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outubro 18, 2007

A HISTÓRIA DO FEIO

Jim Warren fine_theseeyes.jpg
Jim Warren

Do Feio reza a história. Desconheço se Savinien de Cyrano possuía a disformidade inspiradora da peça de Rostand. Factos são o Savinien ter acrescentado ao nome “de Bergerac” e estarem os seus despojos corpóreos sitos no Cemitério do Père-Lachaise.

“Pintor algum jamais desenhará
perfil semelhante ao de Bergerac;
mais bizarro, excessivo, extravagante,
grotesco, caricato e petulante!
Penacho no chapéu, capa e espada,
corajoso não perde uma estocada!
Fingindo um rabo de galo insolente
empina-se e enfrenta todos o Valente!
Exímio espadachim, consigo porta
uma crista esquisita, rubra, torta...
Um nariz! Mas que penca gigantesca,
feia, disforme, polichinelesca!
Todos que vêem um narigudo tal
pensam: Ah Meu Deus, que hipérbole nasal!
Não seria melhor tirá-lo? Engano!
Jamais o tira o intrépido Cyrano!”

Aristóteles distinguia o Belo e o seu oposto: o primeiro como um indicador de virtude, o Feio como o mal e o seu sinal. Os conceitos primários de hoje quase cópia daqueles. O Feio dominando aparições dum real feito de sombras e de medos. Associado ao cómico e ao obsceno. À dor. À doença. À fome. À guerra. À exclusão. "É considerado feio o rosto dos excluídos, o trabalhador rural, as mãos embrutecidas do operário. É preciso uma estética de libertação a partir dos oprimidos, que são a maioria da população que não se encaixa nos padrões de beleza", li por aí. E negamos o desagradável. Afirmamos, socialmente, não existirem pessoas feias, idiotas ou malvadas. Mas, não existindo o pouco inteligente o feio e o malvado, como pode haver o superdotado, o belo e o bondoso?

“Beauty is in the eye of the beholder”, lugar-comum que exclui o Feio - Feio, do ponto de vista de alguém, nada mais. Nas vanguardas do século XX surge o triunfo do Feio, também como contrapoder. A fealdade portuguesa pela mão do Almada, do Amadeo de Souza Cardoso, dos expressionistas Eloy, Pomar, Júlio Resende, dos surrealistas Dacosta, Cruzeiro Seixas, Nos percursos individuais de Júlio Pomar, Paula Rêgo, Bértholo, Batarda. Todos dando corpo a uma "bela fealdade" contemporânea.

Bernardo Pinto de Almeida escreveu: “O Feio é a irrupção do expressivo. Enquanto houver fealdade, há esperança e utopia.” Sejamos feios.


CAFÉ DA MANHÃ

De Umberto Eco, a “História do Feio” - edição da Difel (colecção Álbuns Ilustrados).

Publicado por Teresa C. às outubro 18, 2007 07:52 AM

Comentários

Tudo é relativo, querida Amiga.
"Quem o feio ama, bonito lhe parece".
Vê como o zé-povo tem sempre razão?
O resto são mais uma expressão de hipocrisia.
Espero que se sinta melhor.

Publicado por: j às outubro 18, 2007 09:41 AM

lembro-me de nas aulas de fotojornalismo se falar na estética do horror (acho que era assim). de como na fotografia, ao fotografar cenas de sofrimento, se apura uma estética que pode levar a considerar-se bela uma foto que retrata a morte de uma pessoa, alguém a passar fome, um corpo estropiado. um caso que é paradigmático é o de George Rodger, um dos fundadores da Magnum, que ao fotografar cadáveres no campo de concentração de Bergen-Belsen procurou fazer composições, mudando a posição de determinado corpo, a forma como um braço pendia, como um rosto ficava de frente, etc. esta acabou por ser uma experiência tão marcante que não mais fotografou a guerra.
o que é belo, o que é feio? o mais óbvio é dizer que belo é o que é agradável de ver e feio o que é desagradável. mas tal como o excesso de simetria e perfeição pode ser aborrecido e banal, o erro, a falha podem ser atraentes, sexys. e podem construir-se estéticas à volta do que uns considerariam feio, repugnante, reprovável. ainda há pouco tempo deparei-me com um vídeo de promoção de ideais nazis. e fiquei horrorizado. era uma compilação de actos violentos, de pessoas a serem espancadas, de assassinatos ou simulacros de assassinatos (o video parecia um pequeno filme, encenado, e não a captação de imagens reais). pelo meio, viam-se grandes planos dos agressores, exaltando a estética skinhead, imagens em câmara lenta mostravam os actos mais violentos em pormenor. os destinatários deste vídeo decerto se sentirão atraídos pela estética que o percorre.
ai... vou parar por aqui, perdoa-me Teresa, hoje só me estou a lembrar de coisas mórbidas.
abraço.

Publicado por: troblogdita às outubro 18, 2007 12:20 PM

Umberto.

Publicado por: D. às outubro 18, 2007 03:37 PM

Resta-nos sempre muito:

Il y a malgré vous quelque chose
Que j'emporte, et ce soir, quand j'entrerai chez Dieu,
Mon salut balaiera largement le seuil bleu,
Quelque chose que sans un pli, sans une tache,
J'emporte malgré vous,
et c'est...
Mon panache.

Publicado por: pornographo às outubro 18, 2007 05:15 PM

E nessa ditadura da beleza as mulheres têm sido bem mais castigadas. Ainda há algumas dezenas de anos se dizia, convictamente, "os homens não se querem bonitos", o que implicaria que tal característica seria necessária às mulheres, tendo os homens o poder e a liberdade de prescindir desse predicado. (Para além de "os homens querem-se feios e a cheirar a cavalo", frase tão reveladora de fantasias e medos que nem me atrevo a comentar!).

Enfim, vou confessar uma ingenuidade muito comum: para mim, a beleza exterior das pessoas está directamente relacionada com a capacidade de esboçarem sorrisos de ternura. Tão simples, não é? :)

Fiquei cheia de curiosidade em relação ao livro do Umberto Eco!

Publicado por: Alba às outubro 19, 2007 01:10 AM

J. - como representante de obediência a muitos dos adágios populares, não encontra melhor que eu. Nesse que citou também. E não estou melhor - por descuidos vários piorei e de que modo. Voltei ao choco, aos chás e, como sobremesa, antibiótico.

Troblogdita - Não fosse o horror social ou pessoal que todos experimentámos como contraporíamos os sentimentos que nos elevam? Assim fosse a humanidade capaz de emendar erros e perceber que de tantas assimetrias piores horrores no esperam.

D - Obrigada. Foi distracção que emendei logo.

Pornographo -

Vivre sans panache

C'est comme se trahir

C’est se faire du mal en gâche

Il faut en convenir !

C'est refuser le risque

Pour vivre petit bras

C'est en vérité je le crois

Sa liberté que l'on confisque

Vivre sans panache

C'est ne jamais oser

C'est les mots que l'on mâche

Quand on peut les cracher

Vivre sans panache

C'est comme attendre la mort

C'est vivre de remords

Se résigner à être lâche

Préférer prendre le maquis

Quitte à jouer les bravaches

Mais vivre sans panache...

Mon Dieu quel ennui !

Alba - O mesmo para mim. Há rosto feio quando a ternura transborda e a amizade é madrinha?

Publicado por: Teresa C. às outubro 21, 2007 06:04 PM

eu so muinto bonito

Publicado por: valdo às fevereiro 25, 2008 03:28 PM

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