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setembro 27, 2007
É DE SISAL O FIO

Barndog
Sabes? Quando não estás, gosto à mesma de estar. Que melhor sinal de enleio com porvir do que o sereno contentamento de te saber por aí e confiar? Nos dois, que ninguém ata o desatado com astúcias ou afagos. É de sisal o fio a cada dia mais denso por entrançar verdade e ternura e o (in)visível (in)dizível que não poupamos para um amanhã precário. De avareza não nos acusaremos – a fala é perdulária no conto das horas mediadas pelo quotidiano obrigatório, mansa no regresso ao «nós», doce se às memórias recorre. Memórias. Já sobre elas discorremos pela isenção de mágoa que as dolorosas soem arrastar; se te lembras, e sei que sim porque o «nosso» gravamos, ajustámos ter sido a vida uma mestra por ambos partilhada – quando o sofrimento rasga a alma e, por via dele o corpo impotente para lhe resistir, integramos o facto como teste ao crescer. “Porque ainda somos meninos”, disseste, e eu concordei. E por essa humildade para com o devir, se houver!, o presente sabes enobrecer.
É com o coração sobre a mesa, ou enrolado nos lençóis, que um ao outro encantamos pela magia do sentir. Disse-te, há tempo curto, que contigo multipliquei mil por mil o número de terminais nervosos da pele. Ora, tendo o mesmo tecido originado cérebro e pele, não é insensato dela dizer uma extensão cerebral. Aventaste que na possibilidade de penetrar no sistema nervoso de alguém, logo lhe delinearíamos o corpo, ficando sem resposta a pergunta se é o cinzento cortéx dos hemisférios cerebrais mais rico em tecido nervoso ou a pele. A esta não lhe negamos a condição de porta aberta ao mundo físico que, subida a escada, desemboca na consciência. E como dela fruímos! As pontas dos nossos dedos, mais sensíveis que os músculos, esvoaçam rasando do outro o corpo, arrepiando a fina penugem numa dilatada ânsia do toque que não vem e queremos sem querer subtrair à inflamada espera um segundo do querer. (Re)Conheces-me a fundura e as dobras e os recantos onde, firme, esperas. Suavemente. Aspiro o teu respirar e cadenciamos o beber gasoso com a pressão dos corpos em sabedor menear. Olhos semi-cerrados num sorriso que em simultâneo abrimos para nos lermos melhor. E não há final na expansão comungada do prazer – ao retrair, a pele desvenda o chegado silêncio que não ousamos perturbar.
CAFÉ DA MANHÃ
Foi ontem cremado Marcel Marceau. No 20° arrondissement parisiense, sombreados por árvores centenárias, repousam Edith Piaf, Proust, Oscar Wilde, Jim Morrisson e Chopin, agora acompanhados pelas cinzas do genial mímico. O cemitério Pére Lachaise - a não esquecer por quem deseja homenagear heróis das artes ou do saber -, é uma vasta área verde da capital francesa que deve o nome ao padre confessor de Luís XIV.
Publicado por Teresa C. às setembro 27, 2007 06:28 AM
Comentários
um compasso de ternura e fogo, um não deixar que seja apenas faúlha ténue o que pode(deve) ser labareda, e basta um sopro, um não esquecer-se, um passear de leve o pensamento que é, e tu o dizes, eu entendi que tal, a simbiose de pensar, sentir,tecidos e pele
que sei...
tu o disseste
de mim tão só que me embrenhei
Publicado por: mcorreia às setembro 27, 2007 10:32 AM
Ternura e fogo, diz a ilustre comentadora acima.
Direi: mais ternura, muita ternura, que é a fonte da qual brota, já fabricado, o "fio de sisal" que nunca cederá e que amarrará corpo e espírito de dois Amores.
O fogo, esse arde sem se ver...
O que se vê (se sente) é esse doce fluir dos dedos sobre a pele, como se pretendessem descobrir a invisível rede que mistura sensações e sentimentos.
O seu texto, querida Amiga, é uma pequena e muito belo história de Amor.
Veio tão a propósito!
Publicado por: j às setembro 27, 2007 12:23 PM
Sessão de apresentação do meu livro no Festival do Amor, em Beja, este Sábado, no teatro Pax Julia, pelas 18h.
Vai haver coboiada!
Vou estar no período fértil!
Compareçam, se não mato-me!
Publicado por: loira suicida às setembro 27, 2007 03:02 PM
Esta suicida é loira or what!?
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 27, 2007 03:36 PM
Por mim, que se mate, ora ... não gosto de chantagens :-)
Ele há cada uma!
Publicado por: Minderico às setembro 27, 2007 04:25 PM
tornou-se uma praxe vir aqui todos os dias.
AHHHHHHHHHHH digo eu, que bem que ela escreve
o que tem a loira do período fértil a ver com a história?
está onde ela? eu posso dar um jeito, caso ela queira...
bye
Publicado por: blackangel às setembro 27, 2007 08:40 PM
Período fértil combina com o período de acasalamento ?
Publicado por: Justo às setembro 27, 2007 10:39 PM
Mcorreia - é de mulher o sentir que recebe e dá. Profundo. Como entendo e sei o que um homem e uma mulher entre si jogam nas palavras e na pele no dia e em muitos mais. Sabia que me entenderia. O cultivo da ciência é também um amor.
J. - foi o texto o contraponto do pragmatismo redutor sobre a vida feita de espírito e carne que entre dois que se querem - e bem pode ser amor -, se entregam, estilhaçando redutos de pudor ocioso. Entre eles. Coração posto na mesa e nas mãos.
Pirata-Vermelho - não faz parte a dama do nosso círculo de partilha. Ser loira não é impeditivo. Falta de senso, sim.
Minderico - Publicidade pura. Enganosa? Não sei! Nem visitei o sítio de onde a dama surgiu.
Blackangel - que destas leituras o seu gosto remanesça e fique até no dia se deitar.
Justo - Ça depend. E o «estória» lá de baixo foi para mim. De si e história, de mim enquanto leitora foi estória para recordar pela pureza da descrição e a ternura interposta.
Publicado por: Teresa C. às setembro 27, 2007 11:30 PM