« GAVETA DE INTIMIDADES | Entrada | LUVA NA MÃO DE UMA BINOCHE »

outubro 28, 2007

ABAIXO DO UMBIGO TRÊS DEDOS

h_sorayama014 copy.jpg
Sorayama

Não me foi concedida procuração do feminino. Nem me falta, porque a cada ser sua cabeça, seu corpo, sua lingerie. Seu fascínio. It’s all about this – feitiço. Para o meu prazer do princípio ao fim. Se é de cetim a pele, se do ocioso prescindo e cuido de manter contido, de veludo o desejo de me sentir Mulher a cada segundo dos milhares que fazem o dia, a escolha da lingerie é ritual precioso do amanhecer e de muitos entarderceres. Nenhuma, preta, branca, da cor da minha ilusão. E do que visto. Se ele vai gostar? Nem me pergunto. Gostará de ter na frente uma mulher solta, que sabe o que quer dar e receber e, por isso, é a mulher e a lingerie que ele ambiciona. Belas na invenção do momento. Uma e outra. Naquele sumptuoso silêncio da visão do instante único. Não fui a mesma ontem, não o serei amanhã. Captura o momento. Nunca deste haverá outro. E que venha e dispa e caia e cheire a almíscar ou a sândalo. Que fiquem as meias de liga. Sem biqueira para luzir o vermelho das unhas. E que, vestindo as pernas, subam no ar ou uma descaia para o lado. Das fronteiras mantendo alguma.

Incógnita aos olhos do vulgo, sei que o sutiã tem renda preta sobreposta a uma base cinza e violeta. Que me aconchega o peito e o gosto. Que casa com o triângulo inferior, não na importância, mas no sítio – abaixo do umbigo três dedos travessos. Preso ao outro por tiras que no quadril apertam com laços. Que ninguém vê durante o labor, ou nas compras da casa, ao conduzir ou enquanto caminho na rua. Mas sinto-os. Os laços que um gesto desatam. Meu? Who knows? Who knows what could happen no dia de uma mulher. E trauteio a música da Avril Lavigne - “Do what you do / Just keep on laughing / One thing's true / There's always a brand new day / I'm gonna live today like / it's my last day”.

Porque os enfeitiça a lingerie duma mulher. Por ser o resquício do impossível. O frémito do proibido. Pico de adrenalina que a psique comanda. O peso simbólico do que a lingerie (des)tapa. De nada valendo se não escorrer pitada de genuína e alegre malícia do olhar, dos gestos, da boca da mulher. Como mel sobre fatia de pão fresco.


CAFÉ DA MANHÃ

Com este texto participo nas reflexões sobre “lingerie e os seus mistérios” que ontem animou este espaço. Aos queridos comentadores Alba, Ela, Fallorca, Justo, Minderico e Pirata-Vermelho agradeço o privilégio de, a partir do quase nada que forneço, construírem um delicioso espaço de inteligência e graça.

Há quatro anos que diariamente acompanho o Nuno Guerreiro. Pelo muito que com ele tenho aprendido o meu obrigada. E parabéns. Muitos. Merecidos.

Publicado por Teresa C. às outubro 28, 2007 08:58 AM

Comentários

«...abaixo do umbigo três dedos travessos (...) De nada valendo se não escorrer pitada de genuína e alegre malícia do olhar, dos gestos, da boca da mulher. Como mel sobre fatia de pão fresco» Abençoada hora de Inverno que me serviu o pequeno-almoço mais cedo... oh se cedo, e sem reservas. Fiufiufiu...

Publicado por: fallorca às outubro 28, 2007 11:08 AM

Sedução é esta arte de descobrir esta mulher que se esconde desta forma, as suas formas, em laços, sedas e cetins. Cada mulher é um verso e um universo único. Cada qual com seus segredos e suas nuances. Assim é a sedução que é feita por esta mistura de sonho e humano, vestida com a lingerie de D'us.
Desvendar seus mistérios até vesti-la com a pele é tarefa suave e compensadora. Sabe-se que a cada amanhecer é um renascer desta mulher. Abençoado aquele que percebe qual, dentre tantas, amanheceu com ele para que possa perceber com qual irá adormecer logo mais.
Tolo o que acha que seduz ao ser seduzido.
Cada mulher é como, por encanto, um conto
Tati, ler "este pouco" que nos dá, é como respirar um "pouco" de ar puro. Como é "pouco" o raro encontrar de rosas azuis.
Boa semana para todos

Publicado por: justo às outubro 28, 2007 01:06 PM

Fronteira do tangível, última cedência material, destapar de toda a excitada curiosidade, eis o que o homem vê.
E desajeitado será (e quantas vezes é...) senão intui o sentimento de corpo e de feminilidade que levou a vestir as diminutas mas preciosas peças.

Beijos contemplativos

Publicado por: apenas um gajo e nada mais às outubro 28, 2007 06:48 PM

Plagiando (quase) o amigo Fallorca ...

"De nada valendo se não escorrer pitada de genuína e alegre malícia do olhar, dos gestos, da boca da mulher"

Para a Teresa C., antes de mais ... obrigado por ter tentado explicar ;-)

Quanto à frase entre aspas, nunca estive tão de acordo com a Têtê ... ai ai, ou, como diria o Fallorca, fiu, fiu , fiu "n" vezes ;-)

Minderico (cota em decadência)

Publicado por: Minderico às outubro 28, 2007 07:51 PM

Cota em decadência? oh, oh, oh... nós somos como o vinho do Porto (eu pelo menos sou), convém é servir com delicadeza por causa das borras... ehehehe

Publicado por: fallorca às outubro 29, 2007 02:14 PM

Cá está! O habitual § d'obnubilação - o último; desta vez eloquente, diga-se. O 'nenhuma', mais acima, diz mais não deixando muito mais que se diga; que se dissesse... (do acessório, que não mereço!)

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 29, 2007 04:41 PM

(... e pode ser três ou mais adiante. Deixe-se de rigores d'inferno)

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 29, 2007 04:44 PM

Fallorca - e há lá coisa melhor que pão fresco, morno como eu gosto, a escorrer um prazer que o acame?

Justo - que prazer encontrar um homem que sabe dizer em palavras o que é amar a mulher que o acompanha... Como o Fallorca aqui há uns tempos... E o Minderico quando falou da família... Mas estes meus comentadores como maridos, amantes, companheiros, o que seja, onde escondem os defeitos?

Apenas um Gajo e Nada Mais - e sabe que essa distracção do endereço e da infinita ilusão que a mulher estende aos olhos do homem, quantas vezes termina o ainda-agora-iniciado ou dá é o elemento em falta de coragem para acabar um (des)amor.

Beijos igualmente contemplativos ;)

Minderico - Cota? Onde, onde, onde????? Por favor, leia a resposta ao Justo e vejo o grupo de excelência em que o incluo

Fallorca - mas o menino ainda é uma criança e já com linguajar de «teen? empertigado!... :) Leia, leia lá para cima qualquer coisa assim: "Como o Fallorca aqui há uns tempos..."

Pirata-Vermelho - e lá me abandonei a mais outra gargalhada. Que dom tem!

Publicado por: Teresa C. às outubro 29, 2007 07:48 PM

Tati, quanto aos demais citados, nada sei. De mim só sei os defeitos. Nunca consigo ver qualquer qualidade que não seja as mesmas de todos os humanos. Choro, rio, sofro, minto, tenho medo, amo, odeio, enfim erro. Isto é de D'us, o que somos. Ao menos me vejo sempre um ser só feito de defeitos. E por isto sempre me encaixo na classificação: Humano.
Beijos.

Publicado por: justo às outubro 29, 2007 09:51 PM

Por isso gosto tanto de o ler, Justo.

Publicado por: Teresa C. às outubro 30, 2007 04:37 PM

Tati, a experiência permite-me dizer (pela parte que me toca) que só a compreensão e aceitação dos recíprocos defeitos anula o "defeito" de se estar sempre a apontar defeitos a com quem (con)vivemos.
Vá, diga lá se esta não me correu bem, vá diga, se tem coragem... fiufiufiu

Publicado por: fallorca às outubro 31, 2007 02:58 PM

Comente




Recordar-me?