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setembro 20, 2007
O PINGO

Al Moore
Tropeçou na fita do robe que pendia sedosa pelo soalho pingado do banho. Nua. E a fita se arrastando do roupão de cetim rosa. Um laço estreito que prendia os dois pedaços cruzados, displicentes sobre os seios, a barriga os pelos salpicados da púbis.
Nua. Lambida de águas de banho. Húmida. Dois dedos de um pé entrelaçados na fita. Arrastado o laço num desfazê-lo e ela tombando, um pé adiante do outro num tropel de pé coxinho, as unhas brilhando, fazendo ziguezagues de vermelho no tapete branco do lado esquerdo do leito enorme em ferro daquele quarto de hotel alentejano.
Era pelo fim de Agosto. O sol rodando para oeste, poisando muito inclinado sobre o horizonte, ainda intenso no balaústre de cimento. A janela separando do quarto a língua da areia e, para lá, o Oceano. Azul. Um azul que não sei descrever. E nem o azul que era outro de tonalidade, o azul do céu muito para lá da fita de varanda em cimento cinzento, fervendo do sol de todo o dia.
O céu com uma nuvem solitária, rosada de um pôr de sol de dias antes. Ou de outro lugar, quem o sabe.
Sentava-se na beira do tecido que, desfeito, assim mesmo, era um luzir de olhos no decorar da cama em malmequeres e verdes. E antes que prendesse cada uma das meias, foi despindo o robe que se havia preso e, sentada de esguelha, as pernas dobradas, olhava o dedo magoado na fita presa.
Desfez-se o nó e abriu-se em dois o tecido que lhe descobre o seio farto e a calcinha em tons de amarelos, de lilases: rendas miúdas lavradas no preto.
(A caixa de cartão ondulado, ocre com, dentro, papel de seda cor de rosa. A cor do laço que desfez depois de fechar a porta ao rapaz da entrega. Dizia no cartão:
Apenas um meu sinal em jeito de pedir: resguarda a tua com esta obra de arte
Um beijo
Alfredo
Agosto de 1947
)
Todo em preto o cinto ligas que ela prendeu a cada meia de vidro ao tom da pele, num gesto que lhe fez as mamas em presunção de deusa antiga, ou, bem mais, de cortesã.
Nua no quarto, olhou a nuvem pequenina parada a espreitá-la. Sorriu de se pensar olhada de tão alto. Sorriu daquele seu jeito de deixar o sorriso dependurado e a língua brincando de esconde-esconde entre os dentes.
E o quarto foi-se empapando de doirado. Lento.
Soltou pelos ombros o cabelo preso na toalha de felpa. Sacudiu-os da esquerda para a direita e de frente para detrás e num vice-versa de gestos largos e rápidos, as mamas se soltando ao compasso.
Um relógio de torre foi badalando: Dum, dum, dum…
Oito da tarde.
Já quase noite não fora ser ainda Agosto.
Sobre a nudez mal escondida, colocou, dengosa, num escorrer mole de pele de cobra, um vestido pérola de decote redondo, atrás e à frente.
Sem mangas e justo.
Muito mais era o decote que o tecido na zona que medeia entre as duas mamas e a cintura. Muito cingido, era o vestido, nas ancas e no peito.
Os dois seios sem mais vestirem que essa pele que lhes deixava os bicos num redondo, amaciados, soltos.
O dedo dorido suplicava sandálias. Calçou as prateadas de saltos muito altos que lhe endireitavam o tronco e intumesciam as mamas e o rabo.
Olhou-se no espelho. Distraiu-se do dorido do dedo. Gostou-se um segundo.
Pendeu de cada orelha dois brincos de pura fantasia, compridos, enleados em cores e brilhos.
Foi enfiando, como se sem pensar, em cada pulso, variadas pulseiras, cada uma delas com as cores de cada brinco.
Antes de pegar a saca muito grande numa palha fininha salpicada de flores feitas em tecidos (uma preciosidade que não largara todo o Verão) sentou-se a retocar o batom vermelho, e pulverizou, atrás das orelhas, com um perfume suave.
A lua encheu de luz o quarto.
Mas quando foi isso, ela ia longe: soltava gargalhadas numa rua estreita; enterrava saltos em empedrados; bebia o ar de Agosto.
E o ar de Agosto despedia-se dela com ciúmes: uma água fina, mais um pó de estrelas, começou a cair devagarzinho, aí pela meia noite.
Virava-se o mês de oito.
No decote redondo, escorrendo sobre o bico de um seio, um pingo anichou-se e segredou baixinho:
- Tati, até para o ano.
Conto dado como finalista do "Veneno Com Açúcar" e que deixou de o ser por incompetência minha na contagem dos caracteres – Mcorreia
Dia 3 da “Despedida de Agosto da Tati”

CAFÉ DA MANHÃ
Não ando distraída do que ao redor desliza. Descontando as continuadas tragédias de desaparecimentos (Maddie) , mortes e abandono que envolvem jovens e crianças – a pequena “Abóbora” deixada como jornal lido num aeroporto, a mãe jazida, assassinada, cerca dos muros do quintal na pacífica Nova Zelândia, a rapariga esfaqueada em Coimbra pelo ex ressabiado -, a transladação do corpo de Aquilino Ribeiro para lugar selecto com honras de estado é justa. Os monárquicos, apegados a memórias que não sabem digerir, confundem o cidadão com o Escritor. Ambos em paz.
Deixemo-nos de larachas e fígados avinagrados – é triste cada estudante custar aos portugueses metade do que alguns países pagam. À excepção de um, na Europa unida, todos despendem mais do que nós. Sejamos honestos - na educação vejo ressuscitar a noção de exigência por parte de todos os intervenientes (conselhos executivos, docentes, discentes e pessoal auxiliar). Os meios progridem. Vagarosos sinais de esperança.
Nos States a liberdade de expressão vai de mal a pior. Seis polícias assanhados deram forte e feio num jovem cujo crime maior não foi do que intervenção tida por inconveniente numa fórum de público debate. E são estas democracias «exemplares» que enformam o mundo...
Publicado por Teresa C. às setembro 20, 2007 06:50 AM
Comentários
Porque, afinal, a vida não são só alegrias, inimaginavelmente belas paisagens naturais, mulheres lindas em cruzeiros de encantar, eis a dura realidade que se mistura, logo ao café da manhã, com os contos mais ou menos belos, mais ou menos fantasiados.
É o fim do Sonho e da frivolidade. É o reinício da tristeza e do pesadelo de todos os outros dias.
Publicado por: j às setembro 20, 2007 10:37 AM
Não sendo dos melhores contos que já li da Mcorreia, ele é, no entanto, um excelente conto.
Jeito para crítico literário, não tenho, mas sempre direi que a autora sabe contar uma história como poucos.
Na minha modesta opinião é o melhor conto dos três, porque se distingue dos outros pela palpabilidade das imagens e pela nitidez dos contornos de cada detalhe. E fá-lo através de traços literários firmes e sólidos. E que é rematado, como a autora muito gosta, com um pingo no sítio certo… que, neste caso, até falava…
Este conto, evidencia, ainda, o talento da autora para a narrativa, sobejamente expresso, aliás, em diversos contos que publicou no seu blogue, onde ela manobra as personagens com uma desenvoltura e beleza literárias que, digo-o com convicção, é muito pouco comum no quadro da blogosfera por mim conhecida. Narrativa essa que se aclimata a qualquer objecto sem desperdiçar nada da sua potencialidade criadora.
Quando a Teresa anunciou esta “brincadeira”, estava convencido que, no final, teria de me valer do famoso “Que calças…! Que talento…!”. Afinal, enganei-me. Estes três contos provam que há gente nos blogues que sabe escrever. E bem.
Parabéns aos três, em especial para a MCorreia (professora, escritora… sei lá…).
Publicado por: Nilson Barcelli às setembro 20, 2007 11:30 AM
Este conto da M.Correia revela um extraordinário talento.
Parabéns
Vítor
Publicado por: Minderico às setembro 20, 2007 01:50 PM
deus vos pague com tanto exagero ( senhor Nilson!!) como o que vos é dado fazer - m´aos meus escritos
Publicado por: mcorreia às setembro 20, 2007 02:39 PM
Fizeste muito bem em enviar-me isto, que não conhecia... Beijo!
Publicado por: Arion às setembro 20, 2007 06:52 PM
ALTO!
Temos acesso de consciência política logo de manhã?
Olhe,
viu bem o conto hoje pum!blicado?
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 20, 2007 07:02 PM
Teresa, gostava que lesses o que escrevi (em especial para ti, é evidente)
Um beijo e, mais uma vez te digo que por aqui isto é um espanto :)
Publicado por: mcorreia às setembro 20, 2007 08:34 PM
Narrativa de grande sensualidade voyeurística, devido à evocação conseguida de imagens de nudez.
Publicado por: perplexo às setembro 20, 2007 09:08 PM
Isto por aqui ficou "derrepentemente" muito calmo !
Publicado por: Minderico às setembro 20, 2007 09:14 PM
J- Porque é isso mesmo Amigo. O quotidiano não se compadece com verões inesquecíveis que conjugaram o futuro. A crua realidade continua. E não há ilusão de Sidi Bou Said que a anule.
Nilson Barcelli, Minderico e Arion - porque endereçados os comentários à Mcorreia dispenso-me de responder.
Pirata Vermelho - Atentei e vi o óbvio, que, por artes da pressa ou desconcentração me passou - o texto da Mcorreia ultrapassa os 2500 caracteres normativos. Pelo apontado, e não pela incontestada qualidade, não deveria ser finalista. Mas, o que está feito, feito está. Ainda assim, acrescento que os setecentos e picos caracteres em excesso ficam muito aquém dos demais desrespeitadores das regras do "Veneno sem Açúcar". O conto do J., que amanhã será publicado, seria, nesta óptica, o terceiro e único finalista. Deixemo-nos disto e aplaudamos o talento da Mcorreia, tão impressivo é.
Mcorreia - li, reli e adorei. Escreve bem demais e com uma verve e graça incomparáveis. E volte e fique e frua da onda bem disposta e alinhada que por aqui tenho a sorte de respirar por via de excelentes comentadores, entre eles a Mcorreia que, com um sorriso, empresta a estes adornos dos dias alegre e dotada contribuição.
Publicado por: Teresa C. às setembro 20, 2007 09:14 PM
Minderico - pois ficou e nem descortino a razão. Tem sugestões? ;)
Publicado por: Teresa C. às setembro 20, 2007 09:16 PM
Teresa
Siceramente espero que a minha abrupta intervenção de ontem?, não tenha inibido a normal expressão dos nossos colegas. Não era essa a intenção.
Limitei-me, ao transcrever aquela frase do regulamento, a manifestar o que senti na altura, precipitadamente, reconheço. Coisas do acordar e vir logo à Net acompanhar o primeiro cigarro do dia, ler em diagonal e escrever o que me vem "derrepentemente" à cabeça.
Não o deveria ter feito.
Afinal, qualquer dos contos é muito belo, e andamos aqui para dar espressão aos nossos sentimentos, numa de simplicidade e companheirismo, ainda que não conheça os nossos colegas e a Teresa.
Vamos alegrar isto, malta ... tá bem?
Uma boa noite para todos
Vítor
Publicado por: Minderico às setembro 20, 2007 09:40 PM
caraçs! então perdi?!! Olha que raio! e eu toda sastesfeita até já tinha enviado milhentos de mails a convidar para uma visita ao seu espaço para um copo de tinto e uns grãos torrados (não conhece?! e favas?!) e sai-me umas destas: então não eram PALAVRAS? eram CARACTERES? e nem imaginam(aliás antes de ler isto, a que ora respondo, havia convidado a menina Teresa para ler o que escrevi no meu Repensando e como poderá ver, dizia que me vi à rasca, é o termo, para encolher o raio do texto, digo até, do que me lembra, o que cortei. Tanto esforço, o contador do Word ao meu serviço e PUMBA, vem o pirata e con (r)ta-me.
mpurra-me o texto do pódium e coloca lá o JOTA! que venha ele que ao menos assim a gente conhece mais boa literatura. Menina e porque não publica, agora que se deu ao desfrute com este (rss) os textos com mais palavras do que permitia o concurso?!
beijos para a Teresa, para você Vermelho pirata, par o jota,o Minderico e mais um para o Sharke. E para o Katrapomga, eu mando dois, digníssimo vencedor!
Publicado por: mcorreia às setembro 20, 2007 09:55 PM
Bonita! mnina mcorreia, é quem belos beijos.
(Pra si também)
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 21, 2007 12:06 AM
Minderico - Nem pense em tal. A sua presença é muito querida e os comentários adequados. Há dias em que o pessoal tem mais que fazer ou está mais cansado destas andanças quando a vida impõe reais preocupações. Um beijo, "compagnon de route". :)
Mcorreia - minha querida: eu já tinha avisado que os meus neurónios são poucos, lerdos e coxos. Que esta prova de incompetência não a arrede daqui. A confusão entre caracteres e palavras foi profusa entre os autores. Beijo de parabéns, mui orgulhoso da sua participação alegre e humorada neste espaço.
Publicado por: Teresa C. às setembro 21, 2007 08:53 AM
Pois olhe, querida MCorreia, sem desprimor para ninguém e muito menos para todos os dignos vencedores, deixe-me dizer-lhe que, se eu fosse júri, era o seu conto que eu teria escolhido.
E não sei bem não! Mas acho que essa teria sido também a escolha de uma certa Tati que nos meteu neste imbróglio...
Publicado por: j às setembro 21, 2007 10:55 AM
(Em deficit neuroanal devo estar eu, Teresa!)
Bonita! mnina mcorreia, é quem belos beijos aqui deixa.
(Q'RIA EU DZÊR, ALI EM CIMA, à simpatia da dita mnina)
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 21, 2007 03:11 PM
Neuronal!
(caraças...)
desculp!
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 21, 2007 03:12 PM
Pirata-Vermelho - ca... ca... raças?!... Só isso?!... O primeiro termo é que conta, seja acto falhado ou mero lapsus linguae! :)
Publicado por: Teresa C. às setembro 21, 2007 05:41 PM
Nada disso!
Gralha.
Pura gralha de Gutenberg
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 21, 2007 08:20 PM
esta gente é batida! o que é sempre buédafixe! eheheh este pirata deve ser fresco...e muito excitado: você, homem, troca palavras, inventa-as...deturpa-as...olhe que ainda se mete em alhadas :)que isso de mais á menos á é cao que deu uvas...
Publicado por: mcorreia às setembro 21, 2007 08:29 PM
Olhe mnina,
em chão de vinha desmamada nem c'o cão d'ir
às uvas qu'isso é coisa que nunca dá nada,
Ainda se fosse d'ir aos figos... talvez o gato da d.sância qu'era gordo e não gateava.
E, además, d'alho nem s'lh'aguenta o cheiro, depois de mastigado; agora, fosse d'uma grand'alhada...
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 21, 2007 11:45 PM
(e ele a dar-lhe c'os déf'ces -como diz o blêza-)
agora, se fosse d'uma grand'alhada...
Digo, ali em cima, mnina.
Publicado por: -pirata-vermelho- às setembro 21, 2007 11:48 PM