seu reconhecimento expresso)

Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 22, 2007 03:36 PM

Pirata

Não tem de quê. O que é justo é sempre justo.

Vítor

PS: Quanto à imagem que o Pirata refere - tinha ainda uma certa dúvida sobre o formato do nariz. Segundo a foto é mesmo arrebitado. Só podia!

Vítor

Publicado por: Minderico às setembro 22, 2007 05:51 PM

Amiga: Agora dizem que tens nariz arrebitado, imagine-se... Eu confesso que tenho pena de não ter uma T-Shirt destas, mas julgo ser justo que apenas o vencedor a ganhe. Até amanhã. Aguarda-nos um belo almoço, não? Beijos.

Publicado por: Ela às setembro 22, 2007 06:50 PM

Olha! Então, é adunco?

Bom almoço e boas conspirações ;-)

Publicado por: Minderico às setembro 22, 2007 07:24 PM

Mcorreia - Pois foi, minha querida, o "Veneno Com Açúcar" falhou em dois pontos:

1 - o limitado prazo de entrega dos contos;
2- na contagem dos caracteres no que ao seu conto concerne. Só entre nós lhe digo: terá a sua t-shirt já que tanto gosto faz. E venha, entre nesta tertúlia animada e que aos desafios não se furta. Pois se cheguei ao ponto de me desvendar tal qual... E belíssimo fim de semana para si, que o meu... bom, o meu, está uma delícia de chorar por mais.

Pirata-Vermelho - fortíssima??? ;) Hoje a glória pertence-lhe e com todo o mérito. Ai anda por aí e não dizia nada? Hum...

Minderico - com que então sou arrebitada? Ainda o Vítor não viu nada... ou quase.

Ela - querida amiga: um lombo recheado, no forno, com batata nova e miúda, mais salada de legumes vários com ricota e nozes, uma torta de laranja caseira - ovos, sumo de laranja e pouco mais - parece-te bem? Isto para o jantar de hoje. Amanhã teremos da água olhada, da conversa e do riso - impossível de conter estando cerca de ti - o fluir. Mais te digo: seremos três.

Publicado por: Teresa C. às setembro 22, 2007 07:25 PM

caro Vitor, minderico de gema ao que me foi dado ver no cuidado da página que, sendo um mundo, me ocupou entre umas cervejolas com uns amigos, uma parte desta tarde de sábado: bem empregue!que sabia lá eu que minderico era um habitante de Minde e que, ali a dois passos de uma zona de conhecço bastante, havia ainda tanto a descobrir?! pronto fiquei marcada par um fim de semana lá mais prá primavera. Tenha um bom fim de semana e receba os meus sinceros agradecimentos

Teresa, menina, já lhe dei tanto transtorno não se incomode em enviar-me a tshirt fica para um outro concurso que esse, cuidem-se eu ganho !:)

Bom jantar!

Publicado por: mcorreia às setembro 22, 2007 08:42 PM

Admiro em si, caro Pirata, três virtudes capitais:
- é um Pirata, daqueles que, desde a mais tenra juventude, me habituei a respeitar e a admirar;
- é Vermelho, a minha cor de eleição, vá-se lá saber porquê(?!):
- tem uma imaginação verdadeiramente luxuriante.
De todas elas tenho vindo a ser testemunha ao longo dos tempos, neste espaço que a querida Tati nos vai concedendo.
Não sou um crítico literário, nem disponho de dotes necessários para o ser, mas tenho da literatura e da arte em todas as suas manifestações um conceito estético que, no fundo, se resume à sucinta e precisa definição que dela deu o filósofo Tomás de Aquino:"Belo é tudo o que, visto, agrada". Este conceito é-me suficiente para lhe manifestar a enorme admiração pela qualidade do seu conto.
Regras são regras e valem aquilo que valem. Quanto a mim, todos ganharíamos em considerá-lo entre os melhores. Agradeçõ-lhe vivamente o grande gozo que me deu lê-lo.
Um abraço.

Publicado por: j às setembro 23, 2007 12:24 PM

Piratarias, caro j...
é do que há mais pr'aí
e
cá s'fazem, cá s'pagam!
Que o diga a pirata do Mar do Meio qu'eu, por mim, morria, mais dia menos dia.


(obrigado pela sua consideração)

Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 23, 2007 06:23 PM

1) - Concordo em absoluto com o "J" - este Pirata tem uma imaginação prodigiosa, e, volto a insistir - ou deve criar um blog ou então escrever muito mais aqui.

De qualquer modo, mesmo que crie o seu próprio blog, não deve deixar de frequentar este espaço.

2) - Tati - de facto ainda não vi quase nada :-) Mas o quase nada que já vi perspectiva-me o que na realidade será.

Publicado por: Minderico às setembro 23, 2007 07:15 PM

Mcorreia - e se foi um belíssimo jantar que pela noite dentro avançou! Já lhe disse que além de talentosa na escrita tem um humor divino? Tenho por certo que se do fumo virtual saltasse-mos ao real, a empatia e a amizade seriam certas. Um beijinho recheado de apreço.

Minderico - Nem queira ver mais. Os defeitos são inúmeros e nunca a um amigo, como corre o risco de ser, gostaria de afugentar. Uma bela semana, Vítor!

Publicado por: Teresa C. às setembro 24, 2007 04:16 PM

Olálá ... parece que me considera um "gajo" porreiro :-)

Vítor

PS: Não quero ver mais ... o já "lobrigado" é quanto basta. Um bom fim de semana para si também.

Publicado por: Minderico às setembro 24, 2007 06:29 PM

Minderico - Pois considero. Tem sido tolerante, presente, cordato, enriquecido este espaço... Passa a amigão e pronto! ;)

Boa semana.

Publicado por: Teresa C. às setembro 25, 2007 09:22 PM

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