« agosto 2007 | Entrada | outubro 2007 »
setembro 30, 2007
CARTA A UM ANDARILHO

Jim Warren
Pois fique sabendo que aguentava o Mekong e o que mais surgir. Não me conhece o arrojo e o gosto pela ganga - e por skinny também, mas isto é outra conversa de que não deve entender patavina - e pés na terra e na lama e o rosto ao léu. Mais montanha tenho eu nas pernas que o H., quer apostar? Até ao presente desbravada a corta-mato com as botas afastando os tojos e cardos e outros vegetais pouco amáveis. Sair às seis da manhã e subir 8 km sem trilhos, na mochila um boné para o levantar do sol, um algodão para muda quando o suor encharca a pele aí pelas onze e o sol escala o pino - a hora da fatia no dizer local - e um copo para das fontes beber mais água que a concha da mão retém. E sem encontrar vivalma nem derriço para entreter a carne e gozar porque a privacidade de sítio tão escuso tenha por certa! nem um pastor que esses se alevantam pela madrugada recém-nascida guiando o rebanho serra acima até onde abunda o pasto e num penedo escurecido por liquens ressequidos se assentam e vêem do sol o giro siflando ao cão de lã - que pêlo num cão é por ali coisa de rafeiro ou bicho fino - se uma ovelha desgoverna as demais e só atende ao cerco ladrado do vigoroso canídeo da Estrela. É lá homem para aguentar um dia destes 16 km - entre a ida e o regresso e o descanso num penhasco com o ocidente de Portugal à vista para lá do Buçaco e do Luso - em cinco horas de andança a cortar troncos grossos de giesta caída que lhe desvendem o carreiro da subida e da descida? E fala-me de rios da estranja e terras do oriente como se a aventura e a ousadia se medissem pela exótica lonjura do andarilho!...
Afaga o ego vir duma fuga às regras e contar dos perigos das duas horas e meia da subida de Huayna Picchu e dos deslumbres dos horizontes e o que no cimo se fez – berros ufanos, mascar folhas de coca ou entaramelar canção da Ana Malhoa, que quando o oxigénio falta a mente alucina e quem não se cuidar cai dali nem mais nem menos magoado do que se aventurar pé em desvio estilhaçado e rolar abaixo do Cântaro Magro. Vou além: acabar finado como o russo que um raio atingiu em Huayna Picchu à viúva dá o mesmo consolo que ser o respectivo atropelado com ramela nos cantos dos olhos a caminho da padaria. Diz dos mergulhos em lago nos Andes de onde às ordens do pai tirano e Deus do Sol terão emergido Manco Cápac e a mulher Mam Ocllo para fundar o império Inca. Romântica sugestão! Porém, já mergulhou no Vale do Rossim por alturas da Páscoa quando a neve entulha na Estrela o cimo e o frio racha a pele? De volta à cidade até pareceria mal o luzir do olhar por feito ao alcance de uma caranguejola ou de bilhete de segunda num intercidades... E depois ironiza my cruise disease especula sobre o meu gosto por gajos bem vestidos que nunca afirmei preferir mas que são tão homens e valentes como os enfiados displicentemente em etiquetas da Camel – conheço-lhes bem demais a imitação de globetrotter provado! - arrastando pelos aeroportos do mundo sansonites quiçá rafadas Louis Vuitton que lhes acresçam o ar de viajante sabido conquanto deles distintos por que almofadados em bons hotéis. Contos ao serviço de causa pobre: chamar à sua razão alguém de vista curta que se tem por menor em estilo e graça. Ámen.
CAFÉ DA MANHÃ
Viajante e aventureiro é o Homem que escreveu “Para Além da Solidão” e “Mais Além - Para Além do Evereste”. João Garcia de seu nome.
Publicado por Teresa C. às 08:20 AM | Comentários (5)
setembro 29, 2007
O ESPELHO DE PAREDE OU OS MEUS CONTOS SÃO-NÃO-SÃO AUTOBIOGRÁFICOS

Hubert de Lartigue
Imprimi e li em bom papel branco - só admito a excelência como registo palpável de um prazer. Reconheço: as noites de sexta-feira são da semana as melhores para fruir da intimidade. Nesta noite, jantar transgressor, um vinho que a subjectividade chame apetecível, música - jazz, orquestras dos fifties, blues. Mimo. Desenho. Pintura. A que faço e amigos mui queridos das artes plásticas me ofertaram ou adquiri. Da querida Manuela Pinheiro tenho sépias que me testemunham também o sono. Na sala há casarios, abstractos e cerâmicas em painel cujos detalhes elaboro e transfiguro no lembrar do momento. E escrevo. Intervalando por isto ou aquilo. Muito bom. E a noite adianto noutros deleites a que não me furto.
Adivinho-lhe o sobrolho arqueado, o alvor de um déjà vu - porque arredonda ela o discurso e não vai directa ao essencial? Mulheres! Pfff... Porque não me apetece. Pelo gozo da escrita fluida acontecer. Pela sua possibilidade de saltar parágrafos como a muitos é comum ao ler Joyce, Umberto Eco ou Saramago. Ou Ballester - aqui a gravidade é maior e devia, fosse newtoniana como a outra, fazer malhar no chão os saltadores.
"O Espelho de Parede” ou “Os meus contos são-não-são autobiográficos". Contos ainda assim. Se por autobiografia for entendido registo objectivo de um ser escrito por ele próprio, nunca o são. Por prezar o exercício racional, não excluo o deleite da subjectividade. Disciplino-a, reconheço. Todavia, alargo as rédeas se a volúpia for suserana. Na escrita e na vida. Preciso da realidade dos sentidos e de os recriar um a um. E se num jogo precário é o todo a impor-se, mal um pouco de tino é chegado e degusto o toque, o sabor, o olhar, que separo do olfacto e dos sussurros. Ou da voz média, por que gritos não suporto - ressalvo os impossíveis de conter a bem da majestade de específicos momentos.
O seu texto é um como um bom vinho tinto odorífero e de espessura capaz de pintar, sem pudor, copo alto em balão - ainda não entendi porque abrir uma garrafa é descompasso no meu espírito; somente munida de saca-rolhas de gigantes orelhas que perfuram e, no final, soltam a rolha num breve gesto, me afoito. Já nas de champanhe sou perita. Em rodada de amigas, é certo caber-me o acto. Ainda assim, melhora o gosto de um vinho servirem-mo.
Voltando à intimidade do seu conto. Prenhe de insinuações. O não-dito límpido como água. Foi voluptuosa a leitura. Entretanto, o copo ficou vazio. Bagos grossos de uva envolvidos em fromage frais batido parecem-me, dos complementos, o melhor. Que diz?
CAFÉ DA MANHÃ
- Fumo branco nas directas do PSD. Aqui.
- O ciclo do «eu» nos textos dos últimos dias já cansa. Amanhã, dou por findo este ciclo intimista.
Publicado por Teresa C. às 11:01 AM | Comentários (16)
setembro 28, 2007
NOS TARECOS, FUNDO NÓMADA

Brian T. Keller
Condomínios energeticamente auto-suficientes. Iluminação das áreas comuns, piscinas e o ar condicionado das fracções assegurados por sistemas semelhantes aos painéis solares comuns. Na construção, uma das diferenças reside em «folhas» duplas de vidro unidas por silício – elemento químico semelhante ao carbono e que na natureza, sob forma (im)pura, aparece como quartzo, abaixo do diamante na escala da dureza de Mohs que ao diamante atribui o valor 10 e ao talco o valor 1. Escala, de resto, enganosa, por ser a dureza do diamante 1500 vezes superior à do talco polvorento.
Quem pressupõe mais elevados os custos daquelas habitações, pasma perante orçamentos não diferindo muito dos usuais – 150000 euros um T1, 200000 um T2. Pela poupança, a prazo, da factura energética, a amortização do investimento é garantida, bem como a certeza de limitar a progressiva erosão dos recursos fósseis. Eficaz chamariz para a compra de espaço próprio, e fazê-lo à custa de diminuição dos rendimentos da EDP traduzidos em facturas que vão de altas a gigantes, ainda melhor.
Bons augúrios. Quem, como eu, tem lastro nómada, mudar tarecos não aflige - passa a outrem o espaço de hoje e compra outro ambientalmente exigente, cumprida seja a condição sine qua non do «v» dos verdes-natura não ser substituído pelo «v» dos vizinhos da frente que nunca tive e sem fuga da Lisboa que amo. Recambiados os cristais e os móveis antigos, mais os linhos e as rendas e latas várias para o sótão da casa beirã onde, desde há anos, hibernam ad eternum, mudança para nova casa é coisa de somenos: na (tres)passada ficam assentados os bens sem cabimento no porta-bagagens. Trapos, sapatos e malas enfiados em qualquer lado, transporte a preceito dos livros, óleos, cerâmicas, esculturas e retratos, e três vivas ao mais-que-perfeito pretexto para decorar, de raiz, espaço minimalista que ao planeta economize danos.
Publicado por Teresa C. às 10:24 AM | Comentários (5)
setembro 27, 2007
É DE SISAL O FIO

Barndog
Sabes? Quando não estás, gosto à mesma de estar. Que melhor sinal de enleio com porvir do que o sereno contentamento de te saber por aí e confiar? Nos dois, que ninguém ata o desatado com astúcias ou afagos. É de sisal o fio a cada dia mais denso por entrançar verdade e ternura e o (in)visível (in)dizível que não poupamos para um amanhã precário. De avareza não nos acusaremos – a fala é perdulária no conto das horas mediadas pelo quotidiano obrigatório, mansa no regresso ao «nós», doce se às memórias recorre. Memórias. Já sobre elas discorremos pela isenção de mágoa que as dolorosas soem arrastar; se te lembras, e sei que sim porque o «nosso» gravamos, ajustámos ter sido a vida uma mestra por ambos partilhada – quando o sofrimento rasga a alma e, por via dele o corpo impotente para lhe resistir, integramos o facto como teste ao crescer. “Porque ainda somos meninos”, disseste, e eu concordei. E por essa humildade para com o devir, se houver!, o presente sabes enobrecer.
É com o coração sobre a mesa, ou enrolado nos lençóis, que um ao outro encantamos pela magia do sentir. Disse-te, há tempo curto, que contigo multipliquei mil por mil o número de terminais nervosos da pele. Ora, tendo o mesmo tecido originado cérebro e pele, não é insensato dela dizer uma extensão cerebral. Aventaste que na possibilidade de penetrar no sistema nervoso de alguém, logo lhe delinearíamos o corpo, ficando sem resposta a pergunta se é o cinzento cortéx dos hemisférios cerebrais mais rico em tecido nervoso ou a pele. A esta não lhe negamos a condição de porta aberta ao mundo físico que, subida a escada, desemboca na consciência. E como dela fruímos! As pontas dos nossos dedos, mais sensíveis que os músculos, esvoaçam rasando do outro o corpo, arrepiando a fina penugem numa dilatada ânsia do toque que não vem e queremos sem querer subtrair à inflamada espera um segundo do querer. (Re)Conheces-me a fundura e as dobras e os recantos onde, firme, esperas. Suavemente. Aspiro o teu respirar e cadenciamos o beber gasoso com a pressão dos corpos em sabedor menear. Olhos semi-cerrados num sorriso que em simultâneo abrimos para nos lermos melhor. E não há final na expansão comungada do prazer – ao retrair, a pele desvenda o chegado silêncio que não ousamos perturbar.
CAFÉ DA MANHÃ
Foi ontem cremado Marcel Marceau. No 20° arrondissement parisiense, sombreados por árvores centenárias, repousam Edith Piaf, Proust, Oscar Wilde, Jim Morrisson e Chopin, agora acompanhados pelas cinzas do genial mímico. O cemitério Pére Lachaise - a não esquecer por quem deseja homenagear heróis das artes ou do saber -, é uma vasta área verde da capital francesa que deve o nome ao padre confessor de Luís XIV.
Publicado por Teresa C. às 06:28 AM | Comentários (8)
setembro 26, 2007
DE SÃO TOMÁS AO “FOSGA-SE!”


Emily Zasada / Pat Leary /Paul S. Brown
Já São Tomás de Aquino escrevia que “brincar é necessário para levar uma vida humana”. Defendo o mesmo: genuíno gargalhar repõe no espírito energia que o corpo agradece – é dado como provado que o riso liberta uma hormona, endorfina, que para o cérebro importa sensação de bem-estar, alivia dores e tensões. Uma boa piada, ou os factos encarar com bonomia e humor, são melhor remédio que pílulas a granel. Porém, o que faz grasnar de alegria um sujeito ou um povo não garante que outro almeje o mesmo. Os ingleses pelam-se por trocadilhos, os franceses e alemães pelo nonsense, os stars and strips preferem assuntos locais. Seja qual for a língua ou a herança cultural, deve o gracejo brincar com o efeito surpresa para a universalidade do linguajar do riso acontecer.
Por cá, o velho e autêntico vernáculo, condimentado pela gíria, está para as anedotas, como a batata para a sopa. Se de legumes melhor - grelos, ervilhas, nabos, ***alhos, tomates e pepinos servidos por curto e eficaz enredo, levam a lágrimas galhofeiras muitos portugueses. Noutra vertente, explosão de génio servida por um vigoroso “porra!” dizem fornecer maior alívio do que um “fosga-se!” desenxabido. O Millôr Fernandes jura que “o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de foda-se! que diz.” Pergunta se existe algo mais libertário do que o referido conceito para, de seguida, justificar: “O foda-se! aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me. "Não quer sair comigo?! - então, foda-se!" "Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então, foda-se!" Conclui que o direito ao termo devia estar consagrado na Constituição.
Sobre a mais divulgada medida de quantidade no presente português, botei por aqui discurso a 2 de Março (Do Mastro Ao Car(v)alho). O Millôr, mais corajoso e dotado de graça que eu, vai mais longe – "Comó caralho! Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade? Comó caralho tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.” Um outra expressão veemente e igualmente clássica é “Puta que pariu”. Tem uma sonoridade que o correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!" cadenciado não alcança. Perante um desmando institucional ou privado, um "puta-que-o-pariu!" bravo e forte põe nos eixos a emoção.
Nota – E pensar eu que não me atrevo além do “puxa!”, do “caraças!”, ou d’une merde ocasional!...
CAFÉ DA MANHÃ
A não perder o livro do João Magueijo – “Mais Rápido que a Luz” – editado pela Gradiva. Biografa o quotidiano dos fazedores de ciência e caustica os burocratas da ciência. E que importa se ao defender ser variável a velocidade da luz, “é Einstein ou Magueijo quem tem razão: este livro é acerca das ideias e do seu lugar no mundo. É acerca de como os cientistas trabalham em conjunto e acerca do que os separa. É acerca do quanto é preciso lutar para que as nossas ideias sejam aceites. No fundo, Mais Rápido Que a Luz é a biografia de uma especulação científica.”
Obrigada, querida Luna, pelo teu beijinho de parabéns.
Publicado por Teresa C. às 06:38 AM | Comentários (27)
setembro 25, 2007
TENTADORA COMBUSTÃO

Honey Potter
Não é o orgasmo a razão - labor curto e fantasia têm eficácia sensorial pelas gentes confirmada. Nem são precisos artefactos que dizem variados nas sex shops das cidades, tão pouco o despudor da webcam que tantos(as) viciam. No que me concerne e neste contexto, mobile toys e monitor da máquina de trabalho são menos estimulantes do que cozido à portuguesa, as carnes avinhadas com alho e louro desde a véspera, bem servido e melhor regado. Mas entendo das naturezas a diversidade e não caio no logro de condenar; prefiro o direito de sorrir de práticas que me excedem. Identifico-me com os adeptos das brincadeiras “au naturel comedido”. Artifícios só na maquilhagem leve e o do fogo espectral nas festas e romarias. Que adoro.
Se o móbil último do sexo presencial não é o orgasmo, qual é afinal? Do outro o toque, o calor, o folgar dos sentidos a que alguns somam um parêntesis na solidão, outros a confirmação de serem desejáveis e desejar, a busca infinda da(o) «tal» que rima e combina, a ternura cúmplice que o amor fermenta ou não?
É tentadora a combustão do desejo. O comburente subitamente ansiado pelo combustível, mais não seja pela preferência ardorosa e pavio incandescente. A consumação como efeito do arrebatamento. A isto chama o vulgo cedência. Ou explosão inconsequente. Ou estopa frágil que não cuida de afastar o fogo que a consumirá. Ou diminuída exigência interior. Tudo isto ou nem por isso. Momentos da vida de cada um. Que sabe de si. Ideia e decide. Ou decide e ideia depois. O arbítrio em exercício. Livre. Consequente ou não.
CAFÉ DA MANHÃ
- Solicito aos leitores que desejem um t-shirt semelhante às propostas que escrevam para o endereço “concursotati@hotmail.com”, indicando qual a imagem pretendida. Será fornecida para cada um utlizar no algodão e a seu bel-prazer.
- Fico grata pelas ligações estabelecidas para este espaço por amabilidade da Abbie, da Blogadinha, e da Gertrudis, do L’Etranger e do Recepcionista.
Publicado por Teresa C. às 06:50 AM | Comentários (18)
setembro 24, 2007
A FELICIDADE NUM EMBRULHO

Tobin James Mueller
A felicidade vende. Bem. Muito. Barato - ao preço dum seguro, duma ligação de internet, de um automóvel, iogurte ou de um refrigerante. Publicitários fazem do júbilo sofisticada ferramenta de consumo, substituindo a interioridade do sentimento pela dependência dos bens. O histerismo dos participantes em competições asnas por uma dúzia de electrodomésticos é, do mesmo, outra prova - torradeiras, aspiradores, plasmas e carripana, o marido mais a sogra e a prima e o vizinho numa cacofonia berrada de apoios e conselhos q’arrebentam tímpanos espectadores. É o mundo ao contrário. Os antípodas da racionalidade como espectáculo. O contentamento vão. A posse como a nova felicidade – mais ter, melhor ser.
Escrevia Carlos Drummond: "Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons". Pelo prazer simples do doce engolir. Sem outras metafísicas do que comer chocolates, como Álvaro de Campos recomendava na Tabacaria:
Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.
Quem desperdiça a folha metálica por que só embrulha um prazer, despreza da vida partes. No recuo aos horizontes de ontem, o reconto do histórico pessoal clarifica o hoje e privilegiar memórias desencantadas prova falta à lição maior: para ser feliz até um certo ponto é preciso ter sofrido até esse mesmo ponto. Negando mérito e algum louvor aos que da pele se acercaram e a sorte vária afastou, é o próprio que a si nega primeiro, porque quem foi o faz. E falam dos gajos do passado íntimo, das «chocas» com as quais se deitaram, apetecendo perguntar se foram gado barrosão sem outra serventia que estéreis parideiras ou inaptos cobridores. Ignoram o escrito de Yourcenar: "A felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a, a menor falta de delicadeza desfeia-a, a menor palermice embrutece-a”.
CAFÉ DA MANHÃ
Opção 2


Publicado por Teresa C. às 06:57 AM | Comentários (17)
setembro 23, 2007
SEM MACHO NA PARIÇÃO

Steve Hanks
Nasceu de duas mães. De macho não foi parte inseminada, ouvido ou visto durante a parição. Gargalhou ao nascer. Enfezado, mamou o alimento das mães e de quem tinha sobras para dar. Gatinhou mal – girava de rabo no chão, obstinado em do todo não perder pitada. Ao ano, os passos eram trôpegos e modo não havia de o encarreirar num andar firme - preferia as arrecuas ou pinotes desatinados. Um «pedo-psi» diria que o abandono duma mãe ao mês de vida traumatizou o fedelho e não lhe tornaria fácil o porvir. Mas foi. Gente boa amparou-o, deu-lhe abrigo e atentou nas patifarias do transviado, não regateando afagos se dava mostras de emenda. E lá foi crescendo o pirralho, sempre num percentil abaixo da média.
Hoje, usa bibe e todas as manhãs, como menino assíduo e pontual, é vê-lo alinhadinho na classe infantil. Cordato, de rasteiras, beliscões dolorosos ou puxões de orelhas perversos não é acusado. Arregala os olhos d’espanto quando melhores e maiores contam estórias e, à sua tosca maneira, alinhava o ingénuo pensar em rabiscos que exibe, pouco se lhe dando a valia do que faz. O gosto de aprender é, para ele, ir além da pequenez e arrecadar mantimentos para serventia quando for – porque é sempre - chegada a precisão. É galhofeiro. Sonhador, elabora as patifarias cometidas e com elas pintalga aventuras que só a ele encantam.
Nado e baptizado em Carcavelos, a 23 de Setembro de 2003. Sopra quatro velas. De seu nome “Sem Pénis, Nem Inveja”. Signo astrológico: balança, como a mãe.
CAFÉ DA MANHÃ

Autor que não foi possível identificar
O pirralho agradece à Lulu (a outra mãe), aos leitores e/ou comentadores, ao F.J.V., ao João Mãos de Tesoura, ao Mar Salgado, ao Nuno Guerreiro, à Carla Hilário Quevedo e à Rita Barata Silvério – por ordem de algumas das mãos estendidas no ensaio da andança blogosférica, mestres que o recomendaram e lhe ensinaram a ser quem é.
Publicado por Teresa C. às 09:57 AM | Comentários (18)
setembro 22, 2007
A PIRATA DA WILAYA

Barndog
Eu andava por aí, um pouco por toda a parte, quando aquilo aconteceu lá em Tamanghasset, no sul da Argélia, durante a missão de apoio a uma equipa de geólogos de uma empresa angolana com sede em Lisboa.
Naquelas paragens, a milhares de milhões de quilómetros de qualquer sítio conhecido, era raro passar alguém que não estivesse ou tivesse estado relacionado com o negócio; e o negócio tanto podia ser o gás como as gajas do Niger e do Mali ou outra candonga qualquer. Aquele em que eu estava envolvido era a prospecção de um afloramento de manganésio que um consórcio encabeçado pela DjazirMine mas controlado por franceses e angolanos, se preparava para explorar em condições de concessão pouco claras e que tinha transformado por completo o até então imutável bem-estar da gente semi-nómada que ali vivia feliz desde o princípio do mundo.
Em menos de um ano Tamenghest passou a ser TamenVille e os hoteis, lupanares, cinemas, lojas de vídeo, ‘tabakifarias’ e tudo e mais alguma coisa, tinham invadido o lugar. As discotecas, cabarets e clubes nocturnos também e embora de iniciativa berbere, alguns exibiam muita qualidade; foi num deles que tropecei nela, na ‘Dama’.
De ambiente denso e fingidamente dramático, como interessa nestes negócios de sedução, o Ksar-Adal era inesperadamente luxuoso e ao gosto europeu. As empregadas eram seleccionadas segundo padrões bem estabelecidos – tinham que falar inglês e francês, que podia ser arrevesado ou com sotaques exóticos; tinham que ser altas, com mais de um metro e setenta; loiras, mesmo que fosse artificialmente e tinham que conhecer todas as danças de salão - tangos, paso-dobles, quick-step, etc.- capazes de fazer o encanto de qualquer escandinavo, grego ou nipónico, mesmo que fosse vesgo, engenheiro ou apenas vendedor de maquinaria para extracção do precioso mineral estratégico. O néon em dois verdes, por cima da entrada, era bem explícito
أخضر قصر
KSAR - ADAL DANCING
DELUXE
Deluxe! De facto, depois de atravessar um pequeno hall, iluminado com apliques déco, passava-se a um enorme salão de decoração muito cuidada, com cortinados de veludo, mesas redondas com pequenos candeeiros de abat-jour carmim, cadeiras de madeira maciça e uns sofás à volta, por baixo dos espelhos das paredes, a fazer recantos; ao fundo, sobre um plateau, a orquestra de dança e ao centro, a pista encerada.
Como ia a dizer, foi lá que tudo... tudo foi a minha morte emocional! A perdição do meu ser desportivo e arriscado. Até o beduíno das ideias ali ficou destroçado… tudo foi vê-la.
As meninas-dançarinas do Ksar-Adal andavam vestidas de verde e tinham nomes da mesma cor - a Mary Green, uma americana de grande chapéu de feltro e casaco de pele de cobra até aos pés, por cima do corpo nu ou quase; a Grün Fräulein, uma valquíria silenciosa, vestida de couro reluzente e apertado ao corpo, com a saia abaixo do joelho e botas de salto em agulha, altas mas a deixar entrever uma nesga da perna; a Paloma Verdecita, maquilhada pelo Almodovar lá do sítio, com a boca e unhas e olhos e sabe-se-lá-o-quê, tudo pintado em grenat e que dançava descalça; Mlle. Jeanne La-Verte, distinta, enigmática, com um bonito tailleur sem ombros mas com um accent a lembrar a Rue St. Denis; e outras, que embora muito atraentes e fascinantes se apagaram incaracterísticas quando a vi - a Dama-de-Verde!
O gesto nada teria significado se não fosse a intencionalidade do olhar simultaneamente gélido e incandescente com que me fitou quando, do alto da sua segurança profissional me chamou para a dança, de braço esticado na minha direcção, com uns movimentozinhos rápidos do indicador a dizer ‘anda cá!’. Era uma ordem; que me deixou inseguro e ao mesmo tempo intrigado. Devia ser tudo construção minha... é do kif! pensei; mas era embaraçoso não só porque, com o meu escasso metro e sessenta e pouco, era bastante mais curto que ela como porque nunca fui capaz de dançar aquelas coisas clássicas como toda a gente. Mas o que mais me afligiu foi o intenso fascínio em que me achei surpreendido e o pasmo por ela me ter chamado no preciso momento em que me imaginava a abraçá-la, perdido de gozo, no meio da pista, a dançar e a viver e a morrer de... whatever!
Em fundo, a música envolvente, tocada por um grupo que preenchia os intervalos da orquestra habitual, agora cantados por uma senhora em tudo semelhante às outras mas com um cabelo preto, lindíssimo, que lhe caía pelas costas abaixo. Talvez um privilégio por não ser dançarina; ou uma condição de contrato, por ser cantora
shee... wooore... bluueee veeelvet... oohh ohh
bluer than velvet were her eyes
warmer than May her tender thighs
la la laaa... la...
Foi uma pequena distracção em que me diluí mas ela lá estava, impositiva, com um brilho no olhar, a dizer ‘Vamos!’. Levantei-me e cambaleando mentalmente, segui a personagem de magia que me tinha saído no tarot daquela noite e de quem só conseguia perceber a imagem. Era uma mulher de idade imprecisa, esguia, com mãos muito compridas e que parecia absorver tudo aquilo em que punha, depunha, os olhos azuis, escuros dum tom como nunca vira. Denotava a segurança vinda da experiência de uma maturidade provavelmente arrancada a ferros mas que não deixara marcas visíveis, nem no corpo nem na cara; a não ser uma certa fixidez do olhar, momentânea, que notei por entre o zumbido mental que me obstruía.
A orquestra tinha regressado e agora, ali no meio da sala, a Dama-de-Verde tornara-se leve e a frescura que saía do seu corpo fez-me sentir quase tranquilo. Com a cara encostada ao peito dela lá ia escapando ao olhar de céu-e-inferno que era um dilacerante repuxar dos sentidos e que exercia sobre mim um fascínio quase dor. Parecia que sempre dançara o tango, La cumparsita! Ah Gardel... que volúpia!
Aspirava-lhe cada movimento e absorvia-lhe os ténues cheiros inebriantes. Aquela mulher seria minha; ou eu dela. Ou as duas coisas.
Incrédulo, ouvi-me a dizer, surdamente, Onde é que você vai quando saír daqui? e logo a seguir, num crescendo imparável, Se estivessemos na idade média roubava-a! Levava-a comigo à força... você é minha.
Nunca me sentira tão forte. Parecia renascer a cada minuto e sentia-o com uma certeza que me deu outro alento, Você diz adeus a isto tudo. Daqui vai ao vestiário buscar a sua carteira e vai ter comigo ao Hotel Al-Mansour. Amanhã vamos para a Tunísia e foi quando caí em mim, estarrecido; ao ouvi-la dizer, Foi de lá que vim! Mas vou para onde quiseres. Tenho andado sempre atrás de ti...
O quê!? exclamei, mas... como!? Nunca estou muito tempo no mesmo sítio. De onde é que tu és?
A resposta nem a ouvi, perdido em investigações de memória dispersa. Sou de Lisboa, disse ela, desta vez fingi vir de férias e com um sorriso denso que me pareceu enigmático, acrescentou, trabalho no SIS e vim para cá para ver o que andas a fazer com esses lavadores de metais... mas já não consigo e afundei-me, eles não sabem de mim. Amo-te e vou contigo para qualquer sítio! Eu sou tua.
Um zumbido denso enevoou-me os sentidos. Apatetado saí dali à pressa, quase a correr.
Nunca mais a vi.
Conto mais votado entre os que excederam os 2500 caracteres no "Veneno Com Açúcar" – Pirata Vermelho
Dia 5 da “Despedida de Agosto da Tati”

CAFÉ DA MANHÃ
Um comentador sugeriu que fosse possibilitada aos leitores uma t-shirt semelhante à que será ofertada ao premiado do "Veneno com Açúcar".
Opção 1

Amanhã será publicada a opção 2. Os leitores decidirão qual das duas será escolhida.
Publicado por Teresa C. às 09:26 AM | Comentários (18)
setembro 21, 2007
"ERRARE HUMANUN EST, NÃO EST?"
Porque houve erro grosseiro, que assumo, na contagem dos caracteres do conto da Mcorreia, o conto do J, hoje publicado, é o terceiro finalista do "Veneno com Açúcar". Fica desempatado o empate que levou à publicação de quatro textos.
DESPEDIDA DE AGOSTO

Autor que não foi possível identificar
Por brincadeira, uns chamavam-lhe talassomaníaco, outros ficavam-se pelo menos prosaico ginecomaníaco...
Ficava horas infindas sentado em frente ao mar, fingindo ler algum livro que sempre levava consigo, na pouca sombra disponível.
Fingia.
Porque o que ele mais desejava era estar, estar simplesmente, olhar, apreciar os belos corpos quase nus, misturados com a areia, em simbiose perfeita com o mar.
Nesses momentos de puro prazer, quase de exaltação máxima, toda a história se lhe repetia no espírito inquieto.
A sucessão de imagens, como num filme mudo, recriava-lhe, um a um, todos os mágicos momentos dela:
a meticulosa preparação de todos os pequeninos nadas que lhe tornavam a vida feliz;
a criteriosa escolha da literatura que lhe ocuparia os raros minutos livres;
a parafernália de jóias, falsas e verdadeiras, adequadas a cada momento do dia ou da noite;
o extremo cuidado na arrumação da indumentária que usaria na praia, com especial ênfase no efeito que causaria ao vesti-la ou despi-la;
ela, ali, confundindo-se com a areia, desejando sentir-lhe nos ombros os pés nus...
Era, ao tempo, um espírito insubmisso, mas, simultaneamente, de uma sensibilidade que só os muito íntimos vislumbravam. Talvez fosse esta a fonte da sua extremada paixão pelo mar. Ela era, seguramente, a origem do epíteto de ginecomaníaco que os mais superficiais conhecidos lhe davam.
Naquele ano, decidiram-se por uma breve visita ao encanto paradisíaco da cosmopolita Portobello, seguida de uns fabulosos dias de mar azul, divididos entre Capri e a belíssima costa amalfitana.
Há muito tempo que o seu espírito inquieto lhe não proporcionava uma tão intensa paixão e , ao mesmo tempo, uma tão profunda mágoa que, por antecipação, lhe trazia o fim de Agosto e o início do Outono.
"Es siempre mejor el camino que la posada"...
Que diabo! Sempre este a recordar-lhe a sua eterna maneira de sentir!
Porém, o mais curioso foi que, enquanto ela chorava angustiada pelo fim do Verão, aquele Agosto acabou por fazer dele um poeta!
O Amor
está no pormenor...
Já não há amoras nos silvedos.
Do ninho que na Primavera soube
restam palhas.
Das árvores de fruto
as secas folhas
esperam do Outono
o vento agreste.
Regressam à cidade, e como eu,
retornam ao bulício
os corpos que o sol escureceu.
A pouco e pouco vão-se os dias
de calma, de fascínio, de alegria.
O mar, o sol e a fantasia
dão lugar à doce melancolia...
Ele recitava, ela chorava!
Por fim, serenaram ambos. Agosto, o belo, chegara ao fim. O quotidiano de obrigações, de desânimos e de alguma angústia retomara o seu ciclo.
Era o Outono...
A pouco e pouco chega a tristeza.
Secam as folhas nas árvores.
Lentamente, as sombras.
Já não há cor. Apenas luz.
Uma lágrima nos teus olhos
como uma gota de ternura.
A dúvida na tua alma
enche-me os lábios de amargura.
Conto finalista do Veneno Com Açúcar – J.
Dia 4 da “Despedida de Agosto da Tati”

CAFÉ DA MANHÃ
Qual mecânica celeste, qual quê, que obriga o mundo a girar? !... Newton foi um inocente que o contexto justificou. O dinheiro é a força centrípeta que a cada momento faz a Terra rodar. Se não, como justificar a abertura dos serviços noticiosos da CNN, BBC, Sky News e de milhares de televisões com a saída milho-milionária do Chelsea do excêntrico, perito escultor da própria imagem, charmoso, rude e (des)propositado Mourinho?
Notícia fornecida de raspão foi a do encerramento da central nuclear de Yongbyon, na Coreia do Norte. “Peritos em segurança afirmaram que a central nuclear poderá ter sido encerrada para permitir a Coreia do Norte remover plutónio usado e reprocessá-lo em combustível para armas nucleares. Mark Gwozdecky, da Agencia Internacional de Energia Atómica, afirmou que a central pode conter oito mil varetas de combustíveis usadas, e peritos dizem que essa quantidade daria para produzir entre seis a oito bombas atómicas. Gwozdecky disse que a agência não tem a certeza sobre o tempo em que Pyongyang pode transformar as varetas em armas nucleares.”
Tivesse este acontecimento merecido honra de prato principal no menu das televisões, e de Newton contaria o génio e a actualidade das três leis fundamentais da Mecânica no que ao planeta concerne. Assim, não.
Publicado por Teresa C. às 08:26 AM | Comentários (12)
setembro 20, 2007
O PINGO

Al Moore
Tropeçou na fita do robe que pendia sedosa pelo soalho pingado do banho. Nua. E a fita se arrastando do roupão de cetim rosa. Um laço estreito que prendia os dois pedaços cruzados, displicentes sobre os seios, a barriga os pelos salpicados da púbis.
Nua. Lambida de águas de banho. Húmida. Dois dedos de um pé entrelaçados na fita. Arrastado o laço num desfazê-lo e ela tombando, um pé adiante do outro num tropel de pé coxinho, as unhas brilhando, fazendo ziguezagues de vermelho no tapete branco do lado esquerdo do leito enorme em ferro daquele quarto de hotel alentejano.
Era pelo fim de Agosto. O sol rodando para oeste, poisando muito inclinado sobre o horizonte, ainda intenso no balaústre de cimento. A janela separando do quarto a língua da areia e, para lá, o Oceano. Azul. Um azul que não sei descrever. E nem o azul que era outro de tonalidade, o azul do céu muito para lá da fita de varanda em cimento cinzento, fervendo do sol de todo o dia.
O céu com uma nuvem solitária, rosada de um pôr de sol de dias antes. Ou de outro lugar, quem o sabe.
Sentava-se na beira do tecido que, desfeito, assim mesmo, era um luzir de olhos no decorar da cama em malmequeres e verdes. E antes que prendesse cada uma das meias, foi despindo o robe que se havia preso e, sentada de esguelha, as pernas dobradas, olhava o dedo magoado na fita presa.
Desfez-se o nó e abriu-se em dois o tecido que lhe descobre o seio farto e a calcinha em tons de amarelos, de lilases: rendas miúdas lavradas no preto.
(A caixa de cartão ondulado, ocre com, dentro, papel de seda cor de rosa. A cor do laço que desfez depois de fechar a porta ao rapaz da entrega. Dizia no cartão:
Apenas um meu sinal em jeito de pedir: resguarda a tua com esta obra de arte
Um beijo
Alfredo
Agosto de 1947
)
Todo em preto o cinto ligas que ela prendeu a cada meia de vidro ao tom da pele, num gesto que lhe fez as mamas em presunção de deusa antiga, ou, bem mais, de cortesã.
Nua no quarto, olhou a nuvem pequenina parada a espreitá-la. Sorriu de se pensar olhada de tão alto. Sorriu daquele seu jeito de deixar o sorriso dependurado e a língua brincando de esconde-esconde entre os dentes.
E o quarto foi-se empapando de doirado. Lento.
Soltou pelos ombros o cabelo preso na toalha de felpa. Sacudiu-os da esquerda para a direita e de frente para detrás e num vice-versa de gestos largos e rápidos, as mamas se soltando ao compasso.
Um relógio de torre foi badalando: Dum, dum, dum…
Oito da tarde.
Já quase noite não fora ser ainda Agosto.
Sobre a nudez mal escondida, colocou, dengosa, num escorrer mole de pele de cobra, um vestido pérola de decote redondo, atrás e à frente.
Sem mangas e justo.
Muito mais era o decote que o tecido na zona que medeia entre as duas mamas e a cintura. Muito cingido, era o vestido, nas ancas e no peito.
Os dois seios sem mais vestirem que essa pele que lhes deixava os bicos num redondo, amaciados, soltos.
O dedo dorido suplicava sandálias. Calçou as prateadas de saltos muito altos que lhe endireitavam o tronco e intumesciam as mamas e o rabo.
Olhou-se no espelho. Distraiu-se do dorido do dedo. Gostou-se um segundo.
Pendeu de cada orelha dois brincos de pura fantasia, compridos, enleados em cores e brilhos.
Foi enfiando, como se sem pensar, em cada pulso, variadas pulseiras, cada uma delas com as cores de cada brinco.
Antes de pegar a saca muito grande numa palha fininha salpicada de flores feitas em tecidos (uma preciosidade que não largara todo o Verão) sentou-se a retocar o batom vermelho, e pulverizou, atrás das orelhas, com um perfume suave.
A lua encheu de luz o quarto.
Mas quando foi isso, ela ia longe: soltava gargalhadas numa rua estreita; enterrava saltos em empedrados; bebia o ar de Agosto.
E o ar de Agosto despedia-se dela com ciúmes: uma água fina, mais um pó de estrelas, começou a cair devagarzinho, aí pela meia noite.
Virava-se o mês de oito.
No decote redondo, escorrendo sobre o bico de um seio, um pingo anichou-se e segredou baixinho:
- Tati, até para o ano.
Conto dado como finalista do "Veneno Com Açúcar" e que deixou de o ser por incompetência minha na contagem dos caracteres – Mcorreia
Dia 3 da “Despedida de Agosto da Tati”

CAFÉ DA MANHÃ
Não ando distraída do que ao redor desliza. Descontando as continuadas tragédias de desaparecimentos (Maddie) , mortes e abandono que envolvem jovens e crianças – a pequena “Abóbora” deixada como jornal lido num aeroporto, a mãe jazida, assassinada, cerca dos muros do quintal na pacífica Nova Zelândia, a rapariga esfaqueada em Coimbra pelo ex ressabiado -, a transladação do corpo de Aquilino Ribeiro para lugar selecto com honras de estado é justa. Os monárquicos, apegados a memórias que não sabem digerir, confundem o cidadão com o Escritor. Ambos em paz.
Deixemo-nos de larachas e fígados avinagrados – é triste cada estudante custar aos portugueses metade do que alguns países pagam. À excepção de um, na Europa unida, todos despendem mais do que nós. Sejamos honestos - na educação vejo ressuscitar a noção de exigência por parte de todos os intervenientes (conselhos executivos, docentes, discentes e pessoal auxiliar). Os meios progridem. Vagarosos sinais de esperança.
Nos States a liberdade de expressão vai de mal a pior. Seis polícias assanhados deram forte e feio num jovem cujo crime maior não foi do que intervenção tida por inconveniente numa fórum de público debate. E são estas democracias «exemplares» que enformam o mundo...
Publicado por Teresa C. às 06:50 AM | Comentários (23)
setembro 19, 2007
AINDA NÃO SEI

Andrew Valko
Ainda não sei se este arrepio que prenuncia o frio é feito de brisas geladas de inóspitas madrugadas de um Outono imberbe ou de recordações sobreaquecidas pelo sol de Agosto que a tua pele mais destapada reflectiu ao ponto de me encandear.
Instala-se a dúvida neste olhar que se fixa num ponto do horizonte cada vez mais distante, tão longe que se torna num simples borrão.
Um ponto de interrogação agasalhado de forma precária, no topo de uma falésia, pela memória de um Agosto exclamado da cabeça aos pés.
O olhar que flutua ao sabor das marés pelo teu corpo pensado e pelo mar agitado que expulsa da praia quem ouse perturbar a solidão de um momento de introspecção acerca da vida, a tua lembrança despida e a minha saudade soprada pelo vento como um patético lenço branco arrancado das mãos de quem se despede de um amante, imóvel na tristeza de um cais.
E este arrepio que se apodera de mim, surpreendente, revela-se incoerente quando os meus olhos vagueiam pela praia e encontram, sem querer, uma pequena explosão de cor provocada por outra mulher como tu. Ou ainda melhor.
Desperta aos poucos este membro de um género que acolhe Setembro como o mês ideal para a renovação, renascida a emoção das cinzas como uma ave encantada que jazia adormecida sob os escombros escaldantes de um Agosto que para o homem volátil que sou decerto ainda não acabou e no rescaldo do incêndio circunscrito esconde-se o fogo de um impulso proscrito que o irá reacender.
O sorriso que já não podes ver anuncia a nova estação, o renascer de uma ilusão que te exclui.
Agosto não passa de um mês no calendário mas o nosso amor suicidário comprou-lhe um bilhete só de ida.
E eu já estou de partida.
Para onde ao certo, isso ainda não sei.
Conto finalista do Veneno Com Açúcar – Shark
CAFÉ DA MANHÃ
Noite do dia 2 da “Despedida de Agosto da Tati”

Publicado por Teresa C. às 07:15 AM | Comentários (25)
setembro 18, 2007
DESPEDIDA EM AGOSTO

Garmash
A praia secreta estava escondida para lá do farol, e a descida era íngreme e demorada. O mar parecia maior do que o normal, talvez porque daquela perspectiva o mundo parecia suspenso entre o areal e o céu. A cor do mar era um azul incandescente e o vento trazia o odor da rama dos pinheiros até nós. Um bando de gaivotas passava ao longe, e os seus gritos ecoaram naquele espaço que parecia uma catedral de rocha, mar e luz. A água era cristalina e na maré baixa via-se cada grão de areia dourada sob a sua superfície. O cheiro a maresia era intenso, uma brisa com sabor a sal percorria a costa e ouvi as palavras que fugiam da boca da Isabel, acompanhando o seu olhar perdido no horizonte: este é o meu lugar favorito no mundo.
Tínhamos dezassete anos e desde sempre fazíamos férias em S. Pedro de Moel. Olhei para ela, reflectia toda a beleza e alva esperança daquele dia. Levava um vestido branco e leve sobre o bikini, que o vento moldava ao seu corpo. O cabelo cor de feno ondulava ao vento e os seus olhos castanhos com matizes de mel pousaram sobre os meus antes de me sorrir. A Isabel tinha o sorriso mais bonito do mundo. Fizemos o picnic sem mais companhia na praia, nadámos com braçadas enérgicas na água gelada e dourámo-nos sob o sol quente daquela praia silenciosa, que parecia jurar-nos que nunca revelaria a ninguém o segredo daquele dia.
O ocaso anunciava a hora de regressar a nossas casas, e perguntei à Isabel quantos dias assim nos reservaria a vida. Uma tristeza bailou nos seus olhos cálidos, uma premonição ou uma certeza que a juventude não me permitiu detectar. Os nossos passos pareciam não deixar pegadas na areia, mas sim rastos de esquecimento, como se fossem um modo de dizer silencioso. Caminhávamos abraçados, e cada coisa parecia saída da eternidade, o futuro era tão grande como uma data remota. Não esqueças nunca este dia.
Aquela praia da minha juventude já não existe. A erosão da costa nos últimos quinze anos e algumas derrocadas transformaram-na num reduto inacessível, o areal e a luz desapareceram para sempre e agora vivem apenas na recordação de quem ali passou. Há muitos anos que não vou lá, como se temesse que o regresso àquele sítio fizesse evaporar definitivamente a minha juventude. Quando me despedi da Isabel naquele Agosto não sabia que seria para sempre. Aos dezassete anos há notícias que não se esperam, e à medida que fui crescendo sempre voltei àquele dia na praia para afastar as sombras do passado. Não esqueço nunca aquele dia. A minha memória é também a da Isabel, e estas palavras testemunhos da luz que invadia as nossas vidas. Não sei se serão fieis ao que vivemos ou apenas ecos da saudade, porque as certezas partiram todas contigo, Isabel.
Conto vencedor do “Veneno Com Açúcar” - Katraponga
CAFÉ DA TARDE
- A cópia do óleo vencedor a estampar na t-shirt do vencedor, dado o humorado caos da votação, será a 4 ou a 5 à escolha do Katraponga.
- Nos próximos dias, serão publicados os trabalhos, contrapondo à beleza e glamour da iconografia do Gil Elvgren, a modéstia do real. À Teresa C. e à autora do blogue não agrada fabular a Tati. A escrita e a pintura são o que neste blog importam.
Dia 1 da "Despedida de Agosto" da Tati -

Publicado por Teresa C. às 07:28 AM | Comentários (20)
setembro 17, 2007
TRINTA ANOS DE HOMENS

Entre marido, companheiros e amores (des)encantados celebrou trinta anos de homens. Para comemorar o varrimento masculino – a todos despedira – juntou amigos do peito. Um pedido feito com doçura e humor: visual de gala que o afecto compreenderia. Perplexa, abri o convite impresso comme il faut; Nem deu para um pestanejo – liguei. Rindo, explicou: existem, descontando aniversários, casamentos, baptizados, comunhões e crisma, despedidas de solteiros, inauguração de nova vida após um divórcio, “chás de panela”, despedida do emprego e as de qualquer sorte que alguém engendre. Apetecia-lhe comemorar, com pompa e testemunhas afectuosas, a decisão tomada ao apagar as quarenta e sete velas do bolo de anos: "homens nunca mais!" “E presentes, haveria?” Que sim, claro, se respeitassem o propósito. E mais não disse.
Pelo final do dia agendado, subimos a bordo da embarcação - um clássico veleiro herdado do pai e a custo mantido em honra da sua memória. Tocheiros bruxuleando com a brisa, o lusco-fusco exaltado pelos potes de cera ardente, música oriental, tapetes e almofadões espalhados no convés. Outros assentos ou mesa, nem vê-los. Indícios de paparoca, também. Convidados reunidos, anfitriã omissa, mistério e expectativas em crescendo. Num roçagar de mousselinas e pingentes chocalhando, quatro bailarinas com máscaras moviam, estonteando, o ventre. Manso o confluir do Tejo e do oceano. O sol acamou sem um aplauso juntar aos muitos que foram ouvidos. Ao destaparem as dançarinas o rosto, o último era o da formosa Carminho. Refeitos da surpresa, ou talvez não e à conta dela, começou, desenfreado, o festim. Fosse pelo odor a sândalo, pela excelência do alimento ou devido às margaritas cujo sal lambo arriscando a compostura, corria afrodisíaca a noite. Dissonante para quem se despedia dos amores.
Queria deparar-se com ela própria sem bengalas emocionais, dizia. Experimentar a condição de mulher somente emoldurada pela família primordial, os amigos e o trabalho. Ser livre para de tudo fruir sem prestar contas. Despedir-se das inevitáveis cedências aos parceiros – dos melhores, acrescentava, os que lhe haviam passado pelo coração. E se ardente, dela contavam... Está de partida para a África Oriental como voluntária numa organização humanitária. Que Mulher! Ofereci-lhe um kit completo de sobrevivência. O que lá ia, além do óbvio, não comento.

CAFÉ DA TARDE
O júri escolheu os três contos finalistas do “Concurso Veneno Com Açúcar”. Por ordem alfabética do nick do autor, seleccionou os seguintes, dois deles com igual pontuação:
“Despedida de Agosto” – J.
“Despedida em Agosto” - Katraponga
“O Pingo” – Mcorreia
"Ainda Não Sei" - Shark
Pese embora a qualidade dos textos, foram excluídos os que excederam os 2500 caracteres. O mais votado será também publicado.
Publicado por Teresa C. às 07:10 AM | Comentários (34)
setembro 16, 2007
DESPIDO TRAÇADO



Willi Kissmer
O.K., foi longa a noite. Bolas de queijo fundido e coxas de galinha de massa tenra – onde chegámos que até os frangos têm coxas fingidas! -, brasileirice que o palato não rejeitou, uma caipirinha e uma caipirosca de caju. Tudo a dois passos do Tejo, noite tépida a condizer com o traçado a que alguém chamou “despido”. Ignorância, é bom de ver!, por ser do mais fashion que há. E se ao traçar despe quando era suposto vestir, que arrecade a culpa o Nuno. Baltazar. A propos, o falado robe manteau não passa desta estação. Perdoei a saia do abas-de-grilo que insististe em mil vezes apertar até a costura dar de si e abrir em plena recepção. Não foram os copos, que os olhos toldavam pelas seis da manhã, e teria sido espectáculo indigno de ver. No molho da pista, julgo duas as pessoas que deram pelo acontecido. Mais não contei. Reforçaste a costura, foste um querido, mas, madre mia!, não sou um dos teus esquálidos manequins...
Esta Lisboa, subitamente, ficou uma aldeia - vamos todos aos mesmos sítios, deparamos com o colega, a vizinha, o amigo e a conhecida. Adeus bem-bom anónimo que uma cidade cosmopolita pressupõe. Ou um milhão e pico de habitantes sofre de parca imaginação, ou andamos todos à cata do mesmo. Uma pepineira! Entre o «despido» que «destraça» e não devia, e o “viva!, como está?”, esvai-se o prazer. É retomada a conversa interrompida, continua tresmalhado o néon, e, às tantas, a casinha é o mais apetecido. Julgo muitos os “casos” começados assim, à falta de melhor, que é como quem diz, para mudar de poiso e prevenir atentado às cruzes. Um sommier amplo garante encosto saudável e derrota os assentos mal desenhados ou os muros da beira-rio. O pessoal fica cansado e procura ninho. Por isto, defendo que o urbanismo das cidades cure da ergonomia dos espaços ao ar livre. A bem da entidade família e da virtude dos cidadãos, inauguro nesta matéria – soa a político com ronha! – petição. Depois, queixem-se das eslavas, orientais ou brasileiras. Nem são precisas.
Publicado por Teresa C. às 11:27 AM | Comentários (4)
setembro 15, 2007
HOMENS “CASADOS”? NUNCA!

Andrew Valko
Na liberdade do gineceu é comum ouvir: “homens comprometidos nunca!, Para um affair, incluem o grupo dos assexuados a par dos gays.” Louvável propósito. Que a solidariedade feminina se afirme também aqui. E depois, há aquele preceito da Santa Madre Igreja – “não cobiçar a mulher do próximo” – sexista por entender a mulher incapaz de cobiçar sexualmente alguém.
“Não cobiçar o homem da próxima”. Para a generalidade do mulherio é unânime o verbalizar da convicção. Os casados infiéis em pensamentos e actos, argumentam: com quem me tenho deitado então? Travestis não eram, certamente, e para extraterráqueas falham no estereótipo verde e com antenas. Aliás, a oferta está em alta sem que o estado civil delas gere constrangimentos. Acrescentam: “a condição de casado é uma espécie de seguro contra acesas expectativas da parceira ocasional. Permite escaladas de adrenalina e, no final, bye, bye que a família espera.
“Nunca fui infiel” é outro artigo dos princípios de conduta, entre mulheres defendido com ardor. Omitindo profundidade na discussão sobre que coisa é essa da infidelidade lasciva, recorre a pergunta: é socialmente infiel quem partilha com outrem a carne ou a categoria inclui vigorosa pimenta sensual isenta de consumação?
O peso dos mitos sobre a “pureza” da mulher condiciona o discurso feminino, conquanto nas atitudes as mulheres manifestem crescente desapego aos estereótipos que as enformaram. Recorro ao realismo de H. Balzac, o mesmo que manteve por mais de década e meia correspondência com a polaca Eveline Hanska. A três meses da morte dele, casaram. Pobre rica dama!...
“Falar de amor é fazer amor.”
“É tão absurdo dizer que um homem não pode amar a mesma mulher toda a vida, quanto dizer que um violinista precisa de diversos violinos para tocar a mesma música.”
“A constância é o fundo da virtude.”
CAFÉ DA MANHÃ
Os trabalhos 4 e 5, propostos para cópia estampada na t-shirt do vencedor no concurso “Veneno com Açúcar”, empataram. Please, desfazer o imbróglio é preciso.
Publicado por Teresa C. às 10:59 AM | Comentários (32)
setembro 14, 2007
COMO OVO DE AVESTRUZ



Keith Garv e Bo Bartlet
O espelho. De parede a parede como regista a memória descritiva da habitação. Impiedoso pela majestade. Ditador pela imposição da mirada. Ultimava o prender do cabelo num rabo-de-cavalo apressado. Ténis, calções mínimos que os movimentos não limitassem no ginásio, um algodão fino em cima. Branco. Nem vestígio de maquilhagem. Fórmula pacífica para a descompressão do corpo e mente. O restauro da flexibilidade e da carga muscular esquecida nas férias. De tudo. A leitura e a escrita foram apartes.
Olhei-te, espelho meu. Não me vi – desfilavas imagens do (sub)consciente gravadas nos últimos dias. O apaixonado regresso ao trabalho – quantas saudades do amor pelo qual sou paga! -, as especulações exaustivamente repetidas e aumentadas sobre Madeleine, as três mortes em Viseu – a que tragédia o desespero conduz um ser humano! -, memórias esborratadas porque demasiado recentes – o tempo como mediador da definição dos contornos emocionais -, a visita do Dalai Lama e as cedências de gabinete a estratégias mal amanhadas, a intervenção da Ana Gomes em que, neste particular, me revi, o putativo soco do Scolari.
Ressalvando a vida e a morte, a dignidade e os ardis da subjugação, o resto é oco. Como ovo de avestruz pintalgado de enfeites. Num canto perpetuando o vazio. Empoleirado num suporte vistoso. Lascado num lado. Casca pintada de onde a vida sumiu.
CAFÉ DA MANHÃ

Teresa C.
Última imagem para votação (ver post do dia 10 de Setembro).
Publicado por Teresa C. às 09:07 AM | Comentários (14)
setembro 13, 2007
BONITAS E COM MUITOS AMANTES?

Autor que não foi possível identificar
Um exemplo de lucidez masculina. Normalmente, as mulheres muito apelativas a quem o tempo burila e soma encanto, de tal modo se habituaram a serem constituídas objecto de desejo guloso e atenção, que o enfado sobrevem. Não sentem o conforto do anonimato num espaço social, ao conduzirem, ou simplesmente caminharem equilibradas por sacos de supermercado nas mãos. Homens, quase todos, mulheres ainda mais escrutinam-nas, num ápice, da cabeça aos pés. Existindo vestígio de desarmonia na embalagem, é garantido reparo caridoso(?) de algumas confrades – “tens o botão semiaberto”, ou “o fio puxado na meia”, ou “hoje o teu ar não é dos melhores”.
As realmente bonitas e encantadoras nas atitudes, têm maior dificuldade na harmonia sentimental. Por que alvos apetitosos, estão cruelmente expostas aos homens que coisificam a mulher e ambicionam trazer a tiracolo fêmea compatível com o estatuto e o automóvel e que aos pares atormente com a inveja. Ora, é sabido, expectativas tão frívolas não projectam contentamento a ninguém. E surge a dúvida sistemática – sou querida pelo conteúdo ou pelo precário continente? Minada a confiança, estão atentas aos sinais envenenados que identificam bem. Infelicidade dobrada para aquelas que têm como fim último no amor a tranquilidade cúmplice e a generosidade de uma partilha sã.
CAFÉ DA MANHÃ

Teresa C.
Quarta imagem para votação (ver post do dia 10 de Setembro).
Publicado por Teresa C. às 07:57 AM | Comentários (14)
setembro 12, 2007
AS NOITES DE CHINATOWN

Jia Lu
Um escolho na cidade. Odores promíscuos para os doutrinados ocidentais. Gosto fácil para os pechincheiros urbanos ou para lascívias inquietas. “Transversal o sexo das chinesas, oblíquo o das mulheres de Java, em cruz nas mulheres de Bornéu, flor obediente nas de Samatra, magnéticas as naturas das mulheres do Industão, vasto e profundo percorrido pelos ventos da monção nas do Songo, semelhante a ostra que dentro guarda duas pérolas em cada mulher de Malaca.” A história de Simão Montalegre, verdadeira Peregrinatio ad Loca Infecta, que Abelaira conta. O bosque harmonioso que alguns homens incessantemente procuram?
Em Nova Iorque, Chinatown tem ao lado os lofts de TriBeCa - "Triangle Below Canal Street", - que Robert de Niro prefere, e o listado verde, branco e encarnado da deliciosa Little Italy, hoje pouco restando da presença imigrante de outrora. Os espécimens alimentares exóticos, vivos ou secos, expostos em bancas, intrigam a vista e o olfacto da multidão num sobe-e-desce contínuo. Que procura a gentiaga que por ali arrebenta as costuras do bairro? A diversão pela diferença e o mesmo que no desfigurado Bairro de Campo de Ourique, por ora pejado de dragões e falsas lanternas dependuradas às portas – a pechincha ou a contrafacção d’encher-o-olho por meia dúzia de moedas.
Os dias arrastados pelas noites duma Chinatown lisboeta. Quem sabe futuro sítio da moda, facturando milhares à hora.
CAFÉ DA MANHÃ

Teresa C.
Terceira imagem para votação (ver post do dia 10 de Setembro).
Publicado por Teresa C. às 08:53 AM | Comentários (12)
setembro 11, 2007
DAS RÁDIOS, A VOZ

Autor que não foi possível identificar
Poderia começar pela voz. Envolvente. Pela emotividade. Transparece. Pela prosa poética. Assertiva. Pelas ideias que escorre. Suavemente. Poderia falar dos valores adivinhados. Próximos dos meus. É do Fernando Alves a voz, a emoção, a prosa, as ideias e os valores. Com ele nasço para a manhã de trabalho. Ouço os Sinais que deixa. Com ele criei harmonia. E não é deleite platónico a tender para romantismo démodé. Antes prazer. Puro e são.
A Voz, das rádios a melhor, atou descrenças e crenças de um improvável par: Madre Teresa de Calcutá e George W. Bush. Nas cartas da Mãe dos Pobres, há tempos vindas a lume, surge registo da intensa percepção do esquecimento de Deus perante a infinita miséria de milhões. “Ó Deus, ó meu Deus, repara em mim; porque me abandonaste?”, terá dito Jesus no Calvário. O humano desespero sobrepondo-se à divindade. E Madre Teresa relata como foi deixada sem resposta pela Divina Providência quando mais precisava de encontrar carreiros de esperança. Crise, ou exigência na fé?
Com George W. Bush o contrário. Inquirido numa entrevista se durante os mandatos já procurara um ombro para chorar, aquiesceu sem mais rogos. Explicou: “derramo as minhas lágrimas no ombro de Deus.” A divindade sempre a jeito para ouvir os lamentos de um dos deuses da guerra e da desesperança e das rupturas sociais. Religiosas e ambientais por arrasto. A crença ingénua de quem não pensa por dentro o tempo dos biliões de terrenos que comanda. De quem tem na mão a espada para decepar ou podar o mundo, de modo a que apodreça ou numa qualquer Primavera rebente viçoso, redimindo a injustiça capital disseminada como verme subterrâneo e nojento.
CAFÉ DA MANHÃ

Teresa C. (República Coimbrã)
Segunda imagem para votação (ver post do dia 10 de Setembro)
Publicado por Teresa C. às 09:00 AM | Comentários (8)
setembro 10, 2007
DO STROMBOLI O INCÊNDIO DOS CORPOS
~
Terry Rodgers
Sentindo o olhar dele pousado nela, levantou os olhos do monitor. Viu-lhe o sorriso e devolveu, no desigual castanho, a íntima luz que sentia. Eram mansos os serões. Como o de sábado. Frente a frente. Deleitados com a investigação e a escrita. Ennio Morricone triangulando o momento.
Recordou o fim de tarde de um Agosto por mear. A esplanada rente ao suave marulho do Mondego, a sombra, o livro. E a voz. Ouvira: “posso colar-me à sua leitura?”, e apontava para a mesa que a dela geminava. Aquiescera num gesto, mal encarando o perguntador. Das páginas arredou a atenção. Havia dias, tivera a coragem de rematar a cobardia – desfazer um equívoco que arrumara no amor, à laia de tumba para um amor equívoco anterior. Ferira a ideia de lisura que de si prezava. E peregrinou o olhar como fuga à fealdade que em si reconhecia. Ele, mirando-a entre o perplexo e o surpreso, disparou: “és a Tati!”. Nela, fez-se luz: “ e tu o Mário!”. Mergulharam nas memórias, nas estórias e na verdade do presente. A noite não era caída e já ele a enlaçava, procurando o aconchego de um jantar. Fluidos os gestos. A conversa. Envolvente a ternura dos idos partilhados. O instante como deslumbre. Mútuo.
Mal nascida a manhã de 26 de Agosto, esperava-a no check-in. Aninhou-a num abraço poderoso. Da porta 14 voaram para um tempo inesperado. Às duas da tarde, mãos dadas e retomada a irreverente juventude comum, espreitavam os decks e os bares, as piscinas e os restaurantes. Rindo, avaliaram para quantos infelizes chegariam as lanchas e baleeiras se a fortuna resvalasse. No camarote, inauguraram a felicidade da intimidade dos corpos. Porque existe. A ambos pertencia fatia gulosa.
Ignoraram as gentes na gala do Comandante - somente em ambos atentavam. Percorreram Cartago, Sidi Boud Said, perderam-se na Medina, escoaram a navegação nas espreguiçadeiras de madeira lisa que as almofadas adoçavam. Nessa noite, ela seria Sherazade, ele um Sheriman renascido, detalhando a história que os corpos contariam. Acordou-os o ouro de La Valetta. Ao lugar conhecido, preferiram o navio esvaziado de excursionistas, misturando cocktails com soalheiras leituras. À Sicília e ao Etna, ao Stromboli depois, aos 43ºC não resistiram – abraçados, afundaram os pés na lava moída. O anoitecer seria caliente, tropical - os funcionários do salão coreografando o jantar, o “limbo” maneado e descido que dançariam a sós até Chivitavechia e Roma. E foi assim em Cannes, na escadaria do estrelado e no mergulho cálido no Mediterrâneo que lambe a praia das ilusões de todas as starlettes.
Por ora, no verão das vidas, partilham dos dias fracções ou a dose inteira. Na lagarta soalheira que é Lisboa, provam os frutos do estio. Ao caírem as folhas e as chuvas, será ainda o Stromboli das almas e dos corpos a manter vivo o incêndio. Do Mare Nostrum, a calmaria.
Nota: conto da Teresa C. sobre a “Despedida de Agosto” da Tati.
CAFÉ DA MANHÃ

Teresa C.
Este é o primeiro trabalho posto à votação dos leitores. A cópia mais votada (numa escala de um a cinco) estampará a t-shirt atribuída ao vencedor do “Veneno com Açúcar”.
A todos os participantes no "Veneno com Açúcar" fico grata. A qualidade dos textos é de excelência. Repito o que ao Justo disse: "é privilégio ter leitores e «confrades» blogosféricos assim".
Publicado por Teresa C. às 08:02 AM | Comentários (22)
setembro 09, 2007
ROUPAGEM DE UM HOMEM ELEGANTE E SEDUTOR

Tom Albert
“A roupa utilizada por um homem elegante, charmoso, sedutor, deve ser incondicionalmente discreta. Ser recordado por um específico objecto ou cores, provavelmente resultará numa tendência cíclica viciosa de memorização negativa, porque se fixa num determinado detalhe e não no conjunto.” Estas e outras detalhadas recomendações sobre a indumentária masculina dão corpo a uma deliciosa dissertação do James Stuart. L'oeil d'un connaisseur que assume com naturalidade ser a preocupação com a embalagem do corpo independente do género masculino ou feminino da pessoa. Refrescante, por atribuir ao apuro na indumentária um carácter respeitoso para com o próprio e os outros.
É corrente o pré-conceito de associar o trajar meticuloso a frivolidade. Da mulher, sobretudo. Aos homens é comum ouvir perorarem sobre o desprendimento do “comezinho” cuidado no vestir. Os mesmos que prodigalizam esmeros na combinação das peças de roupa com tanto de improváveis como de infelizes, ao ousarem fuga à farda convencionada. No entra-e-sai dos serviços, mais parecem meninos de colégio interno do que gente crescida - anónimos, pardos, inseguros no gosto, falhos na criatividade. E os bolsos? Pingões, a abarrotar de utilidades como fragmentos de mala de uma mulher repartidos pelo fato. E se a precisão de um objecto chega, apalpam-se do peito ao rabo, conquanto não se coíbam de nos admoestarem por demorarmos a encontrar na mala o desejado. Mas quem tem os pensos-rápidos para o calcanhar dorido, agulha e linha para cozer o botão finado, o comprimido para a dor ou que catalise a digestão? Nós, no mal-afamado apêndice pesado como chumbo.
“A sedução, charme e elegância de um homem prende-se muito mais com o seu comportamento, postura e discurso do que com a roupa.” Assunção que partilho e abrange a mulher. De pacotes vistosos há fartura; todavia, uma nesga basta para escorrer vacuidade ou incoerência entre o ser e o parecer. Não fossem as intempéries ou os danos solares e mais leal seria corpo ao léu. Os trabalhadores da moribunda indústria têxtil não merecem, mas os cirurgiões plásticos, que por ora já atafulham as contas bancárias, agradeciam, tenho certo.
CAFÉ DA MANHÃ
Termina hoje o prazo de envio dos textos para o “Veneno com Açúcar.” (correio electrónico concursotati@hotmail). Que venham mais. Que venham muitos. A minha gratidão é certeza.
Publicado por Teresa C. às 11:22 AM | Comentários (8)
setembro 08, 2007
NA AUSÊNCIA DA MALVASIA

Steve Hanks
De cabalística não sou maskilim e pouco sei além do mistério emprestado ao sete e ao nove. Nela me iniciei às voltas na Regaleira e por ficções de credibilidade duvidosa. Dizem ser o três número mágico – a família clássica confortada pela primeira maternidade, o tempo humano traduzido pelo presente, passado e futuro, o mínimo de pernas para suportar mesa ou assento, a base transgressora da pluralidade nas fantasias eróticas, a conta que Deus fez.
Terá sido o acaso ou um capricho da fortuna que nos angulou a geometria? Na ausência da malvasia – casta louvada por Shakespeare –, a mistura de tequila e cointreau se à eloquência do discurso pouco acresceu, soltou as emoções. Desprendeu a fala. Quebrou as rédeas do riso. Restituiu à liberdade os gestos. Não que o embaraço fora previsto – no quotidiano justapunha-mos as vidas. À beira das águas mansas do Tejo, e antes do na tua, na dele ou na minha, abrimos portas à volatilidade das intenções. Não nos satisfez o resguardo meticuloso do passado, o presente arrumadinho, a embalagem conformada ao peso e à medida rígida da expedição postal, o fazer adiado para um amanhã que pode nem chegar. Da noite a cumplicidade. Da maresia o odor. Do sal o deleite. E acordámos na frase puída - os “(a)casos” podem não ter finais felizes, mas os começos... Ah, esses!... Felizes são.
CAFÉ DA MANHÃ

Keith Garv
- Termina amanhã o prazo de envio dos textos para o concurso “Veneno com Açúcar.” Como gostaria que mais mulheres recriassem a respectiva “Despedida de Agosto”, com a certeza da sensibilidade dos escritos serem por outras mulheres entendidos (o Júri do Concurso)... É tanto o que a todas nos une!
O envio deve ser feito para o correio electrónico concursotati@hotmail.com o assunto “Concurso Veneno com Açúcar” até às 24.00 horas de dia 9 de Setembro de 2007.
Publicado por Teresa C. às 11:12 AM | Comentários (3)
setembro 07, 2007
VERY HUSH-HUSH

Autor que não foi possível identificar
“Off the record and very hush-hush”, é inquietação de algumas mulheres o deslize(?) para o sexo no alvor de veemente fascínio. Em discurso brejeiro: cama à primeira, sim, ou não? Excluo os apetites de ocasião que aos aventureiros, eles e elas, deslumbram como ao João Garcia os Himalaias e o K2. Face a um homem desejável e envolvente, o que realmente as perla de finas gotículas de suor é uma mistura de anseio pela mistura dos corpos e a tresmalhada dúvida: “se me «concedo» vai julgar-me fácil e adeus a algo mais”.
Comumente, eles exaltam o mistério que à mulher compete e os encanta e incentiva e envolve e faz crescer a adrenalina do novo ao limite do suportável. O primordial apelo da caça. A exaltação dos sentidos que aos humanos é preciso seja na arte ou nos jogos guerreiros do amor. A obediência à tradição – preconceito? – do recato feminino que ao homem compete desbravar. O inolvidável êxtase orgástico que esperam alcançar. Suprimido o alongar da conquista e do conhecimento interior, não fica hipotecado o crescer da atracção?
Rejeito regras artificiosas. Dos seres prefiro a espontaneidade em cascatas de verdade. Prezo o senso e o pudor do espírito do qual decorre o do corpo. Negando estratégias nas relações humanas e ansiedades ociosas, acautelo a inocência e a lucidez. Por que a vida me trata bem - ou assim a vejo, o que vai dar ao mesmo -, confio. É o bem maior.
Notas:
- ao lado, Occhi di Fatta - o olhar amável perante o mundo - e a inesquecível voz de Pavarotti.
- ontem, foi alterado o endereço para envio dos textos integrados no "Veneno com Açúcar" (concursotati@hotmail.com).
Publicado por Teresa C. às 09:41 AM | Comentários (8)
setembro 06, 2007
DOIS EM CADA CINCO

Dang
Um pouco menos de quarenta por cento dos alunos portugueses abandonou a escola em 2006. Ainda a notícia estava quente como broa de milho saída do forno, logo começou o bailarico dos números – que não, afirmou a Ministra, o abandono foi menor, pois se até diminuiu nos últimos dois anos!, mais isto e mais aquilo. Estes bailes mandados de décimas atrás e à frente não me arranham a convicção de ser um escândalo a taxa noticiada. Sim, sei, as dos impostos também são altas e um descaro, mas sendo um país «pobrete» a muito «alegrete» não aspira.
A realidade pungente de dois em cada cinco jovens desistirem da formação académica significa coisa simples: não está para breve a qualificação que ao país falta por via do exercício de cidadania lúcida e conscientemente reivindicativa. Louvo a iniciativa do Ministério que a Educação dirige de possibilitar aos alunos do décimo ano de escolaridade a aquisição de computadores portáteis a custo reduzido – cento e cinquenta euros - e munidos de placas de acesso à internet móvel. A acessibilidade às novas (?) tecnologias abre o leque das aprendizagens e o desenvolvimento de aptidões que o presente exige. Chega? Não! Enquanto os alunos tinirem de frio no Inverno e suarem as estopinhas nos dias cálidos, a carga horária dos professores permanecer reduzida, se comparada à que norma os restantes países da União Europeia, a exigência interventiva dos pais relativamente a si próprios, aos filhos e às instituições for diminuta, e muitas escolas se refugiarem na passividade lamurienta, nada feito. Tantos e bons exemplos existem por aí que nem sugiro criatividade – basta cábula diligente.
CAFÉ DA MANHÃ
Leituras a não perder:
- ”Mais Professores” pela Rita Barata Silvério
- Cenas da luta de classes na freguesia da Lapa por António Figueira
Fico grata pelas ligações estabelecidas para o “Sem Pénis, Nem Inveja” pelos seguintes autores:
Alentejodive, Poeta Jodro e MFQ
António Oliveira Beirão
Atlântida
Me
M. Correia
M.J.
Nuno Castelo Canilho
Paulo Kellerman
Samuel Wolf, Maria Faia, Pedro Silva, Matilde e Maria Minhota
Tita
Nota - “Veneno com Açúcar”: as regras das bases do concurso estão publicadas no dia 4 de Setembro.
Publicado por Teresa C. às 08:13 AM | Comentários (14)
setembro 05, 2007
PÍLULAS, GAJAS, TAJ MAHAL E SIMPLEX


Carol Adams e Dan Anaka
Enquanto portugueses temos dois vícios de truz: vitimazição e lamuriar. O síndroma Calimero seduz-nos conquanto, como em quase tudo, fiquemos pela missa meia – espantamos para os outros as culpas, consentindo no bumerangue que, ao roer-nos onde mais dói, crispa os sentimentos e os rostos e as atitudes. Por isto acabrunhamos cedo. Por isto ficamos pardos, sem genica e, pior!, desesperançados. De raro em raro, uns cínicos. Neste particular, poucos exercem a postura com estilo; o mais comum são os anjos-vingadores – fizeram-me mal, logo, faço pior. Uns desgraçados. Abordadas ficam algumas (as menores) das razões para que dois milhões (um em cada cinco) de portugueses, apresentem perturbações psíquicas. Eu entre eles, ou não faria disgusting inconfidências. O preconceito de antanho contra este género de maleitas, tudo agrava – “não me deprimo, recuso «psis» e pílulas, tenho força bastante para dar a volta por cima a qualquer situação. Os outros? Frouxos!... Se vejo a coisa feia, um banho de consumo, copos e gajas são remédio do melhor.” E seguem como bêbados, aos tropeções na vida e nos que lhes cruzam os passos.
A lamúria (a penúria?) nacional chega ao ponto de merecer glosa publicitária. Diz o patrão para o comercial que terá de “vender couros” no estrangeiro, mas com poupança - “oito sandes de manteiga, dez, vá lá!, por ser para si, como ração de sobrevivência e uma tenda espaçosa como o Taj Mahal.” Os lamentosos encartados fiquem com esta: na União Europeia apenas o Reino Unido nos faz sombra e no mundo trepámos quarenta lugares no ranking da informatização burocrata. Nem sei se foi o Simplex – teimo que o nome assentaria como luva a marca de preservativos – ou esforço abrangente. Certo é estarmos em sétimo lugar. E nem venham com a fatalidade do “e no resto?”, por revelar curta a memória das duras penas sofridas nas repartições sob o jugo de presumidos mangas de alpaca.
Publicado por Teresa C. às 07:42 AM | Comentários (10)
setembro 04, 2007
PELO 3º JOHNNIE WALKER

Carlos Cartagena
Ia a noite a meio. O talento do “dee jay” em esvaziar a pista de dança era um pasmo. Mal a via apinhada – mais pelo resistente desejo dos corpos de exprimirem em requebros a alegria do que pela selecção musical – derrapava para bimbalhada da estranja (que também a tem, oh se tem!). Os de ouvido mui sensível a desatinos musicais, bebericavam o último gole da bebida e desandavam. Bandos de amigos arrumados em círculos de animado convívio, catrapiscavam os recantos de maior sossego. Assim fez o meu composto por nove cabeças desempoeiradas, dispostas a dar rédea comprida ao humor.
Como soe acontecer em noites amáveis, intervalando fases de delírio comum, quem tomou assento ao nosso lado privilegia-nos como interlocutores. No caso, uma mulher. À medida do encurtar da noite, o raio do círculo diminuiu, quiçá motivado pela música de “fazer meninos” seleccionada pelo “dee jay”. Entre a ironia risonha e o desabafo, ela revelava confidências da fresca ruptura da conjugalidade. O «hóspede» do lar não arredava pé, convencido que estava do perene bem-bom do amparo, cama, mesa e roupa lavada. Instalada a guerrilha, o rol burlesco contabilizava assaltos, terrorismo, actos vândalos e graffitis. Entre cascatas de riso, contava. Eu ouvia. Pelo terceiro Johnnie Walker com duas pedras de gelo que lhe era costumado, surpreendi na alegria nervosa lágrimas dançarinas. Fui à luta, disposta a torcer da fala o rumo.
Os (des)afectos, sempre eles!, subjazendo às emoções. A solidão como fantasma. Competição pelo poder na relação. Desencontros sexuais. Inseguranças. Incapacidade de crescer ao lado do outro. E a felicidade como somatório de indescritíveis momentos de bem-estar. Traduzida pela conquista do merecimento da alegria autêntica, com a tranquilidade sábia de quem está ciente de trilhar a direcção desejada.
CAFÉ DA MANHÃ
Bases do “Concurso Veneno com Açúcar”
1 – Os trabalhos enviados devem ser originais e inéditos, com um máximo de 2.500 caracteres. É aceite um único trabalho por participante.
2 - O Júri será composto por amigas da autora deste blogue e por ela própria. Membros do Júri (ordem alfabética): Aida, Anabela, ”Ela” (obrigada Amiga pela divulgação do concurso) Isabel, Joana, Lucília, Paula (4 com formação superior na Língua Portuguesa, 3 em Filosofia) e Teresa C. (a ovelha-ranhosa das ciências).
3 - O tema é “Despedida de Agosto” (versando ou não a Tati). Os trabalhos devem adequar-se à sequência das pinturas publicadas entre os dias 26 e 2 de Setembro, inclusive. Serão eliminadas do concurso as obras que não respeitem o tema.
4 - Os textos devem ser enviados para o correio electrónico concursotati@hotmail.com com o assunto “Concurso Veneno com Açúcar” até às 24.00 horas de dia 9 de Setembro de 2007.
5 - Os três finalistas serão anunciados no dia 17 de Setembro e o vencedor do concurso a 18 de Setembro. Nos dias seguintes, os trabalhos dos finalistas e do vencedor serão publicados no “Sem Pénis, Nem Inveja”.
6 – Prémio: uma t-shirt preta ou branca, à escolha do vencedor, estampada com a cópia de um ensaio da Teresa C. na pintura a óleo, após votação dos leitores entre cinco propostas.
7 - O envio de trabalhos e a participação neste concurso implica a aceitação destas bases.
Publicado por Teresa C. às 09:35 AM | Comentários (2)
setembro 03, 2007
DO CORPO NU A RESTELADA

Steve Hanks
Nem preveni o negrume que apaga as fronteiras do espaço e dos objectos. Esqueci o silencioso murmúrio de “bom regresso” ao reencontrar as sombras das luzes caseiras. Dispensei os gestos que antecipam o sono, no ano repetidos pelo vicioso costume. Caiu aos pés o vestido, despedi as sandálias. Abandonei-me colada à parede, olhos fechados pelo prazer da cascata fria. Ouvi a música da água e as inflexões que os contornos do corpo incitavam. Sentir e ouvir a progressiva difusão do fluido límpido em cada poro percorrido. De pé. Imóvel. Pálpebras descidas. Sem contar fatias do tempo. Grata.
A luz coada pela organza viu-me muito antes de a olhar. Sem cerimónias ou pudor, desvendou do corpo nu os segredos, do sono a candura, iluminou a restelada dos despojos e, obstinada, só descansou ao guiar-me à consciência da manhã. Ainda fingi não lhe conhecer os ardis. Como recusar ao corpo a doçura da entrega ao langor dos movimentos, aos olhos a volúpia do ouro entornado nos lençóis e nas paredes e nas telas?
Ao pensar resisti. Prolonguei o vazio do espírito para ceder aos músculos e à pele a fala serena. Foi depois que seleccionei das emoções à solta, dos pensamentos em catadupa os tentadores. Um a um. Paz. Felicidade. Aos outros, que em fila aguardavam a vez, recusei a entrada. Que aguardassem. Que na espera reconhecessem a inutilidade, ou não. E submeteram-se. Na sala escura para onde os remeti, nem o conforto de um assento deixei - a incomodidade é boa conselheira para quem a sabe entender. Por lá estão. A muitos jamais legitimarei a saída. Por que a separação do trigo do joio previne da mente a sujidade.
CAFÉ DA MANHÃ
- Está restaurada a permissão de comentários.
- Acabou a sequência de imagens estruturais dos textos para o concurso “Veneno com Açúcar”. Mãos às teclas e uma certeza: será infinito o prazer de ler o que a vossa generosidade criativa me trouxer.
Publicado por Teresa C. às 10:23 AM | Comentários (14)
setembro 02, 2007
DESPEDIDA DE AGOSTO - TATI (DIA 8º)
Pelo final da tarde

Gil Elvgren
Legenda? Não carece!...
“Concurso Veneno com Açúcar” - correio electrónico concursotati@hotmail.com Tema: “Despedida de Agosto”. Bases do concurso publicadas no dia 25 de Agosto.
Publicado por Teresa C. às 11:17 AM | Comentários (0)
setembro 01, 2007
DESPEDIDA DE AGOSTO - TATI (DIA 7º)
Pela frescura da manhã

Gil Elvgren
Redescobrir as ruelas estreitas desembocando em turquesa. Impressionistas, existencialistas e todo um histórico de via boémia e artítisca. Depois, a praia de seixos rolados.
Ao entardecer

Gil Elvgren
Mala fechada, cuidei a alegria para a noite mais longa. De todas a rainha.
“Concurso Veneno com Açúcar” - correio electrónico concursotati@hotmail.com Tema: “Despedida de Agosto”. Bases do concurso publicadas no dia 25 de Agosto.
Publicado por Teresa C. às 11:16 AM | Comentários (1)