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setembro 29, 2007
O ESPELHO DE PAREDE OU OS MEUS CONTOS SÃO-NÃO-SÃO AUTOBIOGRÁFICOS

Hubert de Lartigue
Imprimi e li em bom papel branco - só admito a excelência como registo palpável de um prazer. Reconheço: as noites de sexta-feira são da semana as melhores para fruir da intimidade. Nesta noite, jantar transgressor, um vinho que a subjectividade chame apetecível, música - jazz, orquestras dos fifties, blues. Mimo. Desenho. Pintura. A que faço e amigos mui queridos das artes plásticas me ofertaram ou adquiri. Da querida Manuela Pinheiro tenho sépias que me testemunham também o sono. Na sala há casarios, abstractos e cerâmicas em painel cujos detalhes elaboro e transfiguro no lembrar do momento. E escrevo. Intervalando por isto ou aquilo. Muito bom. E a noite adianto noutros deleites a que não me furto.
Adivinho-lhe o sobrolho arqueado, o alvor de um déjà vu - porque arredonda ela o discurso e não vai directa ao essencial? Mulheres! Pfff... Porque não me apetece. Pelo gozo da escrita fluida acontecer. Pela sua possibilidade de saltar parágrafos como a muitos é comum ao ler Joyce, Umberto Eco ou Saramago. Ou Ballester - aqui a gravidade é maior e devia, fosse newtoniana como a outra, fazer malhar no chão os saltadores.
"O Espelho de Parede” ou “Os meus contos são-não-são autobiográficos". Contos ainda assim. Se por autobiografia for entendido registo objectivo de um ser escrito por ele próprio, nunca o são. Por prezar o exercício racional, não excluo o deleite da subjectividade. Disciplino-a, reconheço. Todavia, alargo as rédeas se a volúpia for suserana. Na escrita e na vida. Preciso da realidade dos sentidos e de os recriar um a um. E se num jogo precário é o todo a impor-se, mal um pouco de tino é chegado e degusto o toque, o sabor, o olhar, que separo do olfacto e dos sussurros. Ou da voz média, por que gritos não suporto - ressalvo os impossíveis de conter a bem da majestade de específicos momentos.
O seu texto é um como um bom vinho tinto odorífero e de espessura capaz de pintar, sem pudor, copo alto em balão - ainda não entendi porque abrir uma garrafa é descompasso no meu espírito; somente munida de saca-rolhas de gigantes orelhas que perfuram e, no final, soltam a rolha num breve gesto, me afoito. Já nas de champanhe sou perita. Em rodada de amigas, é certo caber-me o acto. Ainda assim, melhora o gosto de um vinho servirem-mo.
Voltando à intimidade do seu conto. Prenhe de insinuações. O não-dito límpido como água. Foi voluptuosa a leitura. Entretanto, o copo ficou vazio. Bagos grossos de uva envolvidos em fromage frais batido parecem-me, dos complementos, o melhor. Que diz?
CAFÉ DA MANHÃ
- Fumo branco nas directas do PSD. Aqui.
- O ciclo do «eu» nos textos dos últimos dias já cansa. Amanhã, dou por findo este ciclo intimista.
Publicado por Teresa C. às setembro 29, 2007 11:01 AM
Comentários
digo sim, digo, diria!
bon jour, sortuda
Publicado por: digo & sigo às setembro 29, 2007 12:24 PM
Tudo o que se escreve é autobiográfico. Não no sentido de que sempre descreva a ou uma história pessoal, mas porque reflecte sempre, queira-se ou não, alguma coisa da personalidade própria.
É curioso, querida Amiga, como eu sempre a imaginei assim!
Por isso, não vale dizer que acaba ou pretende acabar "o ciclo intimista" dos últimos textos...
Não conseguirá esconder-se de um olhar que vá para além das aparências.
O que dizer mais do que e do como escreve, para lá do que já tenho dito ou insinuado?
Belo, muito belo.
PS.
Acerca do "Café da manhã": por favor, não estrague a beleza que é a sua!
Publicado por: j às setembro 29, 2007 02:00 PM
"saltar parágrafos ao ler .... é comum". Gostei. É vero.
Acho que foi o Saramago mesmo quem disse certa feita que todo o mundo devia escrever a sua biografia.
é bom vir de visitas ao teu blógue.
Publicado por: Anita às setembro 29, 2007 03:46 PM
Um bom vinho, uma conversa lenta, o tempo a escorrer... acho que há poucos momentos na vida que possam gozar com tanta volúpia.
E estando a chover, como está agora, acrescenta sempre um 'algo indefínivel' intimista.
Um beijo
Publicado por: apenas um gajo e nada mais às setembro 29, 2007 04:31 PM
O qu'é qu'o Saram...esse! teria alguma vez a ver com o qu'aqui é (d)escrito?
Pergunto-m'eu, do cimo da minha embasbacadice.
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 29, 2007 04:59 PM
...nem os espelhos dos mágicos alguma vez estiveram expostos aos vulgares olhares -
escaqueiravam-se no acto.
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 29, 2007 05:03 PM
:)
Beijinhos, Tati
Publicado por: K. às setembro 29, 2007 06:11 PM
Mude. Remute. Plante. Replante. Pinte. Repinte...
Faça da tua vida o que quizer.
É tua a vida e de mais ninguém.
A mais preciosa dádiva é o livre arbítrio.
E é sempre esta a coisa que o teu próximo quer mais tirar de você.
Seja feliz (ou continue a ser!)
Beijos.
Publicado por: Justo às setembro 29, 2007 07:05 PM
Acho que o "J" (é um jota, não é?)tem razão.
só se fala do que se conhece, com ficção ou sem ela.
Estamos sempre a falar de nós e não estamos; estamos sempre a falar dos outros e não estamos.
São jogos de espelhos; vários jogos, cada um deles com dezenas de espelhos.
Publicado por: maria faia às setembro 29, 2007 07:23 PM
Sim, Maria Faia, sou um J, um simples J...
Ou melhor, o J é um espelho onde me espreito, de vez em quando.
Publicado por: j às setembro 29, 2007 07:49 PM
Teresa, eu entendi este post como uma carta de paixões. Em sentido amplo. Uma carta a alguém que estimamos e por quem nutrimos admiração. E mais, alguém que sabemos por nós ter apreço e admiração.
E é uma carta muito bela, de onde espreitam cumplicidades e sorrisos que só os envolvidos entendem. É uma carta sedutora, claro!
Nota: Para mim, tudo o que escrevemos fora dos domínios "técnicos", por assim dizer, tende a ser auto-referencial. Mesmo se distante das nossas vivências contém algo de nós, seja da nossa realidade, seja das nossas projecções, sonhos, fantasmas...
Publicado por: Alba às setembro 29, 2007 10:51 PM
Há estranhos textos pelos bosques da alma da madrugada em http://www.aclareira.blogspot.com/
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 29, 2007 11:24 PM
Em http://wehavekaosinthegarden.blogspot.com/, durante o Café da Manhã,
-pirata-vermelho- disse...
"Tod'a História a desmentir o que agora digo ou oxalá não m'engane - eis o princípio do alinhamento da continuidade de Sócrates.
A troco de quê-pra quem!? "
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 29, 2007 11:37 PM
Digo & sigo - ora ainda bem! :)
J. - do pré-aviso arrependi-me a seguir. O que no instante pretendia dizer era estar cansada de tanto «eu» nos últimos textos. A vigorosa crítica que primeiro ensaio é para comigo. Na escrita e em tudo o mais. O «eu» pode bem significar ou estar a centrar-me no umbigo - o que evito -, ou cair em análises intimistas que pouco interessam aos demais. Mas tem razão: deixar-me de reflexões muito pessoais será impossível. Vou tentar suavizá-las. Obrigada pelas suas paalvras, Amigo.
Anita - pois é essa mesmo a sedução. Ao escrever revejo quem sou, o que quero e para onde vou, juntando este pensar ao pecúlio que normalmente exercito. Mais-valia, concordo, por ao ser depositado lixo do espírito no branco, de pronto apetece apagá-lo e mandar às malvas o que não presta cá dentro.
Apenas um gajo e nada mais - Estamos em sintonia. Pelo que vejo muitos como eu apreciam o cooconing.
Pirata Vermelho - por isso o aprecio tanto; põe-me os pontos nos «is» sem vénia, no preciso momento e com encanto (que não procura, calculo, pois o que menos lhe agradaria era usar as teclas para condescender. Quanto ao Saramago divergimos - gosto muito, muito, muito do jogo de palavras e sentidos e substância que em cada obra prova. OK, tem aspectos menores, mas quem os não tem? E afiar a faca só por o homem ser famoso também não me parece correcto. Ora, em Portugal, isso é cada vez mais comum.
As deixas lá em baixo estiveram bem, muito bem. Falhou o correcto endereço da ligação.
Justo - E sugeriu-me mote para novo texto. Há tempos reflecti sobre isso. Julgo ser altura de ao mesmo retornar. Boa semana, Justo!
Maria faia - por isso esse jogo de espelhos me encanta e, se bem virmos os outros, a todos os humanos também.
Alba - e ao escrever, como ao falar, dizemos de nós o que mais das vezes queríamos ocultar. Não é possível a comunicação verdadeira sem (entre)abrir a alma. A verdade é ser também uma das razões que faz da escrita, da pintura, do diálogo, das artes de palco, do cinema apelo a que não resistimos. Ainda bem.
Katraponga - adorei o novo espaço! O primeiro texto é um mimo. Beijinhos. Muitos.
Publicado por: Teresa C. às outubro 1, 2007 06:33 PM
...plutôt j'aime bien les petits plaisirs qu'on peut partager...
Paulo
P.S. - E felizmente há ainda um universo de pessoas que não se contenta com o banal
Publicado por: apenas um gajo e nada mais às outubro 1, 2007 10:49 PM
Paulo - Um beijo, que lá em cima esqueci, comme un des petits plaisirs qu'on peut partager...
E vá de retro o banal!
Publicado por: Teresa C. às outubro 2, 2007 04:49 PM