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setembro 30, 2007
CARTA A UM ANDARILHO

Jim Warren
Pois fique sabendo que aguentava o Mekong e o que mais surgir. Não me conhece o arrojo e o gosto pela ganga - e por skinny também, mas isto é outra conversa de que não deve entender patavina - e pés na terra e na lama e o rosto ao léu. Mais montanha tenho eu nas pernas que o H., quer apostar? Até ao presente desbravada a corta-mato com as botas afastando os tojos e cardos e outros vegetais pouco amáveis. Sair às seis da manhã e subir 8 km sem trilhos, na mochila um boné para o levantar do sol, um algodão para muda quando o suor encharca a pele aí pelas onze e o sol escala o pino - a hora da fatia no dizer local - e um copo para das fontes beber mais água que a concha da mão retém. E sem encontrar vivalma nem derriço para entreter a carne e gozar porque a privacidade de sítio tão escuso tenha por certa! nem um pastor que esses se alevantam pela madrugada recém-nascida guiando o rebanho serra acima até onde abunda o pasto e num penedo escurecido por liquens ressequidos se assentam e vêem do sol o giro siflando ao cão de lã - que pêlo num cão é por ali coisa de rafeiro ou bicho fino - se uma ovelha desgoverna as demais e só atende ao cerco ladrado do vigoroso canídeo da Estrela. É lá homem para aguentar um dia destes 16 km - entre a ida e o regresso e o descanso num penhasco com o ocidente de Portugal à vista para lá do Buçaco e do Luso - em cinco horas de andança a cortar troncos grossos de giesta caída que lhe desvendem o carreiro da subida e da descida? E fala-me de rios da estranja e terras do oriente como se a aventura e a ousadia se medissem pela exótica lonjura do andarilho!...
Afaga o ego vir duma fuga às regras e contar dos perigos das duas horas e meia da subida de Huayna Picchu e dos deslumbres dos horizontes e o que no cimo se fez – berros ufanos, mascar folhas de coca ou entaramelar canção da Ana Malhoa, que quando o oxigénio falta a mente alucina e quem não se cuidar cai dali nem mais nem menos magoado do que se aventurar pé em desvio estilhaçado e rolar abaixo do Cântaro Magro. Vou além: acabar finado como o russo que um raio atingiu em Huayna Picchu à viúva dá o mesmo consolo que ser o respectivo atropelado com ramela nos cantos dos olhos a caminho da padaria. Diz dos mergulhos em lago nos Andes de onde às ordens do pai tirano e Deus do Sol terão emergido Manco Cápac e a mulher Mam Ocllo para fundar o império Inca. Romântica sugestão! Porém, já mergulhou no Vale do Rossim por alturas da Páscoa quando a neve entulha na Estrela o cimo e o frio racha a pele? De volta à cidade até pareceria mal o luzir do olhar por feito ao alcance de uma caranguejola ou de bilhete de segunda num intercidades... E depois ironiza my cruise disease especula sobre o meu gosto por gajos bem vestidos que nunca afirmei preferir mas que são tão homens e valentes como os enfiados displicentemente em etiquetas da Camel – conheço-lhes bem demais a imitação de globetrotter provado! - arrastando pelos aeroportos do mundo sansonites quiçá rafadas Louis Vuitton que lhes acresçam o ar de viajante sabido conquanto deles distintos por que almofadados em bons hotéis. Contos ao serviço de causa pobre: chamar à sua razão alguém de vista curta que se tem por menor em estilo e graça. Ámen.
CAFÉ DA MANHÃ
Viajante e aventureiro é o Homem que escreveu “Para Além da Solidão” e “Mais Além - Para Além do Evereste”. João Garcia de seu nome.
Publicado por Teresa C. às setembro 30, 2007 08:20 AM
Comentários
Ah! Como me fez pensar o dia todo nas minhas longas caminhadas ponto a ponto por essa Estrela tão amada! Como as saudades apertaram, ao recordar essas aventuras, algumas vezes a solo (cuidado! hoje não o faria...)! Para não dizer (talvez um dia o diga...) o que se avista do Alto dos Lusianos! Dizia-se que até o mar se lobrigava!
Eu digo que até o mais fundo da alma aparecia, qual imagem holográfica, ali à frente dos pobres olhos da cara.
Ah! Como passei a apreciar, de modo parecido, o corropio de ilhas e ilhotas espalhadas por esse Mare Nostrum tantas vezes sonhado na juventude! Ou o correr de margens verdes (o deserto é logo ali, ao lado...), entrecortadas pelos restos de civilização milenar tão estranha e misteriosa quão rica de ensinamento e História! Ou... sei lá que mais!
Contudo, aqui só para nós que ninguém mais entende, prefiro a visão larga, o ar impoluto, o som límpido das latas serranias.
Publicado por: j às setembro 30, 2007 10:06 PM
Ah! Como me fez pensar no Gulliver (com dois éles, não é?) e naquela estranha aventura de se ver atado de pés e mãos por gente que não o entendia. Um gigante, aos olhos da pigmagem!
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 30, 2007 11:18 PM
J. - infelizmente não tenho tido parceiros(as) para ensaiar andanças de viajante. E se viajo sozinha quando uma fuga me apetece o objectivo é viver emoções a sós! Porém, para as minhas peregrinações de sonho, ausência de partilha seria castigo incompatível com a fruição dos sítios e, neles, dos momentos. Daí também a banalidade de algumas das minhas escolhas, conquanto precisar ou não de descanso pese muito mais.
Pirata-Vermelho - pode estar certo. Relido o texto há je ne sais pas quoi de discurso duma coitadinha que se defende não sei bem de quê. Estivesse, no caso tratado, a Teresa C. mais segura de si e não se enlearia em justificações e ditos eriçados. Daqui a justeza da sua comparação: "Um gigante, aos olhos da pigmagem!" Ora não sendo a Teresa uma gigante, pouco mais fez que pôr-se em bicos de pés. Correu-me mal!
Publicado por: Teresa C. às outubro 1, 2007 06:43 PM
... bem gostava eu de saber quem é o Sr Mekong!
(Ou
está a falar dum rio que vem de nowhere, passa em Chiang Saen e vai desaguar sabe-se lá adonde? )
Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 2, 2007 12:17 AM
Pirata Vermelho - ai caríssimo... no meio da azáfama dos dias o Sr. Mekong que se dane. Já agora: Chiang Saen é novo tipo de actividade ginasta, de cosmética ou marca de chá?
Publicado por: Teresa C. às outubro 2, 2007 04:47 PM