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setembro 28, 2007
NOS TARECOS, FUNDO NÓMADA

Brian T. Keller
Condomínios energeticamente auto-suficientes. Iluminação das áreas comuns, piscinas e o ar condicionado das fracções assegurados por sistemas semelhantes aos painéis solares comuns. Na construção, uma das diferenças reside em «folhas» duplas de vidro unidas por silício – elemento químico semelhante ao carbono e que na natureza, sob forma (im)pura, aparece como quartzo, abaixo do diamante na escala da dureza de Mohs que ao diamante atribui o valor 10 e ao talco o valor 1. Escala, de resto, enganosa, por ser a dureza do diamante 1500 vezes superior à do talco polvorento.
Quem pressupõe mais elevados os custos daquelas habitações, pasma perante orçamentos não diferindo muito dos usuais – 150000 euros um T1, 200000 um T2. Pela poupança, a prazo, da factura energética, a amortização do investimento é garantida, bem como a certeza de limitar a progressiva erosão dos recursos fósseis. Eficaz chamariz para a compra de espaço próprio, e fazê-lo à custa de diminuição dos rendimentos da EDP traduzidos em facturas que vão de altas a gigantes, ainda melhor.
Bons augúrios. Quem, como eu, tem lastro nómada, mudar tarecos não aflige - passa a outrem o espaço de hoje e compra outro ambientalmente exigente, cumprida seja a condição sine qua non do «v» dos verdes-natura não ser substituído pelo «v» dos vizinhos da frente que nunca tive e sem fuga da Lisboa que amo. Recambiados os cristais e os móveis antigos, mais os linhos e as rendas e latas várias para o sótão da casa beirã onde, desde há anos, hibernam ad eternum, mudança para nova casa é coisa de somenos: na (tres)passada ficam assentados os bens sem cabimento no porta-bagagens. Trapos, sapatos e malas enfiados em qualquer lado, transporte a preceito dos livros, óleos, cerâmicas, esculturas e retratos, e três vivas ao mais-que-perfeito pretexto para decorar, de raiz, espaço minimalista que ao planeta economize danos.
Publicado por Teresa C. às setembro 28, 2007 10:24 AM
Comentários
Bem sei que, para muitos, a cidade é incontornável.
Mas não há nada melhor que uma boa casa solarenga, em granito, numa pequena quinta da aldeia, onde os verdes estão sempre ao pé e os vizinhos, ainda que longe, estão sempre à mão em caso de aflição.
Bom fim-de-semana.
Publicado por: Nilson Barcelli às setembro 28, 2007 12:20 PM
boas mudanças! que nunca se muda só de casa ...
qt a alguns elementos factuais invocados e embora temendo algum dano à natureza e poesia do post, vai um que outro contributo modestíssimo
a vida nas cidades é uma inevitabilidade mas é de facto possível alguma aproximação a modos de vida mais próximos da natureza – e de vizinhos!
a ecologia das casas, sobretudo as de cidade, é em grande parte apenas um elemento apaziguador da culpa de cada um por ter o despertador ligado à corrente eléctrica, usar o elevador, carregar o telemóvel, ver TV, preparar o café, tomar um banho quente
em todas estas situações a Terra fica a perder, esventrada de recursos fósseis que acabam pulverizados na atmosfera, ao ritmo impressionante de milhões de toneladas por dia ! uma central termoeléctrica média consome um cargueiro cheio de carvão a cada 15 dias... e há muitos milhares de centrais no mundo inteiro!
a poupança de energia mantendo um nível razoável de conforto é sempre meta virtuosa mas é muito duvidoso que isso reduza a factura de uma qualquer empresa – a EDP certamente não precisa de defesa mas também nunca me daria mandato para tal – e é injusto nomear alguma em especial pois a qualquer empresa ou cidadão, nacional ou não, é livre o exercício de produção e venda de electricidade em Portugal e qualquer um pode ser proprietário de parcela variável sociedades com acções cotadas em bolsa, como é o caso
um pouco pelo contrário, a factura é mais cara por ser necessário incentivar o recurso a fontes renováveis de energia: a produção eléctrica em parques eólicos custa mais cara aos consumidores que a produção em grandes centrais convencionais; a partir de tecnologia fotovoltaica mais ainda!
há dias o Governo anunciou um plano de incentivo à microgeração segundo o qual o consumidor pode produzir electricidade em sua casa e vendê-la à rede pública, a um preço subsidiado que pode atingir, a julgar pelos jornais, 650 euros por megawatt
em mercado, ou seja, sem sem subsídios, a electricidade é quotidianamente transaccionada a cerca de 40 euros o megawatt
a enormíssima diferença de custos vai ser paga pelos consumidores: é mais caro mas tem que ser para se incentivar a ecologia, só que não se reduz nenhuma factura, pelo contrário
de resto, a arquitectura em geral deveria desde sempre ter-se preocupado com os desperdícios de energia, evitando as fachadas envidraçadas à torreira do sol
mas concordo que os preços das casas reflectem mais os factores de especulação que a inteligência da construção
o granito, como em geral toda a construção tradicional, responde em parte a questões energéticas – porque tinha que se construir com economia energética quando não havia recursos energéticos, como ainda hoje sucede em tantas regiões ditas subdesenvolvidas, exactamente por não terem acesso a energia mesmo com o subsolo recheado de carvão, gás ou petróleo
só que os promotores de padrões de conforto altamente energívoros levaram anos a entender que o paradigma esgota o planeta
e agora que entenderam, vão resistir outros tantos anos a pôr em marcha a mudança – porque é difícil mudar !
aqui chegado e para espairecer, concluo com outro voto amigo em jeito de reposição da poesia, ao menos em pequenina parte:
A mudança é uma janela
Por onde entram as miragens de quem nos está a olhar
É quando a abrimos em par
Que damos vento à vela em que queremos
Navegar
É como sentir uma esfera
Azul, a redoma preciosa em que temos de morar
É quando a olhamos a espreitar
Que partilhamos o ar e deixamos a atmosfera
Respirar
Feitos de gente e afectos, afinal vivemos perto
Do encanto de chilreios, de arco-íris e luar
E num aroma de flor, damos por nós a gritar
Às janelas: queremos o mundo liberto
De par em par
E se uma janela souber que vais partir e chegar
Estás decerto a sonhar a pomba que trará a oliveira
É a vez de cada hora do dia superar a vida inteira
É o tempo de aprender e de ajudar
A mudar
Publicado por: ora et labora às setembro 28, 2007 02:50 PM
P'ADONDE!?
Q'ria aqui o macacal saber...
ORA BEM!
e 'tava lá tudo caídinho qu'a esp'rança é muita e a promessa -embora surda- é forte.
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 28, 2007 03:11 PM
Bom fim de semana para todos.
Shabat Shalom !
Publicado por: Justo às setembro 28, 2007 11:05 PM
Nilson Barcelli - de acordo, mas por dádiva de família existindo a que descreveu, morar em urbe capital olhando verdes e ceú é dos males o menor.
Ora e Labora - a sua reflexão, de tão cuidada e completa, nem carece de acrescentos. Quanto à escolha poética, dela lhe digo ter sido momento que me delicicou. Ainda agora, ao reler. Grata pela sua contribuição.
Pirata Vermelho - um já existe em Portimão e pela cidade outros esboços existem com prometida construção para breve. Uns metros quadrados de um destes serão, I hope!, meus.
Justo - Sabe? Um voto assim transmitido com tanta simplicidade e coração nas teclas vem direito ao coração. A bondade existe, a solidariedade também neste mundo que nem chamo de virtual - um gesto amável sempre tomo como real.
Publicado por: Teresa C. às setembro 29, 2007 11:57 AM