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setembro 10, 2007
DO STROMBOLI O INCÊNDIO DOS CORPOS
~
Terry Rodgers
Sentindo o olhar dele pousado nela, levantou os olhos do monitor. Viu-lhe o sorriso e devolveu, no desigual castanho, a íntima luz que sentia. Eram mansos os serões. Como o de sábado. Frente a frente. Deleitados com a investigação e a escrita. Ennio Morricone triangulando o momento.
Recordou o fim de tarde de um Agosto por mear. A esplanada rente ao suave marulho do Mondego, a sombra, o livro. E a voz. Ouvira: “posso colar-me à sua leitura?”, e apontava para a mesa que a dela geminava. Aquiescera num gesto, mal encarando o perguntador. Das páginas arredou a atenção. Havia dias, tivera a coragem de rematar a cobardia – desfazer um equívoco que arrumara no amor, à laia de tumba para um amor equívoco anterior. Ferira a ideia de lisura que de si prezava. E peregrinou o olhar como fuga à fealdade que em si reconhecia. Ele, mirando-a entre o perplexo e o surpreso, disparou: “és a Tati!”. Nela, fez-se luz: “ e tu o Mário!”. Mergulharam nas memórias, nas estórias e na verdade do presente. A noite não era caída e já ele a enlaçava, procurando o aconchego de um jantar. Fluidos os gestos. A conversa. Envolvente a ternura dos idos partilhados. O instante como deslumbre. Mútuo.
Mal nascida a manhã de 26 de Agosto, esperava-a no check-in. Aninhou-a num abraço poderoso. Da porta 14 voaram para um tempo inesperado. Às duas da tarde, mãos dadas e retomada a irreverente juventude comum, espreitavam os decks e os bares, as piscinas e os restaurantes. Rindo, avaliaram para quantos infelizes chegariam as lanchas e baleeiras se a fortuna resvalasse. No camarote, inauguraram a felicidade da intimidade dos corpos. Porque existe. A ambos pertencia fatia gulosa.
Ignoraram as gentes na gala do Comandante - somente em ambos atentavam. Percorreram Cartago, Sidi Boud Said, perderam-se na Medina, escoaram a navegação nas espreguiçadeiras de madeira lisa que as almofadas adoçavam. Nessa noite, ela seria Sherazade, ele um Sheriman renascido, detalhando a história que os corpos contariam. Acordou-os o ouro de La Valetta. Ao lugar conhecido, preferiram o navio esvaziado de excursionistas, misturando cocktails com soalheiras leituras. À Sicília e ao Etna, ao Stromboli depois, aos 43ºC não resistiram – abraçados, afundaram os pés na lava moída. O anoitecer seria caliente, tropical - os funcionários do salão coreografando o jantar, o “limbo” maneado e descido que dançariam a sós até Chivitavechia e Roma. E foi assim em Cannes, na escadaria do estrelado e no mergulho cálido no Mediterrâneo que lambe a praia das ilusões de todas as starlettes.
Por ora, no verão das vidas, partilham dos dias fracções ou a dose inteira. Na lagarta soalheira que é Lisboa, provam os frutos do estio. Ao caírem as folhas e as chuvas, será ainda o Stromboli das almas e dos corpos a manter vivo o incêndio. Do Mare Nostrum, a calmaria.
Nota: conto da Teresa C. sobre a “Despedida de Agosto” da Tati.
CAFÉ DA MANHÃ

Teresa C.
Este é o primeiro trabalho posto à votação dos leitores. A cópia mais votada (numa escala de um a cinco) estampará a t-shirt atribuída ao vencedor do “Veneno com Açúcar”.
A todos os participantes no "Veneno com Açúcar" fico grata. A qualidade dos textos é de excelência. Repito o que ao Justo disse: "é privilégio ter leitores e «confrades» blogosféricos assim".
Publicado por Teresa C. às setembro 10, 2007 08:02 AM
Comentários
Teresa, obrigadinho por me embaraçar!, afirmando que sentiu a minha falta nos "jogos florais", mas deu-me uma daquelas brancas que até no blog da frenesi-livros era notória. Prometo estar atento à vernissage que por aqui desfilar nos próximos dias. Observo-lhe "a mão" e por acaso, e só por acaso, a menina não andou no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra? Considerando relevante a diferença de idades que, «então», nos separava, atrevo-me a recordar-lhe que o CAP ficava mesmo em frente da Clépsidra. Se é que foi ou sobreviveu até ao seu tempo coimbrão...
Publicado por: fallorca às setembro 10, 2007 10:49 AM
Exma. Sra.
salienta-se e agradece-se a oferta do swinging boogie e da peinture de bohème.
(Estarei a ficar alzheimico ou 'estamos' todos a perder encanto?
É que...
a alternativa é um barulho incerto de dijei analfabeto -fora quem lá entra- e uma 'arte' abjecta a vender pela certa!
-fora a arquitectura de Rei do Imóvel-)
(sorry...)
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 10, 2007 01:43 PM
(Gosta dos meus recentes sons in inguelish?
good...
thanks)
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 10, 2007 01:44 PM
Fallorca - O CAP não lembr mas a Clepsidra sobreviveu, sim, e lembro-a bem. Naquele tempo, menina "bon chic, bon genre" evitava circular por ali. Parva, como era (sou?, submeti-me. Felizmente, arrepiei caminho e tornei-me na rebiteza meiguinha que sou (digo eu...). E não meu querido comentador, nunca pus os pés em qualquer escolinha de bem pintar. Por via de anos e anos de proximidade com artistas plásticas fui aprendendo o básico. De iniciada nunca evoluí - lambuzo umas telas e vejo o que dá. Ah!, e não o embaracei, não esteja "p'rá aí o mocinho armado em anjinho que nã é!"
Pirata Vermelho - Pois, Pois... Ofereço-lhe tudo, quer dizer, quase... e salvo seja. Uma ajuda: a tela está na horizontal, mas de facto é estreita e ao alto. No meio daquele borrão o que detecta afinal?
Publicado por: Teresa C. às setembro 10, 2007 05:52 PM
Pirata-Vermelho - Esqueci: o seu inguelish está quase igual ao meu. Se piorar, empatamos.
Publicado por: Teresa C. às setembro 10, 2007 05:59 PM
Tenho que ir visitar o Stromboli ...
Publicado por: Minderico às setembro 10, 2007 06:53 PM
Votarei no fim, se não se importar.
Para já, fico-me apenas com um ligeiro aceno ao Stromboli. Não ao verdadeiro vulcão que não conheço (fiquei-me pelo primo mais a Norte, Vesúvio...), mas ao grande filme de Rosselini e, sobretudo, à bela e tão amada Ingrid.
Acrescento que a associação, que instintivamente fiz, se deve exactamente à imagem que instantânea que criei de si ao ler o conto de... Teresa C.
Publicado por: j às setembro 10, 2007 10:06 PM
Teresa; O privilégio é tão somente meu. Grato por suas gentis palavras.Estou tão ansioso por ler os demais, e certamente, melhores contos.
Publicado por: Justo às setembro 11, 2007 12:47 AM
Anjinho?, eu? Só me faltava mais esta, sua mecinha do arco-íris... Já cá cantam duas "tendências", que pontuarei no final do seu "lambuzado" portfólio. Palavra de anjinho! eh eh eh...
Publicado por: fallorca às setembro 11, 2007 10:46 AM
Alto lá... Ao alto? Rodando para que lado? Pirata amigo, não caia nessa do "detecta"... eh, eh, eh Quem o avisa, Rorschach amigo é...
Publicado por: fallorca às setembro 11, 2007 11:03 AM
J - "Stromboli terra di Dio" de Rossellini. Uma Ingrid fabulosa. Da associação filme/conto gostava de saber detalhes. E sim, pode votar no fim. É o mais sensato.
Justo - Irá ler, sim. Todos muitos bons e a merecerem prémio. O júri irá ter um delcioso porblema para resolver.
Fallorca - Pontue, pontue, que eu sou "mecinha" (im)paciente... "Nã gostei memo" nada foi do aviso ao Pirata - Vermelho, como se a minha leda cabecinha fosse capciosa... Eu???? "Jámé!"
Publicado por: Teresa C. às setembro 11, 2007 11:49 AM
menina os desenhos são fixes, mas eu via mais assim... uma coisa como os da Tati ou esses magistrais que "enfeitam" a cada dia este blog
Digo eu...
O voto é só no fim, né?
tou desejando de ler esses textos de devem ser de crescer águas :)
Publicado por: mcorreia às setembro 11, 2007 06:35 PM
menina os desenhos são fixes, mas eu via mais assim... uma coisa como os da Tati ou esses magistrais que "enfeitam" a cada dia este blog
Digo eu...
O voto é só no fim, né?
tou desejando de ler esses textos de devem ser de crescer águas :)
Publicado por: mcorreia às setembro 11, 2007 06:35 PM
Fallorca!
Pintura 'à la delaunay' não lembraria nunca mancha de teste, meu amigo.
5 pontos.
(declarando que atribuo este valor em vista do fim em vista)
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 11, 2007 07:07 PM
DÚVIDA RESIDUAL
Será estampada a pintura mais votada ou um detalhe dela?
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 11, 2007 07:09 PM
OUTRA DÚVIDA - FORMAL
Atão...
mas...
quer-se dzêr,
porque é qu'aparece já publicado, hoje, o conto da Teresa C. ?
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 11, 2007 07:14 PM
ÚLTIMAS DUAS
"Ofereço-lhe tudo, quer dizer, quase..."
e
"Um ajuda: a tela está na horizontal, mas de facto é estreita e ao alto."
1 O quê!?
2 Enganou-se no destinatário ou não percebeu o que eu disse ali acima...?
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 11, 2007 07:18 PM
Mcorreia - A minha amiga julgava então que eu pintava corpinhos ao léu? A verdade é que nunca experimentei. Rostos a carvão, sim, desenho, mas nus exige perícia que não tenho. E os textos estão sublimes, creia. O júri terá missão difícil...
Pirata Vermelho - o meu conto não... conta. É apenas uma das hipóteses de ficção sobre o tema. Queriam ser apenas os leitores a terem o prazer da escrita? E eu? Do gozo também quis fatia.
Não devo ter percebido mesmo nada, já vi. Mas o Pirata também não ajuda lerdas como eu. Arrevesa o discurso, e depois... olhe!, sai-lhe na rifa uma «duquesa» assim...
Publicado por: Teresa C. às setembro 11, 2007 09:36 PM
1
'Exma. Sra.
salienta-se e agradece-se a oferta do swinging boogie e da peinture de bohème.'
Traduction - que se lixasse, naquele dia! o texto; a pintura e a big band chegaram-me.
2
'a alternativa é um barulho incerto de dijei analfabeto -fora quem lá entra- e uma 'arte' abjecta a vender pela certa!'
Traduction - as mais da vezes, o que se ouve-vê por aí elegido é musicata-pumpum-pumpumpum e pinturices d'artiste-de-la-Fondation ou du Casino... ambos em contraste com a pintura exibida, a sua! e a big band posta a tocar o boogie, aquele!
3
Estarei a ficar alzheimico ou 'estamos' todos a perder encanto?
(É o preço que se paga por andar tempo demais em mares do corso!)
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 11, 2007 10:52 PM
Pirata Vermelho - afinal não ando tão apatetada como julgava. Entendi direitinho e, se bem ler, a resposta foi adequada. Direi mais: generosa! ;)
Publicado por: Teresa C. às setembro 12, 2007 08:57 AM
Voto: 3
Publicado por: Justo às setembro 12, 2007 12:44 PM
(Ena que folhetim!...)
Não vejo borrão nenhum e no meio não detecto nada, afinal.
Sou um abstracto, madame, vous vous souvenez?
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 12, 2007 04:13 PM