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setembro 18, 2007

DESPEDIDA EM AGOSTO

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Garmash

A praia secreta estava escondida para lá do farol, e a descida era íngreme e demorada. O mar parecia maior do que o normal, talvez porque daquela perspectiva o mundo parecia suspenso entre o areal e o céu. A cor do mar era um azul incandescente e o vento trazia o odor da rama dos pinheiros até nós. Um bando de gaivotas passava ao longe, e os seus gritos ecoaram naquele espaço que parecia uma catedral de rocha, mar e luz. A água era cristalina e na maré baixa via-se cada grão de areia dourada sob a sua superfície. O cheiro a maresia era intenso, uma brisa com sabor a sal percorria a costa e ouvi as palavras que fugiam da boca da Isabel, acompanhando o seu olhar perdido no horizonte: este é o meu lugar favorito no mundo.

Tínhamos dezassete anos e desde sempre fazíamos férias em S. Pedro de Moel. Olhei para ela, reflectia toda a beleza e alva esperança daquele dia. Levava um vestido branco e leve sobre o bikini, que o vento moldava ao seu corpo. O cabelo cor de feno ondulava ao vento e os seus olhos castanhos com matizes de mel pousaram sobre os meus antes de me sorrir. A Isabel tinha o sorriso mais bonito do mundo. Fizemos o picnic sem mais companhia na praia, nadámos com braçadas enérgicas na água gelada e dourámo-nos sob o sol quente daquela praia silenciosa, que parecia jurar-nos que nunca revelaria a ninguém o segredo daquele dia.

O ocaso anunciava a hora de regressar a nossas casas, e perguntei à Isabel quantos dias assim nos reservaria a vida. Uma tristeza bailou nos seus olhos cálidos, uma premonição ou uma certeza que a juventude não me permitiu detectar. Os nossos passos pareciam não deixar pegadas na areia, mas sim rastos de esquecimento, como se fossem um modo de dizer silencioso. Caminhávamos abraçados, e cada coisa parecia saída da eternidade, o futuro era tão grande como uma data remota. Não esqueças nunca este dia.

Aquela praia da minha juventude já não existe. A erosão da costa nos últimos quinze anos e algumas derrocadas transformaram-na num reduto inacessível, o areal e a luz desapareceram para sempre e agora vivem apenas na recordação de quem ali passou. Há muitos anos que não vou lá, como se temesse que o regresso àquele sítio fizesse evaporar definitivamente a minha juventude. Quando me despedi da Isabel naquele Agosto não sabia que seria para sempre. Aos dezassete anos há notícias que não se esperam, e à medida que fui crescendo sempre voltei àquele dia na praia para afastar as sombras do passado. Não esqueço nunca aquele dia. A minha memória é também a da Isabel, e estas palavras testemunhos da luz que invadia as nossas vidas. Não sei se serão fieis ao que vivemos ou apenas ecos da saudade, porque as certezas partiram todas contigo, Isabel.

Conto vencedor do “Veneno Com Açúcar” - Katraponga


CAFÉ DA TARDE

- A cópia do óleo vencedor a estampar na t-shirt do vencedor, dado o humorado caos da votação, será a 4 ou a 5 à escolha do Katraponga.

- Nos próximos dias, serão publicados os trabalhos, contrapondo à beleza e glamour da iconografia do Gil Elvgren, a modéstia do real. À Teresa C. e à autora do blogue não agrada fabular a Tati. A escrita e a pintura são o que neste blog importam.

Dia 1 da "Despedida de Agosto" da Tati -

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Publicado por Teresa C. às setembro 18, 2007 07:28 AM

Comentários

Está giro, mas gostei mais do conto da Teresa C. Achei triste todas as certezas deste homem terem partido com a Isabel. Tão novinho e com as certezas "enfiadas" naquela praia!? Deprimente!

Minderico

Publicado por: Minderico às setembro 18, 2007 07:45 AM

Parabens!
É um conto muito belo.

Publicado por: j às setembro 18, 2007 10:42 AM

Excelente! Parabéns !

Publicado por: Justo às setembro 18, 2007 12:16 PM

Um nadinha off-topic, não é?

En tout cas
PARABÉNS, outra vez

Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 18, 2007 12:35 PM

Do cansaço de uma manhã de trabalho talvez venha a causa. Mas não percebi!

Teresa C.= Autora do Blog = Tati são, ou não, a mesma pessoa?

Desculpem o "atraso" no raciocínio, tá?

Minderico

Publicado por: Minderico às setembro 18, 2007 03:07 PM

Os comentários de hoje têm, até agora e justamente, o endereço do vencedor. Porque o Minderico põe uma questão que há muito ando para desbrava num texto, aproveito a deixa e aqui vai.

A Tati foi a personagem a que a autora deu vida quando o blog nasceu. Mui feminina, dissertando sobre frivolidades várias como é próprio de algumas revistas femininas que pretendeu glosar, progressivamente mais genuína nas reais preocupações, aqui e ali circunpsecta, um tudo nada feminista.

A Teresa C. é um misto de autora e Tati crescida e corrigida. Mais atenta ao essencial e crítica na avaliação que faz das sociedades, da nossa em particular. Procura a tolerância, a harmonia entre o planeta e as gentes, pensa os afectos sem refúgios de circunstância, e assumiu, finalmente a vertente da autora que a sustém.

A autora - gosta de idear os outros, quem é, o que pensa e para onde vai. Aprecia a prudência na exposição íntima, embora alguns desabafos não iniba e solte as teclas ao serviço da Teresa C. Odeia estratégias, hipocrisia e julga-se uma sandocha de emotividade com raciocínio lógico.
Se um «psi» lesse isto afirmá-la-ia um "case study" de esquizofrenia simplória. Indubitavelmente pertencendo à fracção dos portugueses que não "batem bem da mona".

Publicado por: Teresa C. às setembro 18, 2007 04:23 PM

Muito obrigado pela explicação, Teresa. Confesso que até já tinha "topado" :-)

Mas, Teresa, por favor, continue a pertencer à fracção dos portugueses que não "batem bem da mona".

E nunca deixe de escrever, tá bem?

Isso seria um crime de lesa-cultura.

Minderico

Publicado por: Minderico às setembro 18, 2007 04:28 PM

Parabéns ao Katraponga é um texto na linha do que nos foi habituando no seu blog que infelizmente cessou: suave e muito sentido.

Da Tati ou Teresa C já tinha dado para entender que indubitavelmente pertence "à fracção dos portugueses que não "batem bem da mona". De qualquer forma achava mais piada à Tati, mas gosto mais da Teresa C. Mas continue porque lhe fica muito bem e bem dispõe que a visita. Até acho que ao vivo deve ser extremamente interessante e de boa convivência. Por isso continuarei a espreitar as aceleras da segunda circular e se um dia vir alguém que "não bate bem da mona"... acenando desesperadamente sou eu (já somos dois) que a descobri e se possível irei no seu encalço, porque fechei o meu puzle.
Agora ficamos à espera do livro e pelos vistos e porque não... uma exposição dos seus quadros.

um

Publicado por: um às setembro 18, 2007 05:04 PM

Gostava de ver os outros dois textos, nomeadamente o da mCorreia.
Será possível?
Até lá, nem digo nada.

Publicado por: Nilson Barcelli às setembro 18, 2007 05:50 PM

Rá! Agora resta saber quem é a tal do convés !

Publicado por: Justo às setembro 18, 2007 05:50 PM

(Muito bem. Grande Teresa!)


Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 18, 2007 07:57 PM

Por favor retire a expressão 'não bate bem da mona'. Ao contrário do que afirma parece mais refúgio-de'hesitação de quem sabe perfeitamente que baterá um tanto diferentemente mas muito-bem! da mona.

(e
nada de pensar qu'isto é bajuladice pelas bastas razões que sabidamente m'assistem)

Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 18, 2007 08:02 PM

Finalmente, custou mas ela táti!!!

Publicado por: fallorca às setembro 18, 2007 08:11 PM

Minderico - Ai continuo a pertencer a tão prazenteiro grupo, não duvide! De outro modo deixaria de ser quem sou.

Um - grata pela suposição que algum talento me assiste na escrita ou na pintura. Quem sabe um dia chego lá... E se vir uma reles condutora circulando na circular a mais do que é suposto se a pressa me aflige, acene que o mesmo farei eu. Mas.... como o distinguir dos outros que me acenam? Com fúria, claro está!

Nilson Barcelli - serão publicados consecutivamente. Depois gostaria de lhe saber a opinião.

Justo - A Tati, a Teresa C. e a autora. Só(??) o invólucro é comum.

Pirata-Vermelho - nada como o sublinhado de eu decapitar quem nada receia para me perguntar coisa simples: "porquê?". E não encontrei explicação.

Fallorca - Finalmente, uffff! Não sou mulher de esconde-esconde, está visto.

Publicado por: Teresa C. às setembro 18, 2007 08:24 PM

Sabe que "Só" é uma definição extremamente errada ?
Fallorca? Eu já havia visto a Tati, em frente a uma cascata ou cachoeira. Tu não ?

(Gosto mais de Tati do que das outras. Acho que porque eu pude criar uma outra , no que escrevi. Caracas nem atinei para o número de letras !)
Bom. Por uns dias sossego do Justo.

Beijinhos Tati.

Até mais todos os amig(os)as !

Publicado por: Justo às setembro 18, 2007 10:56 PM

Justo, não sei onde foi buscar o "Só"... com esse título só conheço o livro do António Nobre, mas tudo bem :)

Publicado por: fallorca às setembro 18, 2007 11:56 PM

Tati, não seja modesta, nós também não precisamos de saber se gosta de brincar às escondidas ahahah

Publicado por: fallorca às setembro 18, 2007 11:59 PM

O conto do Katraponga é lindo! Nele facilmente descortinamos essa imensidão de luz que tinham as paixões dos nossos verdes anos. Como a praia que era só nossa e de quem amávamos. Como o futuro. Como os sentidos que acreditávamos que a vida tinha.

Publicado por: Alba às setembro 19, 2007 01:34 AM

"Os trabalhos devem adequar-se à sequência das pinturas publicadas entre os dias 26 e 2 de Setembro, inclusive. Serão eliminadas do concurso as obras que não respeitem o tema."

Publicado por: Minderico às setembro 19, 2007 08:46 AM

Justo - E que bem a criou no blogue e no seu magnífico conto. Mas regras são regras e o júri privilegiou o nº de caracteres associado à qualidade da escrita e a referências, ainda que não explícitas à iconografia.

Volte, sim? Fico com saudades da sua presença assertiva e bem disposta.

Fallorca - Às escondidas somente em ocasiões saborosas e específicas. :)

Alba - Assim o júri entendeu o conto do Katraponga. Uma prosa poética num conto que descreve quem reteve uma memória que dourou e não enjeita ainda que lhe associe nostalgia, quiçá dor.

Minderico - Escrevi sobre isso no comentário lá em cima.

Publicado por: Teresa C. às setembro 19, 2007 07:05 PM

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